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Foto: Shutterstock

“Meu nome é Daniele Netto, tenho 18 anos, sou de Cuiabá e há seis meses comecei a usar aparelho auditivo nos dois ouvidos. Em 2010 minha mãe comprou um termômetro digital por conta de uma gripe forte que peguei.

Quando o usava, todos diziam que ele fazia um barulhinho para indicar a temperatura medida, mas eu nunca escutava o tal bipe. Também não me preocupei com isso, achei que meu ouvido estava ruim por conta da gripe. Já minha mãe ficou encucada com aquilo e decidiu procurar um médico.

Fiz uma audiometria e descobri uma leve perda auditiva para as frequências agudas, mas não era nada para me preocupar, só deveria repetir os exames a cada semestre para verificar se a perda aumentaria. Entretanto não fiz mais os exames.

Quatro anos mais tarde, já com meus 17 anos, eu estava cursando o último ano do ensino médio e realizando estágio. No serviço eu fazia muitos atendimentos telefônicos e pelo fato de ser um escritório, as pessoas geralmente falavam em voz baixa. Era chato ter que pedir para meus colegas repetirem três, quatro vezes a mesma coisa para que eu pudesse entender. Reuniões também começaram a ser problema para mim.

Foi em novembrodo ano passado que refiz os exames. Diagnóstico: a perda neurossensorial para frequências agudas tinha aumentado. Irreversível. Desta vez teria que começar a usar AASI. Para mim foi terrível aceitar isso. Lógico que eu iria usar os aparelhos, pois não queria perder mais a audição, mas psicologicamente fiquei muito abalada. Simplesmente não sabia o que esperar!

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Enquanto estava na fila para conseguir os aparelhos pelo SUS, passei uma das piores fases. Fui apresentada ao Crônicas da Surdez através do Sr. Elmer Conceição, que trabalhava comigo e posso dizer com toda certeza que esse blog ajudou muito quando precisei – uma pausa aqui, porque preciso dizer: OBRIGADA, PAULA, VOCÊ É DEMAIS!

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Comecei a ler bastante sobre o assunto, sabia que a adaptação seria um processo que exigiria paciência e não vou negar que ficava preocupada com o que os outros iam falar. Só não queria que olhassem pra mim e dissessem: “Tadinha, ela não escuta bem”.

Eu que sempre amei sair, puxar assunto com todos e sempre fui muito comunicativa (às vezes até demais, kkk), comecei a evitar conversas, me isolar para evitar constrangimentos. Não se podia tocar no assunto “surdez” ou qualquer coisa relacionada a aparelhos auditivos perto de mim que eu já desabava em prantos.

Proibi meus pais e irmãos a falar sobre o que eu estava passando para outros familiares. Não suportaria o olhar de pena de qualquer um. É claro que isso não adiantou. E eu sabia que não adiantaria. Vez por outra percebia que parentes tentavam olhar disfarçadamente para minhas orelhas e ver se eu já estava usando aparelho.

Alguns meses depois, consegui meus AASI’s. Extremamente discreto. Embora sentisse uma pontinha de revolta e evitasse usar os aparelhos em alguns lugares (por conta de simplesmente não querer conversar sobre o assunto e não querer responder perguntas do tipo: “Você está se sentindo bem com isso?”, “Você é muito surda?”, “Se eu falar assim você me escuta?” – entre outras), a adaptação foi mais rápida do que imaginei.

A qualidade da minha vida melhorou muito. Sem os aparelhos escuto até bem, mas nada se compara a estar com eles. Hoje sei que sofri por antecipação e falo abertamente sobre o que passei. Aprendi a ser mais resiliente e que na verdade o preconceito existia dentro da minha cabeça.

Sem o apoio dos meus pais, Luiz Henrique e Jairiele, e dos meus irmãos, Adriane e Fabio, além de amigos como Lucas, Francine, Amanda e Sarah (que sempre tentavam me botar pra cima), jamais conseguiria ter a força que tenho hoje. Tenho muita fé em Deus e Ele, sem dúvidas, tem planos maravilhosos para mim.

Minha leve surdez permitiu que eu conhecesse pessoas incríveis e sou extremamente grata por isso!

Não saio de casas sem meus “ouvidos” e cara – nunca pensei que um dia diria isso – é tão legal escutar certos sons como grilos (sim, você leu direito: grilos), ar condicionado, buzinas HAHAHA! Quanto ao bipe do termômetro, mesmo com os aparelhos não consigo escutar. Mas é assim que funciona, né? Não dá de ficar 100%, mas estou feliz com a porcentagem que tenho! Simplesmente AMO A TECNOLOGIA QUE ME PERMITE OUVIR!

Daniele Pereira de Oliveira Netto”

About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

9 Comments

  • […] Relato de paciente com surdez em agudos […]

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  • Djalmanb@hotmail.com
    19/03/2019 at 8:38 am

    Agora entendi porque sempre digo todas as manhãs para minha esposa no ouvido dela qu a amo e ela diz: porque todo dia você fala algo tão baixinho no meu ouvido que até hoje não entendi ainda.?

    Reply
  • Andrea Gavinhos dos Santos
    13/10/2015 at 1:10 pm

    Letícia, uso meus AASI desde março deste ano. Percebo que ao tirar os cabelos de cima do aparelho, escuto com mais nitidez. Os cabelos soltos não impedem de ouvir, mas qdo eu os prendo, escuto melhor, mais claramente. O vento também me atrapalha. E na verdade, adoro usar os cabelos presos, pois customizo meus AASI uma vez por semana. Comprei adesivos e bolinhas lindas!!!
    Qdo as pessoas me perguntam o que é, eu respondo: sou surda e já que não dá para mudar, sou uma surda chique, bem!
    Não esconda a alternativa que Deus lhe deu, mostre que embora você tenha uma deficiência, você é capaz de ser como qualquer outra pessoa.
    Deficiência não é sinônimo de incapacidade, acredite. Conheço pessoas que com deficiências sérias, que fazem coisas que eu, apenas surda, não sou capaz de fazer..risos
    Agradeço à Deus por ter me dado a chance de continuar fazendo as minhas coisas.

    Bjs

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  • Letícia
    13/10/2015 at 11:21 am

    Uma dúvida, talvez besta, que tenho é: Ao usar este AASI atrás da orelha, pode usar os cabelos soltos?
    É que pretendo comprar meu aparelho em breve, e eu uso muito o cabelo solto… Mas às vezes tenho a impressão de que atrapalha…
    Enfim, atrapalha mesmo ou não tem problema?

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  • Samira
    13/10/2015 at 5:33 am

    Oooops, apareceram 2 pontos de interrogação no final. Na verdade, era uma “mão fazendo jóinha / positivo”. 😉

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    • Fabiana
      22/10/2019 at 3:24 pm

      Ola tenho uma filha de dez ano tbm com perda leve em agudos fiquei preocupada sobre o uso do aparelho mais para minha surpresa ela sobe ligar melhor que eu sobre isso perguntei se tinha vergonha de usar disse que nenhuma e qt os som do ar condicionado foi o primeiro que ouviu qd colocou o aparelho e disse nossa não sabía que o ar condicionado fazia barulho muito gratificante conhecer sua história e contar a minha tbm

      Reply
      • Pryscilla Cricio
        13/08/2020 at 5:41 pm

        Olá Fabiana,

        Tudo bem?

        Venha para o nosso grupo fechado no Facebook com mais de 15.300 pessoas com deficiência auditiva que usam aparelhos ou implantes. Para se tornar membro, é OBRIGATÓRIO responder às 3 perguntas de entrada.

        https://www.facebook.com/groups/CronicasDaSurdez/

        E para receber avisos sobre nossos eventos e cursos, por favor, clique e responda 4 perguntas (leva 30 segundos):

        https://forms.gle/MVnkNxctr1eahqR5A

        Estamos te esperando!

        Abraços,

        Equipe Surdos Que Ouvem

        Reply
  • Samira
    13/10/2015 at 5:31 am

    Bem-vinda à família de usuários de tecnologia para “OUVIR MELHOR E VIVER MELHOR!”
    ??

    Reply
  • Mariane
    12/10/2015 at 1:04 pm

    Parabéns Dani pela superação deste obstáculo. .. que Deus continue te abençoando #TamoJunto

    Reply

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