Deficiência Auditiva

Será que aparelhos auditivos ajudam a prevenir a demência?

Muita gente quer saber se tratar a surdez usando aparelhos auditivos ajuda a prevenir a demência – especialmente pois esse é um fator fundamental para convencer pessoas de mais idade a usá-los. Traduzimos o último artigo publicado no The New York Times sobre isso.

“Há muito tempo a perda auditiva é considerada uma parte normal, e, por isso, aceitável do envelhecimento. Comum ela é: as estimativas sugerem que ela afeta dois em cada três adultos a partir dos 70 anos. Ela também raramente é tratada. Nos Estados Unidos, apenas cerca de 14% dos adultos que sofrem de perda auditiva usam aparelhos auditivos.

Um corpo cada vez maior de pesquisas, porém, sugere que a perda auditiva pode ser um fator de risco significativo para o mal de Alzheimer e para outras formas de demência — e que a associação entre perda auditiva e declínio cognitivo potencialmente começa em níveis muito baixos de deficiência.

Estudos

Em novembro, um estudo publicado na revista JAMA Otolaryngology — Head and Neck Surgery examinou dados relativos a audição e performance cognitiva de mais de 6400 pessoas a partir dos 50 anos. Tradicionalmente, os médicos diagnosticam a deficiência quando alguém vivencia uma perda auditiva de pelo menos 25 decibéis, um limiar um tanto arbitrário.

Porém, para o estudo da JAMA, os pesquisadores incluíram a perda auditiva até zero decibéis em sua análise, e verificaram que ainda previram pontuações respectivamente menores nos testes cognitivos. “Parece que a relação começa no momento em que a sua audição se torna imperfeita”, diz Justin Golub, principal autor do estudo, e otorrinolaringologista no Centro Médico da Universidade Columbia e no hospital NewYork-Presbiterian. Agora, diz ele, a questão é: a perda auditiva efetivamente causa os problemas cognitivos com que foi associada, e, se causa, então como?

Os primeiros indícios a associar a demência foram publicados em 1989 por médicos da Universidade de Washington, em Seattle, que compararam 100 pacientes com demência semelhante ao Alzheimer com 100 pessoas demograficamente similares sem ela, e verificaram que aqueles que tinham demência tinham mais chance de ter perda auditiva, e que a extensão dessa perda parecia corresponder ao grau de deficiência cognitiva.

Porém, essa conexão possível só foi investigada rigorosamente em 2011, quando Frank Lin, otorrinolaringologista na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, publicou com colegas os resultados de um estudo longitudinal que testou a audição de 639 adultos de mais idade que não tinham demência, e os acompanhou por uma média de quase 12 anos, tempo em que 58 desenvolveram Alzheimer ou alguma outra deficiência cognitiva.

Eles descobriram que a probabilidade de uma pessoa desenvolver demência aumentava na proporção direta da severidade de sua perda auditiva no momento do primeiro teste. A relação parece “muito, muito linear”, diz Lin, indicando que, quanto maior o déficit auditivo, maior o risco de uma pessoa desenvolver essa condição.

Em 2017, a revista médica The Lancet reuniu uma comissão para examinar todas as pesquisas publicadas sobre fatores de risco para a demência que possam ser modificados para impedir ou retardar o início dos sintomas. A surpreendente conclusão foi que a perda auditiva é o maior desses fatores — responsável, estatisticamente falando, por aproximadamente 9% de todos os diagnósticos atuais. Isso, diz Lin, foi “um grande sinal de alarme”.

Historicamente, a perda auditiva recebeu relativamente pouca atenção dos clínicos, dos cientistas, e do público em geral simplesmente porque, na opinião de Lin, “é algo que todo mundo tem quando envelhece. Todo mundo fica com rugas e cabelo branco, não pode ser grande coisa, não é mesmo? É uma deficiência invisível.”

Como isso afeta o cérebro a longo prazo?

O que não está claro é como a perda auditiva afeta a estrutura e a função cerebral a longo prazo. Porém, há pistas. Imagens de ressonância magnética funcional mostraram que, se o ouvido manda um sinal embaralhado para o cérebro — seja resultado de má audição ou de ruídos de fundo que interferem com a boa audição — são ativadas não as regiões associadas à compreensão da linguagem, mas as regiões no córtex frontal relacionadas com o raciocínio, com a tomada de decisões e com a memória, “sobrecarregando-as” e fazendo com que elas trabalhem mais para que o ouvinte entenda o que está sendo dito naquele momento.

A perda auditiva também foi associada com uma atrofia do tecido cerebral nas regiões auditivas, potencialmente por falta de uso. As pessoas que não conseguem ouvir bem tendem a sair menos de casa e a relacionar-se socialmente com os outros, o que também é um conhecido fator de risco para a demência. É possível imaginar qualquer um desses processos levando ao declínio cognitivo.

O cérebro é feito de várias redes interconectadas, e se você as desequilibra um pouco ao longo de vários anos, isso pode ter efeitos amplamente disseminados, difíceis de medir com clareza”, diz Jonathan Peelle, professor associado de otorrinolaringologia na Universidade Washington em St. Louis.

Se é esse o caso, diz Lin, “há todos os motivos para pensar que, se você tratar a perda auditiva, essas intervenções poderiam modificar diretamente esses caminhos”, impedindo o declínio. (Ainda não há indícios que permitam dizer se as pessoas que são surdas ou têm dificuldades para ouvir e desenvolvem maneiras alternativas de comunicar-se têm maior risco de desenvolver problemas cognitivos.)

Porém, é mais difícil ver como esses processos poderiam relacionar-se com o aumento de proteínas amiloides e tau que que caracterizam especificamente a doença de Alzheimer. “Você nunca vai impedir o mal de Alzheimer com um aparelho auditivo”, diz Perlle, “mas você pode ajudar as pessoas a funcionar melhor dando esse suporte à cognição delas”.

De fato, os pesquisadores acreditam que o mal de Alzheimer e outros tipos de demência resultam de uma combinação de fatores, a maioria deles genética (foram identificadas dezenas de genes que podem aumentar ou diminuir o risco). Porém, outros fatores de risco têm a ver com o ambiente e com o estilo de vida de uma pessoa, o que inclui a audição.

O tratamento da deficiência auditiva tem portanto o potencial de reduzir o número de pessoas que vivem com a doença. O Instituto Nacional para o Envelhecimento atualmente financia o primeiro estudo clínico randomizado controlado, conduzido por Lin, para verificar se adultos idosos que usam aparelhos auditivos (comparados com aqueles que participam de um programa para gerir nutrição, dieta, e exercícios) têm menos chance de desenvolver demência.

É encorajador que não se conheça risco nenhum no tratamento da deficiência auditiva com aparelhos auditivos, embora esse tratamento possa ser proibitivamente caro. Isso pode mudar em breve.

Em 2017, o Congreso aprovou uma lei que exigia que a Food and Drug Administration regulasse alguns aparelhos auditivos como produtos que não exigem receita; empresas de tecnologia como a Apple e a Bose já estão vendendo produtos que tentam ajudar os usuários a ouvir conversas com maior clareza em ambientes barulhentos. E, caso seja aprovada, a Lei Medicare de Audição de 2019, apresentada em outubro, emendaria o programa para incluir aparelhos e serviços auditivos.

Tratar a perda auditiva mais cedo – e mais rápido

Porém, o estudo da JAMA e outros sugerem que talvez devêssemos nos esforçar mais para responder mais cedo à perda auditiva. Em 2018, Peelle e seus colegas publicaram um pequeno estudo de alunos universitários que afirmavam não ter dificuldades para ouvir. Mesmo assim, eles descobriram que aqueles cuja audição era pior — mesmo em níveis normais — tinham mais atividade atípica em seu córtex frontal ao ouvir frases faladas.

“A maior parte da discussão já circula por aí. Se você tem um idoso com perda auditiva e lhe dá um aparelho auditivo, isso ajuda?”, diz Peele. “O que não sabemos é se a questão toda é viver por 20 anos com um pouquinho de perda auditiva. Talvez precisemos intervir antes.”

Em 2008, o Instituto Nacional de Surdez e Outros Transtornos Comunicativos iniciou uma campanha de proteção auditiva para fazer com que crianças de 8 a 12 anos evitassem a exposição prolongada a sons altos ou os bloqueassem com proteções de ouvido. E os especialistas sugerem que qualquer pessoa que esteja tendo dificuldades para comunicar-se verifique a audição. (Um clínico geral pode fazer um teste inicial.)

Golub acredita que mudar a maneira como pensamos a relação entre audição e saúde pode inspirar as pessoas a tomar precauções para impedir a perda auditiva e para tratá-la mais cedo. “Sempre a enquadramos como deficiência”, diz ele.

“Mas gosto da ideia de boa forma auditiva. Ouvir melhor é melhor para você e melhor para a sua mente. Se você diz a um universitário: ‘Não estoure os ouvidos com som alto porque quando você tiver 70 anos vai ter maior risco de demência’, ele não vai ligar. Mas, se você disser: ‘Ei, ouvir é bom para o cérebro, quanto mais você ouvir, melhor’, isso tem implicações imediatas.”

Kim Tingley  |(tradução de Pedro Sette-Câmara)

Publicado em The New York Times, 20 de fevereiro de 2020

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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