Todo surdo tem trauma de interfone, por motivos óbvios. Ou ele toca e não ouvimos, ou precisamos tocar num para subir na casa de um amigo e não fazemos idéia do que a pessoa está falando…
É missão impossível lembrar da última vez, na era pré-IC da minha vida, em que eu atendi um interfone como uma pessoa normal. E por pessoa normal leia-se pessoa que ouviu e entendeu o que foi dito do outro lado da linha.
Passei anos atendendo o interfone assim:
– Alô, quem é?
– ksjdklsdaidauhdsfyuo
– Pode entrar!!
E aí eu ficava apavorada espiando pelo olho mágico da porta quem diabos apareceria, já que não fazia a mínima idéia do que tinham me dito. Podia ser minha avó, o carteiro, um entregador, um morador de rua pedindo algo, um ladrão, um estuprador…
Por sorte, o máximo que já aconteceu foi abrir a porta para algum pivete mal intencionado (na minha rua tinha vários). Uma vez, uma adolescente que já havia sido presa várias vezes por furto nas redondezas entrou no nosso apartamento e deu um susto no meu irmão, que deu de cara com ela num dos quartos e começou a gritar. Tenho certeza que fui eu quem abriu a porta pra ela apertando o dedão para abrir pelo interfone sem saber quem era. 🙁
Passei a vida deduzindo quem estava na porta do prédio, o que só provou que meus poderes mediúnicos são péssimos. Raramente acertei.
Assim como o telefone, o interfone sempre foi um trauma. Em casa minha tática era a de falar alô e abrir a porta. Mas e quando a situação era inversa, comigo tocando na casa de alguém? Lembro que colava (literalmente!!!) o ouvido na saída de som do interfone na esperança de ouvir e entender o que me diriam.
Suava frio, odiava aquilo, as pernas ficavam frouxas. E nunca entendia nada. Nos últimos anos, adotei a tática de avisar quando tocaria no interfone da casa de alguém para que a pessoa não falasse nada e só abrisse. Surdos, traumas e táticas do McGyver!
Semana passada interfonei para o apartamento de um vizinho e tive uma conversa interfônica com ele de uns dez minutos. Quando desliguei fiquei tipo ‘uau, nem acredito que fiz isso‘. Aquilo pra mim foi surreal, pois sempre fui a pessoa que não podia atender um interfone, só me metia a fazê-lo quando não tinha mais ninguém em casa ou quando só tinha uma pessoa e ela estava no banho.
No Rio, o porteiro do prédio vive interfonando para avisar alguma coisa. As primeiras vezes atendi suando frio – resquícios de um trauma de décadas – mesmo sabendo que entenderia. Esses dias o telefone do quarto do hospital tocou enquanto duas enfermeiras mexiam na minha mãe, e elas me olharam tipo ‘atende, fofa‘. Até hoje meu corpo e meu cérebro insistem em achar que telefone e interfone não me pertencem e não preciso atender.
Ontem, ao chegar em casa e tocar no interfone senti uma espécie de libertação. Esse trauma não cabe mais. Ficar olhando para um objeto que tanto me apavorava sabendo que agora não há motivo para isso me tirou uns 300kg de peso das costas. Peso de uma vida inteira.
Implante coclear: amor verdadeiro, amor eterno.
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