Destaques Implante Coclear

A história do Jairo

‘Meu nome é Jairo Leal de Salles, 75 anos, residente na cidade do Rio de Janeiro. Professor aposentado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), por força da lei, em 2011. Na função de professor do Estado, solicitei demissão em 1989. Sou usuário de implante coclear. Parabenizo a Paula Pfeifer pela criativa iniciativa de escrever livros sobre a surdez. Atendi ao seu convite para redigir uma crônica sobre o tema.

Na juventude eu já convivia com as dificuldades e os desconfortos do comprometimento da audição. Trabalhei na indústria por mais de dez anos e sem deixar de estudar. Cursei Licenciatura e Bacharelado, em Química. Objetivo? Atender a minha vocação: o magistério. Em 1973, em concurso público realizado pelo Estado, fui aprovado para o ensino médio, para a disciplina de Química. Nos exames médicos, o meu ingresso foi condicionado ao uso de aparelho auditivo. Não me adaptei ao equipamento e já trabalhando no Estado, abandonei o aparelho. Em 1978, ingressei na UERJ, sem o exame de audiometria porque, na época, ainda dava para administrar a audição comprometida. Os exames de audiometria realizados, posteriormente, revelavam a perda progressiva da audição, principalmente, no ouvido esquerdo. Após cirurgia de timpanoplastia mal sucedida, perdi toda a audição naquele ouvido. Restava-me o ouvido direito que continuava com as perdas progressivas. Em 2002, decidi cursar o Mestrado, em Engenharia Ambiental, na UERJ. Com 61 anos e já bem conhecido na Universidade, dediquei-me com afinco ao curso.

Em fins de novembro de 2003, após a aprovação da minha Dissertação, emocionei-me muito pela conquista. Dias depois, ainda emocionado, eu me aborreci seriamente com um companheiro do meu Departamento. O pavor pela surdez total me perseguia e, em consequência dos fatos mencionados, perdi toda a audição em 24 horas. Que drama! Fala e audição são, entre outros atributos, fundamentais para o exercício do magistério. Fui remanejado para a área Administrativa. Os especialistas da área médica, desconfiavam que a hipótese mais provável da surdez, ocorreu por elevado grau de estresse; as artérias se contraíram, o sangue parou de circular e as células morreram.

Meu filho mais velho, sempre na internet buscando uma alternativa para o meu problema, descobriu a possibilidade do implante coclear. No início de 2004, com importantíssimo apoio da família, iniciei a fase dos exames para saber da possibilidade da obtenção do benefício do implante coclear. Finalmente, em 24 de novembro de 2004 fui implantado. Em 22 de dezembro, o sistema foi ativado. Indescritível a emoção! Considero-me um privilegiado por ter convivido com o problema por somente um ano. Fico emocionado quando leio no site do implante coclear, relatos de pessoas que convivem há décadas com a surdez ou os que também conviveram, antes do IC.

Neusa e Jairo em Praga 2

Contraditório o comportamento da sociedade! Felizmente, a maioria é sensível às dificuldades dos portadores de necessidades especiais, porém, com o surdo há um número expressivo de pessoas que ironizam sobre a situação. Eu mentiria se afirmasse que, durante toda a minha trajetória de vida, eu não sofri constrangimentos decorrentes de brincadeiras inoportunas, em decorrência da surdez parcial e total. Exemplos: simulações como se a pessoa estivesse falando sobre alguma coisa. Quando há o entendimento errado da palavra de quem pronunciou e o surdo repete outra diferente, a risada logo se pronuncia. Quando você, com as dificuldades naturais da surdez parcial, ainda consegue escutar alguém pronunciar: fala com o(a) surdinho(a)! Ironias, simulando Libras, sem imaginar o quanto esse processo é indispensável, para quem não pôde realizar o implante coclear por razões como: dificuldade econômica ou pela impossibilidade do estado da cóclea não permitir o IC.

Os implantados já conhecem as limitações do implante coclear, mas vale a pena relacionar: ventania; excesso de barulho, principalmente, nas ruas com tráfego intenso; a descoberta de que como a nossa sociedade, de modo geral, fala alto. Numa mesa de refeição, por exemplo, as conversas dos integrantes se cruzam e causam enormes dificuldades para o implantado. São várias as limitações. Citei apenas algumas.

Agradecimentos à Paula pela oportunidade da manifestação. Espero que a crônica contribua, de alguma forma, para o importante tema da surdez. Afinal, as estatísticas estimam que no Brasil, há em torno de 10 milhões de pessoas surdas, ou seja, 5% da nossa atual população. São números consideráveis. Aproveito, finalizando a mensagem para expressar minha solidariedade aos que convivem com a surdez parcial ou total, aos portadores de aparelhos auditivos e aos do implante coclear.’

48 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Jairo,

    Parabéns pela sua força de vontade, coragem e determinação.
    Você é um exemplo, continuou estudando, batalhando, não desistiu dos seus sonhos.
    Que você seja muito feliz.

    Um abraço.

    Anita

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