O ZUMBIDO no ouvido é sempre BENIGNO
O zumbido no ouvido – a perceção de som na ausência de uma fonte acústica externa — é uma das experiências sensoriais mais comuns nos seres humanos. Milhões de indivíduos relatam ouvir um toque, zunido, sussurro, cigarra, TV fora do ar ou outros sons internos em algum momento das suas vidas. Apesar da sua prevalência, o zumbido é frequentemente mal compreendido, tanto por pacientes como por médicos.
Muitas pessoas que desenvolvem zumbido temem que o som represente uma condição médica perigosa, enquanto os clínicos muitas vezes sentem dificuldades em fornecer uma explicação clara do que o zumbido realmente representa.
Uma forma útil de clarificar este fenômeno é distinguir entre um sinal sensorial e um processo de doença. O zumbido é melhor compreendido como um sinal auditivo benigno gerado pelo cérebro quando a entrada de estímulos auditivos se altera. O som em si não representa uma doença. No entanto, o zumbido pode, por vezes, surgir a par de outras condições médicas que afetam o sistema auditivo ou as vias neuronais associadas.
Compreender esta distinção é essencial para reduzir medos desnecessários, melhorar a comunicação clínica e orientar para cuidados eficazes.
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O zumbido como um sinal gerado pelo cérebro
O sistema auditivo processa constantemente os sinais dos ouvidos e integra-os com informações de múltiplas regiões cerebrais. Quando a entrada de estímulos auditivos muda – por exemplo, devido a perda auditiva, alterações temporárias no ouvido ou outras alterações na sinalização auditiva – , o cérebro pode aumentar a sua sensibilidade para compensar a redução dessa entrada. Este processo é frequentemente descrito como um aumento no “ganho” neuronal.
Quando a sensibilidade neuronal aumenta, o sistema auditivo pode gerar sinais internos fracos que são percebidos como som. Estes sinais podem manifestar-se como o toque, o zunido ou outras perceções tonais commumente descritas como zumbido. É importante notar que a presença deste sinal reflete a resposta adaptativa do cérebro à alteração da entrada de estímulos, e não um processo inerentemente patológico.
As evidências que sugerem que os sinais do tipo zumbido são comuns vêm de uma investigação clássica realizada por Heller e Bergman em 1953. Nesse estudo, indivíduos sem antecedentes de zumbido foram colocados numa sala à prova de som e foi-lhes pedido que relatassem quaisquer sensações auditivas que notassem. Surpreendentemente, cerca de 94% dos participantes relataram ouvir sons semelhantes ao zumbido quando o ruído externo foi eliminado.
Estes resultados sugerem que os sinais auditivos internos podem estar presentes em muitas pessoas, mas normalmente passam despercebidos porque o cérebro os filtra fora da consciência.
Quando o zumbido surge a par de outras condições
Embora o sinal do zumbido em si seja benigno, pode por vezes surgir no contexto de outras condições médicas. Por exemplo, o zumbido pode ocorrer em associação com perda auditiva, alterações súbitas na função auditiva, disfunções da articulação temporomandibular, traumatismos cranianos ou condições neurológicas que afetam as vias auditivas.
Nesses casos, a condição subjacente — e não o sinal do zumbido em si — pode necessitar de avaliação médica. A presença de zumbido pode simplesmente refletir a resposta do cérebro a alterações na sinalização auditiva causadas pela condição associada.
Esta distinção é crítica. Quando um paciente apresenta novos sintomas, tais como perda auditiva súbita, desequilíbrio ou alterações neurológicas, os médicos avaliam adequadamente esses sintomas para identificar possíveis causas subjacentes. Contudo, o sinal de zumbido que acompanha essas alterações continua a ser uma resposta percetiva do sistema auditivo, e não um processo prejudicial em si mesmo.
Confundir o sinal com a doença pode levar a alarmismos e mal-entendidos desnecessários. Uma perspetiva mais precisa é que o zumbido pode coexistir com outros distúrbios, mas o som em si não é o distúrbio.
O papel da interpretação cerebral
Outro fator que influencia o sofrimento provocado pelo zumbido é a forma como o cérebro interpreta o sinal assim que este se torna percetível. Quando as pessoas se apercebem do zumbido pela primeira vez, interpretam frequentemente o som como um sinal de que algo está seriamente errado. Esta interpretação ativa os sistemas neuronais responsáveis pela deteção de ameaças e pelo processamento emocional.
Assim que o cérebro categoriza o som como potencialmente perigoso, a atenção foca-se nele. O cérebro monitoriza repetidamente o sinal na tentativa de determinar o seu significado. A monitorização acrescida aumenta a consciência do som, o que pode fazê-lo parecer mais alto e mais persistente. Isto cria um ciclo de retroalimentação no qual a ansiedade e a atenção reforçam a perceção do zumbido.
Em contrapartida, quando o cérebro reconhece o sinal como inofensivo, a atenção afasta-se gradualmente do som. Com o tempo, os mecanismos naturais de filtragem do cérebro permitem que o zumbido desapareça em segundo plano na consciência, um processo commumente designado por habituação.
Ansiedade e hipervigilância
A experiência clínica sugere que os indivíduos que lutam contra o sofrimento do zumbido têm frequentemente sistemas nervosos particularmente atentos aos sinais internos. Muitos são atenciosos, conscienciosos e altamente recetivos a alterações nos seus corpos e ambientes. Estas características podem ser pontos fortes em muitos aspetos da vida, mas também podem levar a uma vigilância acrescida em relação a sinais sensoriais como o zumbido.
Quando a ansiedade ou a hipervigilância estão presentes, o cérebro pode verificar repetidamente o sinal do zumbido para determinar se ele ainda lá está. Esta monitorização constante pode manter o som na consciência. Neste sentido, o sinal do zumbido pode funcionar como a faísca, enquanto a ansiedade funciona como o combustível que mantém a atenção focada no som.
Reconhecer esta relação ajuda a redirecionar o tratamento para a acalmia do sistema nervoso, em vez de tentar eliminar o sinal auditivo em si.
Implicações para os cuidados clínicos
Compreender o zumbido como um sinal auditivo benigno tem implicações importantes para o cuidado do paciente. Primeiro, ajuda a reduzir medos desnecessários, clarificando que o som em si não é prejudicial. Segundo, permite que os médicos se foquem nos fatores que sustentam o sofrimento do zumbido, incluindo a ansiedade, a hipervigilância e a monitorização da atenção.
Os cuidados eficazes começam muitas vezes com uma educação clara sobre como o zumbido surge e por que razão o sinal é benigno. Quando os pacientes compreendem o mecanismo por trás do zumbido, a resposta de ameaça do cérebro diminui frequentemente. À medida que a ansiedade diminui, a atenção afasta-se gradualmente do som, permitindo que ocorra a habituação natural.
Para alguns indivíduos, a abordagem da ansiedade subjacente pode envolver psicoterapia, abordagens baseadas em mindfulness, estratégias de redução do stresse ou medicamentos utilizados para tratar distúrbios de ansiedade, quando clinicamente apropriado. Estas intervenções não visam diretamente o sinal do zumbido, mas ajudam a acalmar os sistemas neuronais que amplificam a consciência do mesmo.
Conclusão
O zumbido é uma experiência auditiva comum que é frequentemente mal compreendida. O som representa uma perceção benigna gerada pelo cérebro quando a entrada de estímulos auditivos se altera. Embora o zumbido possa surgir a par de outras condições médicas que possam necessitar de avaliação, o sinal do zumbido em si permanece inofensivo.
Distinguir entre o sinal auditivo e as condições que por vezes o acompanham permite que médicos e pacientes abordem o zumbido com maior clareza e menos medo. Ao focar na educação, na redução da ansiedade e no treino da atenção, torna-se possível apoiar a capacidade natural do cérebro de filtrar o som e restaurar uma sensação de normalidade.
Compreender o zumbido desta forma transforma a conversa de uma centrada na doença para uma focada em como o cérebro interpreta e responde a um sinal sensorial comum.
Fonte: Hearing Health Matters – tradução feita com IA.
Sobre a Autora
Jennifer Gans, PsyD, é uma psicóloga clínica sediada em São Francisco e uma voz internacional de liderança nos cuidados de zumbido e hiperacusia. A Dr.ª Gans dá formação a médicos, audiologistas e investigadores em todo o mundo, trazendo uma peça que faltava nos cuidados do zumbido: educação precisa combinada com competências práticas. A sua abordagem não promete eliminar o som. Mostra às pessoas como deixar de ser controladas por ele.

