Teste da Orelhinha: você é contra ou a favor?

Acho que a pergunta nem precisava ser feita, né? Saúde é saúde. Qual pai ou mãe não vai querer fazer o Teste do Pezinho ou o Teste da Orelhinha no seu bebê recém nascido? Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de alguém ser contra o Teste de Orelhinha. Até que encontrei este vídeo, feito por um surdo sinalizado. O teste é obrigatório por lei desde 02/08/2010.

Segundo o Guia do Bebê :

“Um dos sentidos mais importantes para o desenvolvimento completo da criança é a audição. O bebê já escuta desde bem pequeno, antes mesmo de ser erguido pelo doutor em sua apresentação ao mundo. Isso acontece a partir do quinto mês de gestação, onde o bebê ouve os sons do corpo da mamãe e sua voz. É através da audição e da experiência que as crianças têm com os sons ainda na barriga da mãe que se inicia o desenvolvimento da linguagem. Qualquer perda na capacidade auditiva, mesmo que pequena, impede a criança de receber adequadamente as informações sonoras que são essenciais para a aquisição da linguagem. Bom, depois dessas informações fica mais fácil saber a importância do Teste da Orelhinha, ou Triagem Auditiva Neonatal, que é realizado já no segundo ou terceiro dia de vida do bebê. Ao contrário do nome parecido com o teste do pezinho, no Teste da Orelhinha não é preciso fazer um furinho na orelha do bebê (ainda bem). Esse exame consiste na colocação de um fone acoplado a um computador na orelha do bebê que emite sons de fraca intensidade e recolhe as respostas que a orelha interna do bebê produz. O exame logo ao nascer é imprescindível para todos os bebês, principalmente àqueles que nascem com algum tipo de problema auditivo. Estudos indicam que um bebê que tenha um diagnóstico e intervenção fonoaudiológica até os seis meses de idade pode desenvolver linguagem muito próxima a de uma criança ouvinte. O grande problema é que a maioria dos diagnósticos de perda auditiva em crianças acontece muito tardiamente, com três ou quatro anos, quando o prejuízo no desenvolvimento emocional, cognitivo, social e de linguagem da criança está seriamente comprometido.”

 

No vídeo abaixo, que é uma parte do documentário americano Som e Fúria (foi exibido no GNT) vemos um contraponto muito interessante. Hoje em dia, a surdez não é mais um ‘jogo de azar’, ou seja, a tecnologia permite que bebês surdos façam o implante coclear e passem a ouvir, ou usem aparelhos auditivos (cada caso é um caso). E ter um implante coclear ou usar aparelhos NÃO FAZ DE NINGUÉM MENOS SURDO. No momento em que você desliga, que a pilha acaba ou ele dá problema, você está de volta ao silêncio. A criança pode transitar nos dois mundos: o do som (ouvinte) e do silêncio (surdos). Porque privar uma criança da audição se ela pode tê-la? Esse argumento usado pela ‘comunidade surda’ de que é preciso dar continuidade à Língua de Sinais não é válido, ao meu ver. A vida de bebês não deve se prestar a esse propósito que é do interesse apenas de adultos surdos sinalizados.

O que vocês pensam a respeito disso? Particularmente, fiquei assustada com esse lobby contra o Teste da Orelhinha que a ‘comunidade surda’ tem feito com força. Me parece um enorme retrocesso. Audição é saúde, sim! Mesmo que não seja perfeita como a de um ouvinte sem nenhum problema auditivo. Mesmo que seja possível somente através da tecnologia. Se não fosse, não seria considerada um sentido.

Concordo que os pais de bebês surdos devem receber TODAS as informações a respeito de suas opções – implante coclear, aparelhos auditivos, Língua de Sinais. A escolha é deles. E quando um bebê faz implante coclear ou usa AASI, ele não deixa de ser surdo e, quando crescer, se assim desejar, pode parar de usá-los e viver apenas no ‘mundo surdo’. Penso que os pais devem dar SIM a opção de ouvir ao seu filho.

Essa problemática ‘cultural’ se dá apenas na deficiência surdez. Nunca vi um cego ser contra outro cego utilizar a tecnologia para recuperar a visão, se puder e desejar. Nunca vi um deficiente físico ser contra outro deficiente físico se empenhar em ter seus movimentos de volta.

Uma criança surda tem direito de ter a opção de transitar nos dois mundos: o dos ouvintes e o dos surdos. A escolha de permanecer em apenas um deles deve ser única e exclusivamente dela, quando tiver idade para tomar essa decisão.

Sobre surdos, LIBRAS, acessibilidade e notícias equivocadas sobre surdez

Sobre surdos, LIBRAS, acessibilidade e notícias equivocadas sobre surdez

Me corta o coração quando um jornalista, escritor ou qualquer outra pessoa cujo trabalho atinge milhares de outras pessoas publica informações equivocadas a respeito do assunto surdos e surdez. É tanta generalização que não sei nem por onde começar. Em primeiro lugar, a parte mais desgastante (e isso é por preguiça de pesquisar o assunto) é ter que ler as seguintes bobagens:

  • todo surdo é mudo
  • todo surdo se comunica através de LIBRAS
  • a lingua de sinais é a língua do surdo
  • crianças surdas devem estudar em escolas especiais para surdos
  • todo surdo precisa de intérprete
  • acessibilidade para surdos é a janelinha com o intérprete na TV
  • quem nasce surdo vai continuar surdo até o fim da vida
  • todo surdo faz parte da ‘comunidade surda’

Pelo amor de Deus, gente!! Afirmar esse tipo de coisa é um absurdo, em pleno ano de 2011. Vamos esclarecer, então?

Eu sou surda. Eu NÃO me comunico através de Libras. Eu falo. Eu escuto muito bem com aparelhos auditivos. Nunca estudei em escola especial. Não preciso de intérprete. Acessibilidade pra mim tem a ver com legendas nos programas de TV, avisos luminosos em certos locais, atendimento via chat, SMS e coisas assim – aquela janelinha de Libras na TV e chinês pra mim são a mesma coisa. Não faço e nem quero fazer parte de nenhuma ‘comunidade surda‘.

Dá até vontade de perguntar: “entendeu ou quer que eu desenhe??”

Existem surdos sinalizados (estes sim podem se enquadrar nas informações descritas lá em cima no início do post) e surdos oralizados. Surdos oralizados usam aparelhos auditivos ou implantes cocleares (ou não usam nenhum dos dois, inclusive) e são experts em leitura labial. Surdos oralizados falam como qualquer pessoa ‘normal’ (ou melhor, ouvinte). Alguns surdos oralizados também conhecem a Libras e se comunicam com seus amigos/colegas/parentes que são sinalizados através dela – e são considerados bilíngues. Surdos oralizados são pessoas independentes, dominam o português falado e escrito e não necessitam de uma terceira pessoa envolvida na sua comunicação (um intérprete). Surdos oralizados NÃO vivem em função da surdez e NÃO vivem presos a um grupo pequeno de pessoas (a chamada “comunidade surda”).

A sensação que eu tenho quando leio qualquer notícia sobre surdos/surdez que envolva também a Libras é de que a pessoa que escreveu sentiu pena. “Ai, coitadinhos“. Raríssimos são os jornalistas/escritores IMPARCIAIS quando se trata desse assunto. Se existem dois tipos de surdos e os mais variados graus de surdez, vamos esclarecer isso, pôxa! Hoje em dia, ser surdo não significa viver no silêncio – os aparelhos auditivos de última geração  e os implantes cocleares estão aí para provar!!

Agora, me digam:

  • Onde está o futuro e as perspectivas profissionais de alguém que não domina a língua do país no qual vive – e não estou falando do português falado, mas sim do português escrito??
  • Porque o governo não investe dinheiro em uma educação intensiva e de qualidade direcionada a surdos sinalizados para que eles dominem TAMBÉM o português escrito e não sejam eternamente dependentes de alguém??
  • Como alguém pode achar que um pai ou uma mãe que querem dar ao seu filho surdo a opção de ouvir estão aniquilando a criança?
  • Como alguém pode julgar os pais que querem que seu filho surdo conviva com todos os tipos de crianças e não viva em função de uma deficiência?

A propósito: essa ladainha e essa lavagem cerebral toda só acontecem em função da militância incessante da ‘comunidade surda’ e seus simpatizantes para que as pessoas acreditem que todas as informações erradas são certas. Para que o mundo não saiba da existência dos surdos ORALIZADOS. Para que o mundo continue acreditando que não há alternativa ao silêncio. Existe diversidade dentro da surdez, por mais que esse grupo queira fingir que não.

Ou alguém já viu um deficiente visual dizer que um deficiente visual que usa óculos ou faz uma cirurgia para recuperar a visão está se submentendo ao mundo dos que enxergam? Ah, me poupe, vai!

Eu admiro muito os surdos bilíngues. E não consigo ver vantagem alguma em se comunicar somente através de Libras e sequer dominar o português escrito. Na verdade, penso que isso é o mesmo que viver trancado dentro de uma bolha. E eu quero o mundo!!!

PS: antes de publicar seja lá o que for sobre surdos e surdez, PESQUISE!!! Se informe, e não publique bobagens.

PS.2: para saber tudo sobre Implante Coclear, leia o Desculpe, Não Ouvi!

E por último, às pessoas que têm vindo aqui me atacar e mandar emails com desaforos, leiam o post. E aceitem o fato de que

EXISTE DIVERSIDADE DENTRO DA SURDEZ! Surdos oralizados não são MENOS SURDOS do que surdos sinalizados.

Profissão: Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores

Profissão: Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores

 *depoimento do leitor Gilberto Ferreira

“Para falar de superação, tenho que falar dos meus pais. Tenho que falar dos meus avôs. Estes, sim, são exemplo de superação. Eu sou apenas um dos frutos da superação deles. Meus avôs paternos, deixaram Portugal porque a crise lá estava brava e não tinham como garantir a subsistência. Assim, partiram para o Brasil, um país desconhecido, com um filho pequeno (irmão mais velho de meu pai) para nunca mais tornar a ver a terra natal. Já minha mãe é filha e neta de pescadores no nordeste. Gente humilde, sem muita instrução. Que também migrou para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor.

O que essas famílias tinham em comum, além da pobreza e da paixão mútua que meus pais tem por si até hoje? Acreditavam na educação! Apesar de todas as dificuldades, meus pais estudaram no Colégio Pedro II, melhor escola disponível no Rio de Janeiro naquela época… E foram os primeiros de ambas as famílias a obter o diploma de nível superior! E meus avôs transmitiram esse valor a todos os seus descendentes. Tenho uma tia, por exemplo, que só conseguiu se formar com mais de 50 anos, mas não desistiu até conseguir! Na minha geração, todos têm curso superior.

Infelizmente (felizmente para nós, os filhos!), minha mãe, como acontecia naquela época, abandonou a carreira para cuidar dos filhos. Eu e meus irmãos jamais saberemos o quanto ela sacrificou por nós. Meu pai, o humilde filho de imigrantes, fez concurso para a Petrobrás, passando nos primeiros lugares. Mas, quando lhe foi oferecida uma oportunidade para desenvolver um projeto da OEA na Colômbia, não hesitou em partir (como seus pais) para um país desconhecido com filhos pequenos. Depois, novamente, fomos morar em mais um país: meu pai foi fazer Mestrado e Doutorado em Educação (claro!) nos EUA.

E é por tudo isso que, quando a Paula me pediu para escrever sobre a minha suposta história de superação, eu hesitei. Quem entende de superação são meus pais. Quem entende de superação eram meus avós. Eu já encontrei a estrada pavimentada. Deles herdei a curiosidade pelo conhecimento… O gosto pelo aprender…

E tive sorte! Muita sorte! Minha deficiência foi diagnosticada quando morávamos nos EUA. Lá tive à minha disposição toda a assistência e aparelhagem necessária (que, embora, no século XXI pareçam até bem toscos, não existiam no Brasil na época). Morávamos em Pittsburgh e lá havia uma política de integração na educação para deficientes (fossem auditivos, visuais, cadeirantes, etc.), adapatação de uma já bem sucedida política de miscigenação racial (lembre-se que estamos falando dos EUA dos anos 70). Assim, escolas comuns eram adaptadas para receber portadores de uma determinada deficiência.

E lá fui eu, para uma High School bem longe da minha casa (a prefeitura pagava um táxi me pegar em casa e me deixar ao final das aulas) preparada com equipamentos, fonoaudiólogos e professores especializados. Mas o mais importante é que a escola era equipada com alunos! Isto mesmo, alunos comuns. E havia a preocupação de não colocarem mais de um aluno surdo na mesma sala. Assim, estes tinham que aprender a conviver com não-surdos e os não-surdos tinham uma grande lição de convivência.

A idéia era integrar os deficientes auditivos no mundo. E isso implicava falar inglês, ler lábios, usar aparelhos. A língua de sinais era desestimulada, porque reduzia o convívio a pequenos de guetos de pessoas que dominavam esse idioma… Havia professores que traduziam as aulas para alunos transferidos que já dominavam a linguagem manual e ainda não tinham capacidade de acompanhar as aulas de outra forma. Mas isso era gradualmente suprimido. Falando assim, parece que era fácil, né? Mas não era fácil, não! Tínhamos fonoaudiologia na escola todos os dias. Aulas de acompanhamento, digitação (num tempo pré-sms e internet, serviam para rudimentares telefones que transmitiam sinais digitais)…. and so on

Me integrei rápido. Fiz muitos amigos… Dei meus primeiros beijos… Joguei pelo time de futebol da High School… Mas o inevitável chegou: o momento de voltar para o Brasil. No Brasil, segui minha vida. Terminei o segundo grau. Continuei praticando esportes (jogava handebol e, depois, fui remador). Me formei em Educação Física…

No Brasil, nunca tive a preocupação em contar sobre a minha deficiência para os meus amigos. Apenas os mais próximos sabiam. Não era vergonha. Pelo menos, não no sentido típico que se atribui ao termo. Também não era segredo, se me perguntassem, falaria numa boa. O que eu não queria era ser tratado de forma diferente. Faz alguns anos, porém, incentivado por uma ex-namorada, comecei a agir de modo diferente. Ela me disse: “Eu sei que você está perfeitamente integrado e não precisa disso. Você já tem complexo de Super-Homem (é como ela chamava o fato de eu achar que podia fazer tudo!), mas pense em quantos surdos não tiveram a mesma sorte que você…”. Fiquei algum tempo ruminando isso. Pensando na sorte que tive. Nos pais e avós que me ensinaram o prazer de ler (sou um leitor compulsivo), no quanto a política educacional de Pittsburgh me permitira ir além… Não teria conseguido me formar, fazer concursos ou ter a vida social que tenho se não dominasse a língua oral. Nem todos têm essa sorte (alguns têm a oportunidade, mas não aproveitam), e resolvi assumir a minha deficiência.

Na época, eu já era servidor público e me preparava para fazer outro concurso. Pela primeira vez, concorri como PNE. Passei e fui trabalhar na Promotoria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Passei quase dez anos lá e fiz grandes amigos (já repararam que eu adoro fazer amigos, né?). Mas, há cerca de 3 anos, algumas circunstâncias me acenderam o desejo de sair da Promotoria… Comecei a me preparar para fazer concurso para Fiscal de ICMS do RJ.

Ainda no começo da preparação, saiu edital para o concurso de Oficial de Chancelaria do Itamaraty. Nunca havia ouvido falar nesse cargo, mas resolvi procurar na Internet algo a respeito. E… Gostei do que vi! Era justamente o que eu queria! A oportunidade de viajar… conhecer outras culturas… outros idiomas… Redirecionei os meus estudos e passei! Estou no Itamaraty há dois anos. As funções de um Oficial de Chancelaria são administrativas ou consulares. Ou seja, o OC cuida da administração das embaixadas e consulados do Brasil no mundo, além de lidar com os brasileiros que necessitem de alguma coisa, no exterior, ou estrangeiros que queriam ir para o Brasil. Os diplomatas têm trabalho mais político. A grosso modo, diplomatas lidam com países e Oficiais de Chancelaria lidam com pessoas.

Nunca tive problemas por conta de minha deficiência no Itamaraty e conheço uns 6 PNE’s (3 deles, além de mim, auditivos). E nunca soube de nenhum problema. Esta é uma das coisas mais bacanas, no meu entender, do Itamaraty: tudo muda o tempo todo!! Se não é você que muda de país (e de função), é o seu chefe ou o seu colega. Não tem essa de “chegueimeacomodeietôaquifazendoamesmacoisaquefaziahádezanos!”… Eu, por exemplo, estou na Eslovênia desde setembro. Fico aqui até pelo menos dezembro. Vim cobrir a licença de uma colega. No ano que vem, pretendo sair em definitivo (leia-se 2 a 5 anos) para algum país diferente.

Os deficientes auditivos que conheço no trabalho não precisam de nenhuma adaptação de acessibilidade, mas os visuais contam com monitores de computador que são verdadeiras televisões, além de outras adaptações. Tenho certeza de que, se eu precisasse, não teria problemas em obter alguma coisa. Eu não uso aparelhos. Quando criança, ainda em Pittsburgh, fiz experiências com vários tipos de aparelhos auditivos. Tanto os que vão atrás da orelha, quanto uns enormes que se carregava no peito (acho que nem existem mais), mas nunca me adaptei. Por coincidência, conheci um esloveno que também é deficiente auditivo e estivemos conversando a respeito. Ele usa um aparelho top de linha e me aconselhou a testá-lo, uma vez que a tecnologia avançou muito! Mês que vem, vou a uma consulta e, provavelmente, farei um test-drive… Prometo contar a vocês a minha impressão depois!

Inté breve!”

Falta de legenda/closed caption no GNT e na RBSTV

Falta de legenda/closed caption no GNT e na RBSTV

Ontem (segunda-feira), a RBSTV – afiliada da Rede Globo na região Sul do Brasil – avisou que, no jornal das 19hs, haveria uma matéria sobre deficientes auditivos. Achei cômico, porque nenhum jornal deles tem legenda/closed caption. Perguntei umas 20x no Twitter @RBSTV o motivo disso e nunca me responderam, até que um dia disseram que uns 3 ou 4 programas deles tinham legenda. Entre eles, o Patrola. Aí fui conferir. Durante 3 finais de semana seguidos, quando começava o Patrola, eu ligava todas as TV’s de casa e em nenhuma delas a legenda funcionava. Perguntava pros amigos online se na TV deles funcionava, e também não. Mas a RBSTV afirma categoricamente que o Patrola tem legenda. Nem mesmo o Jornal do Almoço ou o TeleDomingo têm legenda e, cá entre nós, eu acho isso uma vergonha, especialmente porque se trata de uma afiliada da Rede Globo, que disponibiliza legenda em todos os seus programas!!!

Antes que me esqueça, a matéria era sobre uma resolução do DETRAN-RS a respeito da carteira de habilitação para deficientes auditivos. Um funcionário (não lembro se do DETRAN ou de um CFC) afirmou no ar que “os deficientes auditivos vão muito mal na prova teórica porque eles não têm vocabulário para fazer a prova“. Enquanto isso, mostravam uma moça surda bilíngue que se comunicava através de LIBRAS e articulava os lábios muito bem – e dava para entender absolutamente tudo o que ela dizia, e ela usava AASI. Vão começar a disponibilizar intérprete para surdos sinalizados nas provas, iniciativa louvável e necessária. Mas aí enfiar todos os surdos no mesmo saco como se todos tivessem as mesmas necessidades são outros quinhentos.

A pergunta é: até quando vão dizer essas barbaridades sobre surdos por aí? Ok, nós sabemos que muitos surdos sinalizados não dominam o português. Mas e os oralizados e bilíngues que dominam? Poxa vida!!! Acho uma irresponsabilidade da mídia e dos órgãos públicos sair falando esse tipo de coisa. Vão se informar e fazer o seu trabalho direito, pelo amor de Deus. É o caso clássico de falta de pesquisa na hora de fazer uma matéria que vai atingir milhares de pessoas.

Alguém avisa que…

  • Surdos oralizados se comunicam como os ouvintes, não usam LIBRAS e não precisam de intérprete;

  • Acessibilidade para surdos sinalizados é diferente de acessibilidade para surdos oralizados;

  • Surdos oralizados dominam até outras línguas como inglês, espanhol, francês, etc;

  • A LIBRAS não tem utilidade na vida de um surdo oralizado (só se ele tiver amigos surdos sinalizados e quiser se comunicar com eles).

Fico triste demais com o canal GNT. Toda a programação estrangeira deles é legendada, mas nenhum programa nacional é!! Já perguntei 100x no Twitter @CanalGNT e NUNCA obtive resposta. O canal tem programas maravilhosos, como o da Julia Petit, GNT Fashion, Vamos Combinar, Detox do Amor. Porque diabos não podem legendar a programação nacional? É algum tipo de maldade, sadismo?

A pergunta é: a falta de legenda/closed caption (que é uma falta de ACESSIBILIDADE) se dá por qual motivo? Puro pão-durismo? Preguiça? Ou o que?? A legenda não atrapalha ninguém, fica oculta, só vai aparecer na tela da TV se uma pessoa que precisa da legenda ativar o comando CC1 no controle remoto. Realmente não consigo entender. Agora pensem: além de nós, que gostaríamos de ter esse ‘luxo’ (eta país horroroso em que a gente precisa fazer barraco e implorar por direitos básicos em pleno ano de 2011), imaginem a quantidade de idosos e de crianças que também não escutam bem e ficam boiando na hora dos jornais aqui na região Sul. E o pior é que me disseram que em São Paulo também não há legenda nos jornais das afiliadas das grandes emissoras de TV. :(

Então, me ajudem: com quem a gente fala pra resolver isso?????

PS: a Lak Lobato escreveu um post sobre a importância de divulgar a existência dos surdos oralizados.

Vergonha da própria deficiência?

Vergonha da própria deficiência?

Falar abertamente sobre deficiência auditiva é tão natural para mim que chego a estranhar quando alguém me cumprimenta por ter essa ‘coragem’. Depois de algum tempo escrevendo aqui no Crônicas, posso dizer que há uma coisa que me deixa MUITO triste: a quantidade de gente que morre de vergonha da própria deficiência auditiva. Eu sei sei muito bem que cada um de nós tem o seu próprio tempo para superar essa fase. Já passei por isso. Sei o quanto os sentimentos são confusos e o quanto é difícil de aceitar de verdade esse fato.

Somos privados do sentido que controla uma boa parte da comunicação, e por isso mesmo penso que falar sobre a nossa deficiência é algo crucial na formação do nosso caráter – não apenas como ‘deficientes’, mas especialmente como seres humanos. Temos a obrigação moral (por nós e pelas gerações futuras) de ser disseminadores de informação. E como fazer isso sentindo vergonha de si mesmo? Impossível.

Crianças: elas só vão sentir vergonha se aprenderem em casa que devem se sentir mal por isso. Acho crucial que os pais falem sobre o assunto com os seus filhos  sem pudores, preparando-os para enfrentar as perguntas e os olhares alheios. É uma pena que nem todos os pais de crianças ‘normais’ ensinem a elas que as diferenças existem e devem ser respeitadas, e isso só contribui para o bullying que acontece nas escolas. Super-proteger uma criança surda só a torna despreparada para lidar com o mundo real – fora da segurança do lar as coisas não só podem ser como são diferentes. Assim como existem adultos cruéis, existem crianças ainda mais cruéis que eles. Nunca esqueço de uma amiga que me contou que, num vôo dentro dos Estados Unidos, havia uma garotinha surda usando aparelhos auditivos sentada ao seu lado. As duas engataram um papo e minha amiga ficou maravilhada ao perceber o orgulho que a garotinha sentia dos seus aparelhos! Ela contou até que podia ‘vesti-los’ com a cor que quisesse, e escolhia a roupa que ia vestir no dia só depois de decidir que cor colocaria nos AASI. Olha só que fofa!! Com certeza que foram os seus pais que a ensinaram a ter orgulho de si. Não consigo aceitar a idéia de pais que tentam esconder a todo custo a deficiência auditiva do filho. Penso que isso é um ato cruel. Uma violência.

Adolescentes: essa fase da vida é complicada por si só. Na adolescência, as interações sociais se intensificam, e quem não escuta tem duas opções: ou se retrai (e assim corre o risco de entrar em depressão ou ser do tipo anti-social) ou se expande (não deixando que a frustração de não ouvir o afaste das pessoas).

Adultos: que tipo de mensagem um adulto surdo passa para seus filhos ao sentir vergonha de não ouvir? Ao se trancar em casa por medo de ser ridicularizado? Pensem comigo: ser adulto é saber se defender quando necessário. É sentir orgulho das suas lutas e conquistas diárias. A surdez está fora do nosso controle e não é um defeito de caráter.

A quantidade de mensagens que recebo pedindo ‘dicas de como esconder a surdez do namorado‘, ‘dicas de como esconder os aparelhos auditivos‘, ‘dicas de o que fazer para que as pessoas não notem que eu não escuto‘ e afins não tá no gibi. Eu jamais escreveria posts sobre isso, até porque meu lema é: ESCANCARE! Não há como disfarçar o indisfarçável. Perder tempo e energia com isso é absolutamente patético.

Sentir vergonha é sentir medo. Medo de ser ridicularizado, medo de não conseguir se comunicar. Medo do outro. Mas é preciso ter em mente que esse outro não sabe nada de nós, e, se nos causa algum desconforto, isso pode acontecer até sem intenção. A falta de informação faz com que as pessoas tenham atitudes que nos magoam. Mas como um ouvinte pode saber a maneira perfeita de lidar com um deficiente auditivo se nunca precisou lidar com um ou se informar sobre o assunto? É aí que entramos como disseminadores de informação. Numa interação social entre um ouvinte e um surdo que morre vergonha da surdez, o que o ouvinte aprende? Nada!!! Mas no momento em que se relaciona com um surdo que sente orgulho de si e ainda desvenda esse ‘mistério’ para ele, o ouvinte enxerga tudo sob outro prisma e ainda passa a atuar como outro disseminador de informação. Acho isso maravilhoso!!!E penso que todos nós deveríamos praticar diariamente isso.

Desde que superei essa fase e comecei a falar sobre o assunto surdez com todo mundo que conheço, muitos amigos, colegas, conhecidos e até familiares passaram a me tratar de outra forma. De igual para igual. Com respeito. E educação. Sem aquele constrangimento que deriva do fato de que não se pode tocar no assunto – ou porque o surdo não gosta, ou porque sente vergonha. Alguns podem pensar: “Porque falar sobre isso?“. Ora bolas, PORQUE NÃO FALAR? Você não enxerga beleza nas diferenças? Você não entende que ninguém está livre de vir a perder (uma parte da) audição em alguma altura da vida?

Você não quer usar aparelhos auditivos porque eles são grandes? Acho que você devia agradecer aos céus por existir uma tecnologia que lhe ajude a escutar em vez de se importar com os olhares dos outros.

Você tem vergonha do seu marido/mulher por ser surdo? Acho que você devia fazer com que seu marido/mulher sinta orgulho de você ao perceber que você se orgulha de ser quem é, afinal, impossível que ele/ela seja uma pessoa perfeita.

Você se esforça ao máximo para que os outros não percebam que você não escuta? Tenho certeza que sua máscara cai a cada “Hã?” que você precisa dizer quando se distrai por dois minutos.

Você penteia os cabelos da sua filha surda de modo que eles tapem os aparelhos auditivos para que os coleguinhas não vejam? Acho que você deveria procurar um psicólogo o mais rápido possível.

Você ensina ao seu filho surdo que quando um colega o chama de surdo ou toca no assunto surdez com ele, isso é uma grande ofensa? Acho que você vai chorar muito quando constatar que contribuiu tremendamente na criação de um ser humano com auto-estima nula.

Você se sente mal quando seu namorado/namorada fica sem graça porque outras pessoas descobriram que você é surdo(a)? Faça um favor a si mesmo e troque de namorado(a) o quanto antes. Quem quer se relacionar com alguém que faz com que a gente se sinta mal? Credo!

Você só vai usar aparelhos auditivos se eles forem tão pequenos que nem têm potência para ajudar o grau da sua perda? Não perca seu tempo, continue no silêncio.

Pareci agressiva ali em cima? Esse foi o objetivo. Quem lê este blog são adultos – e de adultos, o mínimo que se espera é maturidade. Você precisa se sentir bem na sua própria pele, identificar os seus fantasmas pessoais e fazer todo o esforço do mundo para acabar com eles.

SENTIR VERGONHA DA SURDEZ É UMA VERGONHA.

Me desculpem aqueles que vivem interpretando o papel de surdo que escuta, de surdo que não é deficiente. A gente é diferente. E daí? Temos que jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta. A hora de parar de ter vergonha de ser surdo é agora.Vamos inverter a lógica cultural brasileira, que pensa que todo deficiente é um coitado incapaz que deveria se esconder num buraco??

Pense nisso – mas pense mesmo e analise o seu comportamento com um olhar BEM crítico. Tudo isso que escrevi é o que eu gostaria que alguém tivesse me dito há us 15 anos atrás. ;)

O bronze nos 100m peito do Pan de Guadalajara é… surdo!

O bronze nos 100m peito do Pan de Guadalajara é… surdo!

*Quem deu a dica para este post foi a Paola Scott

Fonte: Uol

A final dos 100 m peito do Pan de Guadalajara teve dobradinha brasileira de Felipe França e Felipe Lima. E um bronze diferente. O terceiro colocado tem deficiência auditiva e subiu ao pódio em sua estreia em competições de grande porte. Marcus Titus foi o grande destaque do Mundial surdo de natação, realizado em agosto. O norte-americano faturou oito medalhas e, agora, faz a transição para disputar os Jogos Olímpicos de Londres-2012.

Eu sonho com isso e sei o que preciso fazer para estar lá. Acho que no ano que vem já estarei pronto. Estou muito confiante”, disse Titus, que tem perda auditiva profunda no lado esquerdo e perda auditiva severa na direita. Para se comunicar, o especialista em peito usa um aparelho e conta com ajuda de um intérprete de linguagem de sinais na delegação norte-americana.

Titus também precisa de auxílio na largada das provas. Um árbitro é o responsável por sinalizar o que representaria os anúncios sonoros. Em fevereiro deste ano, o norte-americano passou por situação constrangedora no Grand Prix de Missouri, nos Estados Unidos. O nadador não recebeu o sinal visual de saída dos 100 m peito e permaneceu parado no bloco.

Embora tenha necessidade de auxílio especial Marcus Titus não considera a deficiência auditiva como um empecilho em sua carreira. “Não me atrapalha. Me ajuda. Eu consigo focar melhor e não me distraio com pessoas e barulhos que estão em volta de mim”, explicou. Dentro da água, a surdez não tem atrapalhado o desempenho do norte-americano.

Para ler toda a matéria no Uol, clique aqui.

Emoções auditivas: falando no telefone

Emoções auditivas: falando no telefone

Importei um telefone residencial da Europa (o que seria de nós sem os amigos que aceitam encomendas quando viajam pro exterior) que possui a função Bluetooth, ou seja, posso conectar com meus aparelhos auditivos através do Tek e do miniTek da Siemens e assim tentar falar no telefone.

PAUSA DRAMÁTICA!

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Você, querido ouvinte que lê este blog, entenda um fato básico a respeito de quem não escuta ou escuta mal: ESCUTAR é uma coisa, ENTENDER O QUE SE ESCUTA é outra completamente diferente.  É o famoso “escuto, mas não entendo“. Cometi a besteira de comentar sobre a minha felicidade no Twitter (sigam @CronicaSurdez) e aí alguns amigos começaram a me aloprar: “Me liga!”, “Vou te ligar!”, “Atende o telefone”! Aí já comecei a ter tremedeira de nervoso.

 

Primeiro, levei uma surra pra conseguir fazer o pareamento entre o MiniTek e o telefone, modelo Gigaset SL785. Não sei se existem telefones residenciais com Bluetooth de outras marcas, mas os sites internacionais nos quais pesquisei só puxavam modelos da Siemens - aqui no Brasil, só encontrei um deles e achei caríssimo. Aliás, em terra brasilis temos um telefone, também da Siemens (modelo Gigaset DA100), com um super amplificador acoplado. Custa R$210 (em 12x, preço normal é R$280) e é vendido pela Amplitel. Esse é outro que morro de vontade de comprar, ainda mais porque não precisa estar de aparelho auditivo pra atender. Esse é um ponto interessante, porque nem sempre vou estar de AASI em casa, ou nem sempre meu MiniTek vai estar com bateria suficiente, ou nem sempre vou lembrar de ligar o MiniTek ao chegar em casa. Enfim, voltando ao assunto.

O pessoal lá de casa ficava me encarando com um olhar ‘estuprador’ tipo “E aí, testa esse negócio pra ver se funciona!”. E eu suando, ansiada, agoniada. Até que fiquei sozinha com a minha mãe e foi o momento do hey ho, let’s go! ”Mãe, me liga!”. Uma frase tão banal mas que, pra nós, só faltou uma música brega de fundo e movimentos em câmera lenta pra enquadrar o momento e o que as duas estavam sentindo. Ouvi o telefone tocar direto nos AASI, tão bonitinho. Atendi, me virei de costas pra ela. Fechei todos os sons pra ouvir somente o telefone. E o que ela ia me dizendo eu ia entendendo. Quando desligamos, demorou pra cair a ficha. Aí, inesperadamente, o telefone tocou de novo e era a minha cunhada. Quando eu disse alô, ela achou tão estranho que desligou, porque pensou que tinha ligado pro número errado! Hahahaha!! Aí ela ligou de novo e eu “gata, vai falando comigo que tô aqui testando uma nova ferramenta do Exército“. Entendi quase tudo o que ela disse, mas que fique claro que tanto minha mãe quanto minha cunhada não falam, elas BERRAM. Aí decidi tentar mais uma vez com mamis, não entendi nem 20% da conversa, me emputeci e fiquei emburrada. :)

Mais tarde naquela noite, sozinha em casa e querendo testar mais o brinquedinho, peguei os cartões de banco na carteira e me diverti ligando pra todos os números de 0800 possíveis e imagináveis. Nunca pensei que as vozes das gravações falavam tão pausadamente e articulavam de modo tão claro as palavras. Quando não entendia uma palavra, desligava e começava de novo – e assim se foram umas 60 ligações! Não satisfeita, decidi ligar pra uma pizzaria pra ver se entendia o que a atendente falava. Liguei 3 vezes, ouvi o que ela dizia, e no final falava “desculpe, foi engano“. Configura loucura? Azar!!!

Eu não sei como é falar ao telefone, quais as convenções sociais, quais os horários adequados, quantas vezes se deve insistir, quanto tempo se demora pra retornar uma ligação perdida e coisas assim. Não tenho as manhas. Mas a partir de agora vou fazer um esforço pra ter.

O próximo passo é conseguir pedir uma tele-entrega sozinha. Torçam por mim! Fico completamente atordoada e nervosa, como se fosse atender uma ligação em chinês, mas, como dizem aqui no Rio Grande do Sul, não tá morto quem peleia!

Uma confissão: como é frustrante e desesperador não entender o que se escuta. Tenho uma sensação estranha, como se faltasse algo no meu cérebro. Não, não pirei de vez, mas às vezes escuto algo, não entendo nada, aí com um pouquinho de leitura labial é como se os neurônios se conectassem e ploft, as coisas fazem sentido. Evito muito o telefone acho que 90% em função da irritação e da frustração que sinto por não entender o que escuto.

MiniTek da Siemens

MiniTek da Siemens

Toda tecnologia nova me interessa – e muito!! Já tinha o Tek desde o ano passado (tem post sobre ele aqui), mas assim que lançaram o miniTek no exterior, fiquei desejando. Quando ele chegou ao Brasil, corri pra garantir o meu. Olha só que bonitinho:

Para quem não sabe, é um controle remoto usado para aproveitar a conectividade Bluetooth dos aparelhos auditivos da Siemens. Ouvir música através de ASSI ao mesmo tempo em que se ouve tudo o que acontece ao redor é pior que castigo. Atender telefone usando AASI = eco eterno. Assistir à TV com mil barulhos extras é super chato. O que é que esse controle faz? Ele ‘puxa’ o som direto pros AASI, quase como se fosse um fone de ouvido (só que sem fio, uhuu). E ainda por cima te dá a opção de excluir todos os sons ‘extras’ para se concentrar apenas naquele som que você quer mesmo ouvir: a novela, a música, o papo ao telefone ou ao celular, um filme no computador. Desconheço invenção mais legal do que essa – é a experiência auditiva mais deliciosa que tenho desde que voltei a usar AASI quase 24 horas por dia.

A caixa pesa apenas 55g e a bateria é recarregável. O grande atrativo dele é que faz pareamento com dois celulares, duas televisões, dois telefones residenciais com Bluetooth – enquanto o Tek permite pareamento com apenas um de cada. É, sem dúvida, mais prático.

Através do miniTek e do Tek, a gente pode aumentar ou diminuir o volume do som no AASI (tem dias que sinto tudo alto ou baixo demais e essa função me salva). Pedi pro pessoal da Siemens me mandar algumas imagens para vocês entenderem melhor como funciona o ‘bichinho’.  

O miniTek auxilia pacientes que têm dificuldade para assistir televisão e falar ao telefone. Os sons do ambiente podem ser minimizados ou totalmente excluídos - para isso, basta clicar no botão específico. Essa função nos permite sentir prazer ao ouvir música, ver TV, etc – em vez de só ficar pensando ‘que saudade da minha audição de antigamente’. A minha sensação ao usar os AASI Motion 701 + Tek ou miniTek é de que chego muito perto de uma audição perfeita (só faltava, mesmo, entender tudo o que escuto rsrsrsrsrs).

Para falar ao telefone o miniTek também facilita muito a vida! Quem usa AASI nos dois ouvidos recebe a informação via Bluetooth simultaneamente aos dois. Ele possui um clip para prender na camisa, o que facilita o manuseio. Possui também outros acessórios como capa de proteção e carregador de bateria para carro. Em breve vou fazer um post sobre um telefone residencial com Bluetooth que importei da Europa (sim, porque lá custa 110 euros e aqui no Brasil mais de mil reais) e conectei com o miniTek – e, pasmem, tenho entendido muito do que escuto com ele e até atendi alguns telefonemas de pessoas bem próximas, coisa que não fazia há longos e longos anos. :)

Se o celular ou o telefone de casa (só os que têm Bluetooth tá?) tocarem, você ouve a campainha direto no ASSI e atende através do miniTek (ou do Tek). Basta clicar no botãozinho do telefone e segurar o miniTek perto da boca pra outra pessoa receber a sua voz. Simples!!

Para quem gosta de ouvir música, o miniTek é compatível com iPod, mp3 e outros equipamentos de áudio, via cabo ou Bluetooth – embora eu nunca tenha conseguido conectar o meu iPod Touch com ele via Bluetooth. Nesse caso, conecto um pequeno cabinho que une um ao outro. Dá para assistir filmes ou ouvir música no computador/notebook do mesmo jeito.

O pessoal da Siemens está me devendo só uma informação, que ainda não consegui descobrir sozinha: como faço para utilizar o miniTek (e o Tek também) para o FaceTime (videoconferência sem delay da Apple para iPod Touch, iPad e iPhone, perfeita para quem quer conversar utilizando leitura labial E som dos AASI). Em todas as minhas tentativas, eu ouvia a pessoa nos AASI mas a pessoa não recebia o meu áudio. #SOS #HELP #QUEROESSAINFO #PLEASE

A bateria, fazendo streaming (conectando com algo via Bluetooth/cabo), dura 4 horas. A do Tek dura mais.

O que me desagradou foi a falta de uma trava – que o Tek tem – pois quando coloco na bolsa, ao encostar em alguma coisa com um pouquinho de força, ele muda sozinho de programa. E até mesmo quando eu encosto sem querer em algum botão e mudo de programa/volume, isso irrita quem estava acostumado com a trava do Tek. Para pacientes idosos, ainda acho que o Tek é a melhor opção pois ele mostra em qual programa o ASSI está, tem luzinha com o nome do programa escrito, enfim, é mais didático.

Uma coisa que me deixa bem feliz é baixar apps no iTunes (pro meu iPod Touch, não tenho iPhone) de cursos de idiomas e ficar ouvindo a pronúncia de mil palavras diferentes em inglês e espanhol direto nos AASI sem som externo. É outro nível, no sentido de entender 75% melhor a pronúncia – e gravar na cabeça pro futuro, rsrsrsrs!!

Alguém sabe se existe algo deste tipo para quem usa Implante Coclear?

Aparelhos auditivos e… salões de beleza!!

Aparelhos auditivos e… salões de beleza!!

Quem acompanha o Crônicas sabe que também escrevo o Sweetest Person, que trata de assuntos do universo feminino – peruices e beleza incluídos aí. Na minha última ida ao salão de beleza, fiz tantas observações que tive certeza de que renderia um post. :)

Quem usa aparelhos auditivos sofre um pouquinho no salão de beleza. Se do alto da minha super perda auditiva o barulhão do secador me irrita, com AASI ativo e operante…meldels! E, num lugar assim, é uma sinfonia de secadores a mil, pessoas gritanto, coisas caindo no chão, rádio ligado, TV ligada, um profissional berrando pro outro, e por aí vai. Impossível não tontear e perder a concentração.

Antigamente, quando era teimosa e não queria saber de usar aparelhos, me tiravam pra louca. Primeiro, porque eu não avisava ninguém de que não escutava direito. Segundo, porque cabeleireiro adora puxar um papo enquanto lava o seu cabelo – e um surdo sem AASI lavando o cabelo com uma pessoa falando atrás dele vai conversar que é um espetáculo né? Rsrsrsrsrs!!

Hoje em dia, não saio de casa sem AASI. Já fui em salões (aos quais nunca mais voltei, obviamente) onde o(a) cabeleireiro(a), ao ver meus aparelhos auditivos, fez uma cara de criança assistindo filme de terror e me deixou constrangida com o seu próprio constrangimento. Porém, na semana passada, voltei a um que gosto muito. Conheci o proprietário na época em que ele trabalhava em outro salão, cujo dono tinha um filho surdo – e por isso, lá todos agiam com delicadeza e sensibilidade ao lidar com um deficiente auditivo.

Sempre que vou ao salão dele, relaxo. Ele fala comigo com calma e articula super bem os lábios. Até tenho que dar um toque nele que não precisa falar tão devagar – me pergunto se ele acha que não escuto o que ele fala, de AASI escuto tudinho e mais um pouco. :)

Nessa última tarde de beleza, fui arrumar a cor do cabelo e fazer manicure/pedicure. Quando chegou a hora de lavar as madeixas, a manicure estava pronta para começar a pintar as minhas unhas. Aí veio o click no cérebro: “Nãaao! Deixa pra pintar depois, porque eu preciso tirar os aparelhos auditivos pra lavar o cabelo!”. Nesse momento senti vontade de ter o lançamento da Siemens, o Aquaris, que é à prova d’águaSe ela pintasse, na hora de tirar os AASI, eu ia estragar todo o trabalho da moça. Não dava.

Aí, tirei os aparelhos – e avisei o cabeleireiro que ia lavar meu picumã, porque ainda não nos conhecíamos “Ó, se quiser falar comigo, me cutuca, senão vai ficar falando sozinho!” – e comecei a raciocinar: depois que ele lavar, vai fazer escova, e não tô a fim de escutar aquela barulheira que parece que vai perfurar minha cabeça. Aí chamei a manicure e falei “Pode pintar!”. E ela: “Mas tu não vai estragar as unhas quando for colocar os aparelhos?”. Eu: “Fica tranquila, porque só vou colocar no final da escova e até lá as unhas já secaram!”.

E assim foi. Fiquei uns 40 minutos curtindo um silêncio maravilhoso e lendo uma revista. Quando fiquei prontinha, recoloquei os AASI e voltei para aquela orquestra demoníaca de sons altíssimos vindos de todas as direções ao mesmo tempo.

Minha mãe estava comigo e começou a reclamar que eu estava ‘falando para dentro’, ou seja, falando muito baixinho. Mas a sensação, ao ouvir tanto barulho no mesmo lugar, é de que qualquer palavra que sai da minha boca é um GRITO. Mesmo não sendo, rsrsrsrs. Aí preciso me readptar ao real nível de barulho que emito.

Essa matéria (clique aqui para ler) fala que o barulho do secador pode causar perda auditiva. Gente, como os cabeleireiros conseguem trabalhar num local tão ruidoso sem nenhum tipo de proteção à sua saúde auditiva. Como dizem, tem que ver isso aí. Nesse tipo de situação é que invejo demais o cérebro dos ouvintes e sua capacidade de ‘anular’ os sons irritantes do ambiente.

Quem usa aparelho auditivo tem que ficar esperto num lugar desses, porque, como você relaxa, pode acabar esquecendo de tirar os aparelhos na hora de lavar o cabelo e aí é morte sem chance de ressuscitação. Um perigo!! A única vez que me aconteceu algo assim foi em casa. Entrei no banho e, quando estava prestes a colocar a cabeça debaixo do jato d’água, notei que estava ouvindo um barulho que parecia uma cachoeira e….NÃAAAAAO! Inclinei o corpo 1 centésimo de segundo antes de dar perda total num par de AASI caríssimo. Uh, la la! Foi por pouco!!

E vocês, como se viram quando vão a salões de beleza?

Acessibilidade para surdos oralizados no blog da Vivo

Acessibilidade para surdos oralizados no blog da Vivo

Gente, confiram uma repercussão do nosso panelaço por acessibilidade para surdos oralizados no Twitter!!

Saímos no blog da Vivo - que significa que milhares de pessoas do Brasil todo vão ler esta matéria. Bacana, não?

Para ler tudo, basta clicar aqui.

Vagas de emprego para pessoas com deficiência

Vagas de emprego para pessoas com deficiência

Recebo muitos emails indicando vagas de emprego para pessoas com deficiência, e acho estranho que 95% das vagas são – peço desculpas pela sinceridade – de subempregos. Me parece que o pessoal do RH das empresas pensa que uma deficiência aniquila todo e qualquer talento de um ser humano.

Conheço muitas pessoas com deficiência que cursaram ótimas faculdades, fizeram pós-gradução, falam outra(s) língua(s) e são tão capazes quanto quaisquer pessoas ‘normais’ com as mesmas qualificações. Só porque possuem uma deficiência devem aceitar um emprego no qual vão ocupar 1% do seu potencial? Tem alguma coisa errada aí.

Há uma lei (Lei nº 8.213/1991, conhecida como Lei de Cotas) que obriga as empresas a reservar uma cota de vagas para PCD’s. As minhas hipóteses são as seguintes:

  • As empresas são muito espertinhas e, como a lei não especifica que as vagas reservadas devam contemplar funcionários com diferentes escolaridades, se aproveitam desse ‘furo’ e reservam apenas vagas de escolaridade mínima, oferecendo, em 95% dos casos, somente vagas para primeiro e segundo graus incompletos.
  • O RH das empresas não tem tempo/vontade/paciência para aprender as peculiaridades de cada deficiência e, assim, poder diversificar a oferta das vagas, contemplando primeiro grau, segundo grau, terceiro grau e pós-gradução.

Quem perde com isso? Todos nós! Se você se esforçou para cursar uma faculdade, aprender outra língua, se aprimorar profissionalmente e tudo o mais, isso não vai ter valor algum na hora de procurar emprego. Para trabalhar, o deficiente se vê encurralado:

  • Ou começa a estudar para concursos públicos;
  • Ou aceita empregos inferiores à sua real qualificação, ganhando 1/5 do que efetivemente poderia ganhar se estivesse num cargo condizente com a sua qualificação;
  • Ou encontra uma empresa que ofereça um cargo fora da cota cujas atribuições sejam compatíveis com a sua deficiência (é raro, mas alguns conseguem);
  • Ou abre a sua própria empresa (ainda mais raro).

Incrementar a diversidade é um ato TÃO legal, e que pode trazer resultados que irão refletir em TANTAS áreas da vida de TANTOS seres humanos. Como não percebem isso? Um surdo oralizado, por exemplo. Do que ele precisa para realizar bem o seu trabalho numa empresa? Internet, email, SMS, alguns até falam no telefone!!

Alguém aqui conhece uma pessoa com deficiência que ocupe um alto cargo em alguma empresa? Eu não, e isso me entristece. Porque um deficiente não pode ser um grande executivo, chefiar uma equipe, representar uma grande companhia?

Não queremos FAVORES, queremos apenas OPORTUNIDADES. De poder lutar por uma vaga que nos interessa e que tem a ver com a nossa formação. E que essa maldita cultura de que o máximo que um deficiente vai conseguir é terminar o segundo grau desapareça. Um cargo “x” pode ser disputado tranquilamente entre um ‘normal’ e um ‘deficiente’ caso a empresa ofereça a acessibilidade que o deficiente necessita para trabalhar bem. Na minha visão, é muito simples.

E outra: com tanta acessibilidade disponível hoje, porque não cursar uma faculdade e conquistar o mundo, se assim desejar? Cá entre nós, eu ODEIO esse pensamento coletivo de que deficiente é incapaz e nem adianta estudar muito porque nunca vai conseguir alcançar o que os ‘normais’ alcançam. Credo. Isso me dá calafrios!!!! E o pior é que esse pensamento está incrustrado não só na mente das pessoas que não possuem deficiência nenhuma, mas principalmente na mente das que possuem.

Quem conhece empresas que vão contra tudo isso e têm funcionários PCD’s em cargos de diversas complexidades, conte aqui. E contem também o que vocês pensam sobre tudo isso.

The Big Bang Theory: vem aí uma personagem surda

The Big Bang Theory: vem aí uma personagem surda

Bazinga!!! Os fãs de The Big Bang Theory vão gostar dessa notícia – eu sou fã assumidérrima, adoro e me divirto horrores com esse seriado.

O único solteiro do grupo de nerds em The Big Bang Theory pode ganhar uma namorada na quinta temporada. A atriz deficiente auditiva Katie Leclerc (Switched at Birth) vai interpretar Emily, o possível interesse amoroso de Raj (Kunal Nayyar). Apesar de ter audição parcial, a atriz trabalha bem sua fala. O que vai facilitar o contato entre Raj e Emily é justamente a deficiência da nova personagem, que irá ao encontro da dificuldade que ele tem em falar com mulheres sem ter bebido álcool. Quem vai apresentá-los é Penny (Kaley Cuoco), em um episódio que está programado para ir ao ar em 6 de outubro nos Estados Unidos. A série volta a ser exibida nos EUA em 22 de setembro. No Brasil, a quarta temporada de The Big Bang Theory é exibida toda terça-feira, às 20h30, no Warner Channel.

Fonte: Omelete.

Profissão: agricultor

Profissão: agricultor

*depoimento de um leitor de 43 anos

O início da minha perda auditiva começou com a escolha da minha profissão  como agricultor, algo natural pois era a tradição na família, embora tivesse uma surdez latente, como descobriria mais tarde.  O ambiente de trabalho em uma lavoura se resume  em lidar com maquinários ruidosos (diesel), na época, final dos anos 80, não existiam preocupações sobre novas tecnologias de  redução de ruídos.

Já nesta época evitava estar perto ou atender telefone, era algo traumático, sem falar em interfones e campainhas, simplesmente não ouvia, um simples psiu de alguém chamando era sumariamente ignorado. Algo estava errado, mas como as pessoas poderiam me convencer do contrário? Em 1991 minha perda já estava incomodando o ambiente profissional e social, fui “convencido” a fazer uma audiometria, apesar de dizer que ouvia um pouco mal mas que não era tanto assim, aquela história de não admitir que há algum problema mais complexo.

A primeira experiência não foi muito boa, digamos assim, porque o próprio otorrino foi quem fez a audiometria, e constatou uma perda leve, dizendo que eu possuía uma audição de pessoa com 50/60 anos. Fui apresentado a um vendedor de próteses auditivas e “receitado” um aparelho (era um Starkey), em um ouvido, durou pouco, tanto por problemas técnicos, a adaptação era do paciente com o aparelho e não o contrário, quanto  biológicos, a perda ia avançando aos poucos.

Em 1992 já era preciso colocar outro aparelho, porque o desconforto com um só era muito grande. Ficava girando a cabeça para captar de onde vinha a voz, era um Beltone, mas foi muito mais problemático para me adaptar, simplesmente não se encaixava na perda encontrada, no fim, entre idas e vindas acabou sendo extraviado.

Curioso era a adaptação da prótese. Muito complicado: durava pouco tempo e em seguida começavam os apitos; mastigando então era simplesmente uma sinfonia do desespero, só rindo mesmo e ir levando. Tenho irmãos que ao contrário de mim são muito bons de ouvido, para saber onde eu andava era só acompanhar onde estava o apito

Desnecessário dizer que estava proibido de frequentar lugares ruidosos como boates e apresentações onde o volume além de muito alto não raro era precário. Ainda hoje é comum uma equalização com baixa qualidade, principalmente em palestras, o que é irritante.

Interessante que as pessoas não têm muita noção do que seriam estas próteses, era comum perguntarem, veja só, como eu fazia para tomar banho! Simples, tiro a roupa! Normalmente as pessoas não tem muito senso de humor ao contrário de mim, que procuro ver o lado bom da coisa, não significa que não passo por maus bocados, mais tarde me pego rindo das situações, muitas bem constrangedoras.

Locais em que junta muita gente, fico apreensivo, principalmente em filas de bancos, supermercados e outros. Se alguém puxar conversa fico todo errado e acabo gaguejando ou, o mais comum, respondo coisas sem sentido, acabando com qualquer conversa.

Já para o ano de 1993 as coisas iam de mal à pior, nova queda de audição. Seria não só necessário trocar as próteses como iniciar um tratamento para evitar novas perdas. Por indicação do otorrino foi receitado cinco injeções de Cronassial, a cada dois dias, quando estava para tomar a 3ª injeção, ele morreu em um acidente rodoviário, no entanto segui até o fim. Passou-se algum tempo, em que estive sem contato com qualquer tipo de som seja televisão, rádio (já não entendia mesmo) ou outro tipo de ruído que pudesse me prejudicar ainda mais. Meu retiro foi na campanha somente lendo livros, até mesmo conversar evitava, nada muito difícil já que para fora não existem muitos vizinhos e/ou visitas.

Mas, precisava voltar à civilização. Aproximadamente um mês depois, procurei outro otorrino e o que aconteceu foi algo assustador e muito constrangedor: com a minha nova audiometria em mãos, a queda foi grande em um mês. Ele não conversava, simplesmente berrava e retumbava pelas paredes e eu dizendo que poderia falar mais baixo que estava compreendendo bem, mas não adiantava e pediu que chamasse uma irmã, que estava comigo, para que pudesse informar a gravidade da situação.

Bem, no fim indicou um ex-professor de faculdade, em Porto Alegre, Dr. Moacyr Saffer,  aprendi muito com ele e sou muito grato. Por indicação dele fui   à fonoadióloga Marisa Mainardi, de extrema confiança . Sem dúvida foram muitos anos de aprendizado de como escolher e regular aparelhos para uma perfeita simbiose entre próteses e usuário.

Não sei se tu acreditas em anjos, mas ela foi a primeira de muitas fonos por quem eu tenho admiração. A primeira coisa que me chamou a atenção foi, simplesmente, a voz: cristalina e uma dicção que me deixou como se fosse um orangotango! Realmente não entendo como conseguem ter a paciência e determinação para adaptar e regular vários aparelhos e encontrar um que, por fim, melhor se ajusta às nossas necessidades do momento.

Nessa nova fase o aparelho era bem mais potente (Hansaton) com regulagens por chaves de fenda, esta foi uma parada, imagina sair de aparelhos intra-canais para pendurar duas bananas nas “zoreia”, hilário além de me deixar apreensivo, o que aconteceria se perdesse mais ainda a audição? Iria colocar fones de ouvido e carregaria uma bolsa com uma bateria e um    amplificador como estes de carros? Socorro… :)

O caso é que regulava o aparelho no consultório, ele ficava ok. Mas na rua tinha alguma coisa que não batia bem, chegava em casa, veja bem São Gabriel-Porto Alegre, cansativo não é? Levantava, colocava o aparelho ia ler um jornal e… Diabos, meu vizinho tinha um Dog alemão (se fosse italiano cantaria) e latia como se estive dentro do meu ouvido! Não tinha opção senão “regular” no meu ambiente, que era o parâmetro ideal já que sons familiares são melhor reconhecidos e assimilados.

Por volta de 1998, troquei os Hansaton (por falência múltipla de órgãos) pelos Siemens S2+, com eles as coisas começaram a mudar, novos tempos e novas tecnologias, para uso ao telefone foi, de longe, o melhor até hoje, com a bobina específica para telefone a voz simplesmente ficava isolada, inclusive era engraçado quando eu ia atender, só faltava, quem estive na volta, além de emudecer a televisão trancar a respiração para não atrapalhar a conversação, e de nada adiantava dizer que estava na chave T, que era quando captava somente a voz do fone, acontecia inclusive em escritórios, tudo para o bem deste pobre coitado, o brabo era aguentar aqueles olhares todos em minha direção. É simplesmente incompreensível para eles (os ouvintes), mundo louco este nosso não?

Algo digno de nota, foi o teste com aparelho Widex, também não lembro o modelo, simplesmente foi incrível a percepção não só do ambiente mas também a compreensão de pessoas falando em salas distintas, compreendi as duas conversas, infelizmente era muito forte parecia que meus tímpanos seriam furados por agulhas, esta era a sensação, pena.

Atualmente uso GN ReSound Canta7 870-D, desde 2002, o que comprova que além da melhor adaptação entre todos, foi o mais resistente: são quase dez anos de uso contínuo. Excelente aparelho em todos os aspectos e o que me traz uma voz o mais natural entre todos os que usei e testei. Evidentemente que sem os meus anjos da guarda para me auxiliarem na escolha do que melhor se adapta à minha situação, as coisas realmente seriam bem mais complicadas.

 Já a dois anos estou “obeservando” os lançamentos de novas próteses, e realmente já estou um pouco confuso com todas estas novas possibilidades da nova geração de aparelhos, sem dúvida que é uma maravilha saber até onde podemos chegar. Hoje estou com a fono Luciana Cigana e, segundo ela, para a minha perda demora um pouco para disponibilizarem aparelhos com recursos mais elaborados. A minha intenção é por aparelhos com tecnologia RIC ou algo deste gênero mas que tenha o maior nível de recursos possível como integração com telefone, televisores, mp3 e outros, o que nos levaria à uma melhor qualidade de vida.

Tenho 43 anos. Minha família ajuda no que pode, anotando nomes e endereços para que  eu possa entrar em contato, muitas vezes, ao telefone, servem como “ponte” de conversa. Com os mais conhecidos peço para me darem pistas sobre qual é o assunto e assim que possível vou conversar cara-a-cara. Com as pessoas que me conhecem, procuram falar mais pausadamente ou em uma conversa com várias pessoas, deixo ela fluir, quando me perguntam alguma coisa, peço um “resumo” para me inteirar do assunto, na medida do possível participo de grupos de no máximo três pessoas acima disso fico perdido e acabo me afastando.

Com desconhecidos o caso é mais complexo, algumas vezes as pessoas se  recusam a conversar, não têm noção das minhas limitações. Em alguns casos insisto senão fico quieto, é frustrante, mas prefiro assim.  Minha mãe também usa aparelhos auditivos (intra-canal), mas não seguiu meus conselhos para testá-los em Porto Alegre, para que as próteses se adaptassem a ela e não ao contrário, depois ela entendeu o que eu queria dizer…

Crônicas no Portal Mara Gabrilli

A bandeira pela acessibilidade para surdos oralizados está levantada!! Em função disso, surgiu o convite para uma entrevista para o Portal da Deputada Federal Mara Gabrilli, cujo trabalho eu acompanho desde o tempo em que ela era colunista da Revista TPM.

Para ler toda a entrevista, é só clicar aqui.

Panelaço no Twitter

Panelaço no Twitter

Vou copiar as informações postadas pela Lak Lobato. Nos ajudem a colocar as hashtags #Acessibilidade e #SurdosOralizados nos TT’s do Twitter. Sigam @CronicaSurdez, @DesculpeNaoOuvi, @LakL e @RSinedino.

“Nosso amigo Raul Sinedino, outro surdo oralizado que vive tendo problemas com esses desserviços bancários teve a idéia de um PANELAÇO no Twitter (www.twitter.com) para mandar as hashtags #Acessibilidade e #SurdosOralizados e levar à população o conhecimento da existência da falta de acessibilidade que sofremos atualmente, além de divulgar que surdos oralizados existem.

Basta postar frases no twitter com a seguinte informação (frases iguais, o twitter não computa) “#Acessibilidade p/ #SurdosOralizados em bancos: INEXISTENTE! http://bit.ly/qKfiH6 (ajude a divulgar)”

Quando? Dia 20/09/2011 à partir das 15h30

E quem não tiver twitter, pode apenas ajudar na divulgação. O interesse é fazer com que as pessoas influentes tomem conhecimento da nossa falta de acessibilidade e nos ajudem a mudar as normas da ANATEL no que se refere ao atendimento remoto de deficientes auditivos. Ou até fazer um Twitter só para participar do Panelaço.

Claro que nossos pedidos não se resumem aos oralizados, o acesso que pedimos é para todos os deficientes auditivos. Mas tem muito banco e empresa por aí achando que colocar um interprete de Libras na agência/loja resolve. Oras, se o interprete for mandar o surdo ligar pra um número especial via um aparelho que ele não tem, adianta de algo?

Peço então aos leitores e amigos, ajudem-nos a divulgar este movimento!  Seja participando do PANELAÇO, seja divulgando-o nas suas redes sociais e/ou blogs.

Hoje é conosco, amanhã pode ser com qualquer um que perca a audição. Você mesmo ou qualquer pessoa querida. Imagine perder a liberdade de resolver os próprios problemas e ficar dependendo de tecnologias caras e obsoletas ou tendo que pedir pra outra pessoa se passar por você?

Acessibilidade é um direito de todos!”

 

Episódio de CSI com surdos

Esses dias assisti no Canal Sony (maravilhoso para quem gosta de treinar o ouvido em inglês) um episódio de CSI (o seriado americano de investigação de cenas de crime) que mostrava um crime que aconteceu numa faculdade de surdos nos Estados Unidos. Era fictício, mas parecia uma alusão à Gallaudet University. Resumindo rapidamente, um intérprete de ASL (american sign language) sentia raiva dos prêmios oferecidos aos estudantes surdos, que envolviam altas somas em dinheiro, e bolou um golpe. Um amigo dele, cuja mãe era surda sinalizada, resolveu se passar por surdo sinalizado, enganou todo mundo…e aí um professor foi morto e foi uma confusão!!

Mas o que me chamou a atenção mesmo, foi no final do episódio, quando o intérprete de Língua de Sinais assume a culpa. O investigador falou para ele “deve ser triste, você está sempre envolvido nas conversas e vidas alheias, mas você não participa de nenhuma delas, você é invisível“.

A mãe do personagem Grissom é surda bilíngue no seriado.

Epifania auditiva I

Epifania auditiva I

Ouvir música usando aparelhos auditivos  é um pouco esquisito – principalmente se você, como eu, já teve muito mais audição em alguma outra época da vida. A sensação que tenho é a de que perco muita coisa. Com os AASI Pure, escuto com perfeição a voz na música, mas sinto o resto um pouco baixo. Uma das minhas músicas favoritas é a “You’re Beautiful“, do James Blunt. Esses dias fiquei escutando com os Pure’s e só conseguia pensar nos detalhes da voz dele que eu estava percebendo e arregalar os olhos. Até mesmo a palavra ‘pure‘, que está na música, ouvi com exatidão e achei uma delícia o modo como ela é falada. Quando uso os Motion (ambos são da Siemens), escuto a música bem alta, mas a voz não é tão clara nem consigo pegar os detalhes dela.

Outra música que adoro é a “Traffic in the sky“, do Jack Johnson. Fui numa formatura esses dias, e estava meio zonza com tanto barulho, gente gritando, cadeiras riscando no chão, caixas de som a mil. Inclusive baixei uma app pro meu iPod Touch que mede os decibéis de um ambiente, e, naquele dia, medi nada menos do que 110db. Imaginem!! Mas eu estava de ótimo humor, pois todos os meus colegas estavam lá e eram vozes conhecidas e pessoas queridas.

Eis que, assim que me sirvo no buffet e sento para jantar, alguém começou a conversar comigo. Enquanto prestava atenção na conversa no meio daquele barulho ensurdecedor, meu cérebro fez PLIM e pensei ‘conheço isso que estou ouvindo ao fundo’.  Era “Traffic in the sky“. :)

Meu coração dispara de felicidade a cada epifania auditiva. Quando elas acontecem, me sinto TÃO bem, TÃO feliz e TÃO poderosa que nem sei dizer. Aposto que os ouvintes que estão lendo isso devem estar pensando “que doida!”. Gente, a sensação é indescritível. Qualquer mísera palavra/frase/música que meu cérebro identifique sem esforço e sem leitura labial é uma GRANDE vitória para mim. E já me peguei algumas vezes pensando em como seria a vida se isso acontecesse o tempo todo…

Atendimento a deficientes auditivos por SMS

Atendimento a deficientes auditivos por SMS

O pessoal da Concepa – concessionária que cuida de vários quilômetros das BR’s 290 e 116 – me enviou o seguinte email:

“Olá, temos acompanhado as discussões no Twitter (sigam @CronicaSurdez e @SweetestPBlog) sobre a criação de 0800 para deficientes auditivos e queremos partilhar que estamos começando a disponibilizar este serviço na nossa Concessionária de Rodovia – Concepa, conforme dados abaixo:

Desde o dia 15 de agosto, a Concepa inaugurou um serviço inédito entre as concessionárias de rodovias brasileiras. A empresa começou a atender as pessoas com deficiência auditiva através de mensagens de texto via celular (SMS). O serviço pode ser utilizado para informações ou pedidos emergenciais de socorro médico ou mecânico, no trecho concedido à empresa, que vai de Osório a Guaíba (km 0 a 112 da BR-290 e km 291 a 301 da BR-116).

As mensagens de SMS funcionam como um chat de conversação direta com os atendentes do Serviço de Atendimento ao Cliente da Concepa. O contato pode ser feito diariamente, 24 horas por dia, pelo celular (51) 8416-2000. A intenção é proporcionar mais um canal de atendimento para as pessoas com deficiência, além do número específico de telefone já existente: 0800 602 0002.

Serviço:
Atendimento a deficientes auditivos
Via mensagens – SMS – (51) 8416-2000
Via telefone – 0800 602 0002
Trecho de concessão: km 0 a 112 da BR-290 e km 291 a 301 da BR-116

Qualquer informação adicional, estamos à disposição.”

Eu nunca tinha parado para pensar na possibilidade de estar viajando sozinha de carro e me acidentar, ou passar mal, ou até mesmo meu carro quebrar no meio do nada. Imagina capotar o carro sozinha na chuva, de noite! Deus me livre, mas são possibilidades – é por isso que vivo dizendo que a surdez nos prega altas peças do quesito segurança. Agora imaginem a cena: capotada, na chuva, de noite…e tendo que LIGAR pro resgate. Tragicômico demais, não???

Eu já gravei no meu celular esse telefone da Concepa!! Espero que essa iniciativa inspire muita gente a adotar a mesma resolução. Tão simples!! Basta providenciar um número que receba SMS 24hs e deixar ao lado da pessoa que fica atendendo o telefone 24hs. Vendo por esse prisma, só consigo pensar: porque as pessoas complicam algo tão fácil??

Quem for do RS, trate de gravar esse número no celular. Utilidade pública!!

Mais tipos de acessibilidade para surdos oralizados

Mais tipos de acessibilidade para surdos oralizados

O debate continua. Alguns ouvintes que trabalham com surdos sinalizados andaram me mandando mensagens ‘desaforadas’, então, quero deixar bem claro: a acessibilidade dos surdos sinalizados não exclui a acessibilidade dos surdos oralizados, e vice versa. Elas se complementam! O que não achamos justo – e é o que acontece hoje – é que só exista acessibilidade para um grupo. Não somos ‘menos’ surdos do que quem usa Libras. Os surdos aparelhados, implantados, oralizados e bilíngues existem!!!! E querem legendas, chat, SMS e tudo o que possível e facilite a nossa existência. Leiam o post da Lak Lobato também – quem mais postou sobre isso, deixe o link nos comments que eu acrescento aqui.

Fiquei pensando em outros tipos de acessibilidade que precisamos, ALÉM da acessibilidade em instituições financeiras. Me ajudem a raciocinar e me digam se esqueci de algo – acrescentem tudo o que acharem pertinente nos comentários. A nossa luta está começando e vamos lutar até o final. :)

Tenham em mente que temos uma falsa sensação de segurança em função das nossas famílias, mas é preciso pensar que nem sempre teremos companhia e ajuda ouvinte em momentos complicados. É por isso que precisamos de acessibilidade! Assim, em qualquer situação, seremos capazes de pedir ajuda ou resolver qualquer problema sozinhos.

Um ponto importante que deve ser lembrado: as únicas tecnologias que podem nos ‘obrigar’ a adquirir, a meu ver, são celular e computador (até porque os dois resolvem 90% dos nossos problemas). Qualquer outra coisa, principalmente se custar caro (como o obsoleto e inútil telefone TDD), não entra na categoria acessibilidade, e deve ser pensada como uma forma de coação em que alguém estará faturando $$$ às nossas custas – como é o caso do TDD, que não ajuda ninguém, custa caríssimo e ainda por cima é a norma vigente.

Vamos lá!

POLÍCIA: Imagine que você está sozinho em casa e percebe que entrou um ladrão. Como é que você vai contatar a polícia numa situação dessas? Precisamos que a polícia tenha um número de celular que funcione 24hs, para o qual possamos mandar torpedos em caso de emergência. Não vejo nenhuma dificuldade nisto, baste que o mesmo fique ao lado do funcionário que atende o telefone.

BOMBEIROS: A mesma coisa. Você está sozinho, sua casa pega fogo. E aí? Como chamar os bombeiros? Um número de celular que receba torpedos pedindo socorro 24hs resolve.

AMBULÂNCIA: Imagine passar muito mal de madrugada, sem ter como ligar para chamar o resgate. Acho que os serviços de ambulância devem ter um número 24hs para torpedos também. Esse é o tipo de situação que me causa calafrios só de pensar na possibilidade.

PLANOS DE SAÚDE E MÉDICOS: Toda vez que precisamos marcar consulta médica e exames, temos que pedir para alguém marcar por nós. Penso que os planos de saúde, como todos possuem site, deveriam manter um chat que funcione em horário comercial e faça esse serviço por nós em sua rede credenciada. Infelizmente, acho difícil que os médicos disponibilizem um número 24hs para torpedos, mas deveriam, afinal, todo consultório médico tem no mínimo uma secretária com um computador conectado à internet o dia todo. Seria mais fácil se os médicos tivessem MSN, assim marcaríamos pela internet e não dependeríamos de ninguém.

COLÉGIOS, FACULDADES E CURSINHOS: Se for necessário um intérprete de Libras, eles disponibilizam tranquilamente. Se pedimos algo que nos ajude a acompanhar as aulas, já começam a complicar e agem como se fosse frescura nossa. Neste caso específico, estou meio por fora da tecnologia, então preciso que vocês relatem o que existe hoje que possa nos ajudar. É imprescindível que tenhamos acessibilidade nos colégios, faculdades, cursinhos de idiomas e cursinhos preparatórios para concursos. Não vejo motivo, em pleno ano de 2011, para que a gente fiquei sofrendo e tendo que estudar 10x que um estudante ouvinte só por causa da má vontade da direção das escolas/faculdades/cursos. É a nossa educação e o nosso futuro profissional que estão em jogo.

TELEVISÃO: closed caption em TODOS os programas da TV aberta e da TV paga, principalmente nos jornais.

OPERADORAS DE CELULAR: Deveriam disponibilizar planos com preços convidativos para nós, que só usamos torpedos e pacotes de internet. Sem falar no atendimento via chat ou SMS – fiquei sabendo que a Vivo oferece atendimento via SMS já.

OPERADORAS DE TELEFONE FIXO, LUZ E OUTROS SERVIÇOS: Outros que amam nos manter reféns do 0800. Precisam urgentemente de atendimento por chat ou SMS para quem não pode ligar para o 0800.

HOTÉIS: Cada hotel deveria ter um despertador vibratório, para que os hóspedes surdos utilizem em suas viagens. E, porque não, um atendimento por chat ou SMS – quando precisamos de serviço de quarto, a única opção é o telefone. Quem não escuta no telefone, faz o que? Precisa descer até a recepção. Com tantas coisas que os hotéis oferecem hoje em dia, não vejo dificuldade nessas duas extras.

AEROPORTOS: Como sinto pânico em aeroporto se estiver sozinha!! Tudo é avisado pelos alto-falantes, e, assim, ficamos completamente perdidos. Conheço várias pessoas que já perderam vôos e tiveram prejuízos financeiros por causa disso.

AVIÕES: Acho que o que o piloto fala pelo alto-falante deveria ser colocado num lugar visível, em texto. Quase enfartei em turbulências tentando imaginar que diabos o piloto estava falando.

BANCOS E REPARTIÇÕES PÚBLICAS: Acho que qualquer local com fila para atendimento ao público deve ter aviso luminoso de que estão chamando o próximo da fila. Quem nunca passou vergonha pela falta disso, que atire a primeira pedra! As pessoas começam a berrar e a nos dar cutucões pra mostrar que estão nos chamando, o que chama a atenção de todos ao redor. Um mico!! Desnecessário, com certeza.

Complementem nos comentários, pessoal!!!

PS: Quem vem tendo problemas com bancos que não se resolvem, um conselho. Façam um boletim de ocorrência na polícia civil e contatem o Ministério Público da sua cidade. Pensem o quanto é ridículo ficar passando vergonha, sendo humilhado e tratado feito idiota quando temos um DIREITO que deve ser cumprido. Os interessados somos nós, então, vamos correr atrás.

Mais sobre acessibilidade para surdos oralizados

Mais sobre acessibilidade para surdos oralizados

O post sobre acessibilidade para surdos oralizados em bancos teve muita repercussão, e a consequência disso foi abrir uma discussão que já deveria estar em voga há muito tempo. Vários ouvintes vieram falar comigo dando dicas de como ‘contornar’ o problema, sugerindo ‘atalhos’ que eu poderia usar quando precisasse de algo em banco. E isso me fez refletir muito. Eu não quero atalhos. Eu não quero depender de mais ninguém para tratar dos meus assuntos financeiros. E acho que nenhum surdo oralizado deveria.

A sensação que tive, ao conversar com muitos ouvintes sobre isto, foi de que eles se sentem um pouco constrangidos pelo meu pedido de acessibilidade. Vários fizeram comentários do tipo ‘treine alguém próximo para fingir que é você‘. Se você é ouvinte, como se sentiria tendo que fazer isso? Tendo que bancar o McGyver em situações bizarras?

Vamos supor que eu seja assaltada na rua, à noite. Tenho um celular na mão, mas o ladrão levou minha carteira. Se o banco tiver um atendimento emergencial por SMS, em 3 minutos consigo cancelar os meus cartões. Como nenhum banco tem, fico de mãos atadas, sem poder fazer absolutamente nada. Vamos supor que eu esteja sozinha em casa, num final de semana. Acessando a internet, descubro que clonaram meu cartão de crédito e estão fazendo compras no meu nome. Se o banco tiver um chat para surdos oralizados 24hs, em 5 minutos eu resolvo o meu problema. Como não tem, só me resta ter um ataque cardíaco. Ou bater na casa do vizinho pedindo para que ele ligue para o 0800 e finja que sou eu. Tem cabimento isso???? Este ano, quando eu estava viajando pela Europa e minhas malas foram extraviadas no aeroporto de Paris, a única opção que eu tinha para acionar o seguro do Mastercard era ligar para o 0800. A minha sorte foi que eu estava viajando com uma colega, que conseguiu ‘driblar’ a atendente do 0800 e explicar o meu caso. E se eu estivesse sozinha?? Como pediria para um francês se passar por mim no 0800 do Mastercard? Como acionaria o seguro? Impossível, porque o Mastercard não possui nenhum chat 24hs no site e muito menos atendimento especial por email. Não se atenham à situações em que temos condições de nos dirigir à uma agência bancária. Pensem nas situações em que estamos sozinhos, em horários e dias em que elas não estão abertas. Ou seja, todos os dias da semana das 16hs até às 10hs do dia seguinte, e 24hs nos finais de semana e feriados.

Dá para perceber o quanto uma pessoa surda oralizada fica de mãos atadas? O quando esse “0800 especial” é uma furada sem precedentes? A única utilidade do “0800 especial” é para quem tem esse telefone TDD obsoleto em casa e é uma pessoa iluminada que só tem pepino com bancos e cartões de crédito quando está na comodidade do seu lar. Os outros 99% da população surda oralizada que se exploda. Simples assim.

Enquanti escrevo este post, recebi um email da C&A, através da operadora dos seus cartões, a Ibicard. Enviei um email a eles explicando o meu caso – inclusive adicionei o link do post sobre falta de acessibilidade – e dêem uma olhada na resposta que acabo de receber (solicitei que cancelassem o meu cartão C&A, pois na cidade onde moro não existe a loja, nunca uso o cartão, mas ficam me cobrando anuidade):

“Prezada Paula,
Agradecemos sua mensagem e para que possamos orientá-la com sua solicitação, pedimos que entre em contato com nossa Central de Atendimento:

Regiões Metropolitanas 4004 9555
Outras Localidades 0800 979 9555

Permanecemos à disposição.

Atenciosamente,

Enedir Carvalho
Central de Atendimento.
** ibi. Viva a diferença **”

É ou não é uma piada o “Viva a Diferença” no final do email??? Esse tipo de situação que causa, além de raiva, uma frustração absurda.

Por isso, estou aqui pensando que devemos seguir outro caminho. Recebi emails da Febraban e do Santander informando que estão repassando minha reclamação para o setor responsável e entrarão em contato. Hoje enviei email para a Ouvidoria do Banrisul. Acontece que são dezenas de bancos e operadoras de cartões e, cá entre nós, eles não têm interesse em mudar essa política de ‘acessibilidade’. Como só fazer barulho não vai adiantar, eu estou muito disposta a seguir a via judicial. Exigir que a Justiça faça o nosso direito ser cumprido.

Por isso pergunto: vamos nos movimentar e entrar em contato com o Ministério Público dos Estados onde moramos e também com o Ministério Público Federal? Não sejamos ingênuos de achar que as instituições financeiras terão boa vontade e serão rápidas em resolver esse problema. Estou agorinha enviando um email para o Ministério Público do Rio Grande do Sul, mostrando este post e o anterior, e perguntando o que é possível fazer, judicialmente falando.

Ou a gente se mobiliza, ou vamos ficar até o fim da vida tendo que pedir favores às pessoas próximas e nos vendo em situações complicadas que não conseguiremos resolver sozinhos. Ou melhor, vendo o nosso DIREITO de acessibilidade ser completamente descumprido.