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Surdez ou deficiência auditiva: afinal, qual é o certo?

Mas afinal, qual é o certo? Surdo com S maiúsculo, surdo, deficiente auditivo ou pessoa com deficiência auditiva? Você já deve ter lido por aí que surdo é quem fala Libras, ou que surdo é só quem tem surdez “total” e de nascença, e que o resto é deficiente auditivo. São muitos termos, classificações e muitas polêmicas. Vamos então refletir sobre esse assunto, lendo sobre vários pontos de vista?

Começando pelo dicionário, surdo é: 

 

aquele que não ouve ou ouve mal, ou que perdeu o sentido da audição; mouco.”

 

 Você notou que o significado de surdo inclui tanto quem ouve pouco, como quem não ouve nada?

 

E o significado de surdez? Também pelo o dicionário: 

 

Falta ou perda absoluta ou diminuição considerável do sentido da audição.”

Viram? Inclui a falta, a perda absoluta, ou diminuição considerável da audição, tudo isso é surdez! 

Mas se você é do tipo “ver pra crer”, então vamos à legislação. Uma Pessoa Com Deficiência (PCD), ao se enquadrar nos parâmetros legais de surdez, obviamente é porque tem: deficiência auditiva. Ou seja, se encontram nesse grupo os surdos oralizados (que falam o português), sinalizados (que falam Libras), bilíngues (Português e Libras), com variados graus de surdez…Todos no mesmo pacote: pessoas com deficiência auditiva.

Nas leis mais antigas, utilizava-se “surdos ou pessoas com deficiência auditiva”, assim, passava a impressão de separação em dois grupos. Já nas leis mais recentes, por exemplo, a Lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão, alinhada com os conceitos internacionais), usa-se pessoa com deficiência auditiva, para todos os surdos, falem Libras ou não. Segundo o Ministério da Saúde (2017), surdez é a impossibilidade ou dificuldade de ouvir. Notou que oficialmente, não encontramos nada que justifique diferença entre os termos? 

Por último, na área médica, também é a mesma coisa, surdez ou deficiência auditiva, afinal, para a medicina, deficiência significa insuficiência ou ausência de funcionamento de um órgão.

Mas então qual é o argumento para essa divisão? 

Para ouvir o outro lado da história, busquei informações diversas: em site de um instituto de educação especial, de uma rede de lojas de aparelhos auditivos, e outros portais diversos sobre Libras e assuntos semelhantes. E acontece que encontrei várias classificações, algumas que até se contradizem! Um diz que deficiência auditiva é a perda auditiva leve e moderada que surdez é a perda auditiva severa ou profunda.

Outro alega que surdez é a perda completa da capacidade de ouvir, mesmo que em uma orelha só, ou nas duas, e que deficiência auditiva é a diminuição parcial da capacidade de escutar. E também li que surdo é só quem participa da “comunidade surda” (que fala Libras), e o restante é deficiente auditivo, não importa o quanto cada um ouve. E até que os surdos são os que tem surdez profunda nos dois ouvidos e que todos esses falam só por sinais (essa é de chorar, rsrsrs)…

E para expandir a pesquisa, fui procurar: será que essa divisão existe só no Brasil? Li sites gringos, tanto blogs de surdos que falam línguas de sinais como sites de artigos médicos, e a conclusão é: assim como aqui, antigamente também acreditava-se mais nessa segregação, mas hoje, no exterior, tanto faz na prática, ambos são aceitos!

E claro que, assim como no Brasil, também tem aqueles que preferem uma nomenclatura específica, e até brigam para usar um dos termos só pra eles e criar comunidades, que ao meu ver, fazem o contrário de incluir: afinal, quem não se encaixa no padrão do grupo é excluído. E inclusão é onde todos participam, e não onde se reúnem somente iguais!

Vamos ser racionais?

Agora, raciocine comigo: tem pessoas com surdez leve, moderada, com ou sem uso de AASI (aparelho auditivo), e que oralizam normalmente; surdez severa, onde há oralizados e sinalizados, com AASI, IC (implante coclear) ou PAAO (prótese auditiva ancorada no osso); também a surdez profunda, onde também temos oralizados e sinalizados, com ou sem IC ou AASI ou PAAO, ou uma combinação deles.

Temos os surdos unilaterais com surdez moderada, unilaterais com surdez severa, profunda, com o outro ouvido normal ou com surdez leve, oralizados, ou não, com AASI, IC, PAAO…Ufa, respira! Adicione agora a variável bilíngue também…Ah, e pode ser que a pessoa já nasceu com a surdez, adquiriu antes de aprender a falar ou depois…Não dá um nó na mente com tantas possibilidades? E sério que tentam colocar apenas dois rótulos? Não faz sentido. 

Ou seja, não consegui encontrar uma só resposta convicta de quem afirma existir essa divisão entre surdos e deficientes auditivos, pois é um aspecto cultural, e a cultura varia muito com o tempo, lugar e pessoas. Além disso, como a surdez era uma deficiência que dificultava ainda mais a comunicação quando não havia tecnologias para ouvir e oralização difundida, as pessoas que desenvolviam alguma língua gestual criavam laços entre si, tendo menos contato com ouvintes. Por consequência, em uma comunidade fechada, com pouca ou nenhuma troca de informações com a maioria mundo afora, conceitos se fortaleceram e se enraizaram mais facilmente através dos anos.

Que tal atualizar o repertório?

Mas em um mundo conectado e com tantos recursos de comunicação como hoje, não há motivos para ninguém querer viver em uma bolha, não é? Estamos vivenciando uma maior aproximação entre surdos sinalizados e surdos oralizados, o que nos dá mais força na luta por acessibilidade para todos. Mas ainda há muito a evoluir, e essas briguinhas de surdo ou deficiente auditivo em nada ajudam. 

Ainda assim existem pessoas que recusam a palavra deficiência, pois não gostam e só utilizam o termo “surdo”. Sinto dizer, mas basta uma audiometria, e estará comprovada a deficiência auditiva conforme a legislação. Que sentido faz ter tanta teimosia ao afirmar que não tem deficiência, mas na hora dos direitos da pessoa com deficiência, utilizá-los e defendê-los com unhas e dentes? Alguém me explica?

A pessoa utiliza gratuidades, filas preferenciais, aposentadoria com tempo reduzido, cotas em concursos, meia entrada em eventos e exige acessibilidade…Mas insiste que não tem deficiência! Oi? Parece piada, mas acontece. E tem quem tem pavor da palavra surdo. Compreendem como querer separar as palavras e as pessoas só causa mais contradições? 

E em diversos lugares nos deparamos com tentativas de justificar uma separação, surdos pra cá, deficientes auditivos pra lá, até brigas em redes sociais, como se houvessem grupos superiores a outros, como se quem ainda escuta um pouco fosse um “falso surdo”, falam até em “traição” por parte de quem usa próteses auditivas. (Alô? Século XXI chamando!) 

E existe quem não se importe muito com os termos e entende que a surdez é um mundo de diversidade. Então, mesmo se fosse para dividir em grupos: com certeza não seriam somente dois, seriam muitos, afinal, a surdez é como uma impressão digital. 

Respeito, sempre!

Agora, é claro que não vamos esquecer do respeito. Você prefere ser chamado de surdo, porque não se sente bem com a palavra deficiente? Ok, ao conversar com você, posso tentar evitar esse termo. Prefere deficiente auditivo? Sem problemas, tentarei lembrar disso. Mas entenda que não há nenhuma diferença oficialmente.

A palavra deficiência ou surdo só é um bicho de sete cabeças se você permitir, e você só vai se aborrecer à toa. Nada mudará o fato de que sendo surdo, você é uma pessoa com deficiência, e aceitar isso, perder o medo da palavra pode ser como tirar um grande peso das suas costas. Como já diz o ditado, aceita que dói menos! (De verdade!).

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Excelente artigo!! Quando me perguntam, sempre cito o dicionário para esclarecer que surdo e deficiente auditivo é a mesma coisa… E que mesmo usando aparelho auditivo ou implante coclear, a pessoa jamais deixará de ser surda – ou deficiente auditivo.

  • Verdade! Atualmente me intituto Surda que ouve, mas teve um tempo que usava deficiente auditivo, mas a nomenclatura não muda o fato de eu não ouvir bem, de depender de aparelhos auditivos, etc.
    Sendo assim, o que deve predominar é o respeito! Essa briga de nomenclaturas nada altera nossa vida.

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