Site icon Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Surdos Oralizados: nós existimos, muito prazer!!

Foto: Shutterstock

Quem nunca viveu uma situação em que precisou explicar para alguém que era surdo oralizado e se viu diante de um par de olhos arregalados e uma expressão de ponto de interrogação? 🙂

Numa discussão num grupo de fonoaudiologia no Facebook, uma fonoaudióloga me deixou o seguinte comentário: “Achei muito bom, pois em um comentário – infeliz ao meu ver – uma professora de Libras disse que surdo que é surdo, não necessita de prótese, apenas de Libras! Affff!

Fanatismo, não!

Tenho calafrios quando me deparo com os fanáticos da língua de sinais e seus simpatizantes. Professores não devem seguir algum código de ética? Essa professora citada pela fono certamente não sabe o que é isso. É uma pena! Os fanáticos prestam um desserviço à sociedade, pois tentam menosprezar pessoas que têm a mesma deficiência que eles, mas que se comunicam de outro modo.

Importante salientar a diferença entre o fanático e o entusiasta: o fanático se considera um ser superior detentor de toda a razão na face da Terra; já o entusiasta apenas vibra com as suas escolhas de vida sem tentar impô-las a ninguém.

Pode vir o Papa me dizer que sou menos surda que um surdo sinalizado, que quero ver ele provar essa barbaridade. Querer diminuir alguém que não ouve mas que quer ouvir e que coloca a tecnologia a serviço da sua qualidade de vida é muita pobreza de espírito. É muita falta de intelecto. E uma tremenda falta de respeito.

Respeito, minha gente!

É a chave da questão. Fala-se tanto de diferenças, mas na hora de respeitar aquele que tem a mesma deficiência mas se comunica de outra forma, o respeito desaparece. Surdo que é surdo…não escuta, ou escuta mal. E se comunica como bem entender.

Fico chateada de pensar na quantidade de crianças surdas que jamais terão liberdade de escolha e de pensamento por terem educadores assim, que as fazem acreditar que devem servir à Língua de Sinais acima de tudo. Eu não faço da minha oralidade uma CAUSA e não tenho tempo nem paciência com quem faz da Língua de Sinais uma causa. Cada um na sua, pelo amor de Deus!!! Pregar a filosofia da surdez como uma DIFERENÇA e não respeitar os seus iguais que são diferentes no modo de se comunicar não tem cabimento.

Eu não estou interessada em ideologias, mas sim em me comunicar

E o modo que eu escolhi para isso não é melhor ou pior do que o modo que um surdo sinalizado escolheu. Vamos parar com essa atitude vergonhosa de disseminar mentiras para a opinião pública. Nem que eu precise repetir um bilhão de vezes: existe diversidade dentro da surdez, existem surdos oralizados E sinalizados, existem aparelhos auditivos e implantes cocleares, existe a opção de ouvir!!

Surdos Oralizados

São indivíduos que lêem lábios, que falam (ou não), que dominam o português escrito (e até outras línguas) e que usam (ou não) a tecnologia para voltar a ouvir. Eu, por exemplo, tenho surdez bilateral profunda, usei aparelhos auditivos por muitos anos e hoje uso dois implantes cocleares, com os quais escuto tudo o que escutava antes de deixar de ouvir. E eu não deixei e nunca vou deixar de ser surda, pois não existe cura para a surdez. Não utilizo Língua de Sinais porque nunca precisei dela. Estudei em escola normal a vida inteira e fiz faculdade graças ao fato de ser oralizada. E até hoje me vejo com falta de acessibilidade nas mais variadas situações porque, no Brasil, as pessoas insistem, em pleno 2017, a ligar surdez com a obrigatoriedade da pessoa saber Libras ou de não falar, não ouvir e não conseguir se comunicar…

Generalizações baratas não são bem-vindas!! Todo o meu respeito por quem exalta as diferenças, e todo o meu desprezo por quem finge que elas não existem.

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