Como foi o lançamento do livro Crônicas da Surdez em Porto Alegre

Como foi o lançamento do livro Crônicas da Surdez em Porto Alegre

Na última quarta-feira aconteceu o lançamento do livro Crônicas da Surdez em Porto Alegre, na Livraria Cultura. Cheguei uns dez minutos atrasada, 18:40, por causa do trânsito, mas nada preocupada, pois pensei que as pessoas começariam a chegar lá pelas 19:00hs. Me enganei redondamente. Assim que coloquei os pés na Cultura várias pessoas já estavam lá, e em poucos minutos uma fila enorme se formou. Engraçado que olhei e pensei ‘em meia hora mato essa fila e aí vou poder bater papo com todo mundo e beber um vinho no coquetel’. Quando lembro desse meu pensamento caio na risada, pois só consegui levantar da cadeira às 22:00, e só tomei um copo d’água. Foi surreal! Uma das primeiras pessoas a pegar um ‘autógrafo’ foi o meu grande amigo Sérgio Faraco, escritor gaúcho três vezes premiado com o Açorianos de Literatura e usuário de aparelhos auditivos. Fiquei tão feliz de ver que o livro tocou o coração de pessoas de todas as faixas etárias, e mais feliz ainda pela quantidade de gente especial e querida que foi me prestigiar.

 

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Não tenho nem palavras para agradecer a presença e o carinho de cada um de vocês. Foi certamente o dia mais especial da minha vida até hoje. Em 2010, quando criei o Crônicas, jamais pensei que chegaria até aqui.

Abaixo, o texto que coloquei no meu Facebook quando cheguei no hotel, depois de todo o bafão:

“Foram uns 400 abraços apertados ontem – fora os beijos e upas. Foi surreal observar aquela fila que so crescia, crescia, crescia. Foi um torpedo no coração ver o Sérgio Faraco esperando um ‘autógrafo’ meu. Foi como caminhar nas nuvens ver a quantidade de gente incrível que saiu de casa no primeiro dia do outono pra ir prestigiar algo que fiz com tanto carinho. Foi uma coisa de louco rever amigos tão especiais, tão queridos e que há tanto tempo eu não via. Foi sensacional chorar junto com a mãe daquela pitoca linda biimplantada. Foi tão bonito ouvir de uma senhora na fila “eu vim te ver porque te achei muito simples e quis te dar um abraço” – e segurar as lágrimas quando ela encheu os olhos d’água ao ver minha dedicatória. Foi reconfortante me descobrir tão querida por tanta gente que me inspira e de quem sou fã. Foi engraçado ver os amigos mais chegados com os olhos arregalados dizendo “mas o que e isso, guria!”. Foi um choque notar que o livro mexeu, de alguma forma, com pessoas dos 8 meses aos 90 anos. Foi terno rever as minhas três primeiras visitas na maternidade. Foi emocionante ver minha família me encarando com o peito estufado de orgulho. Foi um alívio que deu tudo certo, e a verdade e que mal posso acreditar na noite de ontem. Porque ainda mais importante do que se perceber amparado nas horas ruins e ter com quem dividir as horas boas. Enfim, to emocionada, arrepiada, agradecida e sentindo uma felicidade indescritível – e pensar que, assim que cheguei, pensei “mas bah, em meia hora eu mato essa fila e vou poder bater papo e tomar um vinho!” Ahahah, ledo engano, nao deu tempo nem de tomar um copo d’água. :)

O meu MUITO OBRIGADO a todos que estavam naquele que posso chamar de dia mais especial da minha vida ate agora. To me sentindo gente grande. Vocês são demais!!”

Para ver todas as fotos, tiradas pelo fotógrafo Ewandro Oliveira, clique aqui.

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Quem for de SANTA MARIA já está convidado para o lançamento aqui, que acontece no dia 3 de abril, quarta-feira! Espero todo mundo lá!

Memórias auditivas antigas

Memórias auditivas antigas

Fiquei exatos dez anos sem pisar em Capão da Canoa, praia na qual passei todos os verões da minha vida até os meus 21 ou 22 anos. Este ano, após uns dias na Praia Brava, passei cinco dias em Capão. Chegando lá, que sensação esquisita. Há dez anos eu não usava aparelho auditivo como hoje (quase 24hs por dia), muito pelo contrário, abandonava os pobrezinhos na caixa e lembrava uma vez na vida e outra na morte de usá-los. O primeiro choque foi chegar na sacada, pela manhã, sem AASI. Meu cérebo logo me deu um toque: “onde estão os barulhos?”. Isso porque, em 2003, eu ficava na sacada e ouvia os carros passando, o barulho dos pneus em dia de chuva em contato com a água, o barulho das pessoas falando e caminhando na rua; e isso, sem ajuda alguma.

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O segundo choque foi na primeira noite, ao deitar na cama para dormir. Logo me veio à mente que, em 2003, eu deitava com um walkman e ficava escutando com ele todo o CD Ray of Light, da Madonna, até pegar no sono. Hoje em dia, música, somente conectando meus Pure Carat com o Tek ou com o miniTek via bluetooth.

O terceiro choque foi andando na rua, quando avistei um vendedor de casquinhas (não lembro o nome exato, mas eram casquinhas que a gente comprava na beira da praia, bem fininhas e crocantes). Esses vendedores sempre se anunciaram com um pedaço de madeira na mão que fazia barulho com um negócio de ferro, como vou explicar, o negócio meio que parecia um pandeiro. Em 2003, eu ouvia isso na beira da praia e saía correndo pra comprar. Esse ano, só ouvi porque estava de AASI.

O quarto choque foi tomar banho de sol no terraço do meu prédio, sozinha. Em 2003, quando fazia isso, ouvia uma barulheira danada lá de cima. Esse ano, não levei os AASI porque sabia que ia ficar suando horrores no sol e não quis arriscar, mas não aguentei a solidão daquele silêncio olhando pro céu azul e desci correndo pra buscar os benditos. Amo silêncio de noite, detesto silêncio de dia.

O quinto choque foi passar em frente aos prédios dos meus amigos de infância, lembrar de cada um deles e, automaticamente, lembrar também das suas vozes. Senti tanta saudade!

O sexto choque foi lembrar que, em 2003, eu conseguia conversar no celular (analógico, Tijorola, quem lembra daquilo?) com algumas pessoas cujas vozes eu conhecia de longa data, na janela do apartamento.

O sétimo choque foi acordar de manhã no mais absoluto silêncio e ter um flashback da infância, quando eu acordava ouvindo o vendedor de jornal gritando lá fora “Zeeeeero Hooooora”.

Enfim, foi bem esquisito constatar tudo o que a surdez me roubou em dez anos. Mas, bola pra frente. Sem tempo pra perder com lamentações! ;)

Crônicas da Surdez na Zero Hora

Crônicas da Surdez na Zero Hora

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Hoje eu estou orgulhosa. Demais!!! O livro Crônicas da Surdez e a minha história de vida foram capa e recheio do Caderno Donna, da Zero Hora, que é o maior jornal do sul do país. E, para completar, ainda ganhei um espaço enorme na contracapa da ZH de domingo. Imaginem o coraçãozinho da pessoa!!! Preciso agradecer enormemente à Mariana Kalil e Gabrieli Chanas – editora e subeditora do Donna -, à sensível e maravilhosa repórter Larissa Roso – a matéria é de autoria dela - , ao diretor de arte Gonza Rodriguez – responsável pela capa -, ao fotógrafo Diego Vara – foto da capa -, à Tais Andrade makeup da capa – e ao querido Jean Pimentel – da equipe do Diário de Santa Maria, que tirou as fotos que ilustraram a matéria. A vocês, meu eterno agradecimento pela oportunidade e pela confiança!

Para ler toda a matéria, é só clicar aqui.

PS: estou super feliz de estar ajudando o mundo a saber da existência dos surdos oralizados. :)

O livro Crônicas da Surdez por aí

O livro Crônicas da Surdez por aí

Talvez a ficha só caia no dia do lançamento em Porto Alegre, 20/3. Por enquanto ainda não parece que é realidade. O livro Crônicas da Surdezclique aqui para saber onde comprar online - tem sido notícia em vários lugares e muita gente querida já garantiu o seu exemplar. E a pessoa aqui fica roxa de orgulho, claro!!! Tão incrível receber mensagens de amigos contando que compraram o livro e ainda enviando fotos com ele. Mal tenho palavras para agradecer à todos que já prestigiaram esse sonho que virou realidade. Vocês são demais, e graças à força que me dão é que levei essa idéia adiante. Muito obrigada. Por tudo!

 

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Fiquei impressionada com a quantidade de posts e matérias que o livro já conseguiu até agora. É muito bacana constatar que, em função disso, muitas pessoas que ainda não fazem idéia da existência do Crônicas - o blog – vão poder chegar aqui e se sentir em casa. Felicidade define!!! Obrigadíssima a todos que ajudaram a divulgar pelo carinho.

 

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Obrigada, de coração, mais uma vez.

Antes que me esqueça, não sei exatamente em quais livrarias físicas vocês encontram o livro – quando fui procurar na Saraiva do Barra Shopping em Porto Alegre estava esgotado, algumas pessoas me disseram que no Rio também. Mas dá para comprar online em livrarias como Cultura, Saraiva, Siciliano, Travessa, Martins Fontes e Cia dos Livros. E ele também está disponível na versão e-book no site da Kobo.

Primeira paciente a receber implante coclear bilateral simultâneo no Rio Grande do Sul

Primeira paciente a receber implante coclear bilateral simultâneo no Rio Grande do Sul

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Fonte: Zero Hora - reportagem de Larissa Roso

Em uma sala de espera do Hospital Santa Clara, na Capital, a dona de casa Vera Lucia Ferreira de Lima, 40 anos, deliciava-se com uma dúvida: que palavras gostaria que a filha ouvisse ao abandonar a surdez total? Entre tantos apelidos afetuosos, “amor”, “amor de mãe”, “coração” ou “tuti”?  Primeira paciente a receber um implante coclear bilateral simultâneo no Rio Grande do Sul, Francielly, aos dois anos e meio, escutou a voz e o choro dos pais na quarta-feira pela manhã.

Saiba mais
Como funciona o implante coclear

Um mês depois da cirurgia que permitiu a colocação dos dispositivos eletrônicos a partir de incisões atrás das orelhas, a família de Uruguaiana voltou a Porto Alegre para a ativação do implante. A fonoaudióloga Márcia Kimura, vinda de São Paulo especialmente para esse procedimento, programou os eletrodos para funcionar, observada por uma atenta equipe do Ambulatório de Otorrinolaringologia. Recepcionou Francielly com um coala de pelúcia usando dois aparelhos auditivos.

— Que lindo o seu “papapá” novo. Você viu o “papapá” do coala? Igual ao seu — comentou Márcia, batizando com uma alcunha mais simpática o processador de som.

Há crianças que choram ou se inquietam quando o implante coclear é acionado – para quem vive no silêncio completo, o contato inicial com os sons pode parecer assustador. Ao ouvir os ruídos de teste emitidos por um programa de computador, Francielly, que tem uma deficiência auditiva profunda diagnosticada nos primeiros meses, levou a mão imediatamente ao ouvido esquerdo. Logo cobriu o rosto com as duas mãos, a boca aberta em um biquinho, como se demonstrasse o espanto provocado pela novidade.

— Está ouvindo? — perguntou o pai, o militar aposentado Nilton Sertório Garcia Escobar, 59 anos, em lágrimas, segurando-a no colo.

Francielly apontava com o dedo o próprio ouvido

Márcia avisou que o microfone passaria a captar os sons do ambiente. Olhou para Vera, sinalizando que chegava o momento que a mãe aguardara em ansiosa expectativa.

— Oi, coração — saudou Vera, tirando fotos.

Francielly traduziu o estranhamento em tranquilidade. Apontava com o dedo o próprio ouvido, depois o ouvido do pai, fazia “sim” movimentando a cabeça, respirava fundo. Segundo a fonoaudióloga, mesmo se tornando agora capaz de escutar, ela ainda não consegue fazer a associação entre as palavras e os seus significados – terá que aprender, como qualquer criança, a dar nome aos objetos e às pessoas que a cercam.

— Hoje ela nasceu auditivamente — definiu Márcia.

A primeira suspeita de comprometimento da audição surgiu no segundo mês de vida. Vera preparava o almoço, e Francielly repousava no bebê-conforto, a pouca distância. Num descuido, a mãe deixou a tampa de uma panela de ferro cair no chão. Apesar do estrondo, a filha não esboçou qualquer reação. Seguiram-se outros episódios que aumentaram a desconfiança, como o dia em que a menina dormiu o tempo inteiro, imperturbável, durante uma festa de aniversário que teve queima de fogos de artifício.

Aos três meses, o teste da orelhinha, que deveria ter sido aplicado imediatamente após o parto, indicou alterações, e exames subsequentes comprovaram a surdez. Um dos ouvidos mantinha um resquício de audição, capaz de registrar apenas barulhos em volume altíssimo. Vera diz que a filha jamais atendeu a um chamado. Francielly chegou a usar um aparelho externo, mas, com um ano de idade, a perda já era total.

— A perspectiva de a minha filha viver em silêncio a vida inteira era terrível — conta Nilton, emocionado ao lembrar o dia em que ela, ao final do culto na igreja que frequentam, dirigiu-se até um piano e pressionou as teclas, produzindo um arremedo de canção que não conseguia captar.

Próximo passo, aulas na Turminha do Pernalonga

Durante o período de avaliações médicas e tentativas de obter a cobertura completa do plano de saúde para o implante – dos R$ 177 mil totais, Nilton terá de arcar com R$ 35 mil, parcelados em 10 anos –, a família adaptou a linguagem. O casal e os filhos dos relacionamentos anteriores de ambos desenvolveram códigos para integrar a caçula na rotina.

Há gestos para representar as atividades mais comuns: comer, beber suco, tomar banho. Francielly aperfeiçoou a gramática doméstica, indo além do be-a-bá dos sinais: mostra a palma da mão, pedindo que o interlocutor aguarde, e manda beijos ao executar alguma traquinagem que certamente receberá o olhar reprovador dos pais. Afeita ao convívio com os demais, interagindo sem constrangimento por meio de balbucios, Francielly sempre provoca a curiosidade dos adultos.

— Por que ela não fala? A minha filha fala de tudo — questionou uma mãe na pracinha, certa vez, iniciando um diálogo que se repete em outras ocasiões.

— Ela não escuta, mas ela vai escutar — respondeu Vera.

A dona de casa antecipa o próximo foco da curiosidade alheia: os acessórios que compõem a parte externa do implante coclear, visíveis sobre as orelhas e o couro cabeludo. Busca dicas de adaptação e até alguns truques em fóruns de discussão na internet, mas garante não se importar.

— Todo mundo fala e a sua filha não fala. Dói, né? Eu sei que a deficiência nunca vai deixar de existir, mas ela vai ter uma chance — comemorou a mãe.

Depois da regulagem, a família recebeu orientações sobre a manutenção do aparelho, que será retirado na hora do banho e de deitar. A próxima consulta deve ser realizada em até três meses.

— No início, orientava-se colocar o implante somente em um ouvido. Nos últimos cinco anos, os estudos mostram que as crianças têm um desenvolvimento muito melhor quando o implante é bilateral. Uma coisa é enxergar com um olho, outra é enxergar com os dois olhos — comparou Maurício Schreiner Miura, coordenador do Programa de Implante Coclear da Santa Casa. — Foi um sucesso. Ela vai ter uma vida normal — acrescentou o otorrinolaringologista que acompanha a paciente.

Antes de seguir para a rodoviária, onde o trio tomaria um ônibus para as nove horas de viagem até a Fronteira Oeste, Vera listou os planos mais imediatos para Francielly: o início das aulas na escola infantil Turminha do Pernalonga, na segunda-feira, brincadeiras no pátio com os cachorros Bidu e Lobo, sessões dos desenhos animados preferidos, com os personagens Pica-pau e Bob Esponja. Logo mais, um curso de balé, para o qual a malha rosa e a saia rodada já foram compradas – Francielly adora dançar.

— Agora ela vai ouvir música e o som dos passarinhos — disse a mãe.

Acessibilidade para surdos oralizados no Banrisul

Acessibilidade para surdos oralizados no Banrisul

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No dia 09 de janeiro de 2012 entrei em contato com o Banrisul pela primeira vez, reclamando da falta de acessibilidade do banco para com os clientes que não escutam no telefone – e levando em conta a quantidade de clientes idosos e surdos oralizados que o banco possui, não são poucos. Me colocaram em contato com a sra. Sheila Nunes, que foi quem recebeu minhas reclamações. Eis os emails que enviei:

“Bom dia Sheila,
Estou te re-encaminhando o email que enviei dia 09/01 e 05/02. Só para te colocar a par, de novo sou vítima da falta de acessibilidade do Banrisul para clientes que nao escutam no telefone. Vou novamente para a Europa em pouco tempo, e estava fazendo as reservas nos hotéis. Consegui um preço incrível num hotel de Londres, usei meu Mastercard para fazer a reserva. Estranhei que nao recebi a confirmação. Para minha surpresa, ontem as 22hs recebo email de um hotel em Madrid avisando: seu Mastercard foi REJEITADO. Legal! E aí, as 22hs, sozinha em casa, o que eu poderia fazer?? Não tinha nem a quem pedir que ligasse pro 0800 e fingisse que era eu pra ver porque diabos rejeitaram meu cartao dessa vez. Porque o Banrisul cancela meus cartões aleatoriamente, não sei. Sei te dizer que cansei. Espero um retorno teu o mais breve possível, quero solucionar  essa situação constrangedora, humilhante e irritante de ficar à mercê da falta de acessibilidade do banco. Se não for possível, vou encerrar a minha conta.
Att,”

Eis a resposta que recebi:

“Olá Paula,

Estamos iniciando uma série de ações; não tenho presente o que te foi informado mas  com certeza, teremos muito a fazer.  Uma das ações diz respeito a uma questão trazida por ti quanto a possibilidade de bloquear cartões/cheques no terminal de autoatendimento; para isso, fez-se necessário realizar alterações/manutenções sistêmicas -  já priorizadas e em desenvolvimento. Tenho certeza de que podes nos ajudar; fique a vontade para sugerir/orientar.  Obrigada,

Sheila Nunes”

Respondi novamente:

“Sheila, obrigada pelo retorno.

Então, eu penso que vocês têm que aprimorar o Internet Banking. Quer um exemplo? Ontem minha mãe ficou horas no telefone fingindo que era eu no 0800 de vocês pra conseguir desbloquear meu Visa e avisar no Visa e no Mastercard do Banrisul que vou pro exterior e solicitar meu seguro viagem! Esse tipo de procedimento poderia simplesmente estar disponivel no internet banking. Eu viajo muito pro exterior e já passei o maior perrengue em Paris, quando perderam as minhas malas. E se eu estivesse sozinha? Como diabos faria pra falar no 0800 com o Mastercard sem ouvir no telefone?? Como pediria que um francês fingisse q era eu no telefone? Por sorte uma colega da SEFAZ estava comigo, e mesmo assim ela demorou mais de hora ate conseguir uma atendente que entendesse meu caso e nao ficasse achando que era fraude pra ativar meu seguro-viagem.

Só bloquear/desbloquear cartao em auto-atendimento não resolve nem metade do problema, as pessoas viajam, viajam sozinhas pro exterior, fora do RS é praticamente impossivel encontrar um auto-atendimento do Banrisul. Já pensaram nisso?? Acessibilidade é eu conseguir resolver meus problemas sem pedir favor pra ninguém onde quer que eu esteja no mundo.  Além disso vcs deveriam orientar os gerentes de conta que têm clientes com deficiência auditiva que trabalhem o dia todo com o Outlook aberto – aqui na SEFAZ nós trabalhamos assim. Eu gostaria de poder resolver atraves do internet banking bloqueio, desbloqueio, perda/roubo, avisar que vou pro exterior – coisas que, numa viagem internacional, são imprescindíveis pra quem não ouve. É simplíssimo. O American Express, por exemplo, tem chat no site deles que resolve qualquer pepino de cliente cadastrado. Porque o Banrisul nao pode ter um?? Problemas não acontecem só em dias úteis e horário comercial, e um chat 24hs salvaria muita gente na hora do pepino. Seria possível conseguir esse tipo de acessibilidade no Banrisul?? Pensem, além dos clientes deficientes auditivos, na quantidade de clientes idosos que vocês tem que podem morar sozinhos e passar pelos mesmos perrengues que nós passamos!”

 

Eis que ontem à noite recebi um email do sr. Telmo Cechin (a quem aproveito para agradecer publicamente por toda atenção, paciência, prontidão e excelente atendimento por email que me prestou até então) me contando a novidade! Agora o Banrisul possui atendimento por chat para os cartões de crédito Visa e Mastercard, que funciona de segunda à sexta das 8:00 às 20:00 e nos sábados das 8:00 às 14:00hs.

 

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Como chegar nele? Na página do banco, clique em PARA VOCÊ, depois em CARTÕES BANRISUL, escolha Visa ou Mastercard e então terá uma aba à direita, Canais de Atendimento Cartões de Crédito Banrisul. Clicando nessa aba, abre os canais de comunicação e no final o link direto para o chat.

As informações e ações possíveis no chat são as mesmas possíveis no atendimento humano, como: desbloqueio e bloqueio de cartões, informação de saldo, disponível para uso, comunicação de viagem ao exterior, data de vencimento da fatura, etc…

OBRIGADA, BANRISUL. Agora sou uma cliente muito orgulhosa de vocês!!! :)

Leitores do Crônicas: vocês percebem o quanto é imprescindível que a gente lute por acessibilidade? Eu pedi ajuda ao Ministério Público Federal de São Paulo em 2012, para que a FEBRABAN desse jeito de que todas as instituições financeiras (bancos e operadoras de cartões de crédito) disponibilizassem acessibilidade para surdos oralizados – afinal, qualquer um sabe que aquele 0800 especial para deficientes auditivos e de fala é a maior piada de todos os tempos, completamente inútil e inacessível. Aliás, preciso me informar sobre o andamento disso. Não esqueçam: reclamem! Lutem por acessibilidade, pois ACESSIBILIDADE É UM DIREITO, NÃO É UM FAVOR.

Acessibilidade para surdos oralizados nas faculdades e cursinhos preparatórios para concursos

Acessibilidade para surdos oralizados nas faculdades e cursinhos preparatórios para concursos

ACESSIBILIDADE

Sou membro da Comunidade dos Surdos Oralizados no Facebook. Trocamos muitas idéias por lá, e resolvi perguntar para o pessoal o que seria acessibilidade para nós na faculdade e em cursinhos preparatórios para concursos. Quando se trata de surdos sinalizados, é relativamente simples, pois o pedido principal é um intérprete de língua de sinais, coisa que, no nosso caso, não tem serventia alguma. Dêem uma olhada nas respostas que o pessoal deu para a minha indagação.

 

  • Professores com a luz acesa na sala, pois não dá pra fazer leitura labial no escuro. Eles apagam quando tem datashow, e também costumam passar filmes ou documentários dublados;
  • Sistema FM disponibilizado pela instituição.;
  • Falar olhando para a turma. Quando fiz faculdade, muitos professores tinham o hábito de dar aula de costas, escrevendo no quadro;
  • Material audiovisual SEMPRE LEGENDADO. Professor falar sempre voltado para os alunos. Sistema de sonorização especial “aro magnético – hearing loop”. Distribuição de resumos das aulas com bibliografia para que os alunos possam complementar a informação em casa. E lutar por aulas com legendagem por estenotipia presencial como a Diéfani Favareto Piovezan relatou no blog dela, recurso que é oferecido em universidades dos EUA;
  • A maior importância é o PROFESSOR. O aluno, a aluna têm que estar de frente ou próximo dele. Há momentos em que ele pede para copiar no caderno, ou seja, fala e faz os alunos copiarem no caderno. Melhor ficar ao lado do colega ouvinte e copiar…na maioria das vezes, o professor tem de ficar em frente dos alunos. Quanto às palestras, não assisto, pois não dá para eu entender. Fica fácil com aquele sistema de estenotipia. Quanto a fazer trabalho em equipe, é preciso dar cooperação e combinar que cada um fará a sua parte (na época, fiz sozinha alguns trabalhos de grupo);
  • Se a faculdade/Universidade oferecesse estenotipia seria perfeito;
  • Professores sem bigode;
  • O meu maior problema na faculdade foi quando os professores insistiam em ditar a matéria. Mesmo falando em particular para cada um deles sobre a dificuldade de um surdo oralizado copiar matéria ditada (não dá para fazer leitura labial e escrever ao mesmo tempo, né?), nunca isso era respeitado.

 

Não entro numa sala de aula há muito tempo. Mas lembro de como era cansativo ter que ficar perseguindo as bocas dos professores com os olhos. Voltava para casa vesga! No meu tempo a única ‘acessibilidade’ era chamar os professores num cantinho reservadamente e implorar: “oi, lembra que eu existo e preciso enxergar a sua boca para acompanhar a aula, por favor?”

Não deixem de ler o post completo no Igualmente Diferentes sobre a transcrição de aulas nos Estados Unidos. Embora esse serviço seja inexistente por aqui, ele existe, e seria sensacional contar com esse recurso. Não vejo mistério algum, apenas falta de conhecimento e de vontade das instituições de ensino. Mas o que me deixa fula são esses cursinhos preparatórios para concursos, que agora têm quase somente videoaulas, e todas elas SEM LEGENDA. Como é que pode uma coisa dessas??

Par Especial: a diversidade e os relacionamentos na Internet

Par Especial: a diversidade e os relacionamentos na Internet

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O ambiente digital ganhou, neste mês, uma rede social 100% voltada à pessoas com deficiência, o www.ParEspecial.com.br. O site tem o objetivo de incluir e aproximar um público com necessidades, interesses e aptidões específicos e muito especiais.

Dados do IBGE mostram que cerca de 24% dos brasileiros sofrem de algum tipo de deficiência, das mais leves às mais severas. Entre elas, a deficiência motora é a segunda mais relatada, ou seja: mais de 13,2 milhões de pessoas afirmam ter algum grau de dificuldade desse tipo – o que equivale a 7% da população do País. Além destes, 2,1 milhões de brasileiros declaram ter deficiência auditiva severa. Já a deficiência mental ou intelectual foi declarada por mais de 2,6 milhões de pessoas.

Maxx Figueiredo é artista e idealizador do portal. O Par Especial possibilita às pessoas que se conheçam, falem sobre suas histórias, mostrem sua personalidade, interesses e aptidões em um ambiente que permite à pessoa com de deficiência buscar amizades e estabelecer relacionamentos pessoais e amorosos sem medo. O cadastro é gratuito.

Fica a dica! ;)

Sobre o seriado Switched at Birth

Sobre o seriado Switched at Birth

 

Desde que o Canal Sony começou a passar Switched at Birth legendado todo domingo às 11hs, acordo pra assistir. Tinha visto os primeiros capítulos em espanhol, em Buenos Aires, e adorado. Agora, em português, melhor ainda. Resolvi escrever esse post pois vi uma cena que me chamou a atenção. Na verdade foi o modo como a irmã ouvinte sempre olha para a irmã surda. O olhar dela é um misto de superioridade com pena. Ela sabe que a outra jamais vai pegar as informações na hora exata e jamais vai participar em pé de igualdade das conversas. Ao mesmo tempo em que a que não ouve nem se liga nisso, a que ouve sabe o quanto faz diferença essa ‘presença’ na comunicação humana da qual a surdez nos priva. Confesso que aquele olhar dela me mata por dentro…

E quando aquele pai ouvinte quer ficar conversando no carro, no escuro, sem olhar de frente para ela? Dá vontade de entrar na tela da TV e dizer “oi, eu sinto a sua dor!”. Agora que a irmã ouvinte se apaixonou pelo melhor amigo surdo da irmã que não ouve então, altas emoções. Achei lindo ela começar a aprender ASL para se comunicar com ele e dá pra ver o quanto ele gostaria de falar para se comunicar com ela. Coisas que só o amor é capaz de fazer! ??

Adoro esse seriado, e acho que ele ilustra bem o quanto as relações humanas necessitam de tempo e adaptação para funcionar.

Crônicas da Surdez: o livro

Crônicas da Surdez: o livro

CAPALIVRO

É com muito orgulho que finalmente posso contar para vocês, caríssimos leitores e leitoras do Crônicas, sobre o lançamento do meu livro, que também se chama Crônicas da Surdez. Ele já está à venda na Saraiva e na Livraria Cultura. É um sonho realizado, graças à Editora Plexus, do Grupo Editorial Summus, que acreditou na idéia e editou o livro – meu eterno agradecimento à Soraia Bini Cury por isso. Ele está dividido em três partes. Na primeira, conto toda a minha história de vida desde a infância; na segunda, várias crônicas e, na terceira, uma seleção de depoimentos de leitores do blog. :)

O primeiro lançamento será em Porto Alegre, no dia 20 de março, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country. Quem for de Porto Alegre já sabe: tem que ir! Guardem essa data na agenda, please.

Adoraria fazer um lançamento em São Paulo e estou vendo como fazer isso acontecer, assim que tiver notícias sobre isso, vocês serão os primeiros a saber.

Enfim, quero dividir a minha felicidade com vocês. É um sonho realizado – e outro modo de fazer o mundo saber que os surdos oralizados existem!

Me ajudem a espalhar essa notícia!!!

Deficiência auditiva X praia

Existem duas experiências a respeito de praia para quem usa aparelhos auditivos: com som ou sem som. Sempre que chego na praia me pego morta de medo da maresia e do que ela é capaz de fazer com meus AASI. Nos primeiros dias fico naquele stadenervos querendo ir pra beira da praia com eles e pensando com meus botões: “Nem a pau, Juvenal!”. Só que depois o medo passa. A saudade de ouvir o som do mar e das ondas quebrando fala muito mais alto. Sabe qual é a sensação que tenho ao chegar na praia de AASI após alguns dias relutando em usá-los? Como se eu estivesse presa numa terceira dimensão sem saber. É muito estranho. Toda aquela paisagem maravilhosa ao meu redor e som nenhum para acompanhar o momento. Solitário, solitário. Não rola. Enquanto eu puder ouvir usando aparelhos auditivos, é isso que vou fazer. Existe algo mais relaxante que o som do mar? Se existe, desconheço. Parece um milagre ligar os ‘bichinhos’ e de repente me deparar com uma paisagem que faz sentido: ondas quebrando, pássaros cantando, crianças berrando, ambulantes tentando vender seu peixe. Confesso que aperta o coração. Parece que meu cérebro fica me levando de volta pros tempos em que eu ouvia tudo isso com a minha própria audição.

Com piscina, é a mesma coisa. Eu sou do tipo neurótica e fico checando se estou de AASI ou não – nessas horas bem queria ser compatível com um à prova d´água! Imagina que desastre dar um biquinho na piscina e, ao colocar o rosto pra fora da água, se dar por conta que assassinou seus aparelhos? Me arrepio só de pensar. Ficar na piscina tomando banho de sol sem som algum também é solitário demais. Ficar olhando para aquele céu azul lindo e tendo que imaginar coisas para arejar a cabeça na falta de uma música de fundo… Nesses momentos é que faz um sentido danado para mim o fato de que só quem pode achar a audição algo ‘supérfluo’, que não faz falta, é quem jamais se deliciou com essa dádiva que é ouvir. Quem ouve pouco se importa, nem dá valor. Só que quando você é uma pessoa que foi perdendo a sua capacidade de ouvir ao longo da vida, falar sobre o sentido audição é emocionante. Estar num lugar como praia ou piscina, sem som algum acompanhando, nossa…

Pareei meus Pure Carat com o Mini Tek e passei longas tardes ao sol ouvindo jazz, mais especificamente, Diana Krall. E foi muito bacana notar que esses aparelhos ‘matam’ aquele barulho chaaaato do vento entrando na cavidade auditiva – escuto só um ventinho delicioso e que não incomoda nada, nada.

Santa Maria de LUTO

Santa Maria de LUTO

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Como vocês devem saber, nasci, cresci e vivo em Santa Maria. Eram 2:35 da madrugada, eu estava na estrada indo para a praia e batendo papo com um amigo no WhatsApp. Assim que dei tchau resolvi dar uma espiada no Facebook. Vi duas fotos postadas pela Maria Luiza Guerra e achei que se tratava de um acidente de carro. A ficha ainda não caiu. Meu irmão ia seguido na Kiss mas, graças a Deus, ele estava no carro viajando junto comigo. Quando me dei por conta da dimensão da tragédia a sensação de terror foi se formando. Não há palavras que possam expressar a tristeza e o luto que a nossa cidade vai enfrentar daqui para a frente. Tantas jovens vidas ceifadas por uma fatalidade bruta, monstra. Comecei a receber centenas de mensagens por email e Facebook perguntando se eu estava bem e viva – nunca fui na tal boate porque não é da minha faixa etária. Nesse momento terrível só nos resta rezar e ter fé. Todo o meu sentimento vai para as famílias das vítimas. E que Deus receba a todos de braços abertos no Céu. :(

PS: Estou pensando muito no quanto uma pessoa que não ouve corre sério risco de vida em situações de emergência. Aliás pensei tanto nisso que cheguei a passar mal.

Dica de livro: The Unheard

Dica de livro: The Unheard

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The Unheard: a memoir of deafness and Africa – Ed.Henry Holt, de Josh Swiller. Na Livraria Cultura, R$40,00.

Estou saindo de férias na MAIOR EXPECTATIVA, gente! Meu livro sai em meados de fevereiro pela Editora Plexus e vai se chamar…Crônicas da Surdez! Imaginem uma pessoa nervosa e feliz: sou eu. Para acalmar os ânimos, estou levando na mala das férias vários livros. Entre eles um que promete ser uma baita leitura. Amo ler em inglês, por isso não pensei duas vezes quando encontrei um livro que falava sobre uma história de vida interessantíssima de um cara que…usava aparelhos auditivos!!

A sinopse:

‘These are hearing aids. They take the sounds of the world and amplify them.’ Josh Swiller recited this speech to himself on the day he arrived in Mununga, a dusty village on the shores of Lake Mweru. Deaf since a young age, Swiller spent his formative years in frustrated limbo on the sidelines of the hearing world, encouraged by his family to use lipreading and the strident approximations of hearing aids to blend in. It didn’t work. So he decided to ditch the well-trodden path after college, setting out to find a place so far removed that his deafness would become irrelevant. That place turned out to be Zambia, where Swiller worked as a Peace Corps volunteer for two years. There he would encounter a world where violence, disease, and poverty were the mundane facts of life. But despite the culture shock, Swiller finally commanded attention – everyone always listened carefully to the white man, even if they didn’t always follow his instruction. Spending his days working in the health clinic with Augustine Jere, a chubby, world-weary chess aficionado and a steadfast friend, Swiller had finally found, he believed, a place where his deafness didn’t interfere, a place he could call home. Until, that is, a nightmarish incident blasted away his newfound convictions.”

“Estes são aparelhos auditivos. Eles pegam os sons do mundo e os amplificam. Josh Swiller fez esse discurso para si mesmo no dia em que chegou a Mununga, uma aldeia poeirenta às margens do Lago Mweru. Surdo desde a infância, Swiller passou anos frustrado num limbo à margem do mundo ouvinte, encorajado pela sua família a usar leitura labial e aparelhos auditivos para se misturar. Não funcionou. Então, ele decidiu abandonar o caminho bem trilhado após a faculdade e sair para encontrar um lugar tão distante que sua surdez se tornaria irrelevante. Esse lugar acabou por ser a Zâmbia, onde Swiller trabalhou como voluntário do Corpo da Paz por dois anos. Lá ele encontraria um mundo onde a violência, doença e pobreza eram fatos mundanos da vida. Mas, apesar do choque cultural, Swiller finalmente chamou a atenção – todos sempre ouviram atentamente o homem branco, mesmo que nem sempre seguissem a sua instrução. Passar seus dias trabalhando na clínica de saúde com Agostinho Jere - um gordinho aficionado por xadrez e um amigo firme - fez com que Swiller tinha finalmente encontrasse um lugar onde a sua surdez não interferiu, um lugar que ele poderia chamar de lar. Até que, um incidente aterrorizante explodiu longe de suas convicções recém-descobertas.”

A deficiência auditiva e os nossos novos relacionamentos

Esses dias troquei uns emails com uma leitora das antigas que eu admiro muito. Um dos tópicos da nossa conversa foram os relacionamentos – em especial, logicamente, os amorosos. Aí acabei matutando sobre esse assunto, e vi que dá pra entender porque tantas pessoas que não escutam preferem muitas vezes se fechar num grupinho de pessoas com as quais se sentem confortáveis e não sair mais dali. Sim, é confortável, tranquilo e não causa stress. Só que, cá entre nós, qual é a graça? A gente fala tanto em diferença e na hora do pegapacapá acha melhor ficar entre iguais?

A cada relacionamento que chega ao fim (fazer o que, né!) nos deparamos novamente com aquela missão um pouquinho desagradável, que é contar para uma pessoa nova sobre nossa deficiência auditiva e suas peculiaridades. No meu caso, em 100% das vezes foram pessoas que ouviam normalmente – nunca me relacionei com alguém que tivesse o mesmo problema. Embora pareça uma baita bobagem, é difícil não bater um receio. “Vai entender numa boa?”, “Vai sair correndo?”, “Vai saber lidar com isso?”, ”Vai ter paciência”?, “Vai me olhar como se eu fosse um alien?”, “Vai ficar constrangido?”…São as perguntas clássicas que ficam passando pela nossa cabeça.

Comigo já aconteceu cada uma! Lembro de uma vez – já devo até ter contado aqui – em que um carinha pediu meu telefone. Quando dei o número pedi que só me mandasse SMS, não ligasse. Aí tive que ouvir um discurso da criatura, que me acusou de ser casada (pode???) e estar falando pra ele mandar SMS só pro meu ‘marido’ não saber. Só Jesus na causa, como diria aquela personagem da novela das 8. Outra vez, quando contei que não ouvia bem, a criatura em questão ficou uns 10 minutos tipo “ahhh não mente”, “ahhh fala sério”, até acreditar. Peloamor!!! Enche o saco, mas acontece e muito.

Porque é que temos tanto receio, afinal? No meu caso, demoro pra decidir se uma pessoa nova merece ou não merece saber demais sobre a minha vida nesse quesito. O que é que um namorado novo precisa ter para lidar numa boa com a deficiência auditiva? Paciência. Sejamos honestos, é preciso uma dose enorme de paciência para se relacionar com alguém que não ouve bem. Isso envolve repetir algumas coisas quando for necessário (sem fazer cara de bunda e sem reclamar, rsrsrs), aprender truques básicos como não querer bater papo no escuro, aprender o mínimo aceitável de leitura labial (se virar expert eu me apaixono e caso! hahaha) e, porque não, ajudar a transformar esse peso em leveza. A surdez me lembra o título daquele livro famoso, “A insustentável leveza do ser“, cuja principal lição é a de que devemos aprender a transformar o peso da vida em leveza. E não é isso que fazemos todo santo dia ao reunir forças para não nos estressarmos (tanto!) com o fato de que não ouvimos perfeitamente? Que delícia quando conseguimos encontrar alguém que nos ajuda com isso.

É primordial que a gente se sinta confortável e 0% constrangido com tudo o que disser respeito à DA quando nos relacionamos com alguém. Já recebi centenas emails de leitores do Crônicas reclamando do comportamento de namorados(as), maridos e esposas. Eu jamais conseguiria me relacionar com uma pessoa que me fizesse sentir mal ou envergonhada/sem graça em função disso – cairia fora no ato. Há quem consiga, mas, honestamente, acho isso uma tremenda falta de amor próprio e um desperdício de tempo.

Me contem sobre as experiências pessoais de vocês?

Produtos para pessoas com deficiência auditiva: despertadores, telefones e estetoscópios com amplificador e mais…

Como foram de festas de final de ano, pessoal? Por aqui, tudo tranquilo. Hoje é dia de voltar à ativa!! :)

O Paulo Sugai (lembram dele do post do jogador de futebol americano com deficiência auditiva?) me marcou numa postagem no seu Facebook falando sobre a sua dificuldade pra acordar sozinho. Aí vi que um amigo dele já tinha indicado meu post sobre o relógio despertador vibratório da Bellmann&Symfon – depois dos meus AASI ele é a ‘coisa’ que mais amo nessa vida, não vivo sem. Aí me deu curiosidade de saber quanto meu amado relógio custava no Ebay, e acabei encontrando uma loja virtual muito interessante. Ela se chama Hear World Comunications

Aí falei com o dono da loja numa longa troca de emails e ele topou, caso alguém se interesse, a nos vender o relógio por U$79,95 cada. Só tem a questão do frete, e são duas opções: ou U$49 via FEDEX (não indico porque a Receita SEMPRE pega os pacotes da FEDEX) ou U$70 via Correio americano com código de rastreio. Expliquei pra ele do nosso probleminha com os impostos aqui no Brasil, e ele se dispõe a enviar como pessoa física e declarar que o que há dentro da caixa custou U$30, para que possamos escapar dos 60% de Imposto de Importação e 17% de ICMS. Se alguém quiser, basta enviar email para HearWorld@aol.com se identificando como leitor do Crônicas da Surdez, ok?

 

 

 

 

A última vez que pesquisei ele custava cerca de U$175, o preço baixou muito! No Brasil deve custar em torno de R$800-R$1.000.

 

Quem lembra do post sobre a estudante de Medicina com deficiência auditiva? Por incrível que pareça quase toda semana recebo algum email perguntando onde é que se compra estetoscópio com amplificador. Encontrei dois modelos nessa loja, os preços variam de U$285 a U$379.

 

 

Esse produto da Bellmann&Synfon avisa que alguém está batendo na porta. Achei muito útil!

 

 

Esse é muito legal, para quem é mãe e tem deficiência auditiva. Um aparelho chamado “Cry Analizer“, ou seja, ele analisa o choro do bebê para a mãe saber porque a criança está chorando. Eu só imagino a ansiedade de uma mãe que não escuta…

 

 

 

Pra quem quer um super fone de ouvido amplificado com conexão wireless e sem fio…essa é a pedida! O jeito de ouvir TV sem incomodar os vizinhos….rsrsrs!

 

Um alarme de incêndio que avisa a pessoa que não ouve com sinal luminoso. Perfeito para quem mora sozinho!

 

Simulei a compra do relógio na Amazon também. Dá R$235 entre o relógio e o frete, mas não diz quanto vão custar os impostos caso a Receita Federal pegue a caixa. A minha opção, caso eu fosse comprar, seria comprar pela Hear World e usar o frete de U$70,  já que ele prometeu enviar como pessoa física e informar na caixa que o produto custou U$30. É o único jeito de comprarmos algo que precisamos demais com um preço decente…

Confiram o que diz o site da Receita Federal sobre tudo isso:

Isenções:

    1. Remessas no valor total de até US$ 50.00 (cinqüenta dólares americanos)estão isentas dos impostos , desde que sejam transportadas pelo serviço postal, e que o remetente e o destinatário sejam pessoas físicas;
    2. Medicamentosdesde que transportados pelo serviço postal, e destinados a pessoa física,sendo que no momento da liberação do medicamento, o Ministério da Saúde exige a apresentação da receita médica.
    3. livros, jornais e periódicos impressos em papel não pagam impostos (art. 150, VI, “d”, da Constituição Federal);

Se alguém precisar de ajuda é só deixar um comentário nesse post, tá?

 

Boas Festas

Boas Festas

 

Mais um ano chega ao fim, e eu não poderia de deixar de agradecer a todos vocês que acompanham o Crônicas da Surdez e fazem com que este trabalho tenha valor e significado. É até difícil encontrar palavras para expressar a gratidão que sinto pelo companheirismo, a troca de informações, a força e o apoio de cada um que para por alguns minutos todos os dias pra vir dar uma espiada no nosso espaço. Até me arrepio de pensar nisso! Espero que em 2013 cada um de nós consiga encontrar mais paz de espírito e força interna para enfrentar os desafios da convivência diária com a deficiência auditiva. Só nós sabemos os perrengues que passamos, né?

PS: que tal se cada um que ler esse post deixar um comentário dando um oi e contando de onde é? :)

Deficiência auditiva e empregos na iniciativa privada

Deficiência auditiva e empregos na iniciativa privada

“Oi Paula!! Meu Nome é Karina, tenho 22 anos e sou deficiente auditiva bilateral moderada. Quando criança, não me lembro de ter passado por nenhuma situação constrangedora, até porque nunca gostei de andar ou ficar sozinha, sempre acompanhada!! Aos 15 anos, comecei a trabalhar numa pequena empresa, onde o telefone era alto, a minha mesa era do lado do balcão de atendimento e de frente para a porta de entrada. Não tinha erro, não usava aparelho auditivo, primeiro porque achava que não tinha necessidade; tudo se dava um jeito, era fácil balançar a cabeça fingindo concordar com tudo, odeio esse termo, mas é bem assim mesmo que funciona. Comecei a faculdade e decidi fazer estágio, minha meta até então era trabalhar numa mega empresa. Passei numa entrevista, mas no exame prático não, talvez porque em vários momentos da conversa fiquei com vergonha de pedir ao examinador repetir pela 3º vez. Repensei o erro e continuei procurando e consegui novamente também numa empresa multinacional, passei em tudo, pronta para começar, mas… Nesses seis meses, o que era para ser de aprendizado profissional acabou sendo pessoal, não conseguia me entrosar com a equipe porque ficávamos de costas um para o outro e era um bate papo danado e eu lá na minha telinha do micro só imaginando o que estavam falando. Uns me chamavam de metida, outros de sem educação e até de quieta… Eu quieta? Mal sabiam rsrsrs, mas foi o suficiente para eu me sentir inútil, fiquei totalmente limitada, parecia o Charles Chaplin apertando os parafusos. Aquela limitação toda me sufocou e eu não aguentei. Definitivamente pedi pra sair, mas até hoje não me conformo de não ter aprendido o que poderia. Depois disso, minha irmã vendo a minha dificuldade e sofrimento, me incentivou e me ajudou a comprar um aparelho auditivo. Comecei também a pesquisar sobre cota para deficientes, saber como funciona e se eu me enquadrava nela, fiz isso e ainda digo que foi a melhor coisa. Fiz algumas entrevistas, tive até opção de escolher em qual trabalhar e graças a Deus fiz uma boa escolha, principalmente pela equipe em que trabalho. Em pouco mais de um ano, ganhei um melhor amigo, que é meu aparelho – e não fico sem ele mais nem um minuto. Na empresa, nunca tive problema algum, até porque já estavam “acostumados” a trabalhar com PCD’s, então tudo foi muito mais fácil e hoje estou grata a eles. E o meu conselho aqui fica para aqueles que têm vergonha de trabalhar como PCD’s ou que acham que será diferente dos outros, assim como eu achava. Mesmo que as oportunidades ainda estejam escondidas elas existem, temos é que procurar e não desistir. E o que eu pude perceber é que o ambiente e nossos amigos somos nós que conquistamos!

PS: Tenho que agradecer a minha chefe, pois várias vezes me “chamou a atenção” para comprar o aparelho auditivo e também que me apresentou o Crônicas da Surdez, que fez uma grande diferença na minha vida. Obrigada!!”

E a chefe da Karina também enviou um pequeno depoimento…

“O processo de inclusão de uma pessoa com deficiência em nossa equipe de trabalho tem que ser natural. Ações simples para que a necessidade especial seja inserida no contexto do trabalho podem ser realizadas: posicionar o profissional em uma mesa localizada de forma a facilitar a comunicação, manter o respeito para que as diferenças fiquem imperceptíveis, chamar a atenção quando houver necessidade e, principalmente, exigir a atuação profissional da mesma forma que os demais são exigidos. É claro que falar da minha querida assistente Karina é muito fácil. Rápida, inteligente e muito prestativa, vai muito longe, com certeza!!! Tive que incentivá-la a colocar o aparelho, falo incentivar, pois é mais gentil. Na verdade… chamei a atenção e cobrei, de fato, o uso do aparelho. Não porque é mais fácil pra mim, apesar de ser, é claro, facilita e muito a nossa comunicação. Mas é muito melhor para ela, pois lhe dá muito mais SEGURANÇA para interagir com o grupo… Foi nítida a mudança de percepção do ambiente com o uso do aparelho… ela talvez não perceba, mas eu não tenho dúvidas.”

PS: na minha opinião, o que qualquer empresa pode fazer é dar as ferramentas que a PCD necessita para realizar o seu trabalho. O resto, é com o próprio trabalhador. Achei bacana que a chefe tenha pedido-exigido que a Karina usasse aparelho auditivo, porque ele é muito importante. Além de dar uma segurança tremenda, nos permite ter outro nível de interação com os colegas, muito mais intensa e de igual para igual. A gente sente vontade de interagir mais e mais, em vez de querer vestir a ‘capa da invisibilidade’ para que ninguém venha puxar papo e nos colocar em situações embaraçosas. Eu admiro muito quem corre atrás de oportunidades e trata de vencer preconceitos e quebrar várias barreiras! O que não pode é ficar escondido em casa, com medo do outro, com medo de falhar, com medo de tudo!

Pessoas com deficiência X processos seletivos

Pessoas com deficiência X processos seletivos

“Há 2 anos atrás eu estava grávida e participei de um processo seletivo. A vaga era para outra cidade e só participei para o pessoal me conhecer, pois não estava muito segura em mudar de cidade no meio da gravidez. Esperei dois anos, hoje minha filhota está praticamente independente. Então surgiu esta nova vaga para substituir uma gerente grávida na minha cidade, e fui novamente indica por uma amiga. Conversei com a gerente grávida e por ela já estava certa de que eu iria entrar, mas ela me alertou que a empresa (multinacional do ramo de cosméticos) não abre mão de que todo candidato passe pelo processo seletivo padrão. Nada mais justo, penso eu! Realizei as provas e passei (1°Etapa); na segunda etapa era uma dinâmica em grupo e no momento da apresentação individual, fui a primeira a falar. Quando terminei, o gerente regional me perguntou se eu tinha disponibilidade de viagem e eu não escutei, ele falou mega baixo. Relatei brevemente meu problema auditivo, pedi com educação para ele repetir a pergunta e não entendi DE NOVO!!!! Foram 3 vezes que ele repetiu – claro as pessoas se irritam, acham que a gente ta tirando onda, sei lá. Aí mandaram todas embora e falaram que iriam ligar naquele dia mesmo para informar se tinham ou não passado para a terceira etapa, que era a entrevista individual. E nada de retorno, então minha amiga ligou para saber o que tinha acontecido. Esses seres, que não vou chamar de pessoas, não tiveram a coragem de me ligar, falaram para ela que não tinha condições de uma pessoa com problema auditivo atuar nesta vaga. Caramba! Ele sequer falou comigo. Não tenho problemas com concorrência, pelo contrário reconheço quando existe e existem muitas pessoas com o perfil bem bacana. Mas ele poderia pelo menos ter me chamado para a entrevista individual. Porque não escuto direito, me senti excluída e muito mal, mas agora estou indignada com o cara que não quis nem falar comigo ou me conhecer melhor, simplesmente saiu falando que a vaga não pode ser de alguém que não escuta direito.”

Recebi o email acima de uma leitora do Crônicas. A situação evidencia muito bem o que todos nós já sabemos: 99% das empresas só quer saber de PCD’s para preencher vagas de baixíssima complexidade. Basta abrir o jornal para ver as vagas oferecidas, parece que quem tem alguma deficiência precisa ficar confinado num porão! A impressão que tenho é que o pessoal de Recursos Humanos comprou para sempre o estereótipo nonsense de que PCD’s são incapazes, burros, ineficientes e sem escolaridade. E tem TANTA gente legal e com ótimo currículo por aí que esbarra nesses profissionais preconceituosos que dá vontade de chorar. Além de preconceituosos, eu diria que esses ‘profissionais’ são também preguiçosos, e isso porque integrar um PCD num ambiente de trabalho requer…trabalho da parte deles. Precisam fazer pequenas (às vezes, ínfimas) adaptações de acessibilidade, precisam informar os outros funcionários sobre as particularidades do colega novo, precisam enfiar na cabeça dos seus superiores que uma PCD não é melhor nem pior que ninguém, só diferente.

Cursar uma faculdade e ser um ótimo profissional mas se ver de mãos atadas por um detalhe mínimo – no nosso caso, não ouvir ou não ouvir perfeitamente – é muito frustrante. Me parece que chegou a hora de comprarmos a briga para alterar essa legislação, pois as empresas estão SIM se beneficiando dela para colocar no seu quadro de funcionários PCD’s apenas nos cargos de almoxarifado, limpeza e telemarketing. Que horror!

911 passa a aceitar pedido de socorro via SMS

911 passa a aceitar pedido de socorro via SMS

 

Fonte: INFO Exame (notícia enviada pela Paola Scott)

‘Nova York – As operadoras AT&T, Verizon, Sprint Nextel e T-Mobile chegaram a acordo para criar um serviço que permite o envio de SMS para a emergência 911, informaram autoridades dos Estados Unidos nesta sexta-feira.

Esse serviço ajudará principalmente pessoas com dificuldades de escutar ou falar, já que até agora o 911 só recebe chamadas telefônicas. O serviço deve estar disponível em todo o país até 15 de maio de 2014, mas deve ter grandes implementações. Segundo a Comissão Federal de Comunicações, o serviço estará disponível em todo o país até 15 de maio de 2014, mas deve ter grande cobertura já em 2013.’

*Enquanto isso, no Brasil, quem não escuta no telefone e está sozinho quando sofre algum tipo de acidente chama o resgate como? Por telepatia? É DOSE!

Novo software pode melhorar a percepção do som para os usuários de aparelhos auditivos

Novo software pode melhorar a percepção do som para os usuários de aparelhos auditivos

Fonte: INBRAUD (Obrigada ao Dr.Henrique Gobbo, que me enviou a notícia)

“Até recentemente, os aparelhos auditivos só forneciam amplificação para frequências até 4 ou 5 kHz, enquanto que uma pessoa com audição normal pode ouvir frequências até 15 ou 20 kHz.” – Professor Brian Moore.

O software de um aparelho auditivo é responsável por determinar qual será a amplificação sonora nas diversas frequências. A nova programação é capaz de amplificar faixas de alta frequência, melhorando a percepção da fala, a localização do som e a possibilidade de apreciar música. Resultados de uma avaliação do software foram publicados recentemente na revista Ear and Hearing.

Segundo o Censo 2010, mais de nove milhões de brasileiros tem perda auditiva grande o suficiente para causar-lhes problemas na vida cotidiana. Como a perda de audição geralmente aumenta com a idade, a proporção de indivíduos com perda auditiva vai aumentar rapidamente com o envelhecimento da população brasileira.

Um dos principais tratamentos disponíveis para os pacientes com perdas de audição é o uso de  próteses auditivas (aparelhos de amplificação sonora individual, ou AASI), que amplificam o som nas frequências necessárias. Para que os usuários possam obter maior benefício com o uso da prótese auditiva, o aparelho deve ser ajustado de acordo com o padrão da perda de cada indivíduo. O conceito é semelhante ao dos óculos para a perda da visão.

A perda auditiva mais frequente é aquela que ocorre em altas frequências, ou seja, nos sons mais agudos. É o tipo de perda auditiva que ocorre com a idade, chamada de presbiacusia. Nestes casos, muitas vezes, o paciente tem audição normal para frequências graves. Se o aparelho auditivo amplificar de forma igual em todas as frequências do som, o paciente sentirá desconforto ao ouvir sons graves (de baixa frequência), pois ficarão muito altos. Para resolver esse problema, os aparelhos auditivos atuais dividem o som em um grande número de canais de frequência, ou bandas. As bandas podem ser amplificadas separadamente de acordo com a necessidade de cada paciente.

Pesquisadores da Universidade de Cambridge desenvolveram o software CAM2, um novo método de programação de controle de ganho para as próteses auditivas. A programação é feita baseando-se nos exames de audiometria do paciente.

“Até recentemente, aparelhos auditivos só forneciam amplificação nas frequências até 4 ou 5 kHz, enquanto uma pessoa com audição normal pode ouvir frequências até 15 ou 20 kHz,” disse o professor Brian Moore, do Departamento de Psicologia, que liderou o desenvolvimento do CAM2. “Os fabricantes têm lançado aparelhos auditivos que podem amplificar frequências até 8 ou 10 kHz, mas não existiam métodos de programação adequados para a amplificação destas frequências.” O método CAM2, no entanto, amplia a faixa de programação até 10 kHz.

As frequências mais altas ajudam a distinguir sons como “x”, “ch” e “f”. Em situações de escuta mais difícil, como em uma sala onde várias pessoas estão falando ao mesmo tempo, as frequências mais altas ajudam muito na compreensão do som (descriminação de fala). As frequências mais altas também podem ajudar na localização da fonte sonora, ou seja, identificar de onde o som está vindo.

Um estudo recente comparou com o método CAM2 com o NAL-NL2, que é o método de programação utilizado pelo sistema público de saúde inglês e por muitas outras organizações de saúde em todo o mundo. Foi avaliada a qualidade sonora obtida em diálogos com interlocutor masculino e feminino em ambientes silenciosos e ruidosos, e ao ouvir quatro estilos musicais (música clássica, jazz, percussão e canto a capela) a maioria dos participantes do estudo preferiram os aparelhos com uso do software CAM2, tanto na qualidade geral do som quanto na clareza da fala em situação de ruído. Nos próximos estudos já programados serão avaliados indivíduos com perda auditiva maior em relação aos pacientes avaliados no presente estudo.”

Aproveitei e pedi ao Dr.Henrique que ‘traduzisse’ a notícia e explicasse um pouco sobre a INBRAUD.

“Paula, esse é um estudo bastante recente. A tecnologia não está em uso ainda, mas deve estar em breve. A programação usada hoje para aparelhos auditivos não consegue amplificar sons de frequência acima de 6KHz. Esse novo software consegue amplificar sons até 10KHz. Com essa amplificação, os usuários de próteses auditivas poderão ter uma grande melhora na discriminação sonora (a compreensão do som).

O INBRAUD é um instituto de ensino e pesquisa que  formei junto com a minha equipe de reabilitação auditiva aqui de Campinas. A idéia surgiu após constatarmos em nossa prática clínica a enorme desinformação dos pacientes (e de muitos médicos) com relação à saúde auditiva. Isso gera diagnósticos tardios, desorientação dos pacientes e das famílias após o diagnóstico e resistência aos tratamentos propostos, principalmente aos AASIs e ao implante coclear. Como você sabe, quanto mais rapidamente reabilitamos a audição de crianças surdas, melhor é o prognóstico.
Na prática, fizemos parcerias com a Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Campinas (APASCAMP) e com a SOBRAPAR (Hospital especializado no tratamento de pacientes com defeitos de face e com grande incidência de perdas auditivas), além de trabalhar em conjunto com a Maternidade de Campinas e de outros hospitais da região para otimizar a triagem auditiva neonatal e a reabilitação precoce. Também iniciamos um trabalho de informação, para a comunidade surda (através de palestras para diminuir a resistência e o preconceito desta população contra a reabilitação auditiva) e para a população geral através do nosso site e das mídias sociais. Além disso, estamos desenvolvendo diversos protocolos de estudos científicos.”