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Deficiência Auditiva / Histórias dos Leitores

A história do Valter Lenine Fernandes: perdi a vergonha de ser DA

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‘Meu nome é Valter Lenine Fernandes, sou surdo-oralizado com perda auditiva bilateral severa, tenho 31 anos de idade. Desde criança sentia que não escutava, mas poucas foram as chances de realizar um tratamento adequado. Minha mãe não tinha bom grau de informação acerca da deficiência auditiva, morávamos numa zona periférica do Estado do Rio de Janeiro, estudei o meu ensino fundamental e médio na rede pública do Estado, que possuía muitas lacunas de ensino-aprendizagem.

Aos 22 anos ao longo da graduação em História tive a oportunidade de utilizar um aparelho auditivo apenas no ouvido esquerdo, devido a tecnologia ser muito cara não coloquei nos dois. Esse aparelho não fazia muita diferença, pois era uma tecnologia ruim, poucas frequências e sem reconhecimento de diferentes sons, para ter idéia fui reprovado no primeiro semestre da faculdade em todas as disciplinas.

A minha sorte ao longo da graduação e do mestrado é que conheci um grande amigo chamado Victor Hugo Abril que sentava comigo nas horas vagas e transmitia todas as aulas e debates que os professores travavam em sala de aula. Além disso, vontade pessoal de conquistar grandes objetivos na carreira acadêmica, independente da perda auditiva, o meu sonho sempre foi ser professor universitário. Ao finalizar o mestrado dois professores chamados Maria Isabel de Siqueira e Paulo Cavalcante se reuniram e decidiram a possibilidade de aquisição de novos aparelhos auditivos em 2012. Na época não levei o assunto a sério, pensei: “são caros”.

A Bebel (apelido carinhoso) fez uma surpresa, me levou a Ipanema para passear, depois de almoçarmos, fomos ao um Centro Auditivo, lá fiz vários exames e ela me presenteou com dois aparelhos auditivos. Depois disso a minha vida mudou, depois de acumular duas reprovações no doutorado em História dos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fui aprovado no Doutorado do Programa de História Econômica da Universidade de São Paulo (USP) no ano de 2012. Diante disso, tive que mudar para a cidade de São Paulo, acabei longe do grande amigo Victor Hugo Abril que foi aprovado no doutorado da Universidade Federal Fluminense em 2011 e eu sozinho com os novos aparelhos, novos amigos, enfim, uma nova vida, porém necessária!

Em 2014 fiz a minha primeira viagem internacional para Londres, partindo sozinho de São Paulo, me tremia, achava que não conseguiria me virar, mas as suas experiências descritas no site apenas me incentivaram a enfrentar esses medos, morei por 3 meses em Lisboa, aos poucos fui me adaptando às variações linguísticas e me virando. Hoje estou na fase de qualificar a minha tese e ano que vem de conclusão, morando em São Paulo, me casei com um Administrador de Empresas paulistano chamado Anderson Lopes, que também aprende muito com o seu site – a questão da claridade num restaurante, muitas pessoas falando ao mesmo tempo, enfim, até a dicção dele melhorou!

Perdi totalmente a vergonha de dizer que sou deficiente auditivo

Eu agora luto pelos meus direitos, utilizo a fila do caixa preferencial nos supermercados, nos bancos, etc. No hospital, nos aeroportos, etc. A minha mais recente aquisição por direito foi a aquisição do SPtrans (cartão de transportes na cidade de São Paulo gratuito) e agora perdi totalmente a vergonha de dizer que sou deficiente auditivo. Luto pelo meu espaço e pelos meus sonhos. Agora posso dizer a todos aqueles que lidam com isso: enfrentem os seus medos, pois é possível conquistar os nossos sonhos e não tenham vergonham de buscar o seus direitos, mesmo que tenha que perder um momento para explicar a questão da deficiência auditiva.’

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

8 Comentários

  • Alexandre Rodrigues de Souza
    25/08/2015 at 1:23 pm

    Linda história de superação, Valter! Parabéns e sucesso!

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  • Alessandra Senna
    07/08/2015 at 4:02 pm

    A história do Valter é incrível! Superação e exemplo de vida! Tenho muito orgulho de ter tido a oportunidade de conviver com esta pessoa maravilhosa e iluminada durante minha pós graduação – ele foi meu professor. Foi grande incentivador para que eu tentasse o mestrado.
    Parabéns Valter!!!! Sempre lute por seus direitos!

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  • Elísia costa
    07/08/2015 at 12:51 pm

    Sua história é muito parecida com a minha. Com uma diferença, uso AASI desde 2004 e são próteses doadas pelo SUS, graças a Deus aqui em Maceió sempre fui bem assistida pela ADEFAL e sempre tive próteses. Mas, ainda assim enfrento muitas dificuldades, é uma luta diária, mas nada que me impeça de seguir em frente e buscar meus direitos e cumprir meus deveres. Sucesso sempre para o Valter. Beijos do coração.

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  • Gi
    07/08/2015 at 10:32 am

    Olá, Valter!
    Parabéns pela história de vida recheada de vitórias!
    Acho que o mestrado, por si só, já tem batalhas suficientes. Sendo surdo, então? Isso eleva o grau de sua superação.
    Já concluí meu mestrado em momento simultâneo ao meu emprego. Também não foi fácil.
    Eu sou ouvinte, mas meu noivo é surdo. Acompanho o blog para aprender com a Paula e com os depoimentos das pessoas.
    Acho que todos temos medos, com ou sem deficiência. Você está certo: lute por seus direitos!
    Felicidades! Que seus projetos continuem se concretizando!

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  • Renata
    07/08/2015 at 8:46 am

    Adoreiiiiiiii!

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  • Dailton - CGde/MS
    07/08/2015 at 2:30 am

    Puxa que história legal, aliás muito legal 🙂

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  • Victor Hugo Abril
    07/08/2015 at 1:04 am

    Apesar de ter sido citado pelo amigo Valter Lenine Fernandes, confesso que eu aprendi mais com ele do que o contrário. No início era difícil acreditar que aquele rapaz tinha um problema auditivo. Na graduação o reparava muito quieto, as vezes sentia que não ouvia.
    Com o tempo fomos mudando as rotinas, hoje aprendi a sentar na frente nos congressos que participamos, e trabalho mais minha dicção.
    Eu acho que Valter é um exemplo de luta e esforço, onde o social poderia corromper e ele foi um vencedor.
    Muito ouvimos que eu era um “intérprete dele”, uma mágoa superada. Os que dizem isso são os verdadeiros pseudo intelectuais, egoístas de seus próprios mundos.
    Valter mostrou que pode vencer caminhando sozinho e claro pedindo para falarem mais alto, ou gesticularem mais os lábios e isso não tem problema.
    Tornou-se um professor compreensivo, dos mais queridos. Deixou um legado na graduação a distância da UNIRIO, onde trabalhou com esmero e competência. E sempre querendo comunicar-se.
    Eu que tenho orgulho de conhecer você, o blog e me tornar um ser mais humano e humilde.

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  • Taís Seki
    06/08/2015 at 11:07 pm

    Linda história de superação!!! Parabéns e muito sucesso a ele! Persistência e força de vontade são coisas que não podem faltar na nossa vida!

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