Ícone do site Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Surdez: como você se sente convivendo com a deficiência invisível?

Acho que dei sorte na vida pois todas as pessoas do meu convívio tratam a minha surdez com muita naturalidade.

Isso tem a ver com a minha própria atitude perante tudo isso, já que desde que saí do armário me recusei a sentir vergonha do que quer que seja que tenha a ver com a minha deficiência auditiva. A gente vai envelhecendo e perdendo a paciência com algumas coisas, não é verdade?

A deficiência invisível

Como estou envolvida até o pescoço com o tema surdez, todo santo dia alguém com a Deficiência Invisível (Auditiva) me aborda – ao vivo ou online – e solta alguma pérola irritante. Juro que sou uma criatura compreensiva pois já estive na pele de quase todo mundo que sofre com a deficiência auditiva progressiva.

Mas acho que chega um momento na vida de todos nós em que temos que encarar os fatos como eles são e nos tornarmos adultos pra valer, e isso inclui lidar com determinados assuntos com mais conhecimento de causa.

Fiz uma listinha de pérolas básicas que, se por acaso você continua dizendo, precisa parar e rever a sua postura. Dica de amiga, hein! 😉

“Não sou surda, tenho um probleminha de audição”

Aaaaaargh! Isso geralmente vem acompanhado de uma audiometria que mostra DA severa ou profunda – o mais comum é ouvir isso de quem tem perda em rampa nos agudos.

Como assim, amiga(o)?

Nesses momentos me passa um filme na cabeça dos anos perdidos negando o óbvio, do jeito ‘politicamente correto’ que eu usava para falar do assunto com a esperança de que doesse menos… De boas?

O único jeito de doer menos é se aceitar. Se você é um surdo ainda no armário conversando com um surdo que já saiu do armário, não fale essas barbaridades.

“Dá pra esconder esse negócio debaixo do cabelo?”

A pessoa pede para ver meu implante coclear, tocar nele, aquela coisa toda. Eu tiro e fico no silêncio por uns minutos para proporcionar esse encontro com aquilo que poderá mudar a vida dela.

Só que, em vez de pensar no quão incrível é o fato de que um objeto de plástico seja capaz de fazer com que um surdo profundo ouça, a pessoa está na verdade é preocupada em esconder o IC!

Isso me causa um desgosto tão, mas TÃO grande…

E me lembra aquela piadinha que um cara vai para os finalmentes com uma mulher lindíssima e ela vai falando: “Vou tirar minha peruca, vou tirar meus dentes postiços, vou tirar meu sutiã com enchimento, vou tirar a maquiagem…“.

E o pobre homem fica chocado com a falta de sinceridade da moça. Querer esconder um IC ou AASI me parece tão ou mais patético do que isso.

“Não comento com ninguém sobre a minha surdez”

Você pode não comentar mas as pessoas percebem. Aliás, pode saber, TODAS as pessoas percebem.

Todo surdo passa por uma fase na vida em que acha que é mestre em esconder a surdez do resto do planeta. Isso me faz lembrar de um amigo que uma vez me chamou para jantar para contar uma grande novidade.

Chegando lá, ele disse que tinha saído do armário e se assumido gay. E a minha resposta foi: “Tá, mas qual é a grande novidade, tô morta de curiosidade!” Ele: “A novidade é que sou gay!” Eu: “Mas isso eu já sabia desde a oitava série!”

Moral da história: você pode tornar a surdez um assunto proibido que ainda assim as pessoas perceberão que você não ouve ou ouve mal. Pare com isso!

“Imagina que eu vou usar aparelho!”

Isso é algo que me deixa confusa. Se você é surdo, em 90% dos casos o que vai lhe ajudar é o uso diário e constante de aparelhos auditivos.

Essa atitude negativa como se os AASI fossem algo péssimo está mais para birra de criança teimosa. Vocês conseguem imaginar alguém que acaba de saber que é diabético abrir o berro dizendo que nem ferrando usará insulina?

Negação não vai trazer a audição de ninguém de volta, nem tente.

“Tenho indicação para o IC, mas é muito perigoso”

Putz, essa me dói, juro. E o perigo de continuar surdo por acaso é menor do que o perigo de passar por uma cirurgia?

Entendo o medinho que todo mundo sente de se operar – e me incluo nessa – mas confesso que não entendo quando um surdo profundo que não tem NADA a perder fala assim.

O que um ser humano vai ter para perder ao chegar na surdez profunda, em termos de audição? E o que ele tem para ganhar ao fazer um implante coclear? Ah, pois é! 🙂

Entre para o Grupo Crônicas da Surdez no Facebook

Sair da versão mobile