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Paula!

MADRASTA: valide suas DORES e DÚVIDAS

madrasta

Algumas das piores memórias da minha infância estão ligadas a uma madrasta. Como o destino é algo muito cheio de lições e senso de humor, o grande amor da minha vida veio com um pacote e, dentro dele, havia nada menos do que três serumaninhos. Nunca vou esquecer do dia em que os conheci, um pingos de gente que me olhavam com aquela curiosidade infantil que é ao mesmo tempo fofa e assustadora. Só consegui quebrar o gelo quando contei que tinha um cachorro chamado Pikachu. O mais novo, então com quatro aninhos, me olhou de queixo caído: “Não acredito!” ?

Por ter tido uma experiência tão ruim quando criança, eu me sentia muito desconfortável. Tive que lidar com uma madrasta que tirava o sutiã na minha frente e atirava a peça em mim rindo enquanto meu pai dormia, pegava a extensão do telefone quando minha mãe me ligava e depois inventava mentiras nojentas para ele, confiscava as cartas que eu mandava, falava horrores sobre nossa família sem o menor pudor na minha frente (eu era uma CRIANÇA, pqp), lia a minha correspondência, chamava a minha mãe de gorda às gargalhadas, desaparecia com coisas minhas quando eu passava férias lá e fazia o possível e o imaginável para que eu e meu irmão não tivéssemos acesso ao meu pai e, quando estávamos com ele, fazia tudo o que estava ao seu alcance para nos fazer sentir mal e deslocados. Só de lembrar, eu me arrepio toda.

Definitivamente, a gente não precisava ter passado por isso. Mas foi ‘bom’, porque me tornou incapaz de machucar uma criança do jeito como fizeram comigo – dói para sempre. Em especial quando você se torna um adulto e começa a repassar todos os acontecimentos importantes da sua vida.

Tudo tem um lado bom, acreditem. Essas vivências me prepararam para a grande experiência que estava por vir: me tornar madrasta. Uma coisa é você namorar alguém que já tem filhos, outra coisa 100% diferente é você se casar com essa pessoa e entrar de supetão na vida das crianças, ainda mais se você ainda não tem filhos e possui jogo de cintura zero com os pequenos. Hoje, já são 9 anos como madrasta.

Ninguém fala sobre ser madrasta com a abertura necessária. Só fui descobrir que era o maior tabuzão depois de virar uma. Procure qualquer coisa sobre este assunto no Google em português e não encontrará muita coisa útil – procure em inglês e encontrará zilhões de links salvadores de vidas! Esse silêncio sepulcral nos faz achar que tudo o que pensamos e sentimos é loucura e que nossas dúvidas, inseguranças e medos são ridículos. Quem passa ou já passou por isso sabe bem do que estou falando…

Por muitos anos estive do lado de lá e de repente me vi do lado de cá, mas conhecendo os sentimentos do lado de lá. Que confusão! Aliás, acho que o que melhor define a experiência de qualquer pessoa que faça parte de uma blended family é: confusão de sentimentos.

Leva um tempão até você sentir que a casa é sua e que você não é mera hóspede. Leva um tempão até você conseguir dar a sua cara para o lugar sem achar que está invadindo. São muitos meses até você conseguir dar uma ordem sem se sentir uma vaca por causa disso. Leva um século até você ser reconhecida como um membro da família. Leva uma vida para alguém, de fato e com sinceridade, se importar com você. São meses até você conseguir fazer as pessoas entenderem que críticas contínuas magoam – você está fazendo o melhor que pode. Leva uma eternidade para não dar bola para cara feia e para não se sentir mal por ser sumariamente ignorado. Leva um tempão até você conseguir verbalizar as coisas que te incomodam muito. Leva mais de ano pra parar de sentir culpa por querer estar a sós com o marido e nunca conseguir.

Enteados são ótimos professores: ensinam às madrastas sobre paciência, sobre egoísmo, sobre aprender a dividir atenção, tempo, dinheiro, espaço, amor; eles nos ensinam, acima de tudo, que laços e respeito são construídos todos os dias e não importa se vocês não têm o mesmo sangue. Os meus me ensinam, mais do que pensei que fosse possível, sobre mim mesma. E me ensinaram a amar ainda mais o pai deles, que além de ser um super pai, se desdobra em dez para deixar todos nós felizes.

Um belo dia, quando você menos espera, começam a acontecer coisas que fazem tudo valer a pena. Um dia, antes de entrar no cinema, perguntei aos dois meninos se eles continuariam convivendo comigo caso algo acontecesse (se o pai deles morresse ou a gente se separasse). Confesso que isso era algo delicado pra mim e percebi que vinha lá da minha infância; uma vez que perguntei ao meu pai o que aconteceria se eu fosse morar com ele e ele morresse, e falei que seria expulsa da casa pela fofa. A resposta dos dois foi: “Mas Paula, que pergunta idiota, é óbvio!“. Naquele mesmo dia, o pequeno estava tocando o terror no cinema e eu disse a ele: “Mas guri de Deus, se tu fosse meu filho ia ver uma coisa!”. Resposta: “Mas Paula, eu sou um pouco seu filho!“. Ultimamente ele solta, volta e meia, a frase: “Quando vou ter uma irmãzinha?“. E passa horas discutindo comigo qual vai ser o nome dela, e me diz todo sério quais são os nomes que ele acha lindos, além de me pedir que por favor jamais vista a bebê toda de onça – ‘já basta colocar tope no Pikachu, todo mundo confunde ele com uma menina‘, diz ele.

Se a minha infância não deu lá muito certo agora tenho a chance de tornar a infância dos meus três enteados muito melhor do que a minha, e de fazer isso enquanto curo a minha criança interior. Não importa o quão civilizada é qualquer separação, nenhum filho de pais separados passa por isso incólume. Me sinto muito grata quando olho para eles e penso que temos nove anos de convivência e nunca brigamos, e que eles me receberam com todo carinho e educação que poderiam me dar, mesmo que estivessem tão assustados quanto eu com a mudança de vida. Me sinto feliz quando penso que, daqui a dez anos, teremos muitas histórias nossas para contar e vou poder olhar para eles e pensar que ajudei a criá-los.

O amor é tipo essas plantinhas que nascem no asfalto, não? Quando você menos espera, começa a amar. E quando se descobre amado de volta, o amor fica ainda maior. Uma das coisas mais bonitas, nesta história toda, é estar unida a três pessoinhas pelo grande amor que nós quatro sentimos por uma pessoa: o pai deles. E dessa mistura toda nasceu também um sentimento delicado, bonito e diferente do amor de mãe/pai entre nós: somos amigos, somos família e podemos contar uns com os outros. No fim das contas, é isso que importa.

Dicas para madrastas iniciantes

Alô você madrasta iniciante que vai se aventurar em águas profundas e assustadoras! Bora bater um papo de amiga sobre alguns dos inúmeros desafios que você irá enfrentar assim que encarnar esse papel? Não vou mentir: não é para os fracos!Falam tanto na romantização da maternidade, mas a romantização do papel de madrasta é muito mais cruel. A sociedade espera que você se anule, apenas sirva sem reclamar, seja invisível dentro da sua casa, silencie seus desejos e cansaços e fique, de preferência, quietinha e obediente, dizendo “sim” até para o mais abusivo dos caprichos.

As pessoas em geral – inclua aí a família, os amigos, a sociedade, etc etc – esperam de quem assume esse papel um sacrifício e uma generosidade e paciência que, muitas vezes, ultrapassam todos os limites da sanidade mental de um ser humano. É por isso que é tão importante conversar com quem já está nessa há um bom tempo para descobrir que não, você não é um alien e que não, seus sentimentos não são errados ou inadequados como você está imaginando!

Se você já passou dos 30, as chances de namorar alguém que já teve filhos são bem altas! Não é impossível ter uma vida pacífica se tornando uma madrasta, também não é fácil e vai requerer de você tempo, esforço, sacrifício e dedicação.

Não recomendo que você se case com alguém que já tem filhos se você tem pavio curto, não é capaz de ceder e compartilhar (porque querida, você vai ter que compartilhar TUDO com um sorriso no rosto), é ciumenta, egoísta, possessiva, se magoa por qualquer coisinha ou se irrita fácil quando as coisas não são feitas do seu jeito. Apenas dê o próximo passo se paciência, generosidade, dedicação e comprometimento fazem parte do seu repertório – e se você estiver disposta a ser uma ADULTA. Ah, e se você tiver certeza de que ele é o amor da sua vida, claro. ?

Vínculo a jato? Esqueça!

Você não começa a amar ninguém automaticamente. Vínculos são construídos com o tempo e com reciprocidade. Você e a(s) criança(s) são completos estranhos no início, e forçar a barra para criar um vínculo que ainda não existe só vai atrasar ainda mais as coisas. Relaxe, deixe fluir e não se esforce demais, porque eles percebem quando um adulto está desesperado por aceitação.

Aprenda a ser ignorado sem sofrer com isso

Às vezes você vai chegar em casa, dar oi e sentir que falou com as paredes. As vezes o pai está conversando com os filhos, você dá uma opinião, e parece que estava falando com as paredes. Às vezes você compra um presente super legal, entrega, e recebe de volta um ‘ah ta‘. Às vezes você abre as mãos para dar um abraço e abraça o ar. Às vezes você fala com seu enteado e ele simplesmente não te responde. Não espere mensagens de aniversário, de Natal, de Ano Novo ou da data que for – se elas vierem, é lucro. Sei que é fácil falar ‘aprenda a ser ignorado sem sofrer’ porque dói horrores e, se você for uma pessoa legal, fica sem entender o motivo. Mas é assim que a banda toca. Sofra o menos que conseguir com esses acontecimentos, e bola pra frente.

Aprenda a ser a última da lista sem sofrer tanto

Esse conselho não é válido para sempre, ok? Mas, pelo menos no início, aprenda que, quando eles precisam de alguma ajuda (carona, compra, dever de casa, etc) pode ser que cogitem até o porteiro do prédio para ajudar, mas você não. Não se ofenda com isso e aproveite a oportunidade para se colocar à disposição, caso tenha vontade/disponibilidade. A confiança e os pedidos de ajuda vêm com o tempo.

Qual é o meu papel mesmo?

Você não é mãe, nem tia, nem amiga, nem prima, nem babá do seu enteado. Você é a madrasta, e lamento dizer que esse papel tem regras confusas. Você não educa, você participa da educação. Você não estipula todas as regras mas precisa tomar conta para que elas sejam seguidas. Você não é empregada, embora em muitos casos seja vista como uma. Você tem que ser de confiança, embora muitas vezes não confiem em você para tarefas bobas como cuidar sozinha da criança. Os limites do seu papel são complicados e devem ser construídos em conjunto com o seu marido – e, de preferência, com a mãe dos seus enteados (embora poucas pessoas tenham a sorte de conseguir construir um relacionamento com ela). Não esqueça que você é um ser humano e também habita a mesma casa, ou seja, aquilo que a fizer sentir desconfortável demais precisa ser negociado.

Sofrendo demais? Procure terapia

Não tem nada de errado em buscar ajuda, muito pelo contrário, errado é não buscar e ficar sofrendo enquanto espera que as coisas se resolvam sozinhas. Um terapeuta com experiência no assunto pode te salvar de entrar em depressão ou acabar com o seu relacionamento. Procure a comunidade @somos.madrastas (da maravilhosa Mari Camardelli) no Instagram.

Doeu demais? Fale com seu enteado!

Às vezes eles têm atitudes que, mesmo que não percebam e não tenham sido intencionais, nos machucam muito, muito fundo. Especialmente naqueles casos de madrastas que adorariam ter um relacionamento super próximo com seus enteados. Aprendi a duras penas que não falar só nos faz guardar ressentimento e a querer nos afastar. Não vale a pena! Fale. Converse. Se faça entender. Uma conversa franca tem um poder curador maior do que qualquer outra coisa. Fale você mesma, porque tudo o que você pedir para o marido falar será visto com maus olhos e lhe fará ter que dar três passos para trás. PS: o livro Comunicação Não Violenta é perfeito para aprender a comunicar as suas necessidades.

Relacionamentos são via de mão dupla

Não só madrasta-enteado, mas qualquer relacionamento. Tenha isso em mente! Nós recebemos o que damos, e vice-versa. Não dê esperando receber algo em troca, mas também não se acostume a apenas dar: carinho, respeito, gentileza e educação têm que vir de ambos os lados. Mão dupla, lembre-se disso.

Um pouquinho de egoísmo é bem-vindo

Se os seus enteados só aparecem nos finais de semana, enfie seu egoísmo no saco e ajude seu marido a estar presente e feliz na presença deles. Mas se você tem uma rotina puxada de guarda compartilhada 50%-50%, nada mais natural do que prezar acima de todas as coisas os seus momentos a sós com o seu marido. Vocês precisam disso! E ele precisa compreender o que esses momentos significam para você. É quando você restabelece seu vínculo com ele, namora na santa paz, faz planos, relaxa. Especialmente se você não tem filhos, eles são fundamentais no relacionamento de quem se casou com alguém que já tem.

Vá onde for convidada

Crianças têm muitos compromissos: apresentações de escola, das atividades extras, festinha de aniversário. Não compareça sem ser convidada apenas para demarcar território, pois isso é visto como uma agressão. E se essas situações lhe causam desconforto e lhe fazem sentir como uma completa outsider, respeite o que você sente e não vá. Ninguém vai morrer por isso, e seu marido precisa conhecer os seus limites.

Não se meta onde não for chamada

Briga de pai e filho. Fique de fora. Brigas com a mãe das crianças? De fora também. Discussões sobre o passado? Out. Não se meta onde não for chamada porque a chance de sobrar para você ou de ouvir “isso não é da sua conta” é bem alta. Quando for convidada a participar e opinar em situações espinhosas, beleza.

Aprenda a lidar com o ciúme

Tanto o que eles sentem de você, quanto o que você sente deles, quanto o ciúme da mãe, da avó, do resto da família. Faz parte. O ciúme é um sentimento humano que foge ao controle até da mais zen budista das criaturas. De repente você se viu numa situação recorrente em que a criança está fazendo tudo o que pode para chamar a atenção do pai para que ele esqueça que você está no recinto? Vá ler um livro, dar uma volta, tomar um banho. Mostre que você não sente vontade nenhuma de entrar nesse joguinho, e que ele consegue se dividir entre todos sem deixar ninguém de fora.

A frase mais odiosa de ouvir

Prepare-se! As pessoas amam dizer: “Ei, você sabia onde estava se metendo!!“. A verdade verdadeira? A não ser que você já tenha sido madrasta antes, não, você não fazia a mínima ideia de onde estava se metendo e nem imaginava que era milhões de vezes mais complicado e trabalhoso do que parecia. Se dê um desconto quando ouve essa frase, pois a maioria das pessoas não tem empatia conosco e nem é capaz de imaginar como é a vida de quem assumiu o papel de madrasta.

Ah, e tem mais uma!

Quase esqueço. A frase “o adulto é você” vai fazer sua veia da testa saltar algumas vezes. Especialmente em situações nas quais seu enteado age dissimuladamente e você que paga o pato. Aturar fodeback faz parte do pacote, mas não deve ser visto como algo natural, legal ou bonito. E nem é justo que seu marido exija de você comportamento exemplar 100% do tempo. Você é humana, minha filha!

Seja adulta

Se tiver chance, procure uma Constelação Familiar, que é um processo terapêutico que ajuda demais quem é madrasta. Ele vai te ajudar a compreender os seus papéis e como desempenhá-los de forma ADULTA. Sejamos francos: nem só criança faz birra. Adulto também faz, e mil vezes pior. Não seja o adulto que se posiciona como a criança que quer atenção a todo custo.

Não fique expondo a sua família

Todas as famílias têm problemas e questões. Não é legal sair por aí expondo a sua família só porque você está puta da vida. Busque conversar com outras madrastas, mas tomando sempre o cuidado de não transformar a conversa apenas em “vamos falar mal dos enteados” ou “vamos falar mal da mãe deles”. Isso é muito, muito infantil e desnecessário, e não é bom pra ninguém, nem pra você.

E vale a pena lembrar

Os motivos pelos quais você se casou com ele. O tamanho do amor que você sente por ele. As qualidades incríveis que ele tem. Os momentos maravilhosos que passam juntos. Sei que às vezes é difícil focar nisso com criança(s) berrando, exigindo atenção e a rotina punk de uma casa, além dos problemas de $$ e tretas familiares. Mas são esses motivos que nos fazem lembrar que tudo valeu e continua valendo a pena, e que você continua nesse barco firme e forte. Força! Você consegue e vai aprender muito sobre si mesma durante essa jornada que pode durar o resto da sua vida.

PS: esse textão foi escrito entre 2016 e 2017. Meu filho nasceu em 2018, e meus enteados são os irmãos mais incríveis do mundo para ele. Hoje, aos 40 anos, estou recém começando a tentar curar minha criança interior ferida intensivamente pelo pai e pela mãe, e isso reflete no meu papel de madrasta de um modo muito bom. Adultecer é um processo muito bonito, porém doloroso. Mas vale a pena. Ver aquelas crianças pequenas se tornarem adultos e ajudá-las a construir as suas vidas é um dos maiores presentes que minha passagem pela Terra me deu. Eles me ensinam muitas coisas todos os dias, e eu torço do fundo do meu coração para conseguir impactá-los da melhor maneira possível.

About Author

Paula Pfeifer é uma surda que ouve com dois implantes cocleares. Ela é autora dos livros Crônicas da Surdez, Novas Crônicas da Surdez e Saia do Armário da Surdez e lidera a maior comunidade digital do Brasil de pessoas com perda auditiva que são usuárias de próteses auditivas.

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