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Relatos de CAPACITISMO: pessoas com deficiência auditiva

relatos de capacitismo

O capacitismo está presente em todas as esferas da nossa vida: em casa, no trabalho, com os amigos e em qualquer lugar. A surdez é uma deficiência invisível e ficou cravada na mente das pessoas com um estereótipo que não condiz com 95% dos surdos no mundo. Por isso, coletei relatos de capacitismo de pessoas com deficiência auditiva dentro do grupo Surdos Que Ouvem, que possui 22.000 membros.

Você sabe quantos surdos há no mundo em 2022? 1,5 BILHÃO, segundo a OMS. Desses, apenas 30 milhões têm surdez profunda e poderiam se encaixar no estereótipo padrão de surdez que vive no imaginário social(detalhe: nem todos se encaixam, ok?): não ouve, usa língua de sinais, não se comunica pela fala.

Esse desconhecimento sobre a diversidade da surdez acarreta situações de capacitismo bizarras para os surdos que ouvem através de aparelhos auditivos ou implante coclear. As pessoas se sentem no direito de dizer – e fazer – absurdos porque não ‘acreditam’ na nossa surdez. Aparelhos auditivos e implantes cocleares não curam a surdez, basta a pilha acabar ou estarmos sem eles por algum motivo que a deficiência auditiva continua lá.

A seguir, relatos de capacitismo enviados por pessoas com deficiência auditiva usuárias de aparelhos auditivos e implante coclear em diversas situações!

O QUE É CAPACITISMO

Capacitismo é todo tipo de preconceito e discriminação dirigidos a pessoas com deficiência, de modo velado ou escancarado.

 

Relato de Capacitismo: recrutador de multinacional

Em uma entrevista em uma multinacional ouvi da entrevistadora ” você é boa, tem um currículo bom , mas procuramos deficiências visíveis para comover o cliente, se pelo menos você usasse libras…”.
Relato de Capacitismo: estudante de jornalismo
Sou estudante de jornalismo. Um dia estava no estágio e precisei ir cobrir fotograficamente um evento da empresa que eu estagiava. Quando estava fazendo a cobertura, meu colega de estágio apareceu no local e me disse que a chefe mandou ele pra fazer entrevistas, pois disse que não adiantava eu fazer porque eu não iria ouvir os entrevistados mesmo. Fiquei chateado, pois sou um surdo que ouve e podia fazer sim as entrevistas.

Relato de Capacitismo: trabalhador do comércio

Você não pode atender este cliente! Ele é surdo e você também! Como vão se comunicar?

Relato de Capacitismo: na família

Encontro de família. Dois parentes conversando e rindo. Consegui ler os lábios deles e eles falavam e faziam gestos com a mão. Um perguntou ao outro será que se desse um tapão no ouvido dela melhoraria rapidinho? E riram. Olharam para mim e falei entendi o que disseram e ficaram sem graça e falaram que era brincadeira. Falei que era uma brincadeira de mau gosto e eles que mereciam um tapão naquele momento. Dois homens adultos sem consciência do que falam. Até hoje quando a família se reuni eu evito o máximo ficar próxima deles.

Relato de Capacitismo: mundo corporativo

Ao me apresentarem para um novo colega de equipe: “Essa aqui é nossa PCD”, sendo que os demais colegas tinham nome.

Relato de Capacitismo: consultório de fonoaudiologia

Eu fazia fonoterapia com umas estagiárias que falavam as coisas e pedia para eu repetir e quando eu nao entendia ficavam zombando da minha cara.

Relato de Capacitismo: na escola

Já ouvi de uma colega de escola uma coisa que me deixou bem irritada na época. Depois de mtos anos a gente se encontrou por um acaso, e ela viu meus aparelhos no ouvido, e perguntou o que eram e eu expliquei tudo com paciência. Quando terminei, ela disse: “poxa, triste por ti, você está tão linda, nem parece que é doente”. Gente aquilo foi a gota d’água. Na empresa aonde trabalho surgiram umas vagas e eu disse que queria tentar uma promoção. Minha chefe na época disse: “Vocêc tem que dar graças a Deus que a empresa trabalha com cota, senão poderia estar desempregada ou lavando banheiro pra alguém!”. Aquilo doeu mto em mim. O tempo passou e eu realmente percebi que todos os funcionários que são PCD na empresa aonde eu trabalho, não tem oportunidade como os demais funcionários, somos vistos apenas como ‘cota’. Pra alguns até mesmo como um peso.
Relato de Capacitismo: empresária

Fui atender uma cliente na minha loja que estava de máscara e falava caminhando. Nãoentendi várias vezes o que ela falou. Pedi que repetisse pois expliquei que era surda. Ela me falou: “Se você é surda, o que está fazendo aqui?”

Relato de Capacitismo: professora

Uma diretora de escola me disse uma vez: “o que tu faz aqui, se és surda?” Detalhe: já trabalhava há 15 anos nesta escola, sempre independente, nunca dependi de direção alguma para gerenciar minhas turmas e salas de aula. Mas a dita era nova no cargo e se irritou porque pedi que falasse de frente comigo devido à leitura orofacial.
Relato de Capacitismo: colega de trabalho
Um colega de trabalho informou em uma reunião que estava sobrecarregado pois absorvia todo o trabalho já que sabia que eu era “especial”. Detalhe: ele foi demitido e eu continuo plena em minha funções na empresa.

Relato de Capacitismo: dono de loja

Não consegui entender um cliente de máscara, pedi pra ele repetir. Não entendi. Expliquei que era surda, pedi pra ele falar mais alto. Ele responde:” se é surda não deveria trabalhar com o público”.

Relato de Capacitismo: empreendedora

Eu tenho uma empresa junto com o meu marido. Ele grita muito e às vezes é até bem grosso com todos. Fui questionar esse comportamento e ele simplesmente respondeu que grita porque ”eu não escuto”! Na frente dos funcionários..? ?

Relato de Capacitismo: médica

Sou médica, e quando fui chamada para uma emergência na residencia de uma paciente em Ipanema, em UTI móvel, a filha da paciente gritou aos 4 ventos que era um absurdo mandar uma médica surda para atender a mãe. Isso tudo porque pedi o whatsapp ou sms do médico assistente para conversarmos, ao invés de ligação telefônica.

Relato de Capacitismo: estagiária

Consegui meu primeiro emprego , sou estagiária de uma clínica de imagens. Estou trabalhando com uma colega que se formou junto comigo no ensino médio, ela não me deixa fazer NADA, e sempre que entendo errado o nome dos pacientes que ela me fala pra eu chamar. Ela e a médica riem de mim. Fico extremamente chateada, inclusive ela procurou minha melhor amiga pra conversar sobre mim sendo que minha melhor amiga nem sabia que eu e ela estávamos trabalhando juntas , em vez de vim conversar comigo. Me sinto super isolada no trabalho devido a isso, pois todo mundo fala baixo, apenas a minha supervisora e uma faxineira que é surda também que tiram a máscara para conversar comigo, o resto…..

Relato de Capacitismo: segurança

Trabalhava em uma empresa de segurança privada (área do monitoramento). Os donos sempre foram muitos respeitosos com meu problema mas, os colegas de trabalho sempre faziam piada de como eu não conseguia escutar, e por quantas vezes tinham que ficar repetindo o que falavam. Era sempre um falando e os outros rindo, como se fosse uma piada. Pior é que eu ria junto, tentando deixar menos desconfortável, porém, sempre foi uma dor. Situação era recorrente e bem difícil.

Relato de Capacitismo: professora de escola

Dava aula em uma escola. Havia uma turma difícil e eu não tinha conhecimento de como os outros professores de outras disciplinas estavam lidando porque nunca era convocada para as reuniões do bimestre. Eu dava aula em várias unidades da escola. E mesmo assim tive os relatos de alguns professores que estavam sem paciência a ponto de nem darem aulas. A coordenadora veio falar comigo e já veio afirmando que eu desliguei o aparelho. Na hora falei: “Que absurdo é esse, de onde tiraram essa ideia?” – era um lugar tóxico onde o erro do outro era valorizado. Então todos muito compenetrados em fazer o outro parecer medíocre.

Relato de Capacitismo: bancária

No banco, sessenta reais ou setenta reais, estava confirmando com cliente fazendo sinal de 6 de sessenta e 7 de setenta reais. Cliente respondeu educadamente, porém, veio o gerente discutiu comigo que não é para eu fazer tantas perguntas porque deixava a fila grande. Pediu para eu ficar quieta e atender rápido!
Relato de Capacitismo: funcionária de hospital
Uma enfermeira de um hospital onde eu trabalhava na farmácia. Fui entregar os medicamentose ela falou pra outra: “pode xingar ela de fdp que ela não vai ouvir”. Então eu disse: “Cuidado que eu faço leitura labial!”. De cabeça erguida eu disse isso, mas depois sozinha chorei…
Relato de Capacitismo: funcionária pública
“Mas é só você se esforçar um pouco que vai conseguir entender a palestra sem legendas” (auditório escuro, enorme e cheio de eco).

Relato de Capacitismo: funcionária pública

Ouvi de uma pessoa próxima: “pra você é fácil passar em concurso, quase não existe deficiente com nível superior” ? Até hoje isso me dói.

Relato de Capacitismo: estudante de enfermagem

Me matriculei no curso enfermagem e teriam algumas aulas online e perguntei se teria legendas, uma professora respondeu que não teria legendas e para ser um Enfermeiro profissional precisava ter todos os órgãos do sentido funcionando plenamente ?

Relato de Capacitismo: gerente

No trabalho anterior no qual pedi demissão, houve uma reunião com todos os gerentes regionais e meu líder deixa claro para falar mais alto, pois eu era surda…e na seqüencia uma gargalhada geral.
Relato de Capacitismo: assistente administrativo
A pessoa trabalhava comigo, sabia que não precisa gritar (eu estava ao lado da moça). Me humilhava, de todas formas, isso gritando, vc não mexe nas minhas coisas (eu não tinha mexido), não gosto dessa surda. Foi um inferno
Relato de Capacitismo: motorista de Uber
“Como você pode dirigir surda??”
“Usando os pés nos pedais, mãos no volante e os olhos super atentos nos retrovisores e ao redor”
(Passageira no meu carro. Uber)

Relato de Capacitismo: médico otorrino

Não foi no trabalho, eu numa consulta com um otorrino, tinha uns alunos da faculdade no consultório, e eles estavam conversando. Aí fiz uma pergunta, o médico me perguntou: “você não está ouvindo a conversa não?”. Ele usou um tom pejorativo, e eu respondi: “não é tudo que eu entendo não doutor”. Ele ficou sem graça.

Relato de Capacitismo: psicóloga

Trabalhei em uma empresa por 2 anos e fui muito elogiada pela minha competência até descobrirem que minha surdez havia piorado e que precisei mudar de aparelhos auditivos. Conclusão fui demitida na semana seguinte em meio a pandemia depois do decreto em que não se podia demitir PCDs caiu. Sim fui demitida pela surdez apesar da minha competência e não pude me defender porque foi planejado para que não houvessem testemunhas. E nem foi minha chefe quem me demitiu pois ela não queria que eu saísse, foi uma outra pessoa acima dela, pois, ela estava de licença maternidade. Simplesmente foi a demissão mais rápida da história.

Relato de Capacitismo: funcionária pública

Sou funcionária pública há 30 anos, sempre atendi o público. Em 2019 vim para uma repartição nova, aqui nas primeiras semanas sofri preconceito de uma estagiária, narrei para o chefe e ele solidário perguntou se eu queria dispensar a estagiária. Minha resposta foi: ” Não, ela é jovem e não conhece a vida, não costumo desistir das pessoas.” A menina veio me pedir desculpas e hoje tenho ótima conexão com ela. Tenho certeza que ela aprendeu. Segunda situação, meu chefe supremo tem um problema no braço (vítima da talidomida), e acreditem, não tem paciência comigo. Disse: ” conversar com você só por WhatsApp.” Doeu sim, mas continuei cumprindo minha função e ele precisou de mim algumas vezes e quem tinha a melhor produtividade, quem segurou as pontas? A surda, a louca.

Relato de Capacitismo: professora

A diretora da escola quando eu passei no concurso: “Mas como vc vai dar aula se vc não escuta?”

Relato de Capacitismo: colega de trabalho

Uma colega de trabalho falou ao meu lado de máscara e eu não entendi. Pedi pra repetir. Ela falou cadê teus aparelhos? Não está usando? Respondi que sim, mas que isso acontece. Ela disse então ele não serve? O detalhe é que foi ela quem fez a vaquinha pra eu comprar os aparelhos.Me senti tão mal, como se o esforço dela fosse em vão. Mas prossigo usando sei que me ajuda bastante. As pessoas em sua maioria desconhecem a utilidade dos AASI.

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About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

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