Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Filmes Implante Coclear

Uma surda no cinema: ouvindo e entendendo o filme

Ontem fui assistir ao filme sobre a vida do Chico Buarque no cinema sozinha. Assim que o filme começou, não sei porque, mas me veio de repente uma sensação ruim que era minha velha conhecida: filme brasileiro sem legendas! Acho que o único filme brasileiro que eu assisti foi “O Quatrilho” – mas era criança e dormi enquanto passava. Como não lembro com qual idade perdi completamente a capacidade de ouvir alguma coisa e entender sem leitura labial, vocês já podem imaginar que cinema brasileiro nunca foi algo que me desse prazer, afinal filmes nacionais não são legendados.

Ontem meu cérebro agiu como se aquele filme fosse ser uma sessão de tortura de 2hs para mim. Porém, assim que o Chico abriu a boca contando suas histórias lá foi a Paula ter uma pequena epifania (não é à toa que o segundo livro tem a palavra ‘epifania’ no título) e ficar suspirando no escuro. Vocês que são leitores deste site e são ouvintes, será que conseguem imaginar o que significa para um ser humano ouvir e não entender? Ir ao cinema e ficar boiando vendo um filme na sua própria língua? Já vocês que passam ou já passaram por isso entendem muito bem como esses sentimentos são arrasadores. Cansei de chegar no cinema e constatar que nenhum dos filmes que me interessavam tinham legendas, baixar a cabeça e voltar para casa me sentindo um lixo.

Acredito que somos capazes de qualquer coisa e adoro aquela frase ‘não sabendo que era impossível, foi lá e fez!’. Porém as deficiências físicas e sensoriais estão aí para nos mostrar que com elas o papo é outro e o furo é bem mais embaixo. Como é que uma pessoa com surdez profunda vai conseguir ouvir e entender um filme sem leitura labial e sem legendas? É humanamente impossível.

escuto entendo

Por isso, passei duas horas fazendo três coisas:

  1. Assistindo ao filme
  2. Ouvindo e entendendo tudo o que era dito sem legendas
  3. Contemplando esse pequeno grande milagre de estar ali, ser uma surda profunda bilateral e, graças à tecnologia, conseguir OUVIR e ENTENDER o que os personagens diziam.

Após dois anos como usuária de implante coclear algumas coisas viram rotineiras e às vezes até esquecemos que nossas discapacidades se transformaram em capacidades. Eu gosto de fazer esse exercício de ficar bem atenta às maravilhas que essa tecnologia trouxe para a minha vida. Quando vou ao cinema passo o filme inteirinho praticando este exercício: “Obrigada, obrigada, obrigada!”

São inúmeras as coisas que passaram da categoria ‘tortura‘ para a categoria ‘prazer‘ depois que voltei a ouvir. E o bom é que, para que a gente nunca perca a humildade, o IC avisa que a pilha/bateria vai acabar. A cada ‘pi,pi,pi’ do aviso todos os dias agradeço mais uma vez por esse presente.

À você que está na surdez profunda e tem indicação para fazer a cirurgia só quero dizer uma coisa: perca o medo e permita-se! 😉

46 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

7 Comentários

  • Bom dia eu sou a Sulenir Dobelin Gomes, estou terminando pedagogia e comecei a trabalhar com uma aluna do 5º ano do ensino fundamental ela é copista, mas não sabe se comunicar, ela já é uma senhora, começou a estudar a pouco tempo, tem mais duas irmãs com surdez que não frequenta a escola.
    Estou como estagiária e acompanhante na sala de aula, estou aprendendo libras e ensinando para ela, mas gostaria de poder ajudar mas ela e suas irmãs, pois são muito humildes e os pais são bem idosos e os outros irmãos são casados e não moram mas com elas e os pais.
    Qual seria os caminhos possíveis, para eu ajuda-las.
    Muito obrigado.

  • Li seu depoimento na Marie Claire. Operei meu ouvido direito com 19 anos e o esquerdo com 23. Escuto melhor do esquerdo e entendo perfeitamente o que é escutar e não entender o que as pessoas falam. A maioria das pessoas com quem convivo falam alto, mas muitas vezes passo pelo constrangimento de não conseguir me comunicar bem… Legal saber que outras pessoas passam pelo mesmo problema. Abraços

  • Uso aasi desde o meus 3 anos de idade, isso quer dizer há uns 34 anos e hj fiz a cirurgia do IC tem uns dois meses e me sinto decepcionada, parece que ouço menos com esse implante. Foi assim, o seu processo?

  • he incrivel. seu conselho.fui chamada. pra cirugia do IC. unilateral esquerdo.. uso AASI.. desde 12 de Julho de2012.E apos 21 d surdez fui chamada pro implante o meu coração não aguentou a sensação horrivel que senti ao ser chamada… me passaram então pra acómpanhamento psicológico que tou fazend desd novembro deste ano. com o fin d ano foi suspenso pra retorno em Janeiro… e ainda tenho medo de enfrentar esta nova etapa da minha vida… pq penso no quanto foi dificil me adaptar aos Aassi… e ficar lado direito com aasi e esquerdo implantada. já q as fonos me explicaram q o som Ic. he como um robô falando. e do Aasi. não ê mais a voz real da pessoa acho que tdo he mto confuso e difícilimo a adaptação.. já q no começo com os Aasi sofri com terríveis dor de cabeça pq. tenho enxaqueca grave.. uso medicação. sob controle da Neuro ha 5 anos…temo sofre td de novo. visto q ao descobrir a enxaqeca só a cinco anos.. mas a tenho desde os 15 anos. 3 anos após o começo d surdez.. sempre perguntava pq. as vezes os medicos diziam q quem tem surdez eh normal ter dor de cabeça mas isso.nao me satisfez como Resposta.. só a descobrir após sofrer um atropelamento no trânsito.. andand sozinha na volta d trabalho num sabado as 21 hs. tava chuvoso. ao decer d bus. ia atravessand o sinal.ta pdestre mas o infeliz não respeito vinha alta velocidade.me pego e jogou me pra frente d um bar foi embora.alguem q tava no bar salvo me à vida por chamar corpo dos bombeiros… fiquei 72hs internada sob. observaçao medica.. sem pder beber mas sobrevivi…

  • Paula..que felicidade…
    Outro dia fui ao cinema..filme brasileiro com meu novo AASI…
    entendi muito…sai de lá super feliz…
    Só nao tentei em filme dublado…vamos ver se crio coragem.
    bjs

  • Faço uso de próteses e mesmo assim tenho muita dificuldade de entendimento o íc é uma tecnologia mais avançada?e qualquer um pode implantar?

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