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Surdez e apps: melhorando a experiência auditiva no iOS

Post escrito pelo leitor Leonardo Fonseca

Revisão de apps para iOS que melhoram a experiência de pessoas com perda auditiva leve a moderada.

Disclaimer:
Procure profissionais de saúde para tratar seus problemas de saúde. O uso de fones de ouvidos pode piorar a sua audição a depender do volume e do tempo de exposição. Informe-se a respeito. 😉

Você tem perda auditiva?

Deixe-me entender: você escutava manguebeat bem alto no seu walkman, enquanto andava de bike pelo trânsito barulhento da cidade, certo? Ou passou perto demais de alguns trios elétricos em plena potência no carnaval? Andou curtindo a positive vibration dos graves de Sly and Robbie na caixa de 12″ selada do seu carro? Praticou mergulho de apneia (no tempo em que ditongo aberto era acentuado) entre o Farol e o Porto da Barra? Toca ou tocou em uma banda de rock? Sempre que pode está com o seu fone de ouvido? Tem várias pessoas com perda auditiva na família? Bom, se você se identificou com ao menos uma dessas minhas passagens, talvez você tenha algum grau de perda auditiva e ainda nem saiba.

A minha perda auditiva

Eu já sei da minha perda auditiva bilateral com zumbido desde 2008, e estou no limiar entre usar ou não um aparelho auditivo. Por hora, prefiro não usar (e isto está prestes a mudar), mas faço o acompanhamento médico.

Dentre as várias pequenas dificuldades do dia-a-dia de não ouvir direito (a minha perda não é severa, por enquanto), não poder ouvir música com brilho e qualidade é algo que me faz bastante falta, e muitas vezes acabo aumentando o volume pra ouvir melhor as faixas de frequência que já não escuto tão bem, o que vira um perigo para a audição que me resta, eu sei.

Recentemente, entretanto, descobri que existem apps gratuitos para fazer audiometria usando o iPhone, desde que com os fones originais Apple, o que garante a padronização e qualidade necessárias para este tipo de teste. Esses apps normalmente fazem par com players que ajustam o som de acordo com os resultados do exame, para que a pessoa ouça melhor. Eles tocam música local, streaming (Spotify, Youtube, etc.), podcasts e até o som ambiente ao vivo, fazendo as vezes de um aparelho auditivo neste último caso. Particularmente, estou gostando muito da experiência para música e podcasts. São eles:

Jacoti Hearing Center

 

Jacoti Hearing Center tem, na minha opinião,a melhor interação para audiometria, incluindo as profissionais pelas quais passei: ao invés de apenas clicar quando você escuta um som, ele pergunta se houve silêncio, três cliques ou um toque contínuo, o que tira qualquer dúvida que pode ocorrer principalmente se você tem zumbido. Além disso, avalia um intervalo de frequências maior (de 125 a 16kHz) e ainda tem um teste rápido se você estiver com pressa.

Achei interessante também que o app é classificado como dispositivo médico listado pela FDA Class II, e classificado no código de produto EWO nos EUA e em conformidade com os requisitos da Comunidade Europeia para dispositivos médicos (CE 0086).

Jacoti Listen App Hearing aid

player da Jacoti tem as opções: Live Sound, que é o som ambiente adaptado à sua perda auditiva, ou seja, atua como um aparelho auditivo; Music Player?—?toca músicas da biblioteca local; Jacoti Lola?—?essa é para ambientes como sala de aula ou palestra, desde que o professor use um aplicativo homônimo na mesma rede wifi (boa opção para educadores que queiram incluir alunos com perda auditiva). Também tem certificações do FDA e da Comunidade Europeia.

O que achei de negativo foi o fato de não integrar com outros apps como Spotify, tocando apenas mídia local.

Mimi Hearing Test

 

Mimi Hearing Test tem uma forma de interação um pouco semelhante ao de uma audiometria profissional, executa sons das várias faixas de frequência de forma sucessiva para cada ouvido, sendo que você deve apertar o botão se estiver ouvindo e largar quando não estiver.

Acontece que quando você aperta o botão, o volume do som executado abaixa, então você entra num ciclo de apertar e largar o botão rapidamente, pois o som fica passeando no seu limiar auditivo, o que me trouxe uma sensação de insegurança no teste, principalmente por eu ter zumbido.

Durante alguns momentos do teste há o mascaramento do som no outro ouvido (aquele barulhinho de chuva) como nas audiometrias profissionais.
Ele trabalha com seis faixas de frequência, de 250Hz a 8KHz.

Mimi Music

 

player da Mimi, assim como o da Jacoti, utiliza o resultado do app de teste para adaptar o som ao seu ouvido, o que chama de impressão auditiva. Ele também tem uma opção para escutar o som ao vivo, bibliotecas locais (iTunes, podcasts) além de streaming de música como Spotify e Soundcloud. O que mais me chamou atenção no Mimi Music foi ele utilizar a tecnologia Inter-APP Audio.

Disponível desde o iOS 7, ela permite que um app utilize o som originado em outro app e o altere da forma desejada, como, por exemplo, adaptando a uma audiometria, ou distorcendo os sons, como em apps de pedal de guitarra. Apesar disso, somente o Music da Apple aparece disponível nesta opção que ele chama de “Outras fontes de áudio”.

Com este recurso, os apps originais executam a música ou o podcast mantendo a contagem correta do número de execuções, o ponto onde você parou, dentre outros, pois o outro app funciona apenas como uma camada ou layer entre ele e o usuário, o que pra mim traz inúmeras vantagens comparando com a execução direta da biblioteca local pelo player alternativo.

Earlogic TSC Music

 

Earlogic TSC Music é um player de áudio que permite que você faça uma calibragem (como ele chama) para compensar a perda auditiva on-the-fly, nele mesmo, sem a necessidade de outro app ou audiometria. Ele trabalha o limiar de audição de somente cinco faixas de frequência?—?de 1, 2, 4, 8 e 12 kHz para cada ouvido. Apesar de prático, a faixa é limitada, mas ainda sim adequada à minha perda, por exemplo. Avalie se é o seu caso também.

Ele tem acesso às bibliotecas locais e permite conexão a serviços de streaming, mas sem usar o inter-app audio. O volume só deve ser ajustado no próprio aplicativo, para manter as condições adequadas de uso, com isso você perde a regulagem no fone.

A sua maior peculiaridade entretanto é o Threshold Sound Conditioning, cuja sigla dá o próprio nome do app, e que significa algo como “condicionamento do limiar sonoro”. Em teoria, ele melhoraria a sua audição com uso de sons que tocam junto com a sua música, mas que estão logo abaixo do seu limiar auditivo (ou seja, não dá pra ouvi-los no ajuste correto). A ideia é estimular e fortalecer as células capilares da sua cóclea que estejam danificadas. A Earlogic fundamenta esse processo em um artigo científico que eu achei um tanto inconclusivo, mas veja você mesmo.

Conclusão

Audiometria

A melhor experiência na audiometria para mim foi a do Jacoti, pela tranquilidade e segurança durante o teste e pela maior faixa de frequência.

Player

Em todos os players, a diferença entre ouvir com o equalizador ajustado para a minha perda é gritante, com o perdão da palavra.

Mimi Music destaca-se dos demais pelo livre controle de volume, por reproduzir streaming (Spotify) e principalmente pela tecnologia inter-app audio.

Inter-app audio

Para mim, a tecnologia mais promissora para suporte às aplicações de acessibilidade auditiva no iOS. Acredito que grandes players de áudio?—?e vídeo— devam disponibilizar seus apps com ela, deixando a acessibilidade para terceiros especialistas.

Agora é sua vez: quais apps tornam melhor a sua experiência auditiva?

4 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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