Dicas para se adaptar melhor aos seus aparelhos auditivos

HearingAids_MODELS

  • Comece com conversas com apenas uma pessoa, que são os mais fáceis de entender. Aumente a quantidade de interlocutores gradualmente;
  • Se sentir dor ou muito desconforto, procure sua fono e refaça o molde (de acrílico ou silicone) do seu aparelho, pois é impossível conseguir gostar de algo que machuca;
  • Preste atenção nas situações em que você ouve melhor e pior: faça um diário para levar para a sua fono na próxima regulagem, com riqueza de detalhes, isso ajudará o trabalho dela;
  • Conseguir conversar em ambientes ruidosos (restaurantes, festas, baladas) vai ser difícil no início. Com tempo e prática, sua capacidade de ouvir nestes locais vai melhorar;
  • Fique atento a outras pistas visuais do seu interlocutor: os lábios, a linguagem corporal. Tudo ajuda a entender e desvendar o contexto;
  • Posicione-se perto da pessoa com quem você está falando;
  • Esforce-se para aprender leitura labial. Parece difícil, mas é muito fácil: basta prestar atenção nos lábios das pessoas enquanto elas falam. Os lábios fazem movimentos diferentes a cada fonema, a cada palavra. Com concentração e prática, você chega lá;
  • Sinta orgulho e não vergonha dos seus AASI. A maior perda de tempo que existe é viver tentando escondê-los e achando que consegue esconder sua deficiência auditiva dos outros. Não caia nessa cilada! Saia do armário da surdez o mais rápido que conseguir e não perca energia com isso;
  • Busque um telefone com amplificador para ter em casa para ajudar nas conversas telefônicas;
  • Se seu AASI tiver conectividade bluetooth, use e abuse dela para ver TV, ouvir músicas e fazer treinamento auditivo;
  • USE o seu aparelho auditivo. Quanto mais você usá-lo, mais rápido irá se adaptar a ele!!!

 

Alguns conselhos que dou quando as pessoas vêm me perguntar sobre o que devem saber antes de comprar aparelhos auditivos!

  • Informe-se sobre os tipos de aparelhos auditivos existentes e sobre qual deles é indicado para qual tipo de perda auditiva. Micro-canal não é indicado para perdas profundas!
  • Acesse o site da marca que você quer comprar e descubra quem é o revendedor autorizado;
  • Faça pesquisa de marcas e preços – boa idéia é a Comunidade dos Surdos Oralizados no Facebook, onde ninguém se acanha de passar informações sobre isso;
  • Peça referências para amigos e conhecidos a respeito da revenda com a qual você quer fechar negócio antes de fazê-lo;
  • Faça todas as perguntas possíveis sobre sua perda auditiva para seu fonoaudiólogo ANTES de pensar em comprar aparelho auditivo. Informação é o cerne da questão aqui;
  • Se for pedir indicação de marcas e revendas ao seu médico, peça no mínimo três opções;
  • Barganhe, porque não? Especialmente para pagamentos à vista!
  • Exija nota fiscal detalhada e tenha certeza de que se trata de nota fiscal verdadeira e não mero recibo, que não tem validade legal/jurídica;
  • Peça detalhes a respeito da garantia: quanto tempo, o que cobre, etc;
  • Certifique-se que o seu AASI tem reserva de potência para o caso de sua perda auditiva progredir;
  • As regulagens estão embutidas no preço que você paga por eles. Não aceite tratamento ruim após o pagamento, pois a jornada é longa até você se adaptar aos AASI e chegar a um som confortável;
  • Não compre um aparelho que mal atende a sua perda auditiva só porque ele é ‘discreto’, pois em pouco tempo sua perda pode progredir e aí sim você não vai mais fazer uso do ‘discreto’ e precisará de um mais potente – e o gasto será ainda maior. O que interessa é saúde auditiva, e não se alguém vai ver que você usa aparelhos;
  • Busque revendas autorizadas para não correr o risco de comprar aparelhos de segunda mão pagando o preço de um aparelho novo. Abra o olho!!!
  • Faça um test-drive de no mínimo 1 semana com o aparelho em casa antes de se decidir.
15 amaram.

A história de Keite: surda oralizada, pedagoga e contadora

10395828_811514985553779_220977239066114545_n

 

‘Começo minha história me apresentando. Me chamo Keite, tenho 27 anos, nasci em Osasco, dia 22/04/1987 com deficiência auditiva bilateral. Hoje, sou oralizada, com formação em Pedagogia e recém-formada em Ciências Contábeis. Até hoje, não sabemos como aconteceu a minha deficiência, ao que tudo indica, minha mãe teve complicações no parto, mas as origens da causa do problema ainda são desconhecidas.

Na fase em que eu deixava de ser um bebê e passava a ser criança, já apta interagir e compreender o mundo, minha mãe notou que eu estava demorando a falar e isso me deixava muito agitada. Nem ela, nem meus familiares entendiam o que se passava comigo, eu fazia muita arte mesmo, quebrava as coisas, era uma criança rebelde.

Aos 4 anos de idade, por meio de uma indicação da escolinha que passei a frequentar, minha mãe me levou ao médico, que descobriu o meu problema. Ela teve que escutar o diagnóstico do médico: “Sua filha tem deficiência metal ou auditiva” A reação instantânea de minha mãe foi rebater, dizendo: “Problemas mentais tenho certeza que ela não tem. Pode ser deficiente auditiva e se for isso, vamos cuidar dela, amar e fazer o possível para que tenha qualidade de vida. Vou lutar por minha filha.”

Desta forma, começou nossa batalha. Digo nossa, pois, além de minha mãe, sempre contei com o carinho e atenção de meu pai e minha irmã, que até hoje estão ao meu lado, apoiam minhas decisões e me dão forças nos momentos difíceis. E tenho também tios, tias, primos, avós, etc., que aprenderam a lidar com a minha dificuldade, ou seja, a família mobilizada a meu favor, desde pequena, quando ainda aconteciam idas frequentes a médicos, para bateria de exames e todas as correrias possíveis, até sair o diagnóstico correto.

Na verdade ainda não temos o parecer concreto sobre minha deficiência auditiva. O que sabemos é que o problema é entre o ouvido e o cérebro, pois já fiz cirurgia e não encontraram nada de anormal, tentei aparelhos auditivos sem sucesso, também já fomos atrás de implante, que não resolveu minha situação. Diante de tantas negativas, partimos para a estratégia de aceitação e buscas que driblavam a deficiência. Minha família e eu fomos atrás de contornar os obstáculos.

O objetivo era que eu levasse uma vida normal, como todas as pessoas, que passam por diferentes períodos na vida. Enfim, o caminho era aprender a viver, conviver e lidar com minha condição, principalmente ir tendo resultados no decorrer do meu desenvolvimento, conforme os anos e a idade fosse chegando, afinal, enfrentaria (e enfrento), como todo ser humano, inúmeras fases: infância, pré-adolescência, adolescência; atualmente, vida adulta, e futuramente a velhice.

Como a normalidade era o nosso foco, um dos primeiros passos foi ter consultas frequentes de fonoaudiologia. A realidade é que, este tipo de terapia é fundamental na vida do deficiente auditivo e comigo não foi diferente.

Minha fonoaudióloga teve um papel muito importante e definitivo em minha vida. Ela teve a percepção que eu não precisaria desenvolver a LIBRAS, pois eu falava algumas coisas, ainda que muito enrolada, mas falava. Na verdade, eu queria falar e falava do meu jeito, porém percebia que tinha algo errado comigo, que minha fala era diferente das demais pessoas, mas não entendia o que era, e o que me acontecia. E só fui compreender que eu tinha perda auditiva aos sete anos. Por um tempo, dei trabalho para minha mãe porque não queria ir a fonoaudióloga, mas quando chegava no consultório, eu entendia que era por meu bem, e seguia tudo certinho.

Fora anos de tratamento fonoaudiológico, no entanto, com muito jeitinho, carinho e elogios, fui desenvolvendo a técnica de leitura labial e a fala. Aos 9 anos eu já estava 100% inserida nesta prática e todos podiam falar comigo, mas as pessoas precisavam falar de frente, (até hoje é assim) para que pudesse ver os movimentos dos lábios de quem falava. E as pessoas também podiam entender o que eu falava; mesmo trocando algumas letras, eu conquistei o domínio da fala e me oralizei.

Quando cheguei a idade de educação formal, mais uma vez minha mãe incorporou seu espírito de guerreira para que eu pudesse me alfabetizar e aprender como as outras crianças. Minha mãe andou por quase toda São Paulo em busca de escolas para mim. Escolas públicas não me aceitavam e até escola particular foi difícil.  Nesta época não se ouvia falar em inclusão e existiam escolas especiais e cheguei a fazer teste em uma própria para surdo e mudo, porém alegaram que eu poderia frequentar escola normal, então a saída era escola particular e com muito custo conseguimos uma.

Fui estudar em Osasco, em uma escola particular que me aceitou de braços abertos, pois o próprio diretor conhecia e entendia bem o meu problema, por também ser deficiente auditivo. A coordenadora, juntamente a ele, aceitou o desafio e hoje tenho muito que agradecer a esses profissionais; graças a eles pude frequentar escola, o que contribuiu incondicionalmente para a minha formação.

Para complementar a escola, diante de algumas dificuldades específicas, fiz aulas particulares para conseguir ser totalmente alfabetizada. E mais uma fase que não foi fácil, três anos conciliando escola, aulas particulares e fonoaudiólogo. Eu tinha apenas o fim de semana para brincar, e toda criança só pensa em brincar. Como grãos de areia que se juntavam para formar a praia, tudo tratavam-se trabalhos diários, com profissionais externos e meus pais em casa; nem eles nem eu não pode desistir, e num futuro, que já se apresenta veio a recompensa.

Depois de seis anos de tratamento com fono, dos 4 anos ao 10 anos, fui liberada, e segui minha jornada de aprendizado pela escola. Mas era uma batalha constante por adaptação, professores que precisavam falar de frente, sem andar pela sala, e necessariamente eu sempre sentava nas cadeiras da frente, muitas vezes outros pegavam meu lugar e não como ficar frente, além de tudo, em algumas séries já comecei a sentir o preconceito dos colegas de sala, porém o pior foi com alguns professores porque muitos professores não se adaptavam e queriam que eu me adaptasse a eles.

Na sexta série tive sorte de encontrar duas amigas maravilhosas, Viviane e Eduarda, que mesmo à distância, estão comigo até hoje, e me ajudaram durante um tempo do período escolar, mais especificamente até a 8º série, quando me saí de Osasco e fui para outra cidade.

Em 2003 mudei para interior, concluí o ensino médio, uma vitória incontável depois de tantos altos e baixos. Não imaginava que iria conseguir terminar o ensino básico, mais venci e tampouco pensava em fazer faculdade, mas tomei a decisão de tentar fazer pedagogia, pois enquanto eu cursava o ensino médio refleti sobre meus problemas, e vi que poderia ajudar outras pessoas, iguais a mim ou não e principalmente crianças, que ainda tem tudo pela frente na vida.

Na faculdade, passei a observar as dificuldades para ensinar e aprender. Perante a realidade do universo educativo, desenvolvi um projeto de reforço, para alfabetizar algumas crianças. Foram 4 anos de trabalho muito gratificante numa escola municipal e ao concluir Pedagogia e defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre: Reforço extra-sala, na alfabetização de indivíduos portadores de necessidades especiais auditivas.

Em 2008 tive que deixar o meu projeto, pois não tive remuneração nem incentivos para continuar.

Em consequência, parti para novas experiências e consegui emprego em uma empresa pela cota de deficientes. Essa lei com certeza ajudou a gerar muitas oportunidades aos deficientes, que foram valorizados e muito tem forte capacidade de trabalho, como eu. Tive a oportunidade de conhecer a fundo uma empresa de grande porte e trabalho nela há 6 anos, no departamento de contabilidade. Passar de Pedagogia para Contabilidade foi um grande salto, dois mundos diferentes, um humano e outro materialista. Confesso que no começo me vi perdida e por isso, resolvi estudar Ciências Contábeis, para ajudar a melhorar meu desempenho no trabalho.

Em 2010, iniciei mais uma nova etapa escolar, com uma coragem absurda, resolvi investir na nova graduação, mas perdi a conta de quantas vezes eu pensei em desistir. Diversas vezes cheguei chorando em casa neste período. Nesta faculdade não tive apoio de ninguém, coordenação, direção, apenas de alguns professores e dois amigos.

Dessa vez os professores não colaboravam mesmo, eu era obrigada a me virar sozinha e a sensação de abandono e desamparo constantemente me invadiam. Inúmeras vezes mandei e-mails para a instituição, solicitando que se adaptasse e não esquecessem que tinham uma aluna deficiente auditiva oralizada em uma de suas classes. Mas sempre havia desculpas, conversas sem resultados e as negligências continuavam. Arrependo-me de não ter lutado por meus direitos no início da faculdade, porque desde 2006 já existe uma lei  que permite aos deficientes auditivos terem interpretes para auxiliarem os estudantes com esta característica.

Quando eu fui para o terceiro ano de faculdade entrei em depressão durante um período e pensar em voltar a estudar naquele ambiente hostil me dava pânico. Diante disto, novamente, minha mãe entrou em ação e não me deixou desistir. Começou a ir atrás dos meus direitos, acionamos a faculdade para que colocassem um interprete nas aulas, sem sucesso. A saída foi recorrer a um promotor público e assim não tiveram como negar e consegui uma interprete no último ano de faculdade. A ordem de me disponibilizarem o profissional, determinada pela justiça, foi no começo do ano, mas ainda conseguiram adiar o meu benefício para o meio do ano, quando apareceu um anjo em minha vida, a Interprete Rosymar Matos.

Os trabalhos dela começaram e como eu sou oralizada, ela me falava o que eu perdia, mas sua maior benfeitoria para mim era o registro de toda a matéria falada pelos professores. Agora e assim, eu tinha conteúdo para estudar, a questão e o detalhe que vale a pena destacar é que infelizmente, tratava-se do meu último semestre de faculdade, ou seja, os três anos e seis meses anteriores foram completados com sufoco além do normal, para um curso universitário e ainda mais por eu já ser da área de educação, tenho plena consciência dos possíveis déficits que este meu segundo curso pode ter.

Atualmente estou recém-formada em Ciências Contábeis e sou a prova que é possível, sim um deficiente auditivo concluir um ensino superior e não só uma vez.

Posso dizer que, mesmo com tanta dificuldade, agradeço a Deus por toda essa luta que me fez crescer e ter uma noção de mundo privilegiada, com conhecimento, força e fé. Meu conselho aos deficientes é que nunca desistam, pois, obstáculos sempre vão existir, então lute até onde puder, mais lute pelos seus direitos, pois temos leis que nos protege. E em resultado de toda essa luta, me achei e descobri que meu dom e minha paixão é ENSINAR!!!

Sou Pedagoga com muito orgulho e serei Contadora de histórias!!!

Contei minha história para esse blog e com ajuda da minha amiga jornalista me motivei a escrever um livro ‘Fale de frente com a Keite’, um livro para ajudar os pais, os próprios deficientes auditivos, profissionais da educação e empresários.’

61 amaram.

A história da Carla

Blog Paula Pfeifer

 

‘Me chamo Carla, tenho 31 anos, moro em Toledo-PR, tenho perda auditiva bilateral profunda neurossensorial. Diz a causa, que foi uma sequela de uma icterícia em conjunto a uma falha médica, mas essa perda auditiva não foi diagnosticada tão logo. Com o passar do tempo, em meados dos meus 18 meses de vida, meus pais desconfiaram quando me aproximavam de outra criança e eu permanecia muito quieta. Eles faziam barulhos, mas eu não olhava. Aí que perceberam que eu não escutava!

Os meus pais decidiram buscar novos recursos que em Toledo não possuía. Surgiu a oportunidade de ir à Londrina-PR – cerca de 6 horas de viagem – para a realização de diversos exames em uma clínica especializada para diagnosticar o estado de minha audição, que foi identificada como perda auditiva bilateral profunda neurossensorial. Continuamos fazendo este deslocamento contínuo com frequência, às vezes semanal, às vezes quinzenal, conforme a necessidade de realização dos exames. Quando completei 1 ano e meio, coloquei um aparelho de caixa com fio duplos de moldes para utilizar nos dois ouvidos. Quando precisávamos fazer algo em relação ao aparelho, como compra de pilhas, regulagens, ajustes e outros afins, somente em Londrina.

Ao frequentar a escola em 1987, estava para completar os meus 3 anos, meus pais me colocaram em uma escola especial para surdos. Porém, lá fiquei apenas 3 dias porque eles mesmos não aceitaram a metodologia da instituição. Então iniciaram a busca em outras escolas – não foi nada fácil porque nenhuma das escolas visitadas aceitou receber uma criança especial. Mas minha mãe estava longe de desistir em me incluir em uma escola ‘normal’. Por isso ao retornamos para Londrina, ela solicitou uma carta ao profissional da clínica. Com o documento em mãos, ela foi a última escola que faltava ir, apresentou a carta e a instituição me aceitou.

Tive um bom relacionamento, recebi atenção por parte dos professores, com o apoio de meus pais me desenvolvi rapidamente até que comecei falar com 3 anos, mas claro que neste período, estava fazendo acompanhamento fonoaudiológico, em que íamos três vezes por semana para Cascavel-PR – na época, cerca de 1 hora de Toledo – para frequentar as sessões de fonoaudiologia e também eu trazia exercícios para praticar em casa. Meus pais me treinavam todos os dias, ficavam horas comigo!

Com o passar dos anos, vivia em função da escola, acompanhamentos com otorrino e fono até que aos 9 anos quando fui para a 4º série, troquei de aparelho: aposentei o aparelho de caixa e passei a usar AASI somente no ouvido esquerdo, da marca Siemens. Lembro-me até hoje quando cheguei na escola pela primeira vez com o AASI e meus amigos perguntaram: “Cadê o seu aparelho?”. Eu levantei o cabelo e disse: “Está aqui!”. Nossa, eles ficaram maravilhados! Fui me adaptando com o novo aparelho, que durou muito bem.

Em 1996, quando entrei na 7º série, resolvemos mudar de colégio, devido às condições financeiras de meus pais. Saí da escola que estudei desde os 3 anos para uma pública. Lá minha adaptação foi melhor do que eu esperava: reencontrei duas amigas e duas professoras que estavam na mesma escola particular nos anos anteriores. Me enturmei rapidamente, permanecendo nesta escola até a 8º série! Neste período da adolescência, comecei a esconder o aparelho. Aliás, já ouvi muitas coisas de outras crianças e adultos, fazendo-me sentir inferior desde criança. Meus pais sempre me ensinaram a me proteger e encarar que isso é apenas uma deficiência! E mesmo assim, eu tinha vergonha!

Em 1998, mudei novamente, indo para outro colégio com um número muito maior de alunos. Esta fase foi difícil para mim, porque além da idade, na flor da adolescência, me sentia mais vergonhosa. Não queria dizer que eu era deficiente auditiva. Mesmo assim, muita gente sabia! Pelo meu jeito de falar e pelas informações dos meus colegas e amigos com quem estudei antes. Mas não deixei de estudar e nunca fui reprovada de ano. E no meu grupo de amigas, me senti bem com elas tanto na escola quanto fora dela e nos treinos de basquete. Neste período, troquei o aparelho auditivo, pois o da Siemens simplesmente pifou! Passei a usar a marca Unitron que tinha disponibilizada pelo SUS e que me adaptei fácil!

Em 2000, quando conclui o ensino médio, fiz vestibular para Engenharia Química na UNIOESTE, passei por uma situação constrangedora que tive que tirar o AASI no 1º dia de prova. Após esta prova, sai da universidade, contei aos meus pais. No outro dia, 2º fase da prova, minha mãe foi junto pedir solicitação a banca para colocar em uma sala especial para fazer com o aparelho auditivo, senão teria que tomar outras medidas cabíveis. No outro ano, a UNIOESTE fez um edital detalhado, contendo um item para portadores de necessidades especiais incluindo a deficiência auditiva.

No início do outro ano (2001), ao fazer o vestibular para Tecnologia em Alimentos no CEFET-PR, fiz a inscrição colocando a deficiência e solicitando autorização para uso do aparelho auditivo. Entramos em contato com a universidade para ver qual o papel deles em relação ao atendimento especial. Resultado disso: O atendimento foi ótimo, pediu para que eu e minha mãe procurássemos o fiscal da comissão de provas no dia do vestibular. No dia da prova, o fiscal olhou o laudo, me acompanhou até o local e autorizado o uso do aparelho auditivo no momento da prova. Fui aprovada e encarei esta faculdade. Conclui a faculdade no final de 2004, e neste mesmo ano já fui contratada por uma empresa no estado do Mato Grosso, permanecendo por lá durante dois anos e meio. Retornei ao Paraná, com novas oportunidades de trabalho em empresas privadas de pequeno à grande porte. Fiz duas especializações na área. Estou formada há 10 anos! Posso dizer que consegui me virar muito bem em relação a minha deficiência. Conheci novos amigos, novos lugares e inclusive até namorei neste período! Aí que me senti mais madura em relação a minha deficiência, bem como as pessoas hoje tem uma melhor aceitabilidade e entrosamento comigo.

No ano de 2013, ganhei um livro da Paula Pfeifer de um amigo de Curitiba que também é deficiente auditivo, com quem temos contato deste o ano de 2007. Ele é uma pessoa com quem posso falar sobre deficiências e tecnologias dos aparelhos auditivos. E assim, logo conheci o blog Crônicas da Surdez.  

No dia 18 de outubro de 2014, veio uma surpresa para quem tinha um residual auditivo mesmo com o uso do aparelho auditivo e acostumada com sons. O que aconteceu que veio um zumbido muito forte no ouvido esquerdo em que uso o aparelho, fiquei completamente surda por 4 dias, fui no otorrino no 1º dia útil da semana seguinte e foi diagnosticado como surdez súbita sem causa definida, sendo possível voltar a audição, mas tinha que aguardar com o tempo. Saí do consultório chorando, fui ler uma série de coisas na internet tentando achar uma solução para retornar o meu residual auditivo eu que tinha, porém ficava mais desesperada.

Até que no dia 20 de outubro de 2014, o meu amigo me mandou no whatsap dizendo: “Carla assista a Paula no Encontro da Fátima Bernardes amanhã às 10h30”. No dia seguinte, lá estava eu e minha mãe assistindo você Paula. Emocionamos-nos muito. Parece que este dia foi feito para mim! E neste mesmo dia à tarde fui para a fonoaudióloga fazer uma nova áudio. Com o zumbido não ouvia nada. A fono me pediu para ter muita calma e citou o Implante Coclear. Saí mais nervosa, porque eu queria mesmo que voltasse a audição e fazer as minhas atividades de rotina. Queria mesmo ouvir com aquele residual precioso que tinha!

Destes dias até hoje, tenho zumbidos diariamente, ainda uso o aparelho para auxiliar em sons mais fortes, porém não tenho mais reconhecimento de palavras, não tenho mais diferenciação dos meios de locomoção, nem de vozes das pessoas novas que conheci, etc. Testei uma marca de aparelho auditivo, senti que mesmo aumentando ou diminuindo de volume, não faz diferença. A fono que estava avaliando me disse que seria importante procurar outro otorrino e buscar investigar a causa que poderia ser algo além da cóclea. Até que me consultei com este novo otorrinolaringologista, que me pediu uma bateria de exames e diagnosticou que poderia ter lesão nas células ciliadas no interior da cóclea. Assim, ele fez um encaminhamento para a realização do implante coclear. Entrei na fila para o implante no dia 22 de dezembro de 2014. Estou mais conformada com a situação, as pessoas me chamam me tocando, fazendo sinal e uso bastante a leitura labial. Vou testar mais um novo aparelho da Siemens para tirar uma última dúvida antes de realizar o implante.

Hoje, abro o Facebook, vejo o Crônicas de Surdez diariamente, busquei ver com outros olhos que os relatos são comuns aos meus e percebi que não estou sozinha no barco. Os meus familiares e amigos estão me apoiando. Só agradeci pela calma e paciência, apesar de que não estou ouvindo completamente. Agora estou aguardando o que Deus me proporcionará para 2015 e os próximos anos!

Carla Bueno’

69 amaram.

Desconto exclusivo para leitores do Crônicas da Surdez nas lojas Comunicare

Uma das coisas que me deixa mais contente com este blog é conseguir ajudar vocês de todas as formas que eu puder. Como sei que muitos ficam aguardando promoções das revendas de aparelhos auditivos para finalmente poderem comprar o seu, me esforço para conseguir esses descontos com os anunciantes do Crônicas. A marca da vez é a Siemens, mais especificamente, as revendas COMUNICARE, que ofereceram 30% à vista na compra do Pure Carat Xcel 501 e do Pure 701 Xcel.

 Promocao_cronicas

Saiba mais sobre os aparelhos:

Pure Carat Xcel 501: http://goo.gl/22mMnK

Pure 701 Xcel: http://goo.gl/Esjt4Y

 

Regulamento:

  • Esta promoção não é acumulativa a outra existente na empresa;
  • O desconto é válido para pagamento à vista;
  • O leitor poderá utilizar o desconto somente uma vez;
  • O desconto será aplicado ao valor total da compra;
  • Promoção válida até 28/02/15 ou enquanto durarem os estoques.

Para descobrir onde ficam as lojas COMUNICARE, clique aqui. Eles estão nos estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

3 amaram.

Uma jornalista com deficiência auditiva

rep

“Olá Paula! Boa Noite! Como vai?

Primeiramente, quero parabenizar você pela iniciativa. Sei que não é recente, mas descobri o seu maravilhoso trabalho apenas hoje. Sou L., jornalista, tenho 24 anos e possuo deficiência auditiva neurossensorial bilateral moderada. Escrevo enquanto penso se estou ou não pronta para dividir a minha história; vi a seção de depoimentos e fui imensamente tocada pelos relatos incríveis que o blog possui. De qualquer forma, quero dividir ao menos com você, por enquanto, esta sensação de agora: a de que eu não estou sozinha no mundo – pode parecer egoísta colocar assim, mas tive (e tenho) uma dificuldade muito grande em aceitar a minha deficiência. Ela foi descoberta quando eu tinha 9 anos de idade, e, assim como eu, meu irmão caçula também tem. Foi um acontecimento bastante inesperado, e que demorou para concretizar porque eu não transparecia. Meu retorno na escola sempre fora muito bom, aprendi a ler com 5 anos de idade e a deficiência, para todos que me cercavam, era vista como hiperatividade.

Quando a minha mãe descobriu, passamos a utilizar o AASI – eu levei numa boa, inclusive pedi para cortar o cabelo bem curtinho, para que as pessoas vissem que eu não precisaria mais falar: “hãn”? Porém, no ano de 2002, mudei de escola e entrei, como bolsista, em um colégio elitizado, com uma turma que se encontrava fechada desde o primário. Posso dizer com segurança que foram os melhores e os piores anos da minha vida: os piores porque a minha condição se tornou prato cheio para o que hoje conhecemos como bullying, e melhores porque, se não fosse tal terrorismo psicológico, eu certamente não teria me tornado uma pessoa mais corajosa, que enfrenta o mundo de peito aberto.

Porém, quando se trata especificamente da minha deficiência, fraquejei. Deixei com que aquelas pessoas tirassem a minha auto estima de tal maneira que, em 2003, apenas um ano após entrar no colégio, tirei o AASI, o escondi no armário, retomei as sessões com a minha fonoaudióloga (embora a deficiência tenha sido descoberta após o período da alfabetização, desde os 5 anos eu fazia leitura labial e não sabia exatamente o que estava acontecendo) e simplesmente optei pelo caminho menos tortuoso: fazer de conta que não estava ali. Em contrapartida, me tornei uma pessoa extremamente insegura, o que afetou o meu cotidiano, os meus relacionamentos. Tinha namoradinhos e escondia de todos.

Quando mudei de escola, em 2005, a mudança foi também no visual: de “bicho do mato” do primeiro colégio passei a ser considerada a “bonitinha” do segundo – creio que muito por conta do momento também; aos 15 anos de idade, a vaidade começara a brotar em mim. Como consequência, passei a me atormentar com o seguinte pensamento “poxa, agora as pessoas me veem, se descobrirem a minha deficiência, vão parar de me achar bonita” (boba, não é mesmo?)
Beleza passou a ser algo objetivo, e levei muitos anos para entender que ela vai muito além do físico, do que é palpável. Mas à época não tinha maturidade para entender isso. Além disso, os fantasmas em prol dos acontecimentos no colégio anterior permaneciam – e, para espantá-los, fiz de tudo o que podia, não importando os danos que causassem ao meu psicológico ou ao convívio com terceiros. Fiquei depressiva. Namorei durante 3 anos uma pessoa muito bacana, mas minha insegurança era tamanha que vivíamos brigando, e eu o proibia de contar sobre a minha deficiência para os familiares ou qualquer pessoa (foi o primeiro namorado o qual me abri; e obrigava o garoto a reproduzir pelos lábios o que os seus parentes falavam na cozinha, por exemplo).

Me formei na faculdade com méritos, tirei a habilitação sem declarar a minha deficiência. Hoje, sou pós-graduada em comunicação digital. Passei pelos meus empregos e experiências sem dividir a minha angústia com as pessoas. Para alguns, eu era apenas uma funcionária muito “centrada”, que se concentrava no serviço e por isso não ouvia o que acontecia à minha volta. Bom, estou praticamente prestando um depoimento em particular, não é mesmo? Garanto que estou quase terminando… São coisas de jornalista que adora escrever. O fato é que quero chegar à minha situação atual: uma jornalista que faz 25 anos no próximo mês, que se encontra no que ela mesma batizou de “fase de aceitação tardia“. Esta fase começou em 2013, quando o meu namoro acabou e conheci uma nova pessoa, um moço mais velho, mais espiritualizado e que me tocou de tal maneira que, ainda no início do nosso relacionamento, contei toda a minha história, meus medos e angústias.

Ele é uma pessoa espetacular. Tal segurança funcionou como um incentivo, e, após a formalização do namoro, aproveitei para abrir o jogo com a sua família também. Era a primeira vez em 10 anos que eu falava com pessoas abertamente sobre o assunto, e foi um misto de alívio e ansiedade: “o que vão achar?” “vão me aceitar”? Também contei tudo às minhas amigas mais próximas, e professores da pós-graduação. Comecei a frequentar uma casa espírita kardecista – a fé move montanhas, e expandir a minha mente para além da minha caixinha comum começou a funcionar como um bálsamo junto aos meus medos.

Todavia, eu ainda não estava pronta para colocar o AASI novamente – algum tempo antes, em 2011, minha mãe me comprou um novo AASI, da Phonak, para que eu pudesse dirigir mais segura. Mas nada de eu usar. Ficou no armário como o seu irmão anterior. Pois bem: em outubro de 2014, há muito pouco tempo, comecei a trabalhar em uma empresa nova, com pessoas receptivas e acolhedoras. Inclusive a pessoa que me indicou para trabalhar lá foi uma das minhas amigas as quais eu resolvi compartilhar da minha trajetória no ano anterior. Aos poucos, fiquei mais segura e decidi conversar sobre o assunto com todos do meu departamento, que me incentivaram a dar mais um passinho.

A cereja do bolo, porém, ainda estava por vir: uma matéria sobre oncologia na estética, a qual conheci uma paciente quimioterápica de 33 anos de idade, que me cativou com a sua coragem em lutar contra o seu problema. Me peguei refletindo se a minha deficiência, afinal, era o tão grande problema que eu pintava na minha mente, ou se era uma benção que me permitiria a fazer a diferença na minha vida e na vida de outras pessoas também. Hoje, eu uso AASI, mas somente com os cabelos soltos. Para ser franca, ainda é muito difícil para mim; meu namorado às vezes vem fazer um carinho e sinto um frio na espinha só de vê-lo tocando o aparelho. Descobri que a Phonak (agora a Audium) trouxe ao Brasil um aparelho implantável, o Lyric, e já passei pelas avaliações, porém ainda preciso me estabilizar na profissão para colocá-lo. Ou melhor: quando for a hora, talvez eu o coloque, talvez não. De certeza, só sei que nada é por acaso, e que “os outros são só os outros”, como já dizia a Paula Toller.

Me sinto tão cansada, Paula, e ao mesmo tempo muito consciente sobre o que eu preciso fazer. É hora desses fantasmas irem para casa e não encontrarem o caminho de volta nunca mais. Deixo aqui, mais uma vez, os meus agradecimentos pela iniciativa e por levantar uma discussão tão importante. Na minha visão, a deficiência visual sempre foi muito mais amplamente discutida, o que fez com que a auditiva ficasse numa espécie de segundo plano. Graças à você, esta discussão está acontecendo. Parabéns!

Um grande abraço! L.”

42 amaram.