Segunda-feira de Carnaval, e resolvi encarar um Carrefour, acompanhada de uma tia-avó que tem quase 70 anos. Eu NUNCA entro em filas especiais, seja em banco, supermercado, repartição pública ou onde for. Mesmo que a lei me conceda esse direito, nunca me importei de esperar mais tempo numa fila ‘normal’.
Aí, na primeira vez que resolvo entrar numa fila especial, olha só o que me acontece. Minha tia me pediu pra esperar na fila enquanto ela ia buscar algo que tinha esquecido de colocar no carrinho. Bastou ela sair, que duas senhoras se plantaram na minha frente com ar de deboche e num tom de voz irônico e falando aos berros para que todo mundo visse e me hostilizasse junto, disseram: “Ué, a fila especial é aqui?“
Eu: “É, mas o fim da fila é lá atrás!” (a fila não era em linha reta e bem confusa, por sinal)
Elas: “Mas então o que é que tu tá fazendo aqui minha filha? Tu tá grávida por acaso?” (gritando)
Eu tenho sangue frio, e vivo comentando que meu sonho de consumo é xingar alguém que merece ser xingado exatamente no momento em que isso deve ser feito. Só pra variar, não consegui. Minha educação sempre fala mais alto.
Eu: “Não senhora, não estou grávida. Eu tenho deficiência auditiva (apontando pros AASI) e estou também acompanhando uma senhora de 70 anos!“.
As duas me olharam com um misto de vergonha e cara de nojo, deram as costas e foram embora. Quem estava bem perto quase começou a cavar um buraco de vergonha alheia. E eu fiquei com cara de tacho pensando que perdi a chance de rodar a baiana em público e dar uma aula de civilidade para duas senhoras mal educadas e grossas que não precisavam ter dado o tal showzinho. Fiquei tão sem graça que saí da fila, fui até o caixa e perguntei se a fila era somente para pessoas com deficiência física, mas ela disse que não, era para pessoas com QUALQUER DEFICIÊNCIA. Voltei pro meu lugar, esperei até ser atendida e fui embora.
Quando cheguei em casa, consultei a legislação e, realmente, eu tinha pleno direito de usar a fila especial. Aí fiquei me perguntando porque nunca tinha feito isso, e cheguei à conclusão de que acabo sentindo pena de quem está em situação pior ali de pé e abro mão. Foi então que me liguei que essa atitude é errada.
Não existe deficiência pior ou melhor, o que existe é a mentalidade de que precisamos sentir pena do deficiente. E nós mesmos, que somos pessoas com deficiência, fazemos exatamente isso – basta perguntar a qualquer DA porque ele abre mão desse direito. E porque? Porque a surdez é a deficiência invisível, aquela que ninguém nota, aquela difícil de ser explicada (especialmente se você é surdo oralizado ou não usa aparelhos auditivos), aquela que não causa pena aos olhos de quem vê. Entre pagar o mico que paguei hoje e ir direto pra fila normal sem ser importunado, todo mundo prefere a segunda opção.
Por último, acho que aquela placa que sinaliza a fila especial é errada. Ela tem uma figura de um idoso, de um cadeirante e de uma grávida em 99% dos casos. E ainda diz “idosos, deficientes e gestantes”. Aí as pessoas olham para as figuras e ficam achando que só tem direito a estar ali o deficiente que for cadeirante. Aí você percebe que o imaginário coletivo acha que surdos, cegos, etc não saem de casa, não vão ao banco, ao mercado, blablabla. Devem ficar escondidos numa caverna ou coisa do tipo!
Me pergunto: será que os gerentes de mercados, bancos, etc, estão preparados para lidar com eventuais barracos (nem todo mundo tem sangue frio como eu) e conhecem a legislação na ponta da língua para defender aquele que está sendo atacado injustamente?? No fim das contas, realmente me desagrada ter que ficar dando satisfações a respeito da minha vida e da minha deficiência para estranhos que eu nunca vi na vida, num lugar público, sendo julgada de antemão por gente que eu não conheço e que não tem nada a ver com o fato de eu estar numa fila especial.
Quem já passou por isso e como agiu?
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