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A primeira vez que fui à praia após a ativação do IC foi em dezembro de 2013, e lembro de precisar da ajuda do AASI para conseguir ouvir o som do mar quebrando e das ondas batendo na beira da praia. Falei disso neste post. Na semana passada, eu estava no Ceará. E lá tive bons reencontros auditivos. Foi tão bacana ouvir de novo o som das folhas dos coqueiros batendo ao vento, a sinfonia das folhas de várias árvores diferentes nas ventanias, outros passarinhos que não aqueles com os quais convivo no dia-a-dia. Ainda melhor foi poder ouvir o som do mar do quarto, poder tomar café da manhã, almoçar e jantar ouvindo o mar. Esses reencontros funcionam como uma espécie de teletransporte ao passado. Fico tentando lembrar da pessoa que eu era quando ainda tinha a capacidade de ouvir tudo isso sem ajuda. Mas já faz tanto tempo…

Finalmente venci um bloqueio emocional besta, mas venci: pela primeira vez peguei o telefone de um quarto de hotel e falei com a recepção. Toda vez que o Lu me dizia para pedir algo nas nossas viagens eu começava a rir e dizia ‘mas é bem capaz!’. Dessa vez achei que já tinha passado da hora, tentei, e deu certo. São atos ínfimos que fazem alguém que voltou a ouvir também voltar a se sentir gente outra vez. Lembro que sempre me pegava imaginando o que faria se um dia estivesse viajando sozinha, me acontecesse algo no quarto (um tombo, passar mal, sei lá) e não pudesse pedir socorro pelo telefone. Que alívio agora poder viver sem esse fantasma. Bloqueio vencido, senti vontade de contar toda a história para a moça que falou comigo e agradecer, mas me contive. Fiz isso uma vez com um taxista, que ficou todo emocionado ao saber que era meu primeiro papo no banco de trás com um taxista tagarela.

Numa noite, o Lu perguntou se eu estava ouvindo um barulho esquisitíssimo perto de nós no restaurante. Prestei atenção, disse que sim, mas não fazia a mínima idéia de que barulho era aquele. Quando ele me disse que eram gatos fazendo sexo fiquei tipo ‘fala sério’. Morro, e não ouço tudo. No aeroporto de Fortaleza deu pra entender 100% das chamadas pelo alto-falante na sala de embarque, de tão alto e claro que era. Quando comentei o fato, a resposta foi: “É tão alto e tão claro que acho que até sem implante dá pra entender“. Hehehehe!!

O aumento da velocidade de processamento de som do meu IC não deu certo. Após 40 dias naquele programa aceitei o fato de que tinha perdido muita inteligibilidade de fala. Em inúmeras situações nas quais antes eu ouvia e entendia sem esforço me vi de volta ao infame “HÃN?‘. Na semana que vem tenho fono no Rio para rever isso. Tem sido bem difícil ouvir TV e entender sem legenda, por exemplo. Conversas que antes eram facílimas agora requerem super concentração. Música, que antes com o cabo de áudio eu ouvia no iPhone com 4 risquinhos de volume achando alto e entendendo quase tudo, agora com 8 risquinhos ou mais não entendo a letra e acho baixo.

Já aconteceu com vocês? Isso me fez aprender uma lição importante, pois sei que as fonos não são minhas fãs no quesito ‘tipo de paciente’, já que sempre quero mais, mais, mais. Quando a gente chega numa programação que pode chamar de quase perfeita (ótima inteligibilidade de fala, volume bom, som gostoso no programa de música, capacidade de ouvir sons importantes como campainha e interfone, capacidade de manter conversas sem leitura labial) não há motivo para arriscar todo o trabalho feito para se chegar nela só pela ânsia do mais, mais, mais. Aprendi do pior jeito, pela minha teimosia. Não faria de novo. Morro de saudade da minha programação quase perfeita – o aumento da velocidade fez com que meu cérebro não gostasse mais da antiga programação, e nem se adaptasse à nova.

Por enquanto, estou num limbo. Continuo ouvindo tudo, mas o entendimento de fala e a música dançaram por ora. Até o latido dos meus cachorros tem soado distorcido. Quero só ver o trabalhão que vou ter para reverter isso.

Outro reencontro foi com o som do vento. Alugamos um quadriciclo e fomos correr com ele à beira-mar. O vento era tão forte que fiquei com medo que o IC alçasse vôo e tirei. De repente percebi que com o ouvido esquerdo ouvia direitinho o barulhão do vento dentro da minha orelha (pelo jeito deve ter uns 150dB, hahaha). Que sensação estranha! Barulho de vento me remete à vento norte, à Capão da Canoa, à infância, à praia, inúmeras recordações. Nessa ida ao Ceará tive a oportunidade ouvir vários sotaques diferentes: um uruguaio falando, um argentino falando, cearenses falando.

Passei a notar mais o meu próprio sotaque depois de um jantar no Rio com o Dr. Jair Castro e a esposa dele, pois ele fez vááárias piadas sobre gaúchos e sotaques. Tanto que quando voltei para casa fui logo assistir um vídeo recomendado por ele, de um casal gaúcho conversando numa praia de Santa Catarina. O papo começa com: “AmoRRRRR, tu gosta das pRRRaias do RRRio GRRRande, amoRRRR“? Eis que agora admito que pego pesado no ‘RRRR’. Fazer o que, se fui criada nos pampas? Melhor dizendo, fazeRRRR o que? 🙂

Houve um fim de tarde no qual me peguei admirando tudo o que estava ouvindo: as folhas dos coqueiros, a água da piscina, o mar, a queda d’água da piscina, tudo junto e misturado. Não sei explicar direito o transbordamento de gratidão que me invade nessas horas. O implante coclear me devolveu a vontade de comandar minha própria vida, em vez de apenas ser levada por ela. Cada dia é uma vitória. Ontem eu estava na minha sala quando uma colega falou lá da sala da frente para a moça da limpeza ‘diz para a Paula que a mãe dela está aqui na frente esperando’. Dei um grito e falei ‘já peguei o recado’. E pensar que passei doze anos trabalhando na SEFAZ sem fazer idéia do que acontecia ao meu redor em termos de sons/falas/conversas.

Um som que ainda não ouvi (não que eu queira, mas lembro dele e gostaria de conseguir) é aquele zunido de mosquito rondando a gente.

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • eliane
    22/07/2014 at 9:38 pm

    Oi Paula, adoro todas as histórias que tens contado depois da ativação do IC. Fico me imaginando daqui há alguns meses (espero q sejam somente 2) será que também vou ouvir o barulho ao longe, será que também vou ouvir pessoas falando atrás de mim, será que vou voltar a ouvir tantas coisas que com o passar dos anos foram se esvaindo até não conseguir mais…..atualmente estou odiando telefone. Meu celular fica desligado e o convencional se estou sozinha não atendo mais.Logo eu que gosto de conversar com as pessoas. Não vejo a hora da cirurgia e da ativação chegar prá mim também.

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  • Janise
    22/07/2014 at 6:15 pm

    Olá, Paula! Delícias de relatos… Como isso faz bem! Super beijo.

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  • Maisa Brauner Velasquez
    22/07/2014 at 4:48 pm

    Paula adoro ler seus depoimentos, você escreve com uma clareza de detalhes que me encanta. Parabéns 1000 beijos

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  • Thais
    22/07/2014 at 10:46 am

    Paula, adoro seus posts relatando redescobertas auditivas… Eu estou tendo algumas agora, depois de anos usando um AASI só, resolvi comprar um pro ouvido esquerdo… agora acho td alto demais, impressionante 😀
    O som dos mosquitinhos ainda não ouço, mas acho que nao faz falta rsrsrs
    Bjo pra minha fono Luciane, da Widex do Centro de SP, q é uma fofa, paciente pra caramba e q faz o maior esforço pra tentar entender o q ta bom e o q tá ruim 😀

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  • janete
    21/07/2014 at 8:36 pm

    Oi Paula,
    Que bom ler seus relatos e poder entender tudo o que vc está sentindo. Para mim também cada dia é uma nova descoberta. Me sinto mais segura, independente e mais corajosa. Não venci totalmente o bloqueio do telefone, ainda tenho medo de ligar para estranhos e não entender. Não sei em qual programação está meu IC, fiz a última em março e agora só em setembro para fazer a outra. Minha fono disse que meu cérebro precisa se adaptar, me deixou 6 meses assim e me disse q preciso de 18 meses para meu implante estar no seu máximo. Com essa programação eu entendo música e TV, mas não sei se por hábito ou o quê faço leitura labial quando falo com as pessoas e na tv também, eu entendo, mas ainda preciso de meus olhos. Estou louca para ver a próxima programação e
    por isso acho que talvez vc deva ir com mais calma, tudo tem seu tempo. Abraços

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  • Renata
    21/07/2014 at 7:50 pm

    Feliz demais por vc ! Gatos fazendo sexo ??? Rsss… Acho q este vou demorar para ouvir!! Mosquitos zumbindo são mais fáceis de achar !! ????????????

    Responder

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