Nem sempre é necessário comprar um aparelho auditivo novo quando você não está ouvindo bem com o atual. A dificuldade pode estar relacionada à regulagem, à manutenção, ao encaixe no ouvido ou a mudanças na sua perda auditiva. Antes de trocar os aparelhos, é importante avaliar a audição fazendo uma nova audiometria e mostrando-a ao seu médico otorrino especialista em surdez, verificar o funcionamento das próteses, realizar um mapeamento de fala e conferir se a adaptação está adequada à sua perda auditiva. A decisão de compra deve considerar o benefício que um novo modelo pode oferecer para as suas necessidades de comunicação, e somente o seu médico otorrino pode lhe dizer se chegou a hora de um implante coclear, de uma cirurgia da audição ou se você deve continuar usando aparelhos auditivos.
Se você está pensando em gastar milhares de reais em aparelhos auditivos novos, meu primeiro conselho é: informe-se ANTES de abrir a carteira. Entre para o Clube dos Surdos Que Ouvem para conversar com outros usuários e assista às minhas aulas sobre compra de aparelhos auditivos. Quem conhece esse universo faz perguntas melhores e fica menos vulnerável a uma apresentação de vendas cheia de palavras bonitas. A indústria da audição AMA pacientes desinformados e assustados.
Se você está passando por isso e sente que está batendo a cabeça sem saber se o problema é o aparelho, a sua audição ou o profissional que te atende, você precisa de informação de qualidade e de quem vive isso na pele todos os dias. No Clube dos Surdos Que Ouvem, somos milhares de usuários de aparelhos auditivos e implantes cocleares compartilhando experiências reais e práticas sobre reabilitação auditiva, sem romantismo e sem jargões médicos incompreensíveis. Além do suporte diário da nossa comunidade digital, temos uma série exclusiva de aulas desenvolvida para te segurança na hora de testar e comprar o seu aparelho auditivo, onde você aprende todos os segredos da indústria da audição, as perguntas que tem que saber fazer ao Fonoaudiólogo e muito mais.
Descobri que precisava usar aparelho auditivo aos 16 anos e cometi muitos erros na minha primeira compra. Faltou informação, sobrou vergonha e minha família precisou fazer um empréstimo para pagar pelo aparelho. Por isso, quando o assunto é comprar de novo, eu quero que você pare e pense: o que foi investigado antes de alguém concluir que você precisa trocar seus aparelhos?
“Já saiu um modelo novo” não responde a essa pergunta. “Agora tem inteligência artificial” também não. E “a promoção acaba amanhã” responde apenas à pressa de quem está vendendo.
Devo comprar um aparelho auditivo novo ou fazer um novo ajuste no que eu já uso?
Estas são as perguntas que eu faria antes de comprar aparelhos auditivos novamente:
- Minha audição mudou desde a última avaliação?
- Meus aparelhos auditivos estão funcionando como deveriam?
- A regulagem foi verificada com medidas em ouvido real?
- O molde, a oliva e o encaixe estão adequados?
- Eu expliquei exatamente em quais situações estou tendo dificuldade?
- O que ainda pode ser ajustado nos meus aparelhos atuais?
- O que o aparelho novo oferece para a dificuldade que eu tenho?
- Como vamos comparar o aparelho atual com o novo?
- Estou esperando algo que nenhum aparelho auditivo pode prometer?
- Posso testar antes de decidir, e quais são as condições?
- Qual é o custo completo dessa troca?
- Vale buscar uma segunda opinião antes de gastar esse dinheiro?
Minha audição mudou desde a última avaliação?
Se você passou a ouvir pior, vale investigar o que mudou na sua audição. Peça uma avaliação atualizada e uma explicação dos resultados. Os testes de reconhecimento de fala também ajudam a entender suas dificuldades, inclusive no ruído quando esse tipo de avaliação é indicado. Você precisa compreender o problema antes de escolher a solução.
Meus aparelhos estão funcionando como deveriam?
Antes de condenar o aparelho, peça uma checagem técnica. É preciso investigar se há defeito, obstrução ou necessidade de manutenção. Um aparelho que perdeu desempenho não deve ser automaticamente tratado como um aparelho que precisa ser substituído. Eu pediria uma explicação clara: o que foi encontrado, o que pode ser corrigido e quanto isso custa? DICA DE OURO: busque por técnicos independentes se o seu aparelho precisa de conserto. São incontáveis relatos, nos últimos 16 anos, de pessoas que foram enganadas em lojas de aparelhos auditivos quando seus aparelhos auditivos tinham sim conserto, mas o vendedor mentiu que não para forçar a venda de um aparelho auditivo novo.
A regulagem foi verificada com mapeamento de fala?
As medidas em ouvido real, conhecidas como real ear measurement ou REM, verificam o som que o aparelho entrega dentro do seu ouvido e ajudam a conferir a adequação da amplificação. Uma das perguntas mais importantes é: “Vocês fizeram essa verificação nos meus aparelhos atuais?”. Eu não fiz isso na minha primeira adaptação. Hoje, essa pergunta estaria na minha lista antes de qualquer nova compra.
O molde, a oliva e o encaixe estão adequados?
A adaptação também envolve a parte física do aparelho. Sensação de ouvido tampado, alteração na percepção da própria voz ou desconforto merecem avaliação do encaixe e dos componentes usados. Pergunte se existe alguma mudança que possa melhorar essa situação. Você precisa saber quais possibilidades foram avaliadas antes de ouvir que a única saída é comprar outro par.
Eu expliquei exatamente em quais situações estou tendo dificuldade?
“Não estou ouvindo bem” é o começo da conversa. Leve exemplos: não entendo meu marido no carro, perco partes das reuniões, a televisão parece alta mas a fala continua confusa, fico exausto no restaurante. Anote o ambiente, a dificuldade e a frequência com que ela acontece. Isso ajuda você a sair do consultório com uma conversa muito mais concreta do que “vamos mexer um pouquinho e ver”.
O que ainda pode ser ajustado nos meus aparelhos atuais?
Peça ao fonoaudiólogo que explique quais ajustes pretende fazer e como vocês vão avaliar o resultado. Ter um plano de acompanhamento é diferente de sair de cada consulta com uma regulagem nova sem entender o motivo. Eu perguntaria: “O que estamos tentando melhorar desta vez e quando vamos conferir se funcionou?”.
O que o aparelho novo oferece para a dificuldade que EU tenho?
Se a indicação for trocar, peça uma resposta específica. Qual recurso do novo modelo atende à sua necessidade? Ele é compatível com o seu celular? Oferece uma função que você realmente usará? Um aparelho mais caro não é necessariamente mais adequado para você. A comparação precisa levar em conta a sua perda auditiva e a sua rotina. DICA DE OURO: se o médico disse que você deve fazer um implante coclear e o vendedor fica tentando te assustador sobre a cirurgia, dê tchau e busque outra loja. Essa técnica baixo nível é muito usada por vendedores que não querem perder o cliente, mesmo sabendo que no grau de surdez que ele está os aparelhos auditivos serão de pouquíssima ajuda.
Como vamos comparar o aparelho atual com o novo?
Se a proposta é ouvir melhor, pergunte como essa melhora será avaliada. Dependendo da queixa, testes de fala no silêncio e no ruído podem ajudar nessa comparação. Também leve em conta situações importantes da sua rotina. Entender alguém numa sala silenciosa é uma experiência diferente de acompanhar uma conversa num restaurante cheio.
Estou esperando algo que nenhum aparelho auditivo pode prometer?
Aparelhos auditivos têm limitações: não restauram a audição normal e não separam completamente todos os sons que você quer ouvir daqueles que preferiria ignorar. Isso precisa ser explicado antes da compra. Pergunte quais benefícios são plausíveis para o seu caso e quais dificuldades podem continuar existindo. Expectativa irreal também custa caro.
Posso testar antes de decidir, e quais são as condições?
Pergunte sobre o período de teste, os ajustes durante esse período, eventuais cobranças e as condições de devolução. Peça tudo por escrito. E, se possível, experimente em situações da sua vida. Você não está comprando um aparelho para morar no consultório: ele vai acompanhar você no trabalho, em casa e nas conversas que importam.
Qual é o custo completo dessa troca?
Peça um orçamento que detalhe aparelhos, acessórios, acompanhamento, garantia e manutenção. Descubra o que está incluído e o que será cobrado à parte. Depois, compare com o custo de revisar ou consertar os atuais. Meu conselho é olhar para a despesa inteira. Uma parcela que cabe no mês pode esconder uma compra que você ainda nem entendeu direito.
Vale buscar uma segunda opinião antes de gastar esse dinheiro?
Se você continua sem entender por que precisa trocar, procure outro fonoaudiólogo com experiência em seleção e adaptação de aparelhos auditivos. Leve seus exames e seus aparelhos atuais. Peça também recomendações a outros usuários. Eu gostaria muito de ter conversado com pessoas que usavam aparelhos auditivos antes da minha primeira compra. Teria chegado menos vulnerável e muito mais preparada.
Comprar aparelhos auditivos novos pode fazer sentido em muitos casos. O que eu quero é que você saiba explicar, com as suas próprias palavras, por que essa troca faz sentido para você. Se a única explicação que ficou na sua cabeça foi “esse é mais moderno”, ainda faltam respostas.
Depois de tantos anos vivendo a surdez e criando conteúdo no Crônicas da Surdez, continuo defendendo a mesma coisa: informação precisa chegar ANTES da compra.
Venha para o Clube dos Surdos Que Ouvem conversar com pessoas que usam aparelhos auditivos na vida real, com dúvidas, dificuldades e experiências que propaganda nenhuma conta.
E assista às minhas aulas para não errar na compra do seu aparelho auditivo antes de fechar negócio. Sua próxima compra merece mais informação, menos pressa e perguntas que vão além do preço.
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