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A usuária de implante coclear brasileira que participou da cerimônia de abertura dos jogos paralímpicos

‘Meu nome é Helena Alc. Ontem participei da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos e recebi diversas mensagens de apoio e congratulações. Entre elas, recebi uma da Paula Pfeifer que me convidou para descrever minha experiência na cerimônia. E, claro, aceitei na hora. Quando estava trabalhando na Olimpíada, como voluntaria na área de canoagem, vi uma postagem no grupo dos voluntários no Facebook que estavam selecionando pessoas para participarem da cerimônia de abertura dos jogos Paralímpicos. Fiquei muito interessada e enviei um e-mail para me inscrever como candidata a uma vaga, mas não criei muitas expectativas pois muita gente estava se inscrevendo.

Passaram-se dois dias, recebi um e-mail dizendo que fui pré-selecionada. Fiquei muito feliz, mas não era certo ainda, eu tinha que esperar para ser chamada. A partir daí criei expectativas e me imaginei na cerimônia, dançando feliz. Estava esperando muito por uma resposta positiva e ao checar no celular, fiquei paralisada e gritei. Tinha chegado o aviso que eu tinha sido selecionada para participar na abertura no grupo PLB- Placards Bearer, que seria composto por 170 mulheres onde cada uma teria a função de representar um pais. Fiquei tão animada que corri logo para contar a meus pais!

No primeiro dia de ensaio, eu estava animada porem ansiosa. Não conhecia ninguém e estava com receio de ficar sozinha, mas felizmente encontrei uma colega da faculdade que me acompanhou em todos os ensaios. O primeiro dia sempre é novo, difícil né? Todas as participantes tinham que usar um rádio com fone de ouvido para escutar as instruções que a coreógrafa mandava, e eu fui a única que não usei o rádio. E com isso fiquei mais nervosa ainda, perdida e até envergonhada pois todas estavam ouvindo, menos eu. Confesso que estava prestes a desistir quando o ensaio terminou porque as seguintes perguntas me vieram à cabeça: “E agora? ”, “Você não vai ter como escutar as instruções e assim estará perdida? ” “Melhor desistir porque será difícil ficar sem ouvir” entre outras. Quando estava indo para o metrô, encontrei um rapaz implantado e começamos a conversar sobre o evento. Então ele me deu um conselho: experimente usar o cabo de áudio que é um acessório que eu nunca tinha usado. Ele me disse que o cabo iria me auxiliar muito.

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Chegando em casa comentei com meus pais sobre a situação e sobre o cabo. Felizmente minha mãe achou o cabo especifico para meu aparelho e com isso pensei em dar uma segunda chance para o ensaio. Bem, tentar não custa nada certo? No segundo ensaio, eu conectei o cabo no implante pouco antes do início e estava rezando para que escutasse bem. E de repente ouço uma voz que era da coreógrafa que estava a metros distante de mim…neste momento, eu sorri bastante porque podia escutar todas as instruções. O cabo de áudio me trouxe segurança e continuei a frequentar os ensaios agora participando integralmente pois podia ouvir bem as instruções.

No dia do ensaio geral que era com figurino e platéia, eu estava ansiosa para saber como seria o penteado. Durante a maquiagem, descobri que seria um coque alto e isto fez com que eu  ficasse nervosa porque o Implante iria ficar à mostra e não saberia como as pessoas iriam reagir. Sabe coisa de adolescente? Eu sempre escondi o aparelho atrás do cabelo para que ninguém me olhasse torto. Durante os ensaios fiz novas amigas e elas me auxiliaram para colocar o rádio atrás da roupa…preciso parar de pensar demais, não é mesmo? Por incrível que pareça ninguém sabia que eu usava implante, só souberam quando estava com o IC a mostra e tudo seguiu normal.

Quando chegou o grande dia, eu estava relaxada e animada para poder representar o pais da Georgia e seus atletas paralímpicos. Parecia que estava sonhando, mas era realidade. Um sonho realizado! Na hora que fui chamada para a apresentação tremi por dentro e segui com o coração na garganta. Olhar as pessoas aplaudindo, elogiando e saber que meus pais estavam na plateia me assistindo, foi um momento único, incrível e emocionante! E se eu desistisse dos ensaios? E se não optasse pelo cabo de áudio? Nada disso teria ocorrido. Nunca desista de tentar fazer algo, barre os pensamentos negativos e encare-os com orgulho!

E obrigada a todos vocês, meus amigos e principalmente aos meus pais que me apoiaram sempre, as vezes me dando puxões de orelhas, mas sempre me incentivando a continuar e não esmorecer nunca. A experiência foi mais valiosa e gratificante pois eu estava de alguma forma participando do maior evento esportivo do mundo que reúne pessoas com deficiências. Mas todos os atletas que estavam lá já eram vencedores, mesmo antes de iniciarem os jogos, pelo simples fato de terem chegado até lá o que certamente conseguiram com muito esforço e tendo que enfrentar muitos medos, hesitações, desanimo, mas nunca desistiram e por isso tinham chegado até aquele momento sublime. Mais ainda foi perceber que para eles aquela cerimônia era por um lado uma conquista, mas por outro era também mais uma oportunidade de continuarem lutando e disputando uma nova possibilidade que era a de se tornarem medalhistas e campeões ou seja o desafio tornou – se para eles uma grande motivação. Foi uma experiência fantástica de vida com a qual me realizei e aprendi muito. É esse sentimento maravilhoso que quero compartilhar com todos. Eu aprendi que não somos deficientes mas temos apenas que nos adaptar a certas condições e em relação a esse aspecto somos todos iguais independentemente das condições que temos que enfrentar.

Beijos sonoros, Helena”

60 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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