a surdez em bebês é uma urgência neurológica

A SURDEZ em bebês é uma URGÊNCIA neurológica

Os primeiros nove meses: por que a audição precoce importa mais do que nunca

Por Andrej Kral e Gerard O’Donoghue

Imagine um recém-nascido olhando para o rosto de quem cuida dele, ouvindo sua voz e sentindo o ritmo das palavras. Em poucas semanas, o bebê começa a balbuciar – uma dança complexa de som, visão e movimento que cria a base da linguagem. Mas, para um bebê nascido surdo, essa dança é interrompida. O ritmo falha. O desenvolvimento do cérebro corre o risco de sair do compasso.

Essa é a realidade para 32 milhões de crianças em todo o mundo. Aparelhos auditivos e implantes cocleares (ICs) podem restaurar o acesso ao som, mas o tempo é tudo. A descoberta central do nosso artigo recente na Hearing Research é que o som deve ser restaurado dentro dessa janela para que a linguagem e a cognição floresçam.

A novidade aqui é que o sistema motor, há muito tratado como periférico à linguagem, é na verdade central. Quando bebês ouvintes balbuciam, imitam e participam de trocas de conversa, eles ativam um circuito motor-audição-linguagem que estrutura o vocabulário e a função executiva (Figura 1).

Quando o acesso auditivo é tardio, esse circuito se dessincroniza. O cérebro então se apoia em alternativas visuais e motoras, mas os circuitos principais para audição e linguagem saem de fase antes mesmo das primeiras palavras surgirem.

Se você é mãe de um bebê surdo ou de uma criança, temos um GRUPO DE APOIO no Whatsapp com centenas de mães de surdos que ouvem. Basta se associar ao CLUBE dos Surdos Que Ouvem para ter acesso.

surdez em bebes

Figura 1: Circuito cerebral simplificado motor-audição-linguagem. O córtex pré-frontal apoia a função executiva que inicia a ação motora, causando um ato motor. Isso afeta a entrada sensorial e fornece informações ao cérebro sobre o movimento. Essas áreas recebem informações sobre a mudança no ambiente causada pelo movimento (auditiva, visual, sensorial) que são enviadas de volta à cognição, formando um ciclo fechado complexo.

Quando o acesso auditivo chega tarde, as rotinas motoras já praticaram sem som. O tempo que normalmente une a percepção à ação está desalinhado. Essa dessincronização é a semente da lacuna cognitiva que muitas crianças surdas enfrentam.

A implicação prática é clara: restaurar o acesso ao som antes dos nove meses de idade, um marco crítico de comunicação. As crianças surdas ficam, então, posicionadas para desenvolver habilidades de linguagem e pensamento muito mais próximas de seus pares ouvintes. Esta é, antes de tudo, uma história sobre desenvolvimento cerebral e, logo em seguida, uma história sobre tecnologia auditiva.

surdez em bebes 2

Figura 2: Dados de vendas de empresas de implante coclear mostram que, das crianças que recebem o implante nos primeiros três anos de vida, menos de 20% o fazem no primeiro ano. A análise de dados entre 2017 e 2023 não mostra mudança significativa nessa porcentagem.

A urgência é óbvia. A triagem neonatal avançou enormemente, mas os caminhos clínicos muitas vezes ficam presos na mentalidade de tratar “até os três anos”, especialmente para candidatos ao Implante Coclear. Nossa síntese mostra por que esse cronograma perde a janela natural de conexão do cérebro e como isso pode ser corrigido.

Confirmação diagnóstica, adaptação oportuna de aparelho auditivo e – em casos adequados – implante coclear antes dos seis meses são viáveis em centros experientes. Combinar isso com comunicação multimodal liderada pelos pais garante que a troca de turnos (o vai e vem da conversa), o olhar e os jogos rítmicos sejam intensos e responsivos desde o início. A ciência fornece um modelo para fechar essa lacuna prejudicial.

Esta é uma defesa baseada na melhor evidência científica disponível. Estamos atentos à segurança, aos julgamentos de risco-benefício e às prioridades da família. Nem todo bebê é candidato ao implante, e o consentimento na infância exige consideração cuidadosa. Objetivos de linguagem da família importam. Nossa ênfase está na qualidade mensurável da interação, pois métricas de densidade de conversa e ambiente de linguagem demonstraram correlacionar-se com o desenvolvimento cortical. O timing preciso mais a interação enriquecida são a chave.

A experiência vivida espelha a ciência. Os melhores resultados geralmente surgem quando as famílias experimentam um encaminhamento oportuno da triagem neonatal para o diagnóstico, passando pela adaptação do aparelho auditivo e, quando apropriado, implantação precoce. Os pais são então orientados na troca de turnos responsiva e na fala direcionada ao bebê. Assim, seus bebês se engajam nos mesmos circuitos motor-audição-linguagem que os estudos de imagem mostram ser essenciais.

Na prática clínica, isso seguiria um paradigma mensal 1-3-6-9:

  • 1: Triagem

  • 3: Diagnóstico

  • 6: Acesso ao som (teste com aparelho auditivo, etc.)

  • 9: Implante Coclear (IC)

O que distingue este trabalho da literatura anterior é a ênfase na integração oportuna. Pesquisas anteriores documentaram a plasticidade auditiva, enquanto outros estudos destacaram os benefícios do cuidado responsivo. Aqui, unimos os fios: padrões de ressonância magnética funcional mostrando envolvimento motor na linguagem precoce, alinhados com medidas reais de interação cuidador-bebê e mapeados contra cronogramas clínicos para restauração auditiva.

Essa triangulação gera uma afirmação que muda a prática: mantenha a percepção e a ação em sincronia durante o primeiro ano de vida do bebê, e os ganhos futuros em linguagem e cognição serão maiores e mais confiáveis. Para bebês surdos, a sincronização requer acesso oportuno ao som. Caso contrário, a plasticidade neural é desperdiçada.

A mensagem principal é simples e profunda: o acesso precoce ao som, combinado com interação enriquecida, previne a dessincronização e dá aos bebês surdos a melhor chance de prosperar.

Os primeiros nove meses não são um período de espera – são o momento em que a linguagem, a conexão social e a cognição são forjadas. Para otorrinos, fonoaudiólogos e pediatras, a mensagem é urgente: não atrase o acesso ao som. Com intervenção precoce e apoio centrado na família, crianças surdas podem crescer, aprender e prosperar, atingindo seu potencial total ao lado de seus pares ouvintes.

Reference:

1. Kral A, Kishon-Rabin L, O’Donoghue GM, Romeo RR. Sensorimotor contingencies in congenital hearing loss. Hear Res 2025;467:109401.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Inscreva-se