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Deficiência auditiva: a história do Marcus

O Marcus Novello foi meu colega durante o tempo em que trabalhei na L’Orèal – o pessoal logo foi nos apresentando pois ambos tínhamos deficiência auditiva. Ele é uma das pessoas mais alto astral que já conheci, tira a surdez de letra e trata tudo isso com uma leveza contagiante. É claro que não desisti até que ele enviasse o seu depoimento para o Crônicas! 🙂  *Foto: Contente Entretenimento

‘Eu tive perda auditiva por conta de um nascimento prematuro em casa e sem auxílio médico. O médico deu indicações de que a minha mãe deveria ficar em casa e depois parou de atender as ligações dos meus pais. Acabei nascendo em casa e meus pais entraram em contato com um vizinho, que era cirurgião plástico. Ele foi à nossa casa, nos ajudou, indicou a UTI perinatal e avisou que um bebê estava à caminho. Após ser encaminhado para a UTI, fiquei três meses em acompanhamento. Durante esse tempo tive diversas paradas cardíacas e respiratórias e em uma dessas situações, tive que tomar diversos antibióticos que não mostravam efeito. A última opção era tomar um antibiótico em que não se sabia qual seria o efeito colateral. Os efeitos colaterais poderiam ser inúmeros, como ficar paraplégico ou tetraplégico. O antibiótico apenas lesionou em parte o nervo auditivo, levando à uma perda auditiva bilateral – corrigida com o uso de dois aparelhos auditivos. 

Aprendi em casa que usar um aparelho auditivo é como usar um óculos. Muitos só enxergam apenas com o uso de um óculos, assim como muitos só escutam com o uso de um aparelho auditivo. Só que esquecemos isso. Temos que lembrar que usar ferramentas que nos auxiliam ao longo da vida faz parte da evolução da humanidade. Um aparelho auditivo nada mais é que um gadget que te faz ouvir melhor. 

A minha família sempre foi extremamente presente, o que facilitou todas as adaptações. A educação que recebi em casa me levou a encarar que a perda auditiva era apenas uma oportunidade de me esforçar mais e de ir além. Hoje eu olho para trás e penso “se eu consegui lidar com a perda auditiva, daqui pra frente é tudo oportunidade. O mais difícil já passou.” 

A presença da família e de amigos é muito importante. Tem dias em que você se frustra e você deseja não ter perda auditiva, isso faz parte. Quem está ao seu lado faz uma diferença brutal na forma como você se enxerga e se coloca nas situações de vida. A família e os amigos devem ser compreensivos e sempre buscar o lado positivo da situação. Devem se preocupar se falam de forma clara e respeitam o outro – essencial mesmo se nenhum dos envolvidos possui uma perda auditiva. 

Nunca devemos nos colocar em posição de vítima. Não somos vítimas, temos apenas uma oportunidade extra de nos esforçarmos e irmos além. Se o paciente for criança, o cuidado deve ser redobrado na creche ou na escola. As crianças absorvem tudo e aprendem rapidamente – são esponjas. Por isso precisamos lembrar que elas também são esponjas emocionais. Elas absorvem toda a energia e estímulos do ambiente ao redor.

O acompanhamento frequente com educadores é fundamental. Faça perguntas frequentes. Como ele(a) se sente em aula? Conversa com todos? Escuta e responde bem todos que falam com ele(a)? Se frustra uma situação de muito barulho? Tem vergonha de usar um aparelho? Os colegas de aula respeitam a perda auditiva dele(a)? Todas essas perguntas são válidas. Se ele(a) for mais introspectivo, não tem problema nenhum. O problema é não se comunicar, mesmo quando deseja, porque não escuta bem o professor ou seus colegas. Lembrando que sermos extrovertidos ou introvertidos são apenas formas que nós temos de raciocinar e de nos recarregarmos. Introvertidos pensam melhor e se recarregam quando estão sozinhos e os extrovertidos são o oposto. Eles pensam melhor e recarregam suas energias quando estão com outras pessoas. 

Na fase adulta, lembre que você tem a oportunidade de ser um exemplo. Tanto para quem possui uma perda auditiva, quanto para famílias ou amigos que conhecem alguém com perda auditiva e até para quem não tem perda auditiva e não conhecia ninguém que tivesse. Se coloque nesse lugar de exemplo. Como você pode ajudar quem está à sua volta? Se você conhece alguém que tem perda auditiva e está com a autoestima em baixa, dê uma moral. Se você conhece uma família que está querendo ajudar o filho(a) com perda auditiva, ajude nem que seja com uma palavra de carinho. Se coloque no lugar dos outros. O que você pode fazer por eles? 

Em todas as fases, da infância à vida adulta, o acompanhamento de um(a) fonoaudiólogo(a) é fundamental. É muito importante fazer exames médicos frequentes e ter um médico(a) que te acompanha e conhece o seu histórico. Eu faço uma audiometria e converso com um médico pelo menos uma vez por ano. Ele(a) saberá como te orientar em cada caso e trará diagnósticos precisos se a sua perda evoluiu com o tempo, se estagnou e como lidar com isso. 

Tenha sempre em mente que ninguém é vítima. Nós temos a oportunidade de construirmos agora a vida que queremos. O que você deseja e como você pode ajudar quem está ao seu redor? Corra atrás!’

90 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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