A história do Gabriel

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‘Olá Paula! Eu acesso ao blog há uns 4 anos, mas não sou de postar, somente leio. Quando eu o descobri em 2011, me senti enturmado com gente que eu nunca vi na vida, pensei comigo mesmo, “olha, não sou o único que sabe como é afundandar no Titanic”. Brincadeira, mas realmente me senti bastante ambientado, pelo simples fato de ler várias situações de outras pessoas que eu também já havia passado. Eu nunca tive convivência com pessoas da minha faixa de idade com o problema semelhante ao meu. Quando ia aos fonoaudiólogos, sempre e somente vi pessoas de mais idade. Até hoje eu rio de mim mesmo por causa disso, dou risada pra não chorar porque se jovem já estou assim, imagina mais pra frente. A pessoa que eu mais tenha me identificado aqui acho que foi a Paula, por ter a perda igual a minha, sem causa específica, e creio que numa idade semelhante. O que mais me deixou interessado, é que mesmo com esse problema, ela me passava uma imagem de bem sucedida. Me considero a pessoa mais ambiciosa que conheço, isso desde pequeno, e e eu pensava somente o como. Como ela conseguiu? Como ela consegue não ser muito afetada por isso?

Bom, me chamo Gabriel, tenho 22 anos recém-completados, paulistano. Tenho perda auditiva moderada/severa bilateral neurossensorial. Descobri com 14 anos. Foi na escola, qualquer pessoa sentada atrás de mim que me chamasse , eu estava começando a não responder. Aí comecei a receber aqueles comentários, “Acorda Gabriel, tá dormindo? Fulano tá te chamando ali e você não responde”. Comuniquei isso à minha mãe, já que estava ficando frequente e me incomodando. Fui à fonoaudióloga e fiz o exame de audiometria, nela constou perda bilateral leve/moderada nos dois ouvidos. Aquilo foi meio que um choque, porque ninguém da minha família tem histórico disso. No começo eu e meus pais, assim como a maioria das pessoas que não têm um conhecimento profundo sobre surdez, pensávamos que era só uma “sujeirinha”, que com uma lavagem nos ouvidos, um remédio, ou talvez uma simples cirurgia iria melhorar. Quem dera…

A fonoaudióloga havia me recomendado a fazer outros exames, que todos aqui já devem saber quais são e como são, acompanhamento pra ver se a perda era progressiva, e aparelhos nos dois ouvidos. Essa última recomendação de usar os aparelhos não acolhi porque eu ainda não sentia necessidade em usá-los (ah se eu ainda tivesse a audição daquela época, acho que seria a pessoa mais feliz do mundo). Eu ainda conseguia conversar com as pessoas sem dificuldade nenhuma, assistir televisão normalmente, tinha uma vida normal. Até ali eu era somente um “pouco desatento” ou “dorminhoco” que as vezes não dava a atenção correta devida para as pessoas.

Na escola eu nunca tive problema pra me encaixar em algum grupo, fui feliz de sempre ter amigos. Então não tenho qualquer tipo de trauma desses tempos, nunca sofri “bullying” ou virei motivo de piadinha por causa de perda de audição. Talvez eu tive a “sorte” do meu problema ter ficado mais sério exatamente quando eu concluí o Ensino Médio. Consegui concluir o 2 grau normalmente e sem AASI’s, apesar que nos 2 últimos anos a minha audição começou a piorar. Estava começando a ter mais dificuldade para ouvir, estava começando a entender a pessoa somente olhando de frente pra ela. Não conseguia mais entender televisão, respondia frequentemente perguntas com “sim, não, tá, é verdade, não sei” sem ao menos realmente ouvi-las, só pra não ter que ficar pedindo toda hora pra repetirem de novo o que eu não tinha entendido . E funcionava na maioria das vezes, ainda uso o “não sei” , ela se encaixa em qualquer pergunta que me fizerem se eu não estiver afim de pedir pra repetir. Quem tem problema de audição sabe como é estressante isso, pra nós em ter que pedir, e pra outra pessoa ter que repetir, e toda hora.

Terminei o colégio e logo fui pra graduação em Direito, e foi ali que os problemas começaram a avançar de nível. Era tudo diferente, a sala era enorme, pra 100 pessoas, logo na primeira semana já vi que eu iria precisar dos aparelhos. Os professores falavam e eu não conseguia ouvir quase nada, pareciam sussurros. Lembro de uma situação em que meu celular ligou o player de música e eu não tinha percebido/ouvido, estava no bolso da calça, a menina que estava ao meu lado falou algo que eu não entendi (pra variar) me olhando com uma p*ta cara feia, e eu fiquei sem entender a bronca, só olhei pra ela e não falei nada. Foi quando sem querer resolvi pegar o celular e vi que a música estava ligada, só aí entendi a reclamação. Teve outra também quando eu pedi uma informação e a mulher me respondeu “Está ali no flyer”, eu não tinha entendido o que ela tinha falado e perguntei novamente com um “Onde?”, e ela respondeu “No flyer, no folheto ali”, me olhando com uma cara de como se eu fosse a pessoa mais tapada do mundo que não sabe nem o que é um flyer. Simplesmente daquele jeito não estava dando mais. 

Fui atrás do aparelho junto com os meus pais. Primeiramente resolvemos  pegar um intra-canal só para o ouvido direito, pra ver como que era, como funcionava, eu nunca ao menos havia testado algum antes. Na primeira vez em que coloquei foi sensacional, lembro que quando eu saí da fonoaudióloga, eu ouvi até o click do botão do vidro elétrico do carro, eu até havia esquecido que aquele barulho existia.  Até tinha falado para o meu pai “Agora eu estou ouvindo tudo, pode abaixar o tom da voz aí.” E eram só risadas de felicidade, porque realmente parecia que eu tinha recuperado minha audição no ouvido direito, mesmo que um pouco mais artificial. Essa alegria durou horas somente, pena, foi uma ingenuidade total nossa. A felicidade acabou quando eu fui pra faculdade e percebi que os problemas persistiam, havia melhorado pouca coisa. Quem não falasse olhando pra mim ou de longe, eu ainda não entendia, o problema tinha amenizado pouca coisa. Foi um ano difícil, eu com muita dificuldade fiz 2 semestres empurrando com a barriga e com muito stress , não aguentei e tranquei. No ano peguei 4dp’s, 2 em cada semestre, sei que a minha audição não tem culpa exclusiva nisso, mas meu lado psicológico não estava aguentando mais. Eu gostava da minha sala e das pessoas ali, inclusive sinto falta, nunca me desrespeitaram nessa questão (pelo menos não na minha frente), poucas vezes tinha alguma piadinha de eu não ter ouvido tal coisa, claro, mas eu sabia levar na brincadeira, sei diferenciar o que é brincadeira e falta de respeito, e falta de respeito com certeza eu não tolero, sou meio ignorante pra essas coisas. Mas quando eu via todo mundo na aula sem dificuldade nenhuma em entender e aprender as coisas, rindo do que os professores e colegas falavam/discutiam, e eu ali como uma barata tonta sem entender (ouvir) 90% das coisas que ali eram ditas, eu ficava p da vida. Parecia que eu estava ficando pra traz, sensação horrível, eu não conseguia discutir sobre coisas aprendidas na aula porque eu não ouvia o que os professores falavam, me sentia um lerdo e atrasado aos demais. Pensei, pra que vou continuar nesse teatrinho de fingir que está tudo normal? Chega.

Tranquei pra me dedicar exclusivamente à minha audição, sim, pode parecer loucura mas eu estava precisando conhecer o “novo eu”, minha nova realidade. É a mesma coisa quando uma pessoa rica fica pobre de uma hora pra outra, ela vai ter que fazer um levantamento, vai sentir dificuldades pra se adaptar à sua nova vida, vai querer entender o porquê daquilo, ver o que precisa ser feito pra se adequar à nova situação, irá sentir falta daquela riqueza. Foi o que aconteceu comigo, até meus 14 anos eu tinha uma audição normal e do nada e sem explicação fui perdendo aquilo. Apesar de eu ser um pouco tímido, eu era uma criança extrovertida, criava relações de amizades facilmente com bastante gente, mas com o tempo minha personalidade mudou totalmente. Hoje sou muito mais na minha, sou meio que obrigado a ser assim. Em rodas de conversa não consigo mais me soltar direito,  não consigo entender/ouvir as coisas que são discutidas, sou obrigado a só ficar quieto e olhando na maioria das vezes. Cansei de tentar ser como eu era antes, mas não dá, minha audição não deixa. Pra mim essa é a pior parte da perda de audição, ter um diálogo limitado, passar aquela imagem de pessoa tímida, insegura, quieta, lerda, “lesada” ou seja, ser uma pessoa meio diferente pra não dizer estranha. E isso não é ruim só socialmente, mas também profissionalmente. Uma das coisas mais fundamentais para uma pessoa ser um profissional de destaque e sucedido é ter uma comunicação excelente, e pra ter uma comunicação ao mínimo boa, é necessário ouvir sem muitas dificuldades. A pessoa que mais tem e teve preconceito comigo, sou eu mesmo, não tenho problema em admitir isso. Na maioria dos cargos da carreira que escolhi (jurídica) é necessário ter uma audição no mínimo audível. Recentemente tive que ir em uma audiência pra me defender de um caso de colisão entre veículos, e por pouco não entendia as coisas que a juíza e o advogado da parte me perguntavam, meu coração saia pela boca. O mais engraçado é que eles nem devem ter percebido que eu tenho perda de audição, com muita técnica, atenção e sorte não foi necessário eu pedir pra falarem mais alto. Eu estava com receio de dizer que tinha perda de audição porque minha CNH não tem nada descrito, talvez eles poderiam jogar isso contra mim. Mas eu soube responder as perguntas corretamente  e sem soltar pérolas (respondar coisa que não tem nada a ver com a pergunta), e o melhor, com a causa a meu favor! Me imaginei estando do outro lado, um juiz que não escuta direito o que um réu e um requerente dizem, como dar uma sentença assim? Juro que procurei algum juíz ou promotor com perda de audição e não encontrei.

Continuando, não sei em quantos fonoaudiólogos diferentes já fui, quantos exames precisei fazer, tomografias, ressonâncias, foram muitas. E nunca tive a tal resposta do motivo da minha perda, porém todos os médicos sempre me disseram a mesma coisa: melhorar nunca vai, a tendência é piorar. Não nessas palavras, mas sendo curto, grosso e realista a verdade é essa. Eu nunca liguei em saber a causa da minha perda de audição, mas meus pais sim, sei que que ela não vai melhorar. Nunca tive fase de negação ou vergonha da surdez. Não tem como eu negar algo que me afeta diariamente, 24h por dia, até quando vou dormir, ouço zumbido nos 2 ouvidos bem agudos. Vergonha também não tive, quando senti que realmente estava precisando dos aparelhos, fui atrás e não tive receio ou vergonha em ter que usá-los, o que eu mais queria era voltar a ouvir, o resto não importava, o desespero e a necessidade não me davam o luxo de ter vergonha. Também não quer dizer que eu tenha orgulho desse problema, como já li em muitos posts daqui. Nunca de fato aceitei isso, desde quando a minha audição começou a ficar ruim de verdade, com 17 anos, até hoje, sempre me pergunto, por quê? Por que fui o premiado? Por que tenho que tenho que ter essa dificuldade a mais, sendo que minha audição era normal? Muitos perguntas que provavelmente nunca terei as respostas. A perda de audição me fez e me faz ver tudo de outra forma, aprendi a não julgar o que os outros FAZEM, ou DEIXAM de fazer, sem ao menos saber o que realmente passa com aquela pessoa. Aprendi a me colocar no lugar dos outros em qualquer situação ruim que seja, virei compreensivo até demais. Esse é o único proveito que eu tiro desse meu problema na audição, de resto, preferia não ter, obrigado. Preciso citar uma coisa, não quero entrar em discussão religiosa e nem debochar da fé de ninguém, mas leio post’s aqui e sempre noto um “Graças a deus”, juro que gostaria de entender esses “Graças a deus”, não foi o mesmo deus que colocaram vocês nessa situação? E não, ela não é nada agradável. Acho que deveria ser “Graças ao Dr. X” ou “Graças à tecnologia Y”. Eu convivo há 8 anos com isso e sei do que estou falando. Não sou ateu, acredito em algum ser superior, infelizmente, sim, infelizmente.

Hoje possuo um par de AASI’S Moxi6 da Unitron, bancado integralmente pelo plano da Cassi (fica a dica aí pra quem tem esse plano, e eu nem titular era, e sim minha mãe). Fiz vários testes com outras marcas e modelos, alguns com 16 canais, mas esse é o que tive uma melhor experiência de audição, um som mais natural. Como minha audição está com perda progressiva, provavelmente em breve terei que trocá-los por um mais potente. Mesmo eu não percebendo as vezes, sei que os aparelhos me ajudam MUITO, não saio sem eles, mas não chega nem perto de como era antes, sinto que ainda tenho limitação na audição. Ouço mais ou menos com os aparelhos, muito pior sem.

Antes mesmo de ingressar à faculdade, sempre trabalhei para o meu pai, revenda de automóveis, mas devido aos problema$ junto ao cenário econômico ruim nacional atual as coisas não estão bem, vou à procura de outras coisas. Paula, eu frequento esse blog há muito tempo e nunca vi um post dedicado ao mercado de trabalho pra pessoas com perda de audição, eu mesmo não tenho muita referência, acho que ajudaria muita gente.

Para finalizar, só um pequeno conselho pessoal pra quem está na faculdade sentindo dificuldades e está na dúvida se tranca o curso ou não por causa disso. NÃO TRANQUE. Só tranque se você tiver a certeza de que não gostou do curso, ou se estiver sem os aparelhos e precisar deles, de resto, continue. Não perca tempo, sua audição não vai melhorar, seja realista, a tendência é piorar, infelizmente. É muito melhor fazer uma graduação com uma audição ruim do que com uma audição muito ruim. Eu tranquei porque eu estava ficando louco comigo mesmo, mas hoje me arrependo. Ainda não voltei mas por outros empecilhos, mas voltarei nesse ano, tendo a ciência que não vai ser fácil e que vou ter que estudar muito mais por fora e conta própria do que na faculdade.’

28 amaram.

Como ouvir música sem destruir a sua audição

Fonte: Huffington Post (tradução minha)

 

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A perda auditiva é praticamente uma epidemia entre os jovens de países de renda média e alta – e está ficando cada vez pior, não melhor. A Organização Mundial da Saúde disse semana passada que 1.1 bilhão de pessoas com idade entre 12 e 35 anos escutam música em dispositivos de áudio pessoais com volumes não-seguros, correndo o risco de ter perda auditiva permanente. Pior, as pessoas que têm perda auditiva não procuram ajuda rápido o suficiente e não reconhecem que o seu comportamento as coloca em risco.

A proliferação dos smartphones, que oferecem fácil acesso à apps para ouvir música e geralmente já vêm com fones de ouvido, coincide com as estatísticas cada vez mais altas de perda auditiva. Não há nenhuma dúvida da relação entre as duas coisas. “Todos têm algo em seus ouvidos ultimamente. A exposição constante está definitivamente causando um aumento nas estatísticas de perda auditiva“, diz a Dra. Diane Catalano, audiologista clínica no Duke University Medical Center. Anna Gilmore Hall, diretora executiva da Hearing Loss Association of America concordou, adicionando que as pessoas estão vivenciando a perda auditiva severa muito mais cedo hoje em dia.

Abaixo, algumas medidas simples que você pode tomar para se proteger da perda auditiva permanente induzida por ruído:

Tenha fones de ouvido que se ajustem perfeitamente em seus ouvidos

86% dos consumidores americanos com idade entre 25-34 anos tinham smartphones em 2014, de acordo com pesquisa recente da Nielsen. Eles também estão nos bolsos de 85% das pessoas com idade entre 18-24 anos. São muitos telefones! O problema é que os fones de ouvido que vêm com esses telefones não foram feitos para servir perfeitamente nos seus ouvidos, o que significa que eles deixam entrar muito ruído ambiente. As pessoas tendem a aumentar o volume para compensar isso, diz a Dra. Catalano.

É imperativo que seus fones de ouvido se encaixem corretamente nos seus ouvidos, por isso você deve testar diferentes tipos antes de comprar. Eles devem caber confortavelmente e isolar o som. Os melhores vêm com alguns tamanhos diferentes de ponta, assim você pode escolher o que melhor se adapta ao seu ouvido. Não existe isso de ‘tamanho único’. Também é possível conseguir um fone de ouvido personalizado, mas tenha cuidado para não empurrá-los demais para dentro. O mesmo vale para fones de ouvido que tapam as orelhas: eles devem cobri-las completamente e bloquear o som do ruído ambiente.

Dê um descanso para os seus ouvidos

A Organização Mundial de Saúde recomenda que os jovens se limitem a uma hora por dia escutando música em smartphones e afins. “Você não deve se expor a mais de 80dB por mais de 1 hora”, diz a Dra. Hall. “Dê um descanso a si mesmo e deixe seus ouvidos se recuperarem”. 80dB é o equivalente ao barulho do tráfego nas cidades ou ao caminhão do lixo. Após várias horas, esse nível de ruído pode prejudicar seus ouvidos. Leve isso em consideração a próxima vez em que decidir colocar o volume dos seus fones nas alturas.

Diminua o volume do seu smartphone

Os smartphones geralmente não fazem um bom trabalho lhe dizendo que você está ouvindo música em volumes perigosos. Em iPhone’s, Dra. Catalano diz para não usar mais do que dois terços do volume disponível. Em 2013, a União Européia estabeleceu um limite de volume para dispositivos de áudio pessoais – incluindo smartphones – limitando a 85dB. A regra mandava que apps como Spotify avisassem quando os usuários ultrapassassem esse limite. Isso não é exigido nos Estados Unidos, mas muitos telefones Android incluem um aviso quando você aumenta o volume para um nível perigoso. Já os iPhones permitem que você estabeleça um limite de volume nas configurações.

Tenha protetores de ouvido

Mesmo quando você não está ouvindo música com fones de ouvido, sua audição ainda pode estar sendo prejudicada. Shows de rock, bares barulhentos, eventos esportivos, metrô, engarrafamentos e construções são ambientes de risco. Considere usar protetores de ouvido se você sabe que estará num ambiente barulhento assim por um longo período de tempo.

Lição importante: nunca empurre nada muito fundo dentro do seu ouvido. Fazer isso pode causar vários problemas, inclusive perda auditiva.

Faça uma audiometria

Você sabe que não deve ouvir música alta. Você sabe que deve usar protetores de ouvido. Agora você precisa se certificar que sua audição continua saudável. As doutoras Catalano e Hall dizem que as pessoas devem monitorar sua audição fazendo audiometrias. 

Adultos devem tentar fazer um teste a cada 5 ou 10 anos, de acordo com a Dra. Catalano. Ela também diz que muitas pessoas descobrem que estão com perda auditiva mas esperam anos até que ela piore antes de fazer algo a respeito. Como ela disse para o Huffington Post: “Quanto mais cedo buscar ajuda, melhor!

13 amaram.

Voz de surdo

No post ‘Saia do armário da surdez‘ recebi um comentário da Ana Raquel que me botou pra pensar. Eis o que ela escreveu: “Amo seus posts de motivação, Paula! Se eu tivesse vergonha da minha surdez, nossa, você iria me botar pra “fora do armário” rapidinho, hehe… Pelo fato de eu já ter uma deficiência física bem evidente, a surdez nunca me incomodou ou causou vergonha, sempre “ostentei” meus AASI. Queria te dar uma sugestão para um futuro post desse tipo: falar sobre a vergonha da “voz de surdo”. Nunca vi alguém comentando sobre isso na internet, mas em minha opinião, a voz também pode ser alvo de constrangimento, além da deficiência auditiva em si mesma.”

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Acho que já contei pra vocês que nunca parei pra pensar ou prestar atenção na minha própria voz até o dia em que publiquei este vídeo no YouTube. No vídeo, eu estava gravando e fazendo perguntas ao cabeleireiro que foi demonstrar como fazer uma escova anelada. Após a publicação, comecei a receber comentários pavorosos! “Que voz horrível a dessa mulher“, “Parece um travesti com um osso de galinha entalado na garganta falando“, “Que voz chata“, “Que voz estranha“, “Que voz feia” e por aí foi. A cada comentário eu só conseguia pensar: ‘Como assim? Ninguém nunca disse isso sobre a minha voz antes!”

E aí saí atrás dos amigos e família perguntando se, de fato, a minha voz realmente era esse terror feioso que as pessoas disseram que era na internet. Todos negaram. Fiquei com a pulga atrás da orelha, afinal, muitas vezes as pessoas não falam as coisas para não nos magoar. Esse foi meu primeiro contato com minha voz de surdo. Antes disso, nunca tinha pensado no assunto e isso nunca tinha me incomodado. Mas é como se alguém te parasse na rua e apontasse pra uma pinta enorme que você tem no meio da testa aos berros de ‘olha isso!’ – e todos ao redor instantaneamente percebessem a pinta que nunca tinha te incomodado antes.

Comecei a notar que eu falava de um jeito diferente. Na surdez profunda, fazia um esforço físico para falar, já que não ouvia nem 10% da minha voz, mesmo com aparelhos. Hoje percebo que eu ‘puxava’ minha voz com força já que precisava ouvi-la, e mesmo fazendo isso não chegava nem perto de ouvi-la bem e ter controle sobre ela. Fiz algumas sessões de fonoterapia após o maldito vídeo, e elas me ajudaram muito pois aprendi a posição correta da língua na hora de pronunciar várias consoantes (eu adorava falar botando a língua praticamente pra fora ao pronunciar qualquer palavra com L). Fazia os exercícios enquanto dirigia.

Voz de surdo não tem muita suavidade e tem um ‘sotaque’ característico. Voz de surdo é diferente, só isso. E tudo o que é diferente irrita as pessoas que não estão acostumadas. Eu nunca senti vergonha da minha voz porque, pensem bem, conseguir falar e ser entendida pelos ouvintes a esta altura do campeonato (surdez profunda) era ótimo. Só depois da ativação do implante coclear é que fui ouvir a minha própria voz de verdade. E descobri suas nuances, aprendi a controlar o volume, a falar suave, a falar baixinho. Hoje, eu adoro a minha voz! Ela é grave e cheia de sotaque gaúcho e ‘erre’ carregado como manda a tradição dos pampas, rsrsrs.

Tenho um problema para respirar que requer uma correção cirúrgica que ainda não fiz e, por isso, muitas vezes me sinto um pouco fanha falando pois o ar não passa pelas narinas como deveria enquanto pronuncio as palavras. Em vez de focar nisso, penso em todas as amigas que eu não via há meses e anos e que foram ao meu casamento e depois vieram me dizer como a minha voz tinha mudado após o IC. Semana passada encontrei uma dessas amigas por acaso no aeroporto e ela estava com o namorado. Fiquei uns 20 minutos conversando com eles. Horas depois ela me mandou um WhatsApp dizendo que ele nem se deu por conta que eu era ‘a amiga do implante‘ pois, quando ela falou, ele não acreditou.

Voz de surdo faz parte da deficiência auditiva. Fonoterapia ajuda muito e, mesmo com AASI maravilhosos e resultado excelente com um IC, nossas vozes sempre terão um aspecto (mesmo que mínimo) que é diferente das vozes dos ouvintes. E daí, qual o problema? Eu tenho zero vergonha e total orgulho da minha!

Abaixo, reproduzo um depoimento da Ana Raquel:

“Meu nome é Ana Raquel, tenho Neuropatia Auditiva desde o nascimento. Creio que, além de certo sotaque, outro item que permitem às pessoas identificarem a “voz do surdo” seja a pronúncia incorreta de sílabas tônicas de algumas palavras. Principalmente entre os surdos oralizados, dos quais faço parte, pois muitos de nós dependemos da leitura labial para a aquisição de novas palavras oralmente. Assim, é normal que às vezes pronunciemos palavras com ênfase incorreta em uma sílaba, e isso não deveria ser motivo de piada, o que infelizmente já ocorreu comigo. Especialmente quando falo palavras em inglês, idioma com uma fonética diferente de nossa língua, o que dificulta ainda mais o aprendizado da pronúncia correta. Outra questão que enfrento muito é em relação à altura da voz. Eu tenho pouca noção de quando falo alto ou baixo, e algumas pessoas pensam que quero falar gritando ou sussurrando e fazem ironias do fato. Ou então chamam a minha atenção, achando que falo alto porque quero. De certa forma, até já acostumei com essas situações, mas realmente precisa-se de uma maior conscientização das pessoas sobre as particularidades da “voz do surdo“, porque comentários depreciativos da voz alheia podem sim abalar a nossa autoestima, pois a nossa voz é uma parte de quem somos. A dica que dou para quem passa pela mesma situação é para tentar ignorar esses comentários dos outros, pois a forma como sai a sua voz não depende de você. Existem tantos tipos de vozes no mundo, a “voz de surdo” é apenas uma delas. Bobo é quem não respeita essa diversidade existente, que é a lei da vida!”

Comecei a usar um AASI novo (Naída Q da Phonak) no meu ouvido esquerdo, e fiquei testando minha voz só com ele, depois com ele e o IC, depois sem nada. O Luciano estava junto e comentou que, quando estou sem nenhum deles, ele consegue perceber a diferença na voz com IC/AASI e sem IC/AASI. Não tenho complexo de perfeição e realmente não vejo motivo para que alguém que não ouve bem ou não ouve nada ache que precisa ter uma voz ‘normal’, porque é um esforço colossal e desnecessário, já que ‘normal’ a nossa voz nunca será. Quem tiver oportunidade e indicação, não deixe de fazer fonoterapia, pois ajuda muito e nos faz aprender a corrigir tudo o que fazemos de errado quando falamos. :)

Por último, devo dizer que acho deprimente quando vejo algum pai/mãe de surdo debochando da voz de surdo alheia (hoje uma amiga veio me contar que dia desses uma mãe de surdo foi falar mal da minha voz para ela). Se pensam isso da voz dos outros, imagina o que não pensam da voz do próprio filho? Educação e a falta dela começam em casa. Isso não me atinge e não dou bola, mas penso no impacto que esses comentários depreciativos têm em crianças e adolescentes surdos que ainda não estão fortes o suficiente para enfrentar tamanha ignorância.

53 amaram.

Fones de ouvido no último volume hoje, aparelho auditivo amanhã

Olhem só essa campanha veiculada nos Estados Unidos. Achei sensacional, pois uma imagem fala mais do que mil palavras, certo? Mesmo com tudo o que se publica sobre a prevenção da perda auditiva, a maioria das pessoas não está nem aí, tem aquela atitude de ‘isso nunca vai acontecer comigo‘ e continua com os fones de ouvido no volume máximo.

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 A perda auditiva é uma epidemia mundial. Antigamente, a surdez estava quase que totalmente relacionada à velhice, mas hoje ela se relaciona com a juventude numa velocidade impressionante. Por isso, fica o apelo: teste a sua audição, faça uma audiometria. E nunca, jamais, use seus fones de ouvido no volume máximo e nem por horas a fio. A nossa audição é sensível e nossas células ciliadas (ainda) não se regeneram!

Alguns fatos…

  • 15% da população americana com idade entre 20-69 anos tem perda auditiva induzida por ruído;
  • 1 em cada 8 pessoas acima de 12 anos tem algum grau de perda auditiva nos Estados Unidos;
  • 30 milhões de americanos são expostos a níveis perigosos de ruído no trabalho e acabam com algum grau de perda auditiva;
  • de todas as causas da perda auditiva, a mais fácil de prevenir é a causada por exposição prolongada ao ruído;
  • a perda auditiva vem sendo relacionada com demência, declínio cognitivo, depressão e doenças cardíacas.
35 amaram.

Como usar o Aqua+ da Cochlear (e entrar na água ouvindo)

Com muito orgulho posso dizer que fui a primeira usuária do Aqua+ da Cochlear no Brasil. O meu chegou na semana passada e, no sábado, finalmente fui testar. Escolhi a praia porque achei que piscina seria muito café-com-leite, rsrsrs. Na minha afobação pela novidade, levei pilhas descartáveis e aí cometi o erro fatal: ele só pode ser usado com bateria recarregável. Então, eis o que aconteceu comigo: eu montava o Aqua+, ia pro mar, demorava pra mergulhar (ficava enrolando na beirada) e ouvia o aviso PIPIPI uns 5 minutos depois e ploft, a pilha acabava. Comecei a ficar de cabelo em pé achando que tinha entrado água no meu implante coclear e ele tinha pifado, até que o santo Google me explicou o que eu estava fazendo de errado. Por isso, fica a dica: usar somente com bateria recarregável, pois a pilha comum precisa de ar para funcionar e o Aqua+ veda completamente o IC.

 

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Desde que voltei a ouvir tinha o sonho de entrar na água e continuar ouvindo. Ir para a praia e para a piscina não tinha a graça que poderia ter, afinal, quando me dava vontade de mergulhar a primeira providência era voltar para o silêncio. Ficava observando as pessoas conversando na piscina, no mar e chateada por não ter aquilo.

O Aqua+ permite aos usuários dos implantes cocleares Nucleus 5 e Nucleus 6 da marca Cochlear mergulhar e nadar em água doce ou salgada. É possível mergulhar até 3 metros de profundidade com ele por um período ininterrupto de 2 horas. Fiz um vídeo mostrando como montar o Aqua+, assistam:

Vamos às informações técnicas. O kit é este da foto abaixo. Ele vem com um estojo protetor, safety line (acessório de segurança para prender na roupa), Mic Lock (para prender melhor na orelha, pode ser usado por crianças e adultos), antena especial para água e ímã especial para água, além de duas capinhas à prova d’água. Cada capinha pode ser usada 50 vezes, portanto o kit nos permite 100 usos. Na hora de comprar você precisa saber qual é a força do ímã que você usa – eu uso o ímã 3, é o número que está escrito nele.

Ele está à venda na loja virtual da Politec Saúde (clique aqui para ver) que é a representante da Cochlear no Brasil. Custa R$1.250 e pode ser parcelado em até 10x no cartão de crédito. Em comparação ao Aqua, o Aqua+ é infinitamente melhor em termos de custo-benefício, segurança e design. Se formos falar em termos de $$, cada uso sai por R$12,50. O email de contato da Politec Saúde é  pssa@politecsaude.com.br e o telefone, (011)-4195-6001.

 

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Ouvir enquanto está no mar, na piscina, fazendo snorckel, surfando, tomando banho de cachoeira, fazendo rafting, andando de caiaque e qualquer outra coisa que envolva água é muito legal. Meu próximo teste vai ser tomar banho ouvindo, já que não lembro quando foi a última vez que pude fazer isso.

Como o processador fica dentro da capinha, o som fica um pouco diferente enquanto estamos com ele fora d´água, pois os microfones são super sensíveis e até o movimento da capinha em contato com o processador faz barulho. Eu não usei o Mic Lock para prender melhor o Aqua+ na orelha na primeira usada porque na minha ele ficou bem posicionado e não caiu. Mas em nome da paz de espírito e da segurança propriamente dita, é o correto a fazer.

Para finalizar, devo dizer que fiquei feliz feito criança ao entrar no mar OUVINDO. O barulho da água tem um grande poder sobre mim e era um dos sons que eu mais ansiava voltar a ouvir após o IC.

 

aquaAqua++boys+pool

 

 

Dicas:

  • anote em algum lugar número do uso, data e local para ter controle das vezes já usadas;
  • seque a capinha ao voltar para casa antes de guardar;
  • coloque seu IC no desumidificador após o uso com o Aqua+;
  • use o dispositivo de segurança prendendo-o no biquíni;
  • homens podem prendê-lo usando uma camiseta ou então com um boné ou óculos de natação;
  • se vai usar o Aqua+ na praia, muito cuidado ao montá-lo para que ele não caia na areia!
22 amaram.