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Deficiência Auditiva / Psicologia

Medo e surdez em tempos de coronavírus

O medo é uma emoção universal e fundamental à nossa sobrevivência. Ele é um sinal de alerta e aparece quando a nossa sobrevivência esta sob ameaça. Apesar de sua importância como fator de proteção à nossa própria integridade, o medo é desconfortável e incômodo. 

A negação e o pânico

A negação funciona como um mecanismo de defesa que nos impede de entrar em contato com o sofrimento.  No entanto, negar o medo e se focar apenas em emoções positivas é inconsequente, porque nos impede de acionar  nossos recursos para lidar com situações que exigem uma ação na vida.

A negação nos paralisa, ela impede que tomemos as atitudes necessárias para continuar em frente e enfrentar os desafios que virão. 

O oposto da negação é o pânico, quando o medo se torna desproporcional ao evento e nos imobiliza. O medo deixa de ser um sinal alerta para se tornar uma sensação constante que mina a nossa coragem de ir adiante. Precisamos nos proteger desse sentimento, criando um filtro interno que nos possibilite colocar energia nas nossas ações perante a vida.

O medo é inerente à surdez

Temos que conviver com a falta ou diminuição da audição, sentido diretamente relacionado à nossa capacidade de apreender o mundo e nos relacionarmos. Vivemos diariamente em contato com diversos medos: de perder alguma informação importante, de ser incapaz de realizar certas atividades, de ser discriminado ou desvalorizado em nossos potenciais, de não ser acolhido, de não ter acessibilidade, de não conseguir se comunicar e se relacionar, de não conseguir emprego, etc…

Crises são momentos decisivos, é quando somos testados em nossos limites e potenciais. Nesse sentido, enquanto surdos que ouvem, conhecemos o sentido dessa palavra ao pé da letra. A nossa vida é um teste constante da nossa capacidade de adaptação e superação. Faz parte da nossa condição desenvolver resiliência, a capacidade de superar as adversidade e de ser por elas fortalecidos. A vida nos ensina que a importância de mudar e se renovar constantemente. 

Freqüentemente um momento de crise é também um período de grandes descobertas, quando não conseguimos manter o antigo modo de fazer as coisas e entramos numa curva acentuada de aprendizado e crescimento. Além disso, é nas crises que a nossa empatia e solidariedade são mais intensamente ativadas. Saber que temos um grupo de pertencimento e que temos com quem contar nos fortalece. 

O coronavírus

O coronavírus igualou a humanidade na condição de vulnerabilidade. É hora de encontrarmos a nossa força, de nos apropriarmos dos recursos internos que já foram desenvolvidos pelos desafios da nossa própria condição. O imponderável não é novidade na nossa história, já estamos acostumados a traçar uma nova rota quando o caminho conhecido se mostra inviável.

Já aprendemos a tirar proveito dos inevitáveis momentos de isolamento e silêncio para nos conectarmos com nós mesmos. A nossa experiência de força, coragem e solidariedade são fundamentais nesse momento desafiador em que precisamos nos isolar fisicamente para nos protegermos. Vamos usar a tecnologia que nos permite sermos surdos que ouvem a nosso favor para nos conectarmos uns aos outros. 

Este é o momento de seguirmos em frente com coragem e inspirarmos o mundo a se transformar num lugar melhor.

Post escrito pela psicóloga Alice Mathiason Lewi que atende em São Paulo e também é usuária de aparelhos auditivos (seu email de contato é alewi@uol.com.br )

 

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Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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