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Deficiência Auditiva / Implante Coclear

Implante coclear: as diferenças entre o SUS e os planos de saúde

Todos os dias recebemos mensagens com dúvidas sobre quais são as diferenças entre fazer implante coclear pelo SUS ou pelo plano de saúde. Assim como os aparelhos auditivos, os implantes cocleares e os implantes de condução óssea do sistema público são das mesmas marcas que você encontra no sistema particular de saúde. No mundo, existem 5 marcas de implantes cocleares, e no Brasil, 4 delas possuem registro para atuar.

Sobre o SUS

O SUS compra os dispositivos por licitações e, em alguns casos, adquire o último lançamento da marca. Em outros casos, é um modelo lançado já há algum tempo. Lembre-se de que a parte externa do implante, o processador, não se troca de ano em ano nem nada do tipo. Ele é feito para durar muito tempo e não é problema nenhum você começar a usar hoje um modelo lançado há dois anos! 

O procedimento para realizar o implante coclear pelo SUS já foi explicado aqui no Crônicas da Surdez, clique aqui para ler

Os planos de saúde de modalidade cobertura hospitalar possuem a obrigatoriedade de custear o procedimento do implante coclear, assim como tudo o que for necessário para o funcionamento dele, como baterias, manutenções, acessórios, e trocas dos processadores em caso de perda, roubo ou obsolescência (quando o modelo sai de linha, fica obsoleto).

Confirme com sua operadora do plano ou RH da empresa se sua modalidade é cobertura hospitalar, e se o plano é registrado na ANS – Agência Nacional de Saúde. 

Modelo do IC, qual vai ser?

Pelo SUS, o paciente não escolhe modelo ou marca. Alguns centros de implante trabalham com uma marca apenas, outros possuem mais de uma, depende do estoque e da época.

Mas não se preocupe, será um modelo que está em comercialização, atual, apenas pode ser que não seja o último lançado – ou pode dar sorte de ser. Você não precisa ter receio nenhum quanto a isso! Todos possuem características semelhantes e cumprem o principal, que é fazer uma pessoa voltar a ouvir.

Via plano de saúde, o paciente possui um pouco mais de flexibilidade para negociar o modelo ou marca, mas não tem poder de decisão: quem bate o martelo do modelo ou marca é o plano de saúde, com base no pedido médico. Segundo o Parecer Técnico nº 15/GEAS/GGRAS/DIPRO/2019, também conhecido como Parecer Técnico da ANS sobre implante coclear, o médico determina as características das próteses, justificando clinicamente a indicação e deve oferecer pelo menos 3 marcas de fabricantes diferentes, quando possível. Dentro dessas opções, o plano de saúde escolherá a prótese. 

 

“(…) cabe ao profissional assistente a prerrogativa de determinar as características (tipo, matéria-prima e dimensões) das órteses, das próteses (…) Já o inciso II, do mesmo dispositivo, institui que o profissional assistente deve justificar clinicamente a sua indicação e oferecer pelo menos 3 (três) marcas de produtos de fabricantes diferentes, quando disponíveis, dentre aquelas regularizadas junto à ANVISA, que atendam às características especificadas.”

Portanto, o médico otorrino fará o pedido, colocando a primeira, segunda e talvez terceira opção, por ordem de preferência, e o plano decidirá qual acatar. Pode ser que a primeira marca seja aceita, mas seja aprovado um modelo anterior ao solicitado.

Sobre o modelo do IC, se será o último lançamento ou não, depende de vários fatores, incluindo o plano de saúde e o histórico de lançamentos da marca: para uma marca “X” que lançou um modelo em 2018, e outro modelo em 2019, provavelmente o plano aprovará o de 2018, pelo menor custo. 

Já no caso de uma outra marca, marca “Y” que lançou um modelo há mais de 5 anos, e depois, outro em 2019, então provavelmente será aprovado o modelo mais novo.  O motivo? O modelo com mais de 5 anos provavelmente já está quase obsoleto – então o plano teria que arcar com a troca para o mais novo quando a obsolescência chegasse, e isso significa maior custo. Nesse caso, é mais vantajoso ao plano oferecer o modelo mais novo logo, do que oferecer o antigo e logo ter que arcar com o novo para trocar, gastando duas vezes. Por estes e outro motivos, cada caso é analisado pela junta profissional da operadora do plano de saúde. 

Existem alguns casos bem raros em que uma determinada marca ou modelo podem ser requisitados, por exemplo, alguma característica estrutural da cóclea da pessoa que necessita de um feixe de eletrodo mais curto, e portanto só pode ser um modelo específico de IC para isso. Assim, o médico pode justificar que precisa do modelo “X” por questões cirúrgicas. Mas sempre que houver a possibilidade de 2 ou 3 marcas, elas devem ser indicadas. 

Há quem lute administrativamente ou até na justiça pelo último lançamento, ou um modelo específico (porque gostou, porque acredita ser o melhor), e há quem não se estresse e nem gaste tanto tempo e paciência com isso. Existem modelos de processadores que mudam a carcaça, que por fora existem dois modelos diferentes, mas por dentro, são absolutamente iguais no quesito tecnologia. Nesses casos, não vale a pena perder tempo, o tempo precioso que seu filho ou você poderia estar ouvindo, para lutar por estética, não acha?

Modelos mais atuais sempre serão lançados, o top de linha hoje um dia deixará de ser, e outros virão. O pré cirúrgico é sim um momento de muita tensão e ansiedade, mas tente focar no que realmente importa, que é ouvir, ter atendimento pós implante, como fonoaudiólogos, assistência técnica e acessórios de conectividade. 

Melhor marca

Semelhante  aos aparelhos auditivos, não existe “melhor marca” de IC. Todas têm a tecnologia básica equivalente, cada uma com seus acessórios e seus detalhes diferenciais: algumas têm microfones extras, outras têm capinhas à prova d’água diferenciada, ou modelos OTE (Out of The Ear – extra-auricular), cabos ultra resistentes, cores diferentes, e por aí vai. 

Existem pessoas com IC que falam tranquilamente ao telefone, e outras que não conseguem, ambas usando o mesmo modelo e marca de IC, ou seja, não é a marca que o fará feliz ou determinará o seu resultado auditivo. Isso depende de inúmeros fatores combinados, como a sua memória auditiva, treinamento auditivo pós-IC, se a surdez é pré-lingual ou pós-lingual, tempo de privação auditiva, etc.

Mas eu me mudei, e agora? 

Caso você tenha plano de saúde e se mude para outro estado, poderá continuar o tratamento com os profissionais da nova cidade caso não seja possível retornar ao seu fonoaudiólogo preferido (enquanto isso vamos sonhando com o mapeamento remoto em todo o país!). 

no caso do SUS, ao se mudar de estado, terá que começar o processo novamente, indo à unidade básica de saúde (postinho do SUS) e agendar consulta com clínico geral para ser encaminhado ao centro de implante mais próximo de você. Como esse processo pode demorar um pouco, assim que se mudar é bom já iniciar os trâmites para não passar aperto quando precisar. 

Fiz IC pelo SUS e agora tenho plano

Ótimo! Não importa onde você fez o implante coclear, se hoje você tem um plano de saúde, então terá toda a cobertura de baterias, manutenção e trocas via plano. Se trocar de plano, também, sem problemas! Pode fazer a cirurgia pelo plano A e depois as manutenções pelo plano B.

Os documentos que você precisa ter em mãos para solicitar manutenção, troca ou qualquer outra peça (bateria, antena, cabo), são: Parecer Técnico da ANS mais recente sobre o implante coclear (verifique aqui no site da ANS qual a última lançada, até a data de publicação deste post é a 15/2019), e a Nota Técnica 01 de 2017 da ABORL sobre a manutenção do IC.

Tenho plano e quero fazer o IC

Se você possui plano de saúde e deseja fazer o IC, então é mais recomendável operar pelo seu plano. Não haverá custos para você, será bem mais rápido do que o SUS e você pode fazer os dois lados se for necessário – pelo SUS, são raros os lugares que fazem o IC bilateral. E bônus, ainda sobra uma vaga no SUS para quem não tem condições de fazer por outro meio.

É seu direito fazer pelo SUS também, claro, assim como qualquer cidadão que paga impostos. Mas via convênio, além das vantagens acima, você tem maiores chances de negociar um modelo mais atual ou tentar alguma marca desejada. 

Agora, por outro lado, use sempre o bom senso: não abuse. Sabemos como funciona nosso país, e teremos muito a perder se as operadoras de planos de saúde começarem a pressionar as autoridades para que não tenham mais as obrigações legais de cobrir tudo do IC. Solicite as pilhas se você realmente não pode pagar por elas, solicite as manutenções que precisar, mas não force trocas para modelos mais atuais por puro luxo, enquanto seu IC funciona perfeitamente. Quem solicita ao plano o que não precisa DE VERDADE acaba prejudicando todos os outros usuários.

Tem carência pelo plano?

Sim, para planos particulares são 2 anos de carência para a cirurgia. Para manutenção ou troca do IC, troca de peças, baterias e acessórios, não tem carência, pois não é procedimento cirúrgico. No caso de planos de saúde empresariais com mais de 30 pessoas também não tem carência, nem para cirurgia, desde que ingresse no plano em até 30 dias após a assinatura do contrato com a empresa. Mais informações sobre planos de saúde podem ser encontradas no site da ANS: http://www.ans.gov.br/

Ficou alguma dúvida? 

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

7 Comentários

  • Emilia Costa
    08/07/2020 at 9:16 pm

    Paula, obrigada pelas informações. Sempre aprendendo com você.

    Responder
    • Pryscilla Cricio
      30/07/2020 at 5:32 pm

      Olá Emilia,

      Tudo bem?

      Venha para o nosso grupo fechado no Facebook com mais de 15.300 pessoas com deficiência auditiva que usam aparelhos ou implantes. Para se tornar membro, é OBRIGATÓRIO responder às 3 perguntas de entrada.

      https://www.facebook.com/groups/CronicasDaSurdez/

      E para receber avisos sobre nossos eventos e cursos, por favor, clique e responda 4 perguntas (leva 30 segundos):

      https://forms.gle/MVnkNxctr1eahqR5A

      Estamos te esperando!

      Abraços,

      Equipe Surdos Que Ouvem

      Responder
  • Carlos
    08/07/2020 at 6:57 pm

    Nada disso..Há muita diferença entre lotes de Implante coclear vendidos para Planos de Saúde e SUS.
    É só a senhora pegar cópias dos pregões eletronicos . ver as exigências do comprador e comparar com o KIT do vendedor.
    Querem debater sobre esse TEMA em público com que usa Implante Coclear? marque na minha cidade e eu terei maior prazer em debater com vocês convidando representantes de Planos de saúde da minha região.

    Responder
    • Dani
      08/07/2020 at 10:46 pm

      Carlos, no grupo do Facebook tem pacientes que receberam o último lançamento de uma determinada marca pelo SUS, confirmando a informação acima, de que isso pode acontecer. E o SUS não faz implante que já está obsoleto, pelo menos nunca vi relatos de alguém que tenha recebido um modelo fora de linha. Os kits podem não ser iguais (no quesito de acessórios, capinhas e peças extras) mas quanto à qualidade da prótese não tenho dúvidas.

      Responder
  • Carlos
    08/07/2020 at 6:53 pm

    Sei muito bem as diferenças, mas você nunca vão contar a verdade né?
    Eu vivo os dois lados.
    Tenho muita informação nesse meio.
    E falo por mim mesmo , com 21 anos de experiência.
    Há sim, muiiiita diferença em atendimento antes, durante e após a cirurgia de Implante.
    Vivo isso na pele e tenho mais de 1500 mensagens de famílias dependentes de ambos para continuar ouvindo.
    Estudo sobre esse TEMA a 20 anos e há tanta coisa escondida que dá até vontade de fazer UM EXPLANTE COCLEAR.
    Porque não nos deixam falar sobre esse assunto nos encontros, encontrinhos?

    Responder
  • Carlos
    08/07/2020 at 6:51 pm

    Sei muito bem as diferenças, mas você nunca vão contar a verdade né?
    Eu vivo os dois lados.
    Tenho muita informação nesse meio.
    E falo por mim mesmo , com 21 anos de experiência.
    Há sim, muiiiita diferença em atendimento antes, durante e após a cirurgia de Implante.
    Vivo isso na pele e tenho mais de 1500 mensagens de famílias dependentes de ambos para continuar ouvindo.
    Estudo sobre esse TEMA a 20 anos e há tanta coisa escondida que dá até vontade de fazer UM EXPLANTE COCLEAR.

    Responder
    • Paula Pfeifer Moreira
      08/07/2020 at 7:08 pm

      Carlos, não entendemos seu comentário de que nunca vamos contar a verdade.
      Se você tem acesso a informações privilegiadas, saiba que não temos.
      Caso você queira compartilhar algo importante, fique à vontade!
      Esse post é resultado de pesquisa entre profissionais de saúde e usuários de tecnologias auditivas.
      Abs,

      Responder

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