Ícone do site Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Vergonha da própria deficiência?

Falar abertamente sobre deficiência auditiva é tão natural para mim que chego a estranhar quando alguém me cumprimenta por ter essa ‘coragem’. Depois de algum tempo escrevendo aqui no Crônicas, posso dizer que há uma coisa que me deixa MUITO triste: a quantidade de gente que morre de vergonha da própria deficiência auditiva. Eu sei sei muito bem que cada um de nós tem o seu próprio tempo para superar essa fase. Já passei por isso. Sei o quanto os sentimentos são confusos e o quanto é difícil de aceitar de verdade esse fato.

Somos privados do sentido que controla uma boa parte da comunicação, e por isso mesmo penso que falar sobre a nossa deficiência é algo crucial na formação do nosso caráter – não apenas como ‘deficientes’, mas especialmente como seres humanos. Temos a obrigação moral (por nós e pelas gerações futuras) de ser disseminadores de informação. E como fazer isso sentindo vergonha de si mesmo? Impossível.

Crianças: elas só vão sentir vergonha se aprenderem em casa que devem se sentir mal por isso. Acho crucial que os pais falem sobre o assunto com os seus filhos  sem pudores, preparando-os para enfrentar as perguntas e os olhares alheios. É uma pena que nem todos os pais de crianças ‘normais’ ensinem a elas que as diferenças existem e devem ser respeitadas, e isso só contribui para o bullying que acontece nas escolas. Super-proteger uma criança surda só a torna despreparada para lidar com o mundo real – fora da segurança do lar as coisas não só podem ser como são diferentes. Assim como existem adultos cruéis, existem crianças ainda mais cruéis que eles. Nunca esqueço de uma amiga que me contou que, num vôo dentro dos Estados Unidos, havia uma garotinha surda usando aparelhos auditivos sentada ao seu lado. As duas engataram um papo e minha amiga ficou maravilhada ao perceber o orgulho que a garotinha sentia dos seus aparelhos! Ela contou até que podia ‘vesti-los’ com a cor que quisesse, e escolhia a roupa que ia vestir no dia só depois de decidir que cor colocaria nos AASI. Olha só que fofa!! Com certeza que foram os seus pais que a ensinaram a ter orgulho de si. Não consigo aceitar a idéia de pais que tentam esconder a todo custo a deficiência auditiva do filho. Penso que isso é um ato cruel. Uma violência.

Adolescentes: essa fase da vida é complicada por si só. Na adolescência, as interações sociais se intensificam, e quem não escuta tem duas opções: ou se retrai (e assim corre o risco de entrar em depressão ou ser do tipo anti-social) ou se expande (não deixando que a frustração de não ouvir o afaste das pessoas).

Adultos: que tipo de mensagem um adulto surdo passa para seus filhos ao sentir vergonha de não ouvir? Ao se trancar em casa por medo de ser ridicularizado? Pensem comigo: ser adulto é saber se defender quando necessário. É sentir orgulho das suas lutas e conquistas diárias. A surdez está fora do nosso controle e não é um defeito de caráter.

A quantidade de mensagens que recebo pedindo ‘dicas de como esconder a surdez do namorado‘, ‘dicas de como esconder os aparelhos auditivos‘, ‘dicas de o que fazer para que as pessoas não notem que eu não escuto‘ e afins não tá no gibi. Eu jamais escreveria posts sobre isso, até porque meu lema é: ESCANCARE! Não há como disfarçar o indisfarçável. Perder tempo e energia com isso é absolutamente patético.

Sentir vergonha é sentir medo. Medo de ser ridicularizado, medo de não conseguir se comunicar. Medo do outro. Mas é preciso ter em mente que esse outro não sabe nada de nós, e, se nos causa algum desconforto, isso pode acontecer até sem intenção. A falta de informação faz com que as pessoas tenham atitudes que nos magoam. Mas como um ouvinte pode saber a maneira perfeita de lidar com um deficiente auditivo se nunca precisou lidar com um ou se informar sobre o assunto? É aí que entramos como disseminadores de informação. Numa interação social entre um ouvinte e um surdo que morre vergonha da surdez, o que o ouvinte aprende? Nada!!! Mas no momento em que se relaciona com um surdo que sente orgulho de si e ainda desvenda esse ‘mistério’ para ele, o ouvinte enxerga tudo sob outro prisma e ainda passa a atuar como outro disseminador de informação. Acho isso maravilhoso!!!E penso que todos nós deveríamos praticar diariamente isso.

Desde que superei essa fase e comecei a falar sobre o assunto surdez com todo mundo que conheço, muitos amigos, colegas, conhecidos e até familiares passaram a me tratar de outra forma. De igual para igual. Com respeito. E educação. Sem aquele constrangimento que deriva do fato de que não se pode tocar no assunto – ou porque o surdo não gosta, ou porque sente vergonha. Alguns podem pensar: “Porque falar sobre isso?“. Ora bolas, PORQUE NÃO FALAR? Você não enxerga beleza nas diferenças? Você não entende que ninguém está livre de vir a perder (uma parte da) audição em alguma altura da vida?

Você não quer usar aparelhos auditivos porque eles são grandes? Acho que você devia agradecer aos céus por existir uma tecnologia que lhe ajude a escutar em vez de se importar com os olhares dos outros.

Você tem vergonha do seu marido/mulher por ser surdo? Acho que você devia fazer com que seu marido/mulher sinta orgulho de você ao perceber que você se orgulha de ser quem é, afinal, impossível que ele/ela seja uma pessoa perfeita.

Você se esforça ao máximo para que os outros não percebam que você não escuta? Tenho certeza que sua máscara cai a cada “Hã?” que você precisa dizer quando se distrai por dois minutos.

Você penteia os cabelos da sua filha surda de modo que eles tapem os aparelhos auditivos para que os coleguinhas não vejam? Acho que você deveria procurar um psicólogo o mais rápido possível.

Você ensina ao seu filho surdo que quando um colega o chama de surdo ou toca no assunto surdez com ele, isso é uma grande ofensa? Acho que você vai chorar muito quando constatar que contribuiu tremendamente na criação de um ser humano com auto-estima nula.

Você se sente mal quando seu namorado/namorada fica sem graça porque outras pessoas descobriram que você é surdo(a)? Faça um favor a si mesmo e troque de namorado(a) o quanto antes. Quem quer se relacionar com alguém que faz com que a gente se sinta mal? Credo!

Você só vai usar aparelhos auditivos se eles forem tão pequenos que nem têm potência para ajudar o grau da sua perda? Não perca seu tempo, continue no silêncio.

Pareci agressiva ali em cima? Esse foi o objetivo. Quem lê este blog são adultos – e de adultos, o mínimo que se espera é maturidade. Você precisa se sentir bem na sua própria pele, identificar os seus fantasmas pessoais e fazer todo o esforço do mundo para acabar com eles.

SENTIR VERGONHA DA SURDEZ É UMA VERGONHA.

Me desculpem aqueles que vivem interpretando o papel de surdo que escuta, de surdo que não é deficiente. A gente é diferente. E daí? Temos que jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta. A hora de parar de ter vergonha de ser surdo é agora.Vamos inverter a lógica cultural brasileira, que pensa que todo deficiente é um coitado incapaz que deveria se esconder num buraco??

Pense nisso – mas pense mesmo e analise o seu comportamento com um olhar BEM crítico. Tudo isso que escrevi é o que eu gostaria que alguém tivesse me dito há us 15 anos atrás. 😉

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