Crônicas da Surdez Histórias dos Leitores

Surdez pós lingual em adultos e negação

*depoimento da leitora M.

Paula, leio seu outro blog há algum tempo, mas só hoje descobri o Crônicas, movida pela curiosidade que me deu quando descobri que moramos no mesmo Estado.

Meu pai sofre muito com o zumbido relacionado à perda auditiva, mas se recusa a fazer tratamento porque não aceita o problema que tem. Isso o atrapalha no trabalho (ele dirige uma empresa, é membro de sindicatos e tem uma vida profissional que exige muito do contato com outras pessoas), na hora de conviver com os amigos e  até mesmo com a família (muitas vezes ele nos deixa falando sozinhas ou não atende quando chamamos por ele, fato que deixa eu e minha mãe chateadas e várias vezes irritadas). Atividades como perceber que o telefone está tocando, por exemplo, já são um exercício de concentração para ele.

Lendo relatos de pessoas que sofrem com esse mesmo problema, fiquei realmente preocupada com a maneira que ele reage (negação e agressividade); não sabia que isso fazia tão mal para a pessoa. Sempre soube que a surdez causa esse tipo de comportamento, mas nunca imaginei que se portar dessa forma fosse uma verdadeira tortura.

Achava, na minha ignorância, que se fizéssemos pequenas brincadeiras ou aparentássemos impaciência ele procuraria ajuda ‘por bem ou por mal’. Agora eu vejo o quanto eu o afastei do meu objetivo e de como eu deixei de apoiá-lo, sendo que foi ele quem me ensinou o valor que tem ser apoiado pelas pessoas que amamos.

A partir do que li (e vou continuar lendo) aqui, comecei, ainda que pouco, a entender como é fundamental o apoio e a motivação da família, dos amigos. Vi são os pequenos atos que os outros têm no dia-a-dia que muitas vezes inibem o surdo a buscar se ajudar. Com isso, vou tentar, aos poucos, ajudar essa pessoa que muito já me ajudou.

Parabéns pela iniciativa incrível! É ótimo saber que, assim como eu vou poder ajudar alguém agora, outras pessoas têm a oportunidade de fazer o mesmo através dela.”

Minha resposta

Eu comecei a perder audição quando era criança, ou seja, isso sempre fez parte da minha vida. As pessoas que conheci e com as quais falei que perderam a audição já adultas parecem levar um choque maior. E também parecem levar muito mais tempo para aceitar o problema. A surdez está intrinsecamente ligada à parte emocional do ser humano e mexe demais com a auto-estima. Você perde a autonomia de várias formas: não escuta o telefone, não escuta o despertador, não escuta o interfone, não consegue conversar em locais mal iluminados, não compreende a voz das pessoas, vai ao teatro e não entende o que está sendo dito, vai ao cinema e se o filme for dublado, melou…Se bobear, você se fecha no seu próprio mundo, não deixa ninguém se aproximar e afasta a todas as pessoas. E porque? Medo. É uma situação nova. Você fica mais preocupado com a possibilidade de passar vergonha em situações sociais do que  descobrir qual é a gravidade do seu caso e o que pode ser feito para melhorar a sua qualidade de vida.

Quando mais velhos ficamos, mais teimosos nos tornamos. Eu, que não escuto bem há mais de 20 anos, não consigo imaginar como seria ter ouvido perfeitamente a vida inteira e, de repente, passar a escutar mal. Penso que seja como uma morte. Uma parte da pessoa morre, e ela precisa de tempo para digerir o que aconteceu para poder voltar a tocar o barco.

Querida M., jamais subestime o poder de uma conversa sincera e de mente aberta, especialmente quando se trata das pessoas que mais amamos. As pessoas mais difíceis de ajudar são aquelas que mais precisam de ajuda.

10 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Fazia tempo que nao aparecia por aqui, mas sempre que apareço levo um “tapa” sem maos. A ultima frase que você escreveu… nossa! Acho que eu precisava ler isso hoje, porque me tocou profundamente.

    Eu sou fonoaudiologa e trabalho com surdos. Faço mestrado na area de “Linguagem e surdez”. Sei bem o quando é dificil a aceitaçao da surdez (pelo “surdo” ou pelas pessoas que convivem).

    Trabalhava com a mesma coisa no Brasil e vejo que aqui na França, onde moro atualmente, essas dificuldades sao menos evidenciadas. A cidade onde eu moro (Grenoble), por exemplo, se preocupa muito com a inserçao de pessoas com quaisquer tipos de necessidades, sejam motoras, neurologicas, todos os tipos. Até os ônibus sao adaptados para isso, existem plaquinhas luminosas que mostram o nome da proxima parada. Ja imaginou isso no Brasil? Pra quem conhece a cidade, so olhando as paradas conseguem identificar onde é o ponto que se quer chegar, mas e se você esta numa cidade nova?! Entre muitas outras coisas…

    O que eu quero dizer é que se nos vivêssemos num Pais onde as dificuldades tentassem ser amenizadas, talvez tudo fosse mais facil. Infelizmente nao é bem assim e nos ainda podemos contar com o preconceito que existe por parte dos ouvintes, nao é verdade?! Muita falta de informaçao…, muita falta de inserçao.

    Bem menina, parabéns pelo seu blog, parabéns pela iniciativa, parabéns por ser surda e ser uma pessoa comum!

    Beijo grande procê!

  • Sim dê apoio, mto apoio e amor.Ele é bem ativo, o que o deve afligir em perder tdo isso, e principalmente ficar dependente.Mas ele indo ao médico talvez um aparelho já o ajude mto.
    E sim é como uma morte, a pessoa vive um “luto”, querendo que volte como era antes.Qdo vc usou seus 5 sentidos a vida tda e perde algum no meio do caminho precisa de mta força p/ continuar….
    Que vcs tenham mta paciência, e sabedoria para lidar com a situação, ele por dentro sofre.Mas se procurar ajuda, o amor da família o deixará mais seguro!
    Bjos

  • Ah, tbm não conseguiria imaginar o quanto seria difícil perder a audição na fase adulta, deve ser extremamente complicado, eu sou surda de nascença.
    Mas nunca se deve deixar de insistir numa boa conversa, sempre ajuda, mesmo que leva um bom tempo.
    Espero que o pai da leitora M. não demore muito a aceitar a situação, para que possa buscar melhores formas para conviver de maneira pacífica com a surdez.
    Bjos e boa sorte!

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