A Marca NÃO é o mais importante no Aparelho Auditivo
Cada cérebro impactado pela perda auditiva percebe a sonoridade de uma marca de aparelho auditivo de forma diferente. Se você busca “qual é a melhor marca de aparelho auditivo”, já sei que abriu vários sites, comparou nomes difíceis de pronunciar, encontrou listas que prometiam revelar “os melhores do mundo”, navegou pelo sites de todas as marcas de aparelho auditivo e ficou com a sensação de que tomar essa decisão depende de acertar qual marca escolher, como se existisse uma resposta única e universal capaz de garantir que tudo vai dar certo. Embora essa lógica faça sentido quando estamos falando de produtos comuns, ela NÃO faz sentido quando o assunto é Aparelho Auditivo.
Sou Paula Pfeifer, surda desde criança, usuária de aparelhos auditivos por mais de 40 anos e de implante coclear desde 2013. Criei o Crônicas da Surdez em 2010 e o Clube dos Surdos Que Ouvem que é a maior comunidade independente da indústria da audição no Brasil, com mais de 21.000 usuários de aparelhos auditivos e implante coclear. Não vendemos aparelhos. Não somos patrocinados por fabricantes. Só contamos o que é real no dia-a-dia de quem USA aparelho de audição.
Converse com pessoas que usam aparelhos auditivos de marcas como Phonak, Oticon, Resound, Widex, Signia, Rexton, Argosy, Starkey e Unitron no Clube dos Surdos Que Ouvem. E assista essas aulas ANTES de comprar um aparelho auditivo para conhecer todos os segredos da indústria da audição e não ser feito de bobo.
A contrário do que o mercado dá a entender, o aparelho auditivo não é um produto que você simplesmente escolhe, compra e usa como se fosse um objeto pronto e definitivo; ele é, na verdade, o ponto de partida de um processo que envolve adaptação, ajustes contínuos e acompanhamento profissional consistente ao longo do tempo. Quem ouve é o CÉREBRO, não o ouvido.
Duas pessoas podem usar exatamente o mesmo modelo de aparelho auditivo e ter experiências completamente diferentes, uma se sentindo finalmente conectada com o mundo ao redor, enquanto a outra experimenta desconforto, estranhamento e até frustração. Essa diferença não está na tecnologia nem na marca, mas na forma como ela foi personalizada, apresentada e ajustada ao longo do tempo e como o cérebro percebeu e se ajustou a tudo isso.
Um aparelho auditivo de última geração, com todos os recursos possíveis ( o mais caro da loja, vai), pode simplesmente não funcionar bem se estiver mal regulado para o seu perfil auditivo, enquanto um modelo mais simples, quando bem adaptado e acompanhado por um profissional atento, pode proporcionar uma experiência muito mais satisfatória, confortável e, sobretudo, mais sustentável no longo prazo.
E quando eu digo “bem adaptado”, não estou falando de um ajuste inicial feito no dia da entrega, mas de um processo contínuo que leva em consideração aquilo que você sente no dia a dia, os ambientes em que você circula, as dificuldades específicas que surgem com o uso real. Ouvir é uma experiência viva, dinâmica, que se transforma conforme você volta a interagir com sons que estavam ausentes há muito tempo.
Nesse sentido, talvez seja mais honesto dizer que você não está escolhendo um aparelho auditivo, mas sim entrando em uma jornada de reabilitação auditiva, e como toda jornada, ela depende muito mais de quem caminha com você do que do equipamento que você carrega. O Fonoaudiólogo deve ser o seu guia de confiança na jornada da surdez – peça indicações de confiança nos grupos do CLUBE dos Surdos Que Ouvem.
Em vez de perguntar qual é a melhor marca de aparelho auditivo, a pergunta mais relevante é sobre a expertise de quem vai te acompanhar nesse processo, quem vai ouvir suas queixas com paciência, quem vai ajustar quantas vezes forem necessárias sem transformar isso em um incômodo, quem vai te explicar com clareza o que é esperado – inclusive os desconfortos iniciais – e quem vai permanecer disponível quando surgirem dúvidas, inseguranças ou simplesmente aquele sentimento de “acho que ainda não está bom”.
Essa mudança de foco direciona sua atenção para aquilo que realmente sustenta o resultado ao longo do tempo, e não apenas para o momento da compra, que, embora importante, representa apenas o início de tudo.
Existe um princípio muito forte dentro do universo da comunicação e do comportamento humano que diz que as pessoas não compram produtos, elas compram a possibilidade de uma transformação, e quando a gente olha para o aparelho auditivo por esse prisma, fica muito mais fácil entender por que a marca, isoladamente, não ocupa o centro dessa decisão, já que o que está em jogo não é o dispositivo em si, mas a reconexão com conversas, com risadas, com sons cotidianos que devolvem autonomia e pertencimento.
E essa transformação não acontece automaticamente no momento em que o aparelho é colocado no ouvido, ela acontece aos poucos, conforme o cérebro reaprende a interpretar sons, conforme o usuário ganha confiança, conforme pequenos ajustes vão refinando a experiência até que ela se torne natural – e tudo isso exige suporte, escuta e presença.
Ao longo desse processo, é comum que surjam desafios que não têm absolutamente nada a ver com a marca do aparelho, como a sensação de que certos sons estão altos demais, o incômodo com ruídos que antes não eram percebidos ou a dificuldade de entender a fala em ambientes mais ruidosos, e sem um acompanhamento adequado, esses obstáculos podem levar à frustração e, em muitos casos, ao abandono do uso.
Insistir em escolher com base apenas na marca pode criar uma falsa sensação de segurança, como se essa escolha, por si só, garantisse o sucesso, quando, na prática, ela representa apenas uma pequena parte de um conjunto muito maior de fatores que precisam estar alinhados. Pergunte a qualquer membro do nosso Clube que se decepcionou com marcas caríssimas e famosas que investem pesado em tráfego pago, ou que teve um ótimo-péssimo atendimento no pós-venda de qualquer marca de aparelho auditivo, e verá que a MARCA do aparelho de audição deve ser a sua última preocupação. A marca sozinha não sustenta o resultado, não resolve a adaptação e não substitui o papel fundamental do Fonoaudiólogo.

