Nasci no dia 01/11/1993, numa terça-feira nublada. Minha mãe Orjana Maria Menzel Dalcin tinha 21 anos de idade e meu pai Charles Dalcin, 26. Eles relatam que foi a maior alegria terem me concebido porque eu era a primeira filha deles. Com o passar do tempo, meus pais e minha família começaram a desconfiar de algo errado porque eu não me assustava com barulhos fortes, e minha mãe preocupada como sempre, me levou a um Otorrinolaringologista, Dr.Mauro Knoll, e lá ele avaliou e me encaminhou para realizar o exame BERA com outro Otorrinolaringologista em Curitiba com 6 meses de idade. Foi diagnosticada Perda Neurossensorial Profunda, conhecida como surdez profunda, e disse para minha mãe que não havia nada a fazer naquela época.
Ela voltou para casa chorando e desesperada sem saber o que fazer. Foi atrás do Dr.Mauro Knoll novamente (que até hoje é um excelente profissional e me ajudou tanto, sou grata a ele para sempre), que indicou uma Fonoaudióloga, a Fga.Karla Jean Zimmermann, e lá ela começou a realizar Fonoterapia e correr atrás de informações. Indicou o Centrinho de Bauru que realizava cirurgias de Implante Coclear, e minha mãe foi atrás para pesquisar mais sobre o mesmo. Só sei que em certo tempo minha mãe queria se comunicar comigo, então ela passou a fazer aulas de Língua Brasileiras de Sinais para de certa forma conseguir conversar comigo, e com 9 meses eu já usava LIBRAS. Com 9 meses de idade, fui para o Centrinho de Bauru e lá passei por inúmeros exames, e fiquei na fila de espera para realizar o Implante Coclear. Nesse tempo eles só realizavam cirurgias em crianças acima de 4 anos de idade, sendo eu a primeira criança a ser operada do Brasil e a primeira implantada de Santa Catarina no dia 12/04/1996 com 2 anos de idade.
Após 45 dias da cirurgia foi feita a ativação, com passar dos meses foram realizadas avaliações e testes de Audiometria no quais foi comprovado que o rendimento e o ganho da audição e da fala em criança implantada com 2 anos era melhor do que em crianças a partir dos 4 anos de idade. Atualmente implantam crianças com 6 meses de idade.
Com a realização de Fonoterapia na minha cidade com a Fga.Karla, cada palavra que aprendia eu deixava de fazer os sinais, sendo que aos 4 anos de idade eu era totalmente oralizada e não queria mais utilizar as LIBRAS. Um ano após da ativação e da cirurgia, eu tive que realizar uma cirurgia de introduzir os eletrodos novamente e fazer a revisão do IC, foi realizada em 11/07/1997. Com passar do tempo, realizando terapias semanais e retornos anualmente em Bauru, eu passava a ter um rendimento cada vez melhor, me comunicava totalmente pela fala e escrita, tinha um círculo de amizade grande e as crianças adoravam aquela “tecnologia” de caixinha que eu usava e às vezes até pediam para testar.
Em 2005, foi descoberto um tumor no ouvido direito chamado Colesteatoma. Foi realizada mais uma cirurgia para a retirada do tal tumor em 28/11/2005, e passou mais um ano, em 2006 esse Colesteatoma quebrou o meu IC do lado direito e fiquei um mês sem escutar. Meus cirurgiões Dr. Orozimbo e Dr. La Mônica deram a possibilidade de que eu implantasse no lado esquerdo para que eu não ficasse sem escutar, então foi mais uma cirurgia em 13/07/2006 para realizar o IC do lado esquerdo. Tive que passar por um processo de adaptação, pois era o ouvido novo, tive que voltar a fazer Fonoterapia com a mesma Fonoaudióloga. Um ano após, quando retornei a Bauru, o Dr. Orozimbo e Dr. La Mônica deram a ideia de re-operar o lado direito colocando um novo IC, e fiquei pensando: “Dois IC’s? Por que não tentar?” E lá fui eu mais uma vez me submeter por uma cirurgia no dia 29/06/2007, que foi um sucesso! Tornei-me a adolescente mais sortuda em ser a primeira Bi-Lateral com Implante Coclear do Brasil e da América Latina! Após 45 dias da cirurgia, voltei para ativar o bi-lateral, a ansiedade batia dentro de mim e de meus pais. Na hora que a Fga. Márcia Yuri Tsumura Kimura ativou, levei um susto, estava ouvindo nos dois lados! E a alegria era imensa… Voltei para minha cidade, e para a Fono, e comecei a treinar novamente o meu lado direito e com passar dos dias, eu começava a entender melhor as pessoas, conseguia direcionar os sons, digamos que conseguia um ganho maior do que um lado, e começaram a observar que com bi-lateral tinha muito mais ganho do que somente um lado, e foi onde que iniciaram o procedimento de realizar cirurgia bi-lateral.
Eu estava muito feliz com meus dois implantes só que infelizmente essa felicidade durou pouco tempo, foi questão de 3 anos com dois lados, pois novamente o tumor voltou do lado direito e tive que refazer o procedimento cirúrgico no dia 07/05/2009, e no centro cirúrgico os médicos decidiram retirar o Implante por conta do Colesteatoma. Foi uma decepção enorme, e até hoje ainda é uma decepção enorme, e ainda tenho esperanças de que eu consiga realizar novamente o bi-lateral, porque era a melhor sensação do mundo, era a guloseima dos sons! E assim foi, fiquei somente com o lado esquerdo e realizei novamente mais 2 cirurgias em 2010 e agora recentemente em 2014. A mais difícil de todas foi a de agora, pois o tumor estava comprometendo meu nervo facial e fiquei com “tiques” e tinha grandes chances de sair com paralisia facial temporário ou permanente do centro cirúrgico, só que graças a Deus, deu tudo certo! E agora espero que esse chatinho não volte mais e que eu possa realizar novamente o IC do lado direito.
Pelas minhas contas, ao total já realizei 9 cirurgias em relação ao IC e Colesteatoma, e mais 4 por fora em questão de outros problemas de saúde, então o total já foram 14 cirurgias realizadas ao longo dos 20 anos. Dizem que sou a menina craque em cirurgia, que sou viciada em anestesia, que adoro ficar no centro cirúrgico. Mas quer saber de uma coisa? Eu até agora não me arrependo de nenhuma cirurgia que fiz, pois sei que todas elas foram para o meu bem estar, para a minha saúde ficar boa, o que devo mesmo é agradecer a oportunidade dessa medicina avançada de hoje e que a cada dia está evoluindo muito mais para pode ajudar as pessoas. E principalmente aos meus pais por estarem ao meu lado me apoiando e sendo fortes. Sei que eu não merecia isso, sei que eles não mereciam passar por tudo isso, mas passamos, e ainda mais juntos, em cada cirurgia que era realizada ficávamos cada vez mais fortes e unidos. E também devo a imensa gratidão a Fga.Karla que ao longo desses anos sempre esteve ao meu lado até hoje! E toda a equipe cirúrgica principalmente o Dr. Orozimbo e Dr. La Mônica e os demais do CPA.
Atualmente tenho 20 anos e faço curso de Fonoaudiologia na Univali de Itajaí. Vocês devem estar pensando: Nossa, uma mulher implantada cursando faculdade de Fonoaudiologia? SIM! Nada é impossível neste mundo, nenhum deficiente auditivo ou físico é incapaz de cursar qualquer faculdade. Todos têm a capacidade, só basta querer e correr atrás de seus direitos, e eu nunca sonhei em fazer esse curso mas estou adorando. Tenho a experiência como paciente e posso fazer o meu melhor pra ajudar os outros passando as minhas experiências como paciente e profissional.
Meu grande sonho é cursar Medicina para que eu possa ajudar mais ainda as pessoas, por isso que escolhi a área da saúde. Amo aquilo que faço que é ajudar o próximo, dar conselhos, colo e carinho quando estão num momento de fragilidade. Então é isso gente, dei uma bela resumida da minha vida, e olha que tem muita coisa por trás ainda para contar….
Tayane Dalcin”
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