Histórias dos Leitores Implante Coclear

Reflexões sobre a vida após os implantes cocleares: Sandra

A Sandra já contou sua história duas vezes aqui no Crônicas. Primeiro, neste post de 2016, e depois, neste post em 2017. Membro muito ativo e querido do nosso Grupo do Crônicas da Surdez no Facebook, ela enviou mais uma vez suas reflexões acerca da deficiência auditiva e do implante coclear.
Vejo o quanto evoluí, desde que entrei no mundo dos cyborgues. Não mudaria nada, acredito piamente no tempo de Deus, meu tempo foi dia 12 de janeiro de 2016, por incrível que pareça, também foi o tempo do Pai. Tive medo, tive receio. Há um ditado que diz que precisamos de um empurrãozinho às vezes para sair do lugar, o meu foi o tal de zumbido, que assusta milhares de brasileiros.
Aprendi muita coisa, principalmente a ouvir melhor. É indescritível como as palavras se encaixam. Conheci novos sons, uns chatos, mas podendo ouvir já está valendo. Depois que implantei, principalmente quando são feitos os mapeamentos, quase morro de piripaque – é cada susto ao ouvir as coisas!
Me pego rindo quando escuto meu pai me chamar  lá do quarto, do nada. Me assustava por ouvir meu nome e ele dizia: “Que tanto susto é esse? Quem não deve não teme, rsrsrs!”  A cada mapeamento, ganho novos sons e mais capacidade de ouvir. Isso é incrível!
 Nunca imaginei trilhar esse caminho, tenho certeza que Deus planejou para mim. Essa decisão de operar envolve dinheiro, coisa que não tenho, mas mesmo assim resolvi arriscar, não me submeti a não sair do lugar, a esperar a surdez profunda chegar, hoje sou uma surda que ouve!
Ia operar o ouvido direito, com o qual ouvia menos, mas por ter estimulado mais o esquerdo, o otorrino me orientou a operar o esquerdo. A explicação foi que teria mais ganho, exatamente porque havia estimulado mais – por isso é importante o uso dos aparelhos auditivos.
No fim das contas implantei os dois de uma vez. Até hoje é o esquerdo que me ajuda, o direito está ali de cobertura. Hoje, sou a mulher que batalhei para ser; a criança que fui um dia estaria orgulhosa do que sou hoje, creio.
Uso meus implantes cocleares sem receio, sem vergonha, até glamourizei eles. Vergonha é se esconder, me escondi sim, por anos, hoje, não mais. Me adaptei bem, mais do que esperava, criar expectativas só frusta, sou mais Zeca Pagodinho e deixo a vida me levar…
Claro, sofri, chorei, sou humana, mais meu lema é lutar enquanto houver recursos. Se tiver que desistir, desista de ser fraco, disse um amigo.  Não faço fonoterapia,  acho fútil fazer algo que acredito não precisar, é desrespeito até com o profissional, mas levo puxão de orelha das fonos por isso.
Uma coisa que não consigo controlar até hoje, é minha voz  quando tiro e até mesmo usando, deve ser algo de família. Tenho ainda o famoso zumbido, mas ele melhorou muito e com os IC’s quase nem o percebo.
Aprendi e aprendo ainda enfrentar, contornar, passar por cima, tento não por os bois antes da carroça, meus ICS se tornou meus melhores amigos.  Já consigo compreender filmes, novela sem legendas, mais gosto pó, daí ponho.  Só o fato das palavras se encaixar, já é um bênção.
Uma coisa impactante para mim foi achar que ninguém me amaria. Aprendi a me amar primeiro – esse é o segredo, assim ninguém te ama menos do que você merece. Em maio desse ano  Deus preparou meu casamento, foi tudo lindo, mais do que imaginei.
Desde, que ativei, foi como se meus ouvidos ganhassem fôlego, momento marcante, a partir daí, parei de ser vítima, e ganhei autonomia para escrever minha própria história.  Seja grato(a) pelo que você tem, pois sempre há algo bom reservado para a gente.

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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