Fui atendida no Rio de Janeiro dia 23/05 por uma super dupla de fonos: Márcia Cavadas e Sandra Giorgi Santanna. A Sandra é de São Paulo e tem consultório lá, e quando vai ao Rio atende junto com a Márcia na clínica do Dr. Jair Castro em Ipanema. E como o mundo é um ovo, é sócia da Mariana Guedes Weber, outra fono que eu amo e me ajudou bastante com meus AASI anos atrás. Enfim, a Sandra mudou a velocidade do meu implante de 900 Hz pra 1200 Hz por canal. A orientação dela foi que eu ficasse três semanas usando esse programa novo direto, fazendo um esforço para notar se ele era melhor ou pior. Isso foi numa sexta-feira, e no domingo percebi que não estava entendendo de primeira o que me era dito em situações nas quais antes entendia numa boa. Exemplo: alguém falando comigo de costas na cozinha.
Tenho sentido mais dificuldade para entender palavras que não tenham sons agudos como “ssss”, “chhh”, “xxx”. Ela me disse que isso seria normal, pois a velocidade maior exige mais do cérebro em termos de processamento auditivo. Além disso não notei nada ruim, só percebi que em algumas situações as coisas que me dizem nao ‘entram’ se eu não estiver prestando atenção de verdade. As baterias recarregáveis agora duram apenas 6 míseras horas e a dupla de pilhas, no máximo dos máximos dura um dia inteiro. 🙁
Palavras da Sandra: “No dia 23/5/2014 lá fui eu para mais uma supervisão de atendimento de pacientes com implante coclear da Fga. Marcia Cavadas. Estes encontros são sempre muito desafiadores e prazerosos. Desta vez uns atendimentos era o da Paula, que teve algumas sensações desagradáveis e “estranhas” com seu implante coclear no inicio, mas que conseguimos resolver. O desafio agora é aproveitar a facilidade que Paula tem em “descrever” suas sensações auditivas e em processar o som e, enviar maior informação espectral (maior quantidade de informação acústica em cada um dos sons), através do aumento da velocidade por canal em seu processador de fala. Normalmente é utilizada a velocidade de 900 Hz, mas alguns pacientes se beneficiam muito mais com a velocidade de 1200 Hz por canal. Vamos observar como a Paula se sai bem ou não com uma velocidade maior – isso depende de cada um e não está relacionado com “ser melhor”.
Uma coisa boa foi que com essa nova velocidade ficou delicioso ouvir música. Muito mais refinado do que estava! Passei a gostar de todo tipo de música – a Sandra comentou na consulta que com essa velocidade eu seria capaz de captar várias particularidades novas dos sons. Antes, focava apenas em voz e violão, agora sinto vontade de ficar ouvindo Guns’n’Roses, Aerosmith e coisas assim. Dá para perceber diferentes instrumentos com clareza, e o mais legal é que agora reconheço as músicas nos primeiros segundos – do jeito como ouvia antes, algumas músicas soavam super diferentes de como lembrava delas ouvindo com AASI ou com audição normal. Isso me deixou feliz demais e me animei a fazer compras no iTunes, porque minha setlist é a mais cafona do mundo (só anos 80 e 90) e tenho mania de ouvir 50.000 vezes a mesma música só porque conheço a letra.
Baixei muitas músicas do novo álbum do James Blunt e minha maior diversão é ficar ouvindo de olho no que vou conseguir entender sozinha sem ler a letra. Mesmo sete meses depois ainda fico com cara de retardada e levo um soco no estômago ao entender trechos em inglês sem querer, sem leitura labial, sem ler o que vou ouvir antes. Acho que já comentei, ouço música com o cabo de áudio do IC cancelando todos os outros sons. Taí uma bela vantagem sobre os ouvintes – posso ouvir música ou atender o celular no ambiente mais barulhento do mundo que vou ouvir somente o que quero, hahaha! 🙂
Quem acompanha a fanpage do blog no Facebook (fica a dica, é bem movimentada!!) viu que há algum tempo postei uma foto de um despertador vibratório de pulso e de um telefone com T-Coil que vieram dos EUA, mais precisamente da Amazon. Veredicto: não notei diferença alguma com o telefone e não me adaptei ao despertador de pulso, porque ele é grande e quadradão e eu me mexo muito enquanto durmo e não deu certo. Para quem faz o estilo múmia (dorme e desperta na mesma posição) pode ser uma boa. Fico com o meu bom e velho Bellmann&Symfon, embora esse de pulso possa ser bem útil em viagens. Agora quero descobrir um telefone desses comuns (que não seja sem fio) para poder atender com o cabo de áudio – fiquei viciada, já deu pra perceber né? O telefone precisa ter entrada para cabo de áudio, se alguém souber de algum, me avise.
Como é bom não ter mais limitações estilo “ah, o filme é dublado“, “ah, não tem legendas“, “não posso conversar no escuro“, “preciso ver os seus lábios“. Às vezes bate um pânico assustador de perder isso caso meu IC pife ou alguma coisa ruim e inesperada aconteça… Na semana passada fui a Porto Alegre para um dia inteiro de palestras no auditório do Tribunal de Contas do Estado e foi tão bacana estar numa situação dessas relaxada. Lá, percebi uma coisa esquisita que já tinha notado em outras ocasiões. Às vezes se olho pra baixo enquanto alguém fala num microfone longe de mim, o som ‘bate mas não entra’, aí só preciso olhar para a pessoa e miro na testa ou no cabelo para não olhar na boca. Basta essa mirada rápida que o som ‘bate e entra’. Acho esquisitíssimo. Acontece com vocês? Nesse dia fiquei rindo sozinha ao captar os sotaques de alguns colegas novos. Teve um que falou bem assim: motorixxxtas dos poxxtos fixxxcaixxx. Só podia ser carioca. Meu cérebro gosta muito mais de sotaques com “S” e “X” carregado agora que escuto.
Esses dias estava saindo do trabalho quando lembrei que precisava atualizar o email no meu cadastro com a GVT. Peguei o cabo e o celular, liguei pro 0800 deles e… voilà! Mesmo que o cabo cancelasse os outros barulhos, a ligação quando a atendente me chamou estava péssima, vinha um horror de ruído de fundo junto e a voz dela não era das mais altas e claras. Mesmo assim consegui entender tudo o que a mulher falou. Depois de 7 meses ouvindo de novo me sinto mais ‘gente’. Ter de volta essa independência quase total que a surdez tinha me roubado é uma sensação que só quem também já perdeu essa independência conhece. Não preciso mais ficar pedindo favores telefônicos desagradáveis para os outros.
Poder resolver meus problemas sozinha é um grande presente. Aos poucos venho começando a me sentir adulta porque, convenhamos, é difícil não se sentir infantil quando você precisa de mil favores para compreender o mundo e resolver coisas práticas do dia-a-dia. Não sou mais ‘aquela que não pode ficar sozinha em casa’, pelo contrário: esses dias tive a experiência surreal de ficar vinte minutos numa ligação com o 0800 da Vivo e assim que desliguei tive que sair correndo para atender o interfone! Duas coisas que há alguns meses atrás nem nos meus sonhos mais loucos eu seria capaz de fazer: falar no telefone e ouvir e atender o interfone. Agora faço isso como se fosse a coisa mais normal e corriqueira do mundo. E pensar em quantos interfones ‘atendi’ apenas abrindo a porta para quem quer que fosse e rezando que não fosse um ladrão, hehehe.
Nesses aspectos, a vida vai mudando quase imperceptivelmente. Você passa do sentimento péssimo de anormalidade e dependência para um sentimento sensacional de auto-suficiência. Ainda levo sustos com as coisas ‘normais’ que voltei a ser capaz de fazer, não tem jeito. E pela primeira vez sou invadida pela sensação de ser verdadeiramente dona do meu nariz. Dizem que quem tem boca vai a Roma, e acho bom complementar que quem tem um ouvido ativo e operante vai para onde bem entender.
Pra não dizer que só falei das coisas boas, vamos falar das ruins também. Dependendo do dia, ouvir DEMAIS me irrita e irrita muito. Ainda tenho alterações de humor power, acho que isso faz parte do pacote e a gente acaba aprendendo a lidar com esse fato à medida em que o tempo passa. Já passei vários domingos ‘desligada’ simplesmente por querer me dar uma folga e ficar quieta no meu silêncio (e zumbido, claro). Quando chego no limite da falta de paciência desligo meu IC sem dó nem piedade. Em alguns dias, ouvir é só prazer; em outros, ouvir me dá nos nervos e gostaria que todos ao meu redor permanecessem de boquinha fechada e não pronunciassem meu nome!!
A notícia boa é que a cada mês que passa sinto mais prazer do que irritação. Acho importante falar disso pois quem vai fazer ou recém fez IC deve ser alertado para as mudanças psicológicas que vêm pela frente – em alguns dias elas nos nocauteiam. Com a nova velocidade me vejo em várias situações de não entender coisas que entendia e isso me deixa muito irritada. Ontem mesmo minha avó e meu namorado estavam ouvindo um vídeo no YouTube e dando risada, fiquei de pé em frente ao iPad e não entendi uma palavra; em 2 minutos meu semblante já tinha mudado. Aí começo a pirar achando que está péssimo, volto pro programa/velocidade de antes e percebo que com o novo capto muito mais sons (tudo parece inclusive mais alto). Os altos e baixos pós novas programações são cansativos – e eu achava difícil me adaptar aos aparelhos auditivos, hahaha! Vivendo e aprendendo…
Às vezes ajeito o imã do IC e, quando faço isso, noto que no fim do dia começa a me dar umas pontadas lá dentro, como se fosse o início de uma mega dor de ouvido. Depois de muito observar, percebi que as pontadas aconteciam por causa do imã um pouco mais apertado. Comigo só dá certo se ele fica bem folgado. Fica a dica: nada de sair apertando, especialmente em crianças.
Abre parênteses aqui para uma confissão um pouco vergonhosa e coisa e tal. Não lembro quantos anos eu tinha quando o filme Titanic foi lançado mas lembro que naquela época eu ouvia música numa boa sem aparelhos auditivos. Aí descobri a ultra cafonérrima “My heart will go on” e foi amor verdadeiro, amor eterno. Ui! Com a programação anterior essa música soava como algo que eu nunca tinha ouvido antes e agora passei a escutar exatamente do jeito como escutava sem AASI há mais de 15 anos atrás. Coraçãozinho saltou pela boca.
Aí, como cafona assumida, fui obrigada a baixar “Take my breath away” do filme Top Gun. Lembro que na época dessa música eu devia estar na sexta ou sétima série do primeiro grau e era tão doente pelo filme que uma colega me pedia pra cantar a música em voz alta e eu soltava em alto e bom som “teiqmaibreadaueiiiiii” e ela ficava dizendo ‘poxa, mas é idênnnntico à música o jeito como tu canta, guria“. Ficava me achando! Pra completar o festival da cafonice musical, baixei “I will always love you” da falecida Whitney Houston e acho que passei a ser conhecida no trânsito como a doida que canta psicoticamente no sinal vermelho fazendo caras e bocas. Agora fecha parênteses e podem me julgar e rir bastante da minha cara, porque eu mereço. Ah, tive o prazer inenarrável de ouvir e me deliciar com “A waltz for a night“, música da cena final do meu filme favorito, Before Sunset. O que é a voz da Julie Delpy? Quando ela fala ‘waltz’ com aquele sotaque francês juro que sinto como se tivesse alguém enfiando uma faca no meu coração. Como pude viver sem isso durante tantos anos?
Como TUDO me acontece, esses dias acabou a luz no local onde trabalho bem quando eu estava dentro do elevador. Uma surda sozinha dentro de um elevador trancado: filme de terror define. Primeiro veio aquela taquicardia desesperadora seguida de falta de ar. Minutos depois, após dar uma conferida pra ver se tinha feito ou não xixi nas calças, me toquei que ali dentro havia alguém que escutava, ou seja, não havia motivo para medo ou desespero. Meti o dedão no botão de socorro mas rapidinho a luz voltou. Acho que pior que isso ultimamente só quando estou dentro de um avião indo ou voltando do Rio e tenho que ouvir E entender o maldito piloto avisando que iremos passar por uma área de turbulência – no último vôo foram dez avisos, haja coração. Antes do IC eu achava que os surdos eram as pessoas mais apavoradas ever mas agora entendi que quem ouve é que se apavora mesmo – até dentro de casa às vezes ouço uns barulhos suspeitos e fico branca achando que foi alguma alma penada!
Não consigo, de jeito nenhum, dormir ouvindo. Já fiz boas tentativas de dormir com o IC e simplesmente não funciona, o cérebro fica excitadinho com qualquer sussuro e até mesmo a minha própria respiração me faz acordar. Desisti e aceitei o fato de que tenho a opção de dormir no silêncio se assim desejar – coisa que tanta gente gostaria de ter, não é mesmo?
A Sandra também sugeriu que eu fizesse um teste com o AASI Naída 5 da Phonak pois ele faz ‘transposição de frequência’ (sou péssima com explicações técnicas, sorry). Não posso abandonar o ouvido esquerdo mesmo não tendo intenção de fazer outro IC agora, e o Pure Carat não me dá mais tudo o que preciso. Quando coloco, sei se ele está ligado ou desligado, mas não ouço mais o barulhinho que me mostrava que a pilha estava acabando ou que eu tinha desligado o aparelho. Por isso, pergunto: quem usa esse AASI e o que acha dele?
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Contatos das fonoaudiólogas:
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Sandra Santanna (SP): CER – Centro de Estudos e Reabilitação em Fonoaudiologia | Tv. Lúcia Albertina Soares Quadros, 06 Itaim Bibi, SP | (11) 3167-2156
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Márcia Cavadas (Rio): Visconde de Pirajá 405, Ipanema | (21) 2522-4949
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