Comecei o teste com aparelhos auditivos. O que é normal esperar?

Fonte: Não Escuto por Mirella Horiuti

 

ENT_hearing_aids

 

Em primeiro lugar, se você perdeu sua audição aos poucos ou de uma vez, vale a pena lembrar que ouvir com aparelho auditivo não será a mesma coisa. Costumo dizer que melhora mas não é um ouvido novo e nem biônico.

Mas o que é normal então?

Algumas coisas estão relacionadas com o grau de perda de audição e o percentual de discriminação vocal (ou seja, o quanto o paciente entende em situação ideal). Mas, de maneira geral, podemos elencar os seguintes itens:

1. A sua voz vai ficar diferente – muitas vezes a própria voz fica diferente ou então o paciente tem a sensação de estar falando muito alto mesmo falando numa intensidade normal. Isso é muito comum e geralmente depois de 2 dias de uso a sensação desaparece. Caso continue, anote e comunique seu fonoaudiólogo.

2. Tirar o aparelho é um alívio – é normal no início do teste sentir um alívio ao tirar o aparelho auditivo. O motivo é que não estamos acostumados a ter nada dentro dos ouvidos. Fique tranquilo! Mas se você sentir DOR… pare de usar imediatamente e avise seu fonoaudiólogo.

3. Você vai ouvir bem mas não PERFEITAMENTE – no silêncio, em situações com 1 ou 2 pessoas no máximo a performance deve ser entre 90 e 100%. Os aparelhos auditivos (desde que bem ajustados) devem amplificar os sons de forma que o paciente ouça de forma confortável. A audição deve ser combinada com a visão …então OLHE a boca do interlocutor. Isso vai melhorar mais ainda seu desempenho com os aparelhos auditivos.

4. Ambientes com ruído são mais difíceis para entender conversas – ambientes com ruído ou várias pessoas falando ao mesmo tempo chamamos de ambientes desafiadores ou com competição. Imagine só.. seu cérebro está um bom tempo sem estímulo e escutar direito e agora, de uma hora para outra o som está chegando..tudo de uma vez!. Os aparelhos auditivos, de forma geral, tem suas limitações. Mas lembre-se pessoas com audição normal também tem dificuldades de entender em situações muito barulhentas ou com muitas pessoas falando. Então como resolver? Para MELHORAR esta situação os aparelhos auditivos de tecnologia intermediária tem um recurso chamado REDUTOR DE RUÍDO. Quando vc for testar um aparelho auditivo, pergunte ao seu fonoaudiólogo se seu aparelho tem isso e se vc pode escolher o grau de ação deste redutor ( minimo – redução entre 5 e 8 dB, médio -redução entre 9-15 e máximo – entre 18 e 24 dB, por exemplo). GARANTO que esse recurso faz a maior diferença em 99% dos casos muito mais que um monte de canais no seu aparelho auditivo.

5. Seu aparelho pode apitar – Sim… isso pode acontecer, mesmo com ele bem encaixado. Quanto mais sofisticado seu aparelho auditivo, menos chance de apitar teremos. Mas, se sua perda auditiva é severa ou profunda e seu aparelho auditivo potente, há mais chance de microfonia.

Mas o mais importante:

  • Você DEVE perceber o benefício de usar seus aparelhos auditivos. E quem convive com vc também!
  • Ficar com eles deve FACILITAR sua comunicação.
  • Se isso não estiver acontecendo, tem algo errado…MAS NÃO DESISTA!!! Explique para seu fonoaudiólogo o que está acontecendo. Ele vai identificar o problema e resolver.
16 amaram.

Concurso Cultural: “Os melhores sons da vida” – a Audimax premiará 5 pessoas com aparelhos auditivos

Quero começar dizendo que estou MUITO feliz de colocar esse post no ar, porque sei o quanto ele vai transformar a vida de cinco pessoas e isso é de um valor inestimável. A Audimax, que é uma revenda Phonak no Rio Grande do Sul e possui lojas em Santa Maria, Porto Alegre, Pelotas e Passo Fundo lançou o Concurso Cultural Os Melhores Sons da Vida. As inscrições vão até o dia 12/12/2014 e o concurso consistirá na premiação das 5 melhores Histórias Reais de pessoas com deficiência auditiva que responderem à pergunta: “Por que eu mereço ouvir os melhores sons da vida?”

 

SELOCOMSITE-01

Serão 5 vencedores e, se todos tiverem deficiência auditiva bilateral, no total serão 10 aparelhos auditivos doados – AASI  Phonak Advanced (modelo Bolero Q, Virto Q, Audéo Q 312, Naída V UP, SP ou CRT;  o modelo será selecionado de acordo com o grau da perda auditiva, definido previamente através da avaliação audiológica clínica).  Adaptação, regulagens, garantia e toda a assistência técnica serão dadas pela Audimax por um período de 3 anos, sem nenhum custo. Só um aviso: as despesas de deslocamento para retirada do prêmio e para as regulagens/manutenção são por conta dos vencedores. Serão aceitas inscrições de todo o país, mas esse detalhe é importante – imagina se você está no interior da Amazônia e vence, como é que vai ficar indo e vindo do Rio Grande do Sul? Portanto, isso deve ser levado em conta antes de se inscrever, ok? Quero parabenizar a Audimax pela iniciativa e dizer que essas cinco pessoas serão eternamente gratas a vocês pela chance de ouvir, ou de ouvir melhor. Da minha parte, vou fazer o possível para que o maior número de pessoas possível fique sabendo deste concurso e participe! :)

 

Captura de tela inteira 17112014 081706.bmp

 

Coloque a sua criatividade para funcionar e busque lá no fundo do seu coração a resposta para a pergunta que pode lhe dar aquele aparelho auditivo tão sonhado e que vai lhe permitir ouvir os melhores sons da vida.

Para se inscrever e ler o regulamento, CLIQUE AQUI.

18 amaram.

O que você aprendeu com a surdez?

Captura de tela inteira 14112014 104126.bmp

 

A surdez me ensinou muitas coisas, e acho que a mais importante delas tem a ver com o fato de que sempre temos duas opções: ter uma atitude positiva perante os acontecimentos e tentar extrair luz e sabedoria de cada um deles tomando as rédeas da situação, ou ter uma atitude negativa e ativar o papel de vítima, se acomodar com isso e ainda culpar os outros pelo que nos acontece. Me sinto quase como uma criança, pois estou sempre aprendendo alguma coisa nova todos os dias em função da dicotomia som-silêncio. Perguntei lá na FanPage do Crônicas da Surdez no Facebook  “O que a surdez te ensinou?”.  Eis algumas respostas.  E você, o que a surdez te ensinou? Conta pra gente!!! :)

 

Rodrigo
Que eu sou (era) MUITO barulhento pela manhã, depois de acordar. Desde a ida ao banheiro, passando pela colher batendo na xícara de café, até a hora de bater a porta e sair pro trabalho. Um INFERNO do cão, de tanto barulho que eu fazia. Jamais me aguentaria. Botava pra fora de casa.

Valeska
A Lutar pelo o que eu quero ,sem Mimi: avante Dona Valeska !!!

Mateus
A ver com os olhos o que bilhões não vê.

Carlos
Aprendi a ter gosto pela leitura, livros , jornais. , revistas. Obras de artes e viajar. Mas noto que com as “pauladas” que tomei na cabeça pela surdez, fiquei mais esperto , desconfiado e frio.

Lak
Me ensinou que fraquezas são o que nos fortalece!

Maria
A surdez me ensinou a ser uma pessoa curiosa e que corre atrás das coisas e informações. Nunca esperar sozinha pela resposta, sempre tenho de ir atrás dela! Ser uma pessoa pró-ativa! E também não espero as coisas acontecerem sozinhas, eu que tenho que fazer acontecer!

Renata
Que podemos tudo ! A ter iniciativa! O que é seu , virá . Não significa que deva esperar sentado!

Tiago
No meu caso é mais retórica: o que minha surdez ensinou aos outros.  Mas respondendo, seria que se eu não correr atrás, serei apenas mais um deficiente auditivo.

Alberto Luiz
A Surdez me ensinou que a diversidade é normal, a deficiência faz parte da vida! Me ensinou que eu devo respeito a todos e que na realidade a sociedade, o mundo sim se torna deficiente quando não fornece condições de acessibilidade igualmente a todos!

Elanni 
A acreditar em mim…sempre fui muito muito medrosa, não tinha fé em mim mesma. E depois da perda da audição, quando o mundo dá uma cambalhota comecei a me questionar, e tentar me entender. E descobri que sim: eu posso..eu consigo..eu mereço..tudo de bom! E sou forte o suficiente para atravessar as pedras do caminho!

Lucia
Que sou capaz de superar qualquer obstáculo.

Maria Clara
A surdez me ensinou a ter empatia e tolerância com as pessoas. Me ensinou a ser forte, determinada e pró-ativa (afinal, eu tive que me virar para ser a mais independente possível). A surdez me ensinou que o silêncio pode ser muito “barulhento”, se eu não souber dominar a minha mente, que é o ponto de equilíbrio do meu ser. Por fim, apesar dessa limitação, eu fui e sou muito feliz!

Ana Clara
Me ensinou: nunca reclame do som que está ouvindo, as vezes o som pode estar baixo mais você está ouvindo a voz dos familiares, mas siga em frente como se nada aconteceu. Sou feliz assim.

Netinho
Que devo lutar, persistir – por mim – , seguir em frente apesar de todas as dificuldades que a deficiência impõe. Me ensinou a ser forte, e principalmente, a requerer tudo aquilo que é meu por direito e não por favor, quando se trata dos direitos da pessoa com deficiência, na sociedade, no mercado de trabalho, na escola, na vida como um todo.

Luana
Me ensinou a prestar atenção nas coisas que na ninguém notava, muitos detalhes valiosos e bonitos.

Antonio Joao
Me ensinou a ver que o meu problema não é o maior. Na vida prática, aprendi muita coisa de culinária.

Allan
A surdez me ensinou a acabar com o preconceito da sociedade!

Maria Eliane
Ah, busquei outra alternativa de audição. Transferi a minha audição para o coração e ele escuta sonhos, esperança, fé, sentimento, sabedoria no silêncio…

Ana Lúcia
Me ensinou a ser forte e não desistir NUNCA!

Ana Paula
Me ensinou a “ler” as pessoas , seus sinais , olhares , tom da voz. Tenho surdez mediana de um lado.

Rejane
Me ensinou a ouvir a alma das pessoas, e tentar tratar não somente o corpo, mas sim as pessoas como um todo!!! E a agradecer pelos meus pais e meus AASI todos os dias, pois eles me permitem ser o que sou hoje!!!

Gisele 
Coragem e ousadia

Danielle
O que a surdez me ensinou? Nossa, são tantas!!!! Me ensinou a ter muita paciência com outras pessoas, bem intolerante independente do quem seja a pessoa (acabo passando de ingenua só por causa disso), sou ótima em ouvir pessoas desabafando, calma em situações estressantes (se estiver acompanhada, se não, eu piro!), me levou a ser adepta em leitura (igual oxigênio, não vivo sem livros), a dar valor à pequenas conquistas, e, principalmente, me ensinou a ser guerreira!

Zilma 
Me ensinou a ser mais calma e penssar mais em mim também.

Olivia Terezinha
Que às vezes gosto de ficar sem ouvir nada…nenhum barulho, nenhuma voz…completamente alheia…isto me dá tranquilidade quando estou nervosa, agitada…

Maria Alice
Aprendi que posso andar com seus próprio pés além da surdez, ser mais humana, mais esperta com os pequenos detalhes o que muitos ouvintes não percebam e saber que é possível ser feliz com a limitação.

Carla
Aprendi que tudo posso naquele me fortalece, que no dia a dia aprendi a lidar com as dificuldades que para mim é um grande desafio em minha pois me torna uma pessoa muito melhor a cada dia e lutando pelos meus sonhos com muita coragem, fé no Pai!!
Simone
A surdez ensinou a captar qualquer coisa no ar, fácil, fácil, sem perguntar nada; a ser mais cautelosa em quase tudo (porque para as pessoas, a pessoa com deficiência é fácil de ser enganada, de ser manipulada); a admirar o silêncio e até o som; a entender que é possível fazer coisas tais como estudar, viajar, casar, ter filhos. Até a principal coisa: a aceitar a limitação.
Juliana
Entender melhor meus pacientes! Sou fono e fiquei anacusica unilateral!
Fatima
Me ensinou que, o ceu é o limite! Também o quanto sou forte!

28 amaram.

1 ano de implante coclear ativado

Parece que foi ontem que eu tocava na parte raspada da cabeça pensando ‘que diabo é isso que fui me meter a fazer, meldels’. O tempo passa, e a reviravolta que minha vida deu desde a época da cirurgia é algo até difícil de assimilar. Tem dias que parece que foi ontem, tem dias que parece que fiz há dez anos. No meu primeiro aniversário de renascimento, 11/11/2014, posso dizer que me considero outra pessoa desde que tive o privilégio de voltar a ouvir através da tecnologia. A vida tem outro sabor, os acontecimentos mais banais têm outro significado e mergulhei numa viagem de autoconhecimento que nunca imaginei que existisse. Esse primeiro ano foi de deslumbramento, cansaço emocional e muita adaptação. A família precisou se adaptar à mim (outra vez, afinal, passaram anos se adaptando à alguém que não ouvia e precisava de muitas ajudas e cutucadas), eu precisei tentar compreender quem era essa nova criatura ‘ouvinte’ e também precisei de muito esforço, paciência e sangue frio nas vezes em que tive problemas com a programaçã do IC. Já escrevi diversos posts contando que nem tudo são flores, mas o resultado final compensa e muito.

Decisão importante: parei de fumar. Eu não era fumante inveterada, mas fumava dois cigarros em dias bons e o triplo em dias ruins. Comecei a notar que os dias em que ‘esquecia’ de fumar minha língua era outra, totalmente diferente dos dias em que fumava. A minha fono fez um comentário que me botou pra pensar: “Paula, não coloca toda a conta dessa língua no implante.” Estou há cinco dias sem cigarro e finalmente sinto meu paladar melhor, minha língua quieta e a sensação de desconforto e de língua ‘viva’ e formigante sumiu. Ou seja…

 

ic1IMG_3162

 

A evolução das minhas audiometrias me deixa com um sorrisão. A primeira é do exame pré-IC: nas frequências importantes para entender a fala humana eu só ouvia a partir de 110DB em julho de 2013. Logo após a ativação, já estava na faixa dos 30DB, alguns meses depois subi em algumas frequências para 20DB e agora em novembro fiz outra audiometria. Ela mostrou uma piora na faixa de 250Hz, mas isso tinha a ver com a programação do meu IC, para evitar os temidos “rrrrr” com os quais tanto sofri. Além do mais, essa frequência (de sons mais graves) não faz muita diferença para inteligibilidade de fala, e, nas que efetivamente fazem, tive mais melhora! Quando é que imaginei que um dia ouviria algo na faixa dos 15DB, gente? Nunca! E cá estou, vivenciando isso. :)

 

audioprea1audioIMG_3511

 

Um ano depois da ativação do meu implante sinto que recém comecei a aprender e a entender o que significa, de fato, me comunicar. Primeiro, fiquei muito focada em ouvir e entender, mas agora acho que passei para o patamar ‘comunicação’, que é muito mais do que isso. E mais difícil, também, porque ouvindo você não pode se safar das conversas e dos sentimentos que vêm à tona ao ouvir certas coisas. Comunicação é saber o que você quer de fato dizer, como seu interlocutor vai receber essa informação, qual a dinâmica que isso vai criar entre vocês e de que maneiras você pode se comunicar melhor. Passei a vida achando que o silêncio era a melhor resposta, que para não causar atritos e mal entendidos a gente devia optar por não dizer tanto o que sente e pensa, e posso dizer que agora comecei a repensar todos esses fatos que eu tinha para mim como grandes verdades imutáveis. Ouvir é tarefa fácil perto de conseguir comunicar para os outros tudo aquilo que está dentro de você.

Último acontecimento que vale a pena contar foi um singelo barraco que precisei fazer no Carrefour, pois comecei a receber cartões e seguros não solicitados daquele mercado. A moça que me atendeu com cara de tédio me levou até um telefone numa área mega barulhenta do mercado (que são barulhentos pra valer, com anúncios de alto falante o tempo inteiro, o barulho dos carrinhos de compras, mil pessoas falando, maior burburinho) e me mandou falar. Tentei, mas o som era muito baixo e com a barulheira toda, não rolou. Pedi que ela falasse por mim. Ela disse que não podia. Mostrei meu IC e pedi encarecidamente. A criatura insistiu que não podia fazer nada. Aí foi pro telefone e dez minutos depois me volta com aquele maldito ‘0800 para deficientes auditivos e de fala’. Perguntei se no Carrefour eles tinham telefone TDD, e claro que não tinham. Disse que em casa também não tinha e que não fazia milagres. A fofa continou dizendo que não podia fazer nada até que eu me alterei e pedi que chamasse a gerente geral – que surgiu do além e resolveu meu problema em 2 minutos. A pessoa que inventou esse ‘0800 de deficientes auditivos e da fala’ prestou o maior desserviço da história da humanidade a todos os surdos. Acessibilidade precisa estar disponível 24hs e não pode te obrigar a comprar um equipamento caro e inútil. Em Santa Maria, por exemplo, o único telefone TDD que já vi está lá no aeroporto, abandonado. E seria o fim da picada ter que ir até o aeroporto para resolver algum pepino com internet, 3g e toda a tecnologia acessível e até grátis existente hoje. Taí uma boa pauta para os deputados que defendem a causa deficiência, mas atitude que é bom, não vejo nenhum tomar.

IMG_3517IMG_3501IMG_3498IMG_3500

Nas fotos acima, eu estava no EIFONO da Universidade Federal de Santa Maria dando uma palestra, a convite da professora Dra. Michele Garcia (comigo na penúltima foto e a pessoa que me disse em 2010 que eu deveria fazer um IC quando eu nem sabia direito o que era isso). Se tem algo que AMO fazer é falar sobre reabilitação auditiva para quem é tão apaixonado pelo assunto quanto eu. E qual público poderia ser melhor do que estudantes de fonoaudiologia? Chamo as gurias de ‘fonecas’, pois elas parecem umas bonecas de tão lindas e mimosas. E confesso que fico me sentindo a Xuxa, porque no final me chamam pra tirar mil fotos e depois passo horas ‘roubando’ todas no Facebook. Já temos até uma foto tradicional: várias sobem as escadas e tiramos juntas  fazendo a pose de mão no ouvido no melhor estilo “Ouvir é tudo de bom!”

2014 foi um ano marcante e não sei qual será capaz de ser mais inesquecível do que ele, nem quais são as outras surpresas que a vida me reserva mas sei que foi em 2014 que senti que estava recém começando e que eu tinha algum poder sobre ela. Algumas mudanças nos desestruturam, mas é na bagunça e na reconstrução que a gente se acha. Tem sido assim comigo. Um ano depois, gosto mais de gente, me sinto milhões de vezes mais confortável conversando com as pessoas – mas meu limite de tolerância para gritos, berros, falação e muito barulho é ainda menor do que era antes do IC. Em vários momentos de interação percebo que meu corpo pede para sair dali para ir sossegar num ambiente tranquilo. Obedeço, porque dos nossos próprios limites, só nós entendemos.

Conversei rapidamente com uma amiga que na época do colégio era unha e carne comigo. Ela também fez IC, caso de surdez pré-lingual. Perguntei se preferia a vida com ou sem som e a resposta foi enfática: “COM, CLARO!”. E falamos sobre aquele baque emocional do qual é impossível escapar ao ganhar a capacidade de ouvir de volta. Você coloca a vida inteira em perspectiva e tenta entender de uma maneira racional porque precisou passar por tudo o que passou, de onde tirou força para lidar com anos e anos de privação sonora, de isolamento, de solidão. Já escrevi muito sobre isso aqui no blog. Esse baque me tornou mais forte e me permitiu me conhecer de um modo que talvez eu só conseguisse com anos e anos de terapia.

Dia desses, relendo o primeiro livro, vi que no final escrevi que imaginava como seria ter uma audição perfeita e disso vinham duas imagens: estar deitada à noite vendo as estrelas, ouvindo música e entendendo a letra e sendo uma tradutora poliglota capaz de se comunicar em outras línguas com desenvoltura. Um ano depois, realizei esses dois sonhos – ok, não sou tradutora poliglota, mas ouvir e entender a fala em outras línguas é a maior delícia de todas as delícias. Minha audição biônica não é perfeita e nem eu almejo perfeição porque isso não existe, mas ela me proporciona coisas até pouco tempo inalcançáveis. Falo no telefone, ouço até o que não queria, perdi o medo de ficar em casa sozinha, perdi o pânico da expectiva de “ai vai tocar o interfone“, “ai, vão bater na porta“, só uso leitura labial em casos extremos e o melhor: posso fazer alguma coisa enquanto alguém fala comigo e dizer “vai falando que tô te ouvindo“. Semana passada estive numa palestra em que a palestrante comentou que era péssimo falar com pessoas que não nos olham enquanto falamos. Comentei que passei tantos anos vidrada nos rostos e nas bocas dos outros para poder me comunicar que hoje um dos meus maiores prazeres é NÃO olhar para a pessoa enquanto ela fala comigo. Aí ela disse que minha atitude tinha a ver com o fato de que olhar para os olhos/bocas me remetia à uma época de sofrimento, e por isso eu evitava fazê-lo. Acho que faz sentido.

Obrigada, de todo o meu coração, a cada um de vocês que acompanha essa jornada desde o tempo em que o implante coclear era uma mísera idéia que eu tinha na cabeça. Todas essas ‘pensatas’ só foram possíveis porque vocês estavam por aqui lendo, dando opinião e compartilhando as suas vivências comigo. Que bom que somos essa grande turma! :)

49 amaram.

Como conversar com alguém que usa aparelho auditivo

Fonte: Não Escuto, by Mirella Horiuti

 

Captura de tela inteira 10112014 090918.bmp

 

Essa semana recebi um email muito bacana de uma professora preocupada com os alunos usuários de aparelhos auditivos e que são oralizados, ou seja, que usam a fala como meio de comunicação. As dicas que vou apresentar aqui são baseadas em alguns anos de experiência com pacientes e uma pesquisinha básica na internet é claro ( #aprendendosempre) …

Antes de tudo, gosto de deixar alguns pontos bem claros para meus pacientes…

Aparelho auditivo não é um ouvido novo – pode ser meio óbvio escrever isso mas sempre reforço essa mensagem. Por mais cara e sofisticada que seja uma prótese auditiva,  ela nunca substituirá nossa milagrosa natureza, ou seja, um ouvido normal sempre será melhor que um com aparelho auditivo na maioria das situações. Mas como assim nas maioria das situações? Então há situações em que ouvir com aparelho auditivo é melhor que ter audição normal? Sim! Mas temos que considerar várias coisas: o ambiente deve ser ruidoso, o aparelho auditivo deve ter um microfone direcional ultra-mega-power sofisticado  (e cá entre nós somente os aparelhos auditivos top de linha tem isso) e quem fala deve estar na frente do usuário a menos de 1 metro de distância. Bastante coisa.. então fica a mensagem ouvido normal é melhor que ouvido com aparelho auditivo. Sempre brinco com as palavras: aparelho auditivo é uma prótese e o próprio nome já diz tudo “PRÓTESE” e não é um ouvido biônico.

Pessoas normais olham para a boca do outro quando conversam – sim! Isso é normal e ajuda muito! Faça o teste você mesmo. Comece a conversar com alguém que tenha audição normal e de repente (disfarçadamente) fique numa posição que a sua boca fique encoberta – atrás de um vaso por exemplo. Você vai se divertir vendo a cara da outra pessoa tentando desviar do obstáculo para enxergar sua boca.

Quando estamos cansados ou doentes nosso entendimento piora – essa é uma grande verdade!

Mas vamos ao que interessa! Seguem  algumas dicas:

Solicite a atenção do usuário de aparelho auditivo – Antes de começar a falar chame o usuário pelo nome ou até mesmo toque nele para chamar a atenção para você. Esse gesto simples já prepara a atenção do usuário para a conversa. Ele vai entender que precisa prestar a atenção em você e não vai perder o início da conversa.

Mantenha o contato visual –  Olhe para o usuário e utilize sua expressão facial. Isso vai ajudar no contexto…vai dar pistas se o que você está falando é bom, ruim , sério, triste, etc…

Não cubra seu rosto – Quando você estiver falando mantenha suas mãos longe do rosto. E se você for fumante, nunca fale com o cigarro na boca ou chicletes, isso atrapalha a produção da fala alterando a nitidez. Presença de bigode pode dificultar a nitidez da fala também.Vale a pena dizer que quanto mais iluminado o lugar que você estiver, melhor é claro ( mais pistas ficarão disponíveis)! Agora você percebeu o quanto é difícil falar da sala e querer que o usuário te entenda estando num outro cômodo da casa?

Fale claro e na intensidade normal – Por favor não grite! Isso só atrapalha pois distorce as palavras. Não fale nem muito rápido, nem muito devagar – fale normalmente, no ritmo normal e de frente! O segredo é falar com pausas para dar tempo para que a outra pessoa processe a informação.

Não repita a frase se o usuário de aparelho auditivo não entendeu – Reformule a frase, ou seja, fale de outra maneira. Vai ficar mais fácil para ele entender pois vai pegar algumas pistas da primeira frase e juntar com a segunda frase reformulada.

Fuja do barulho – Tente sempre conversar num local mais silencioso. Desligue o rádio, TV, tudo que estiver competindo com a sua fala. Quando for a um restaurante ou festa, procure ficar distante da área de som, cozinha e bar pois esses ruídos podem atrapalhar. Afinal você não sabe qual a tecnologia do aparelho auditivo do interlocutor e o redutor de ruído pode não ser muito bom ou estar bem regulado…

Pergunte para o usuário se ele tem preferência de lado para você falar – Muitas vezes o paciente tem um ouvido que escuta melhor e prefere que o interlocutor fique daquele lado.

Não mude de assunto de repente – Se você precisa mudar de assunto, faça uma pausa e use uma introdução do tipo… ” Mudando de assunto, blablabla…”. Isso vai garantir que ninguém fique boiando…

Espero que essas dicas sejam bem úteis! :)

56 amaram.