Acessibilidade Destaques Histórias dos Leitores

Protesto por filmes legendados nos cinemas

Por Danielle Kraus Machado

“Oi Paula, finalmente consegui sentar pra te escrever. Mal consigo acreditar, nesse momento já são muitos compartilhamentos dessa publicação: https://www.facebook.com/danielle.machado.2809/posts/1114188181981318?pnref=story . Eu só queria juntar alguns deficientes auditivos para aí sim fazer algo maior, nos cinemas que não têm sequer um filme legendado. Porém, pra começar do começo, tenho surdez moderada neurossensorial, bilateral e progressiva. Sou uma surda que fala, sim, como muitos outros surdos. Durante a infância e adolescência achava que tinha só uma perda leve, me acostumei a nunca entender nada de rádio, TV (desenhos animados e filmes principalmente, no jornal eu até fazia leitura labial), sofrer no telefone, não entender a mãe ou o pai falando de outro cômodo. Me acostumei porque foi tão aos poucos que eu nem notei. Passava vergonha na escola por não ouvir os colegas me chamando e também nas aulas de educação física, pois nunca entendia nada que a professora falava enquanto eu estava jogando. Ao  tentar ver filmes dublados, não entendia quase nada. Sempre parece que está em outro idioma, por mais alto que seja. Conforme fui crescendo a surdez foi piorando também. Tentei diversas vezes dialogar com atendentes de cinema, mercados, e até hospitais que tinham um sistema todo chique de senha, mas chamavam o número no berro. Chamar o nome da pessoa no berro até é mais fácil de entender, mas números são confusos demais de  ouvir. Cansada de querer ver vários filmes e ter que desistir de muitos, sabendo que todos os ouvintes vão ao cinema sempre que querem, sem problema algum, decidi mostrar minha indignação. Sim, sei que tem coisa bem pior acontecendo, sei que não é só aquele cinema ali, sei que o protesto online não faz o processo judicial sair sozinho, sei tudo isso que várias pessoas vieram falar em tom de julgamento. Só que enquanto não é com você, é frescura, né? Quando tentaram barrar comida e bebida de outro estabelecimento dentro dos cinemas, todo mundo reclamou, porque aí tocou na parte que interessa. Mas quando não oferecem acessibilidade, ninguém reclama, ou se reclamar é o “chato, que não tem mais o que fazer, fica fazendo protesto”. Eu vou entrar por via judicial sim, sei bem que Facebook não é Procon. Mas quando me inscrevi nessa rede social, estava lá na primeira página “para você compartilhar o que quiser”. Então se eu quero compartilhar isso eu posso, quem não gostar de algo, é só ignorar. (desabafei, pronto haha) Sobre o “protesto”: foi um dia muito aleatório, sem muito planejamento. No sábado, eu tive a ideia de ir ver A Era do Gelo ou Procurando Dory com meu namorado, só que em nenhum dos cinemas próximos tinha com legenda. Só pensei “DE NOVO“. Porque não é a primeira vez que desisto de ir no cinema ao descobrir que não tem com legenda, já desisti muitas vezes. Até que pensei: alguém tem que começar. Enquanto ninguém reclamar, ninguém consegue o direito. Alguém vai ter que dar a cara a tapa, se sujeitar a todo tipo de julgamento/xingamento, mas alguém vai ter que começar. Mexer com as ideias fixas nas cabeças desse povo não é fácil, principalmente se o assunto for colocar-se no lugar do outro. Então “bora”. É amanhã. No domingo preparei os cartazes e fui pro cinema, primeiro tentar falar com o gerente. Me deixaram um tempão esperando (deu a impressão de que queriam que eu desistisse), e quando o gerente disse que a culpa não é dele, que se eu quisesse ia ter que processar a Disney e não ele, pedi  que fizesse um documento, explicando que a culpa não era dele e de ninguém do cinema então, para que eu processasse o responsável. Ele recusou. E repetiu inúmeras vezes “você que procure seus direitos então“. Quando questionei o porquê de ter um cartaz lá dizendo que pessoas com deficiência tem direito a meia entrada e atendimento preferencial, mas não ter o filme em formato acessível, que é o principal, não houve resposta. Meu namorado perguntou: “E se seu filho pequeno fosse surdo, onde você levaria ele pra ver filme, já que aqui não tem com legenda?” e também não houve resposta. Ao contrário do que muita gente imagina, NÃO fiquei lá segurando cartazes. Foram menos de 5 minutos, segurava o cartaz, meu namorado tirava a foto e eu já pegava o próximo, e fomos embora. Fiz na intenção de compartilhar com os amigos e familiares pra conscientizar. Se tivesse imaginado a repercussão, teria ido num dos cinemas que não tem nenhum filme legendado, pois esses merecem muito mais exposição. Não consigo nem imaginar a revolta que teriam pais levando seus filhos pequenos surdos ao cinema e não ter nenhuma sessão legendada. “Ahh mas cinema é luxo, por que não luta primeiro pelas coisas básicas?” Olha, não dá de fazer tudo na vida, nem agradar a todos, as poucas ideias que tenho estou tentando colocar em prática. Quer lutar por aparelhos auditivos pra quem precisa? Bora! Vamos também! Fui atrás de ministério público, defensoria pública e regionais de saúde para conseguir meus aparelhos auditivos, até conseguir. Lutei por aquilo que eu acreditava e que é nosso direito. Se cada um fizesse a sua parte em vez de julgar, o mundo já teria muito mais acessibilidade para todos os tipos de deficiência. Então, vamos começar com as coisas pequenas?”

102 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

31 Comentários

  • Sou artista plástico pernambucano deficiente auditivo (surdez bilateral profunda) desdos 7 anos.Tenho agora 61 anos.Faz muito tempo que deixei de ir ao cinema por esse motivo da falta de legendas.Gosto muito de filmes e nunca vou deixar de assistir.Agora assisto em casa, é só procurar na Internet e baixar junto com as legendas.
    Conte com meu apoio.A união faz a força.
    Um grande e fraterno abraço daqui do nordeste.

    Militão.
    http://www.militaodossantos.com

  • Oi,Danielle!
    Sou deficiente auditiva bilateral , perda severa no ouvido esquerdo e total no ouvido direito.Uso aparelho auditivo só no ouvido esquerdo e sei bem como é o problema de não poder assistir filmes sem legendas….
    Gostaria de me juntar á você nesse protesto,pois ve jo que falta mais surdos unidos!
    Sou mãe,criei meus filhos (3 que são ouvintes)com muitas dificuldades,pois se para uma mãe ouvinte é difícil criar filhos surdos, imagina o que foi eu criar os meus,surda com filhos ouvintes.Mas fui feliz ,estão todos criados .Sempre fui de contestar e questionar as coisas e sendo assim foi como eu batalhei para ter minha habilitação tanto de carro como de moto!Sim ,sou motociclista e faço muitas viagens sozinha em minha moto!Por isso, se precisar de alguém que queira protestar sobre algo que tenha a ver com o mundo do surdo ,eu estou dentro!

  • Olá, Daniele!
    Me identifiquei muito com seu post. Temho surdez profunda bilateral e sou usuária de IC no ouvido direite.
    Como surda, não tenho atividades sociais, pois tds elas, o cinema e um deles, nao tem acessibilidades proprias e adequadas. Isso muito me deprime, principalmente a falta de amigos, os poucos que tenho moram longe, e colocam dificuldades em falar comigo ” se vc ouvisse o telefone!”, fazer uma mensagem ou um whatsap é muito incomodo, então fico alienada.

  • cinema sem legenda é muito complicado mesmo, sempre que vou assistir e olho que não tem legenda dá uma raiva… se quiserem me add no watssup para trocarmos experiencias, fazer novas amizades meu cel é 33 999628887. Tenho perda bilateral neurossensorial. Grato, Ricardo.

  • MINHA FILHA AINDA É PEQUENA E NÃO SABE LER LEGENDAS, MAS JÁ ENTENDO A IMPORTÂNCIA. OUTRO DIA, ASSISTINDO A UM DESENHO NA TV ELA DISSE QUE O CACHORRINHO FALOU MA COISA, QNDO NA VERDADE ERA OUTRA COMPLETAMENTE DIFERENTE. FIQUEI MUITO TRIST, POIS APESAR DE TER SURDEZ MODERADA/SEVERA NUM OUVIDO E SEVERA NO OUTRO, ELA OUVE BEM COM APARELHOS, MAS NESTE DIA REALMENTE VI QUE NADA SUBSTITUI LEGENDAS. NÃO VEJO A HR DELA SER ALFABETIZADA PRA ENTENDER MELHOR SEUS FILMINHOS, CLARO, SE ATÉ LA TIVEREM LEGENDAS…

  • Olha, eu não tenho problemas auditivos, e realmente nunca tinha parado pra pensar nisso, apesar de sempre preferir filmes legendados, com áudio original (mas somente porque quero ouvir o filme em inglês). Não acho que é luxo, acho que tens toda razão de protestar e reclamar. Me senti mal porque realmente nunca tinha pensado a esse respeito, apesar de conhecer mais de uma pessoa jovem e surda, que fala (e lê lábios). Muitas vezes é difícil a gente se colocar no lugar do outro, ou mesmo entender qual é o problema (quando a realidade do outro é diferente da nossa), mas o importante é reconhecer o espaço, o direito, a luta da outra pessoa e ajudá-la nisso. Estou com você, Dani, e com você Paula!

  • Há como conseguir lei que estabeleça prioridade de legenda em todos os filmes em cinemas e TV.? E em salas de espera, que haja sempre painéis eletrônicos com os números de chamada para quem tem dificuldade em ouvir não se sinta prejudicado.
    Seria bom demais!

    • Oi Cleide,
      Prioridade não sei se é possível, mas dá pra conseguir pelo menos uma sessão de cada filme com legendas.

      • Oi,Daniele.Desculpe a demora em responder.Muitos compromissos e não vi…A sua sugestão de 1 sessão de cada filme não é muito certa pq se a pessoa só pode ir ao cinema em determinado horário,como faz se o filme com legenda é noutro? E, me explica como sempre os filmes tinham legenda e agora há essa moda de tirá-las? Não são só nós surdos de qualquer tipo ou perda que são os prejudicados…os estudantes de línguas ou interessados,também!!! Precisamos acabar com isso!Abçs

  • Meu é Telca minha filha é surda oralizada,e precisa de legenda pra todos os programas de tv o que é péssimo. Pois qd tem é atrasada a legenda um desrespeito. Agora nessas férias estevemos no cinema e não tinha nenhum filme com legenda(estou na cidade de Goiânia)o que me informaram que só tem legenda no lançamento do filme ,então sou obrigada a assistir filme no primeiro dia e só.Aqui tb pago meia entrada,pois tem carteira de estudante,então o desconto pode ser outro?? Fiquei pensando o que fazer ??Aonde ir reclamar sobre esse fato?? Ministério público???? Onde??? Vamos lutar pelos nossos direitos. Conte comigo.??????

  • Mesmo em São Paulo é difícil de achar, já chamei minha mãe várias vezes para ir em um certo lugar de lá, mas era muito difícil, por que não sabíamos como ir nem como encontrar… Era como achar agulha em palheiro.
    E nesse mesmo lugar a sessão legendado dura pouquíssimos dias… não tem como…
    E eu amo animação! Estava ansiosa por Procurando Dory e A Era do Gelo…

  • Parabéns Dani…de onde vc é?
    Tb adorava ir ao cinema…hj poucos cinemas têm filmes legendados..Alguns nunca tem….E filme da Disney legendado??? nunca vi….Falta de respeito mesmo…Acho tão simples colocar legenda em filme dublado..Não vejo drama nisso. bjs

    • Oi Renata, sou de SC. Aqui, os SEIS cinemas mais próximos não dão acessibilidade total, alguns exibem todos os filmes só dublados, e alguns exibem os infantis todos dublados.

    • Olá Danielle, saber nossos direitos e lutar por eles é um importante exercício de cidadania! Parabéns pela iniciativa!
      Pesquisei o link da Ancine informado pela Andrea e compartilho o item 05 da minuta referente as propostas:
      – As salas de exibição comercial deverão dispor de tecnologia assistiva voltada à fruição
      dos recursos de legendagem, legendagem descritiva, audiodescrição e LIBRAS – Língua
      Brasileira de Sinais, na modalidade fechada individual1
      – O quantitativo mínimo de equipamentos e suportes individuais voltados à promoção
      da acessibilidade visual e auditiva deve variar em função do tamanho do complexo,
      conforme tabela anexa à minuta.
      – A obrigação sobre os exibidores está condicionada à existência prévia dos recursos de
      acessibilidade referentes à obra a ser exibida, e à disponibilidade dos referidos recursos
      ao exibidor.
      – Os prazos de carência para cumprimento da obrigação variam em função do tamanho
      do grupo exibidor, e preveem a cobertura integral do parque exibidor comercial no
      prazo de 2 anos, a partir da publicação da norma

      obs.:1 Modalidade fechada individual: modalidade que, além de permitir o acionamento e desligamento dos recursos de acessibilidade, permite que o acionamento dos referidos recursos impacte apenas uma
      parcela dos espectadores.

      • Oi Viviane e Andrea! Realmente será ótimo essa nova lei, porém vale ressaltar que já existem muitas outras que garantem a acessibilidade, só que por não estar certinho detalhado “legenda/libras/audiodescrição/etc”, eles não cumprem. Nem mesmo a lei 13146. Estatuto da Pessoa com Deficiência, que fala dos cinemas em FORMATO ACESSÍVEL (o que obviamente já inclui tudo, né) , eles não cumprem. É absurdo pensar em só em 2018 teremos acessibilidade garantida, 2018!!!!!
        Até lá, que continuemos a protestar por mais visibilidade e pelos nossos direitos que estão sendo negados. Abraços!!

  • Uma coisa que devemos lembrar sempre é que cada conquista no campo de acessibilidade se deu porque em algum lugar, alguém se mobilizou para lutar por isso, ao invés de se acomodar ou se resignar. Frescura? Estes que saiam do sofá para fazer melhor.
    É de batalha em batalha que se vence uma guerra, são por pequenas conquistas que transformamos a sociedade. Nenhum gesto é pequeno demais enquanto houver quem acredite nele. Parabéns pela iniciativa Dani.

    • Muito obrigada Cinthia!!
      Realmente, se cada um fizesse um pouquinho, o mundo já estava melhor!
      Abraços!

  • Também me identifiquei muito com toda a sua história mas não no que se diz respeito ao cinema porque não sou usuário deste tipo de entretenimento mas pelo fato de eu ser também surdo oralizado. Também não sou usuário de libras e muita coisa entendo por meio da leitura labial até porque a minha surdez é recente.
    Enquanto a correr atrás dos nossos direitos e protestar se for preciso, também sou adepto desta iniciativa.
    No momento tenho uma idéia fixa que é de lutar por acessibilidade nas celebrações eucarísticas da Paróquia que eu era literalmente participativo, pois eu coordenava um grupo de canto e devido a surdez Tive que me afastar. Creio que por conta da minha proximidade, meu pedido será atendido, que é o uso de slides e data show que expliquem todas as partes da missa, bem como a homilia na íntegra e/ou quais quer outros comentários que venha a surgir. Mas é lógico que se não, pelo menos desta forma, não tornarem acessível a celebração, com certeza irei procurar meus direitos.

  • Caramba, me identifiquei demais! Vc é do RJ? Tive muita dificuldade pra assistir esse filme tb. Entendo perfeitamente o que vc passou pq eu fui perdendo audição assim tb.. e quando comecei a ficar muito triste pq não entendia mais as pessoas da maneira de antes. Ouvia um sonoro: vai passar!! Isso é drama, semana que vem você já nem lembra mais ou reage de outras maneiras como se fosse frescura. Quero tanto conhecer pessoas que passam pelo mesmo problema que eu.. muito difícil lidar com isso sozinha. Super apoio essa iniciativa. Podíamos reunir mais pessoas para reivindicar nossos direitos. Abcs

      • Galera, vocês não precisam lidar com isso sozinhos! Tem um grupo no Facebook, muito organizado e com muitos membros, onde rolam muitas discussões bacanas. O nome do grupo é “Comunidade dos Surdos Oralizados”. É só pesquisar lá no Facebook e pedir pra entrar.

    • Ela é de são jose -SC, município vizinho ao meu, e infelizmente isso acontece em todos os shoppings da grande Florianópolis :/

    • Oi Natália, sou de SC.
      Mas que tal você começar um movimento na sua cidade também? Ah, e não esqueça de procurar a Defensoria Pública ou Ministério Público também. Beijos!

Deixe seu comentário