A surdez em agudos é uma das perdas auditivas mais comuns e mais incompreendidas: a pessoa escuta sons, percebe que alguém está falando, ouve barulhos da casa, da rua e da televisão, mas não entende direito as palavras, especialmente em lugares com ruído, quando várias pessoas falam ao mesmo tempo ou quando a voz é fina, baixa ou distante. É por isso que tanta gente passa anos dizendo “eu escuto, só não entendo”, como se isso minimizasse o impacto da surdez.
O problema é que o mundo adora reduzir audição a volume. Se a pessoa escuta a campainha, escuta o cachorro, escuta a televisão ligada e responde quando alguém grita, todo mundo conclui: “ela ouve”. Só que audição não é botão de liga e desliga. Entender fala é muito mais complexo do que perceber som. Você pode ouvir que alguém falou alguma coisa e, ainda assim, não conseguir decifrar o que foi dito. É como enxergar uma frase borrada: você sabe que existe texto ali, mas não consegue ler o que está escrito.
Neste texto, vamos explicar de forma simples o que é a surdez em agudos e como ela pode afetar a nossa audição. A surdez em agudos já foi também muito bem explicada pelo Dr. Luciano Moreira – médico otorrino especializado em surdez.
Se você tem surdez em agudos, venha para o CLUBE dos Surdos Que Ouvem tirar todas as suas dúvidas nos nossos grupos de WhatsApp e Facebook. Você precisa entender as limitações dos aparelhos auditivos no seu caso e a importância do mapeamento de fala e do médico otorrino expert em surdez.
*Atualizado em julho de 2026
O Que é a Surdez em Agudos?
A surdez em agudos é uma condição na qual as pessoas têm dificuldade em ouvir sons de alta frequência, como o canto dos pássaros, o som de um apito ou até mesmo a voz aguda de uma criança. Esses sons são importantes para a nossa comunicação e percepção do ambiente ao nosso redor.
Causas da Surdez em Agudos
Existem várias causas que podem levar à surdez em agudos. Uma das causas mais comuns é o envelhecimento. Conforme ficamos mais velhos, as células sensoriais do ouvido interno, responsáveis por detectar os sons de alta frequência, podem ficar danificadas ou morrer, causando a perda auditiva.
Além do envelhecimento, a exposição a sons altos e constantes, como música alta ou o uso frequente de fones de ouvido em volume alto, também pode causar danos às células auditivas, resultando em perda auditiva em agudos.
Outras causas possíveis incluem infecções no ouvido, lesões no ouvido, certos medicamentos ototóxicos, como alguns antibióticos, e condições genéticas que afetam a audição.
Por que quem tem surdez em agudos escuta, mas não entende?
Na perda auditiva em agudos, geralmente as frequências graves estão melhores preservadas e as frequências altas estão comprometidas. Traduzindo: a pessoa percebe presença de som, ritmo, intensidade e algumas vogais, mas perde pedaços essenciais das consoantes.
E as consoantes são pequenas, rápidas e cruéis. Sons como “s”, “f”, “t”, “ch”, “p” e “k” carregam muita informação para diferenciar palavras. Quando esses sons somem ou chegam distorcidos, “pato”, “gato”, “fato” e “rato” podem virar uma sopa auditiva. A pessoa não está “ouvindo o que quer”. Ela está tentando montar um quebra-cabeça com peças faltando.
É por isso que tanta gente com surdez em agudos entende melhor homem do que mulher, melhor voz grave do que voz fina, melhor conversa cara a cara do que fala de outro cômodo, melhor ambiente silencioso do que restaurante. Não é implicância. É acústica, cérebro e a perda auditiva trabalhando contra você.
O erro clássico: achar que aparelho auditivo é só aumentar o volume
A expectativa errada sobre aparelho auditivo começa aqui: a pessoa acha que vai colocar o aparelho e ouvir “normal”. Como se aparelho auditivo fosse óculos, que você coloca e resolve.
Mas aparelho auditivo não devolve a audição natural. Ele amplifica, organiza, processa e tenta entregar ao cérebro sons que talvez ele não receba direito há anos (em muitos casos, décadas de privação auditiva). Na surdez em agudos, o desafio é ainda mais delicado: é preciso dar acesso às frequências altas sem transformar o mundo num festival de papel amassado, talher batendo, voz metálica e “ssssss” irritante.
Quando o aparelho é mal indicado ou mal regulado, o paciente sai com duas conclusões perigosas: “aparelho auditivo não funciona” ou “eu não me adaptei”. Às vezes, o aparelho realmente está errado. Às vezes, a regulagem está ruim. Às vezes, faltou acompanhamento e mapeamento de fala. E às vezes a pessoa esperava milagre instantâneo de uma tecnologia que exige processo, paciência e reorganização do cérebro.
A questão do molde com ventilação
Um ponto que pouca gente explica direito é o papel do molde, do dome e da ventilação. Em muitas perdas em agudos, a pessoa ainda escuta relativamente bem os sons graves. Por isso, pode ser indicado usar uma adaptação mais aberta, com ventilação, para deixar os graves naturais entrarem no ouvido e evitar aquela sensação horrível de ouvido tampado, voz presa dentro da cabeça e autofonia.
O famoso “molde ventilado” pode ser maravilhoso para conforto. Mas ele também precisa ser bem pensado e bem indicado. Ventilação demais pode fazer parte do som amplificado escapar. Pode atrapalhar o ganho necessário em algumas frequências. Pode favorecer microfonia. Pode dar a impressão de que o aparelho “não ajuda tanto”. Ventilação de menos pode deixar tudo abafado, fechado e insuportável.
Ou seja: não é detalhe estético. O acoplamento acústico – esse casamento entre aparelho, molde, dome, ventilação e seu ouvido – muda o resultado, e só um Fonoaudiólogo experiente pode te ajudar com isso.
Tempo de privação auditiva: o cérebro também entra na história
Outro fator importante é o tempo de privação auditiva. Se você passou anos sem ouvir bem os sons agudos, seu cérebro não ficou esperando educadamente a volta deles. Ele se reorganizou. Ele se acostumou a trabalhar com menos informação. Ele aprendeu a chutar, completar, ignorar, sobreviver, ou seja, a sua capacidade de processamento auditivo foi muito afetada.
Quando o aparelho auditivo devolve sons que estavam ausentes, o cérebro pode estranhar. Muito. O barulho do plástico, da água, do teclado, do chinelo no chão, da própria roupa, da própria voz. Tudo parece exagerado no começo. E aí vem a vontade de arrancar o aparelho e decretar: “tô fora”.
Calma. Nem todo desconforto inicial é sinal de fracasso e nem todo sofrimento deve ser normalizado. Existe um meio do caminho adulto: usar com consistência, voltar para ajustes, relatar problemas concretos e exigir uma adaptação feita com método, enquanto usa constantemente as próteses e entende que o cérebro precisa de TEMPO.
O impacto da surdez em agudos na voz
A perda auditiva também pode mexer com a voz. Muita gente não percebe, mas nós regulamos nossa fala ouvindo a nós mesmos. Quando a audição muda, esse retorno auditivo muda junto e, por consequência, a nossa voz fica alterada e nós nem percebemos isso (mas os outros percebem).
Algumas pessoas passam a falar mais alto, porque não percebem a própria intensidade. Outras falam baixo demais. Algumas perdem nitidez na articulação. Outras ficam com voz mais presa, tensa ou com uma emissão diferente. E isso tem total ligação com a falta de feedback auditivo.
Quando os agudos estão comprometidos, a pessoa pode deixar de perceber detalhes da própria fala e da fala dos outros. Isso afeta comunicação, autoconfiança e até a nossa postura social. Não entender bem cansa. Pedir para repetir cansa. Fingir que entendeu cansa mais ainda, né?
A importância do mapeamento de fala
É aqui que entra uma palavra que deveria ser muito mais conhecida por quem usa aparelho auditivo: mapeamento de fala.
O mapeamento de fala ajuda a verificar se a fala amplificada está realmente chegando de forma audível ao ouvido do paciente, considerando a perda auditiva dele. Em vez de regular “no feeling”, o profissional mede, compara, ajusta e mostra se os sons importantes da fala estão acessíveis.
Isso é especialmente importante na surdez em agudos, porque não basta o aparelho estar “fazendo barulho”. Ele precisa entregar informação útil. O objetivo não é deixar tudo alto. O objetivo é melhorar acesso à fala com conforto, segurança e o máximo de clareza possível.
Sem verificação eletroacustica, muita adaptação vira tentativa e erro eterna. O paciente reclama, o profissional mexe um pouco, o paciente volta, reclama de novo, mexe mais um pouco. Com mapeamento, a conversa fica mais objetiva. Não resolve todos os problemas do universo, mas tira muita coisa do escuro. É o ÚNICO exame capaz de detectar de forma OBJETIVA se o aparelho auditivo está regulado da forma ideal para a sua perda auditiva.
O que você precisa entender antes de desistir
Se você tem surdez em agudos e acha que aparelho auditivo não funciona, faça algumas perguntas antes de jogar tudo na gaveta:
- Meu aparelho foi escolhido para o meu tipo de perda auditiva?
- O molde, dome ou ventilação fazem sentido para o meu caso?
- Minha regulagem foi verificada com mapeamento de fala?
- Eu usei o aparelho com consistência ou só em situações impossíveis?
- Eu voltei para os ajustes necessários?
- Minha expectativa era ouvir melhor ou ouvir como antes?
Porque existe uma diferença enorme entre “esse aparelho não está bem ajustado” e “aparelho auditivo não serve pra mim”. A primeira frase abre caminho para solução, a segunda demonstra falta de compreensão da surdez e da reabilitação auditiva, excesso de drama e falta de resiliência.
Surdez em agudos é traiçoeira justamente porque ela permite que a pessoa se engane por muito tempo. Como você ainda escuta muita coisa, demora a admitir que perdeu clareza e a compreensão, que são o que nos dá acesso à vida social, a conversar sem exaustão e a parar de viver tentando adivinhar o que os outros disseram.
Se você se reconheceu nesse texto, procure uma avaliação auditiva bem feita de um médico otorrino especialista em surdez, converse com uma fonoaudióloga experiente em adaptação de aparelhos auditivos e pergunte sobre mapeamento de fala. E, se quiser trocar experiências com quem vive isso na prática, entre no Clube Surdos Que Ouvem e assista à nossa série de aulas. Informação boa não substitui atendimento profissional, mas ajuda você a chegar na consulta sabendo fazer perguntas melhores.
No fim, entender a surdez em agudos é parar de se culpar por “escutar mas não entender”. Isso tem nome, explicação e caminho. O que não dá é continuar fingindo que está tudo bem enquanto o cérebro trabalha em dobro e a vida vai ficando cada vez mais silenciosa por dentro.
Tratamento da surdez em agudos
Existem várias opções de tratamento disponíveis para a surdez em agudos. Uma delas é o uso de aparelhos auditivos, que amplificam os sons para que possam ser ouvidos mais claramente. Esses aparelhos podem ser ajustados especificamente para compensar a perda auditiva em agudos.
Em alguns casos mais graves, quando os aparelhos auditivos não são suficientes, pode ser considerado um implante coclear. O implante coclear é um dispositivo eletrônico que estimula diretamente o nervo auditivo, permitindo que pessoas com perda auditiva grave ou profunda recuperem a capacidade de ouvir.
A surdez em agudos pode ser um desafio, mas existem opções de tratamento disponíveis para ajudar as pessoas a lidar com essa condição. Se você acha que está com dificuldade para ouvir sons agudos, não hesite em buscar ajuda de um médico otorrinolaringologista especializado em surdez.
Depoimento de uma leitora com SURDEZ EM AGUDOS
“Meu nome é Daniele Netto, tenho 18 anos, sou de Cuiabá e há seis meses comecei a usar aparelho auditivo nos dois ouvidos. Em 2010 minha mãe comprou um termômetro digital por conta de uma gripe forte que peguei.
Quando o usava, todos diziam que ele fazia um barulhinho para indicar a temperatura medida, mas eu nunca escutava o tal bipe. Também não me preocupei com isso, achei que meu ouvido estava ruim por conta da gripe. Já minha mãe ficou encucada com aquilo e decidiu procurar um médico.
Fiz uma audiometria e descobri uma leve perda auditiva para as frequências agudas, mas não era nada para me preocupar, só deveria repetir os exames a cada semestre para verificar se a perda aumentaria. Entretanto não fiz mais os exames.
Quatro anos mais tarde, já com meus 17 anos, eu estava cursando o último ano do ensino médio e realizando estágio. No serviço eu fazia muitos atendimentos telefônicos e pelo fato de ser um escritório, as pessoas geralmente falavam em voz baixa. Era chato ter que pedir para meus colegas repetirem três, quatro vezes a mesma coisa para que eu pudesse entender. Reuniões também começaram a ser problema para mim.
Foi em novembrodo ano passado que refiz os exames. Diagnóstico: a perda neurossensorial para frequências agudas tinha aumentado. Irreversível. Desta vez teria que começar a usar AASI. Para mim foi terrível aceitar isso. Lógico que eu iria usar os aparelhos, pois não queria perder mais a audição, mas psicologicamente fiquei muito abalada. Simplesmente não sabia o que esperar!
Enquanto estava na fila para conseguir os aparelhos pelo SUS, passei uma das piores fases. Fui apresentada ao Crônicas da Surdez através do Sr. Elmer Conceição, que trabalhava comigo e posso dizer com toda certeza que esse blog ajudou muito quando precisei – uma pausa aqui, porque preciso dizer: OBRIGADA, PAULA, VOCÊ É DEMAIS!
Comecei a ler bastante sobre o assunto, sabia que a adaptação seria um processo que exigiria paciência e não vou negar que ficava preocupada com o que os outros iam falar. Só não queria que olhassem pra mim e dissessem: “Tadinha, ela não escuta bem”.
Eu que sempre amei sair, puxar assunto com todos e sempre fui muito comunicativa (às vezes até demais, kkk), comecei a evitar conversas, me isolar para evitar constrangimentos. Não se podia tocar no assunto “surdez” ou qualquer coisa relacionada a aparelhos auditivos perto de mim que eu já desabava em prantos.
Proibi meus pais e irmãos a falar sobre o que eu estava passando para outros familiares. Não suportaria o olhar de pena de qualquer um. É claro que isso não adiantou. E eu sabia que não adiantaria. Vez por outra percebia que parentes tentavam olhar disfarçadamente para minhas orelhas e ver se eu já estava usando aparelho.
Alguns meses depois, consegui meus AASI’s. Extremamente discreto. Embora sentisse uma pontinha de revolta e evitasse usar os aparelhos em alguns lugares (por conta de simplesmente não querer conversar sobre o assunto e não querer responder perguntas do tipo: “Você está se sentindo bem com isso?”, “Você é muito surda?”, “Se eu falar assim você me escuta?” – entre outras), a adaptação foi mais rápida do que imaginei.
A qualidade da minha vida melhorou muito. Sem os aparelhos escuto até bem, mas nada se compara a estar com eles. Hoje sei que sofri por antecipação e falo abertamente sobre o que passei. Aprendi a ser mais resiliente e que na verdade o preconceito existia dentro da minha cabeça.
Sem o apoio dos meus pais, Luiz Henrique e Jairiele, e dos meus irmãos, Adriane e Fabio, além de amigos como Lucas, Francine, Amanda e Sarah (que sempre tentavam me botar pra cima), jamais conseguiria ter a força que tenho hoje. Tenho muita fé em Deus e Ele, sem dúvidas, tem planos maravilhosos para mim.
Minha leve surdez permitiu que eu conhecesse pessoas incríveis e sou extremamente grata por isso!
Não saio de casas sem meus “ouvidos” e cara – nunca pensei que um dia diria isso – é tão legal escutar certos sons como grilos (sim, você leu direito: grilos), ar condicionado, buzinas HAHAHA! Quanto ao bipe do termômetro, mesmo com os aparelhos não consigo escutar. Mas é assim que funciona, né? Não dá de ficar 100%, mas estou feliz com a porcentagem que tenho! Simplesmente AMO A TECNOLOGIA QUE ME PERMITE OUVIR!
Daniele Pereira de Oliveira Netto”
O depoimento deste post foi publicado originalmente em 2015.
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