Confesso que quebrei a cabeça pensando em como seria o primeiro post deste novo blog. Acho que preciso me apresentar. A maioria de vocês já me conhece por causa do blog Sweetest Person, no qual escrevo sobre beleza, moda e literatura. Mas o Crônicas da Surdez vai trazer muitas pessoas novas à minha vida que ainda não sabem muito sobre mim. Pois bem, meu nome é Paula Veras Pfeifer, tenho 28 anos e decidi dividir com o mundo minhas impressões sobre as aventuras e as desventuras da surdez.
Surdez??
Pois é. A surdez é uma deficiência invisível. Ninguém me olha e adivinha que não escuto quase nada sem a ajuda de próteses auditivas. Não gosto de estereótipos e nem quero me enquadrar em nenhum. Mas existem vários ‘tipos’ de surdos: sinalizados (que se comunicam através da língua de sinais), oralizados (que comunicam oralmente e não utilizam língua de sinais) ou bilíngües (usam a língua de sinais e a língua oral).
Para mim, tanto faz ser chamada de surda, de deficiente auditiva ou de surda oralizada. ANão sou fluente em língua de sinais porque ainda não senti vontade de fazer um curso longo (embora já tenha feito um de curta duração), já que não conheço nenhum surdo sinalizado e não teria com quem praticar.
Simplesmente não escuto muita coisa se não tiver uma ajuda da tecnologia. Graças a Deus pela tecnologia! E, cá entre nós, acho que a palavra ‘surda’ é a melhor definição. Simples e certeira. Embora eu não me defina em função disso, que fique claro. É apenas um detalhe – um detalhe importantíssimo que me acompanha aonde quer que eu vá e que me transformou no ser humano que sou.
Este espaço virtual tem a intenção de ser um ponto de encontro para quem vivencia isso, seja por ser surdo, seja por ser amigo ou parente de pessoas surdas. Gostaria de fazer um pedido: se você conhece alguém que possa gostar e se identificar com esse blog, indique-o.
A surdez, por incrível que pareça, ainda é um grande tabu. Não tenho intenção de discutir ‘certo e errado’, apenas quero dividir com o mundo as minhas experiências. Minha deficiência não é segredo nenhum, mas nunca fiz questão de sair anunciando isso por aí. Primeiro, porque é algo pessoal. Segundo, porque nem todas as pessoas são capazes de lidar com essa informação sem julgar e mudar de opinião a meu respeito. Terceiro, porque a surdez é apenas uma parte da minha vida. Ênfase no apenas!
Minha lembrança mais antiga a respeito da surdez remonta às minhas idas ao otorrino todas as vezes em que tive otite. E não foram poucas. Também lembro de reclamar para a minha mãe dizendo ‘tem um apito no meu ouvido’. A parte sem graça, embora engraçada, é que o médico que cuidava do meu caso dizia que eu tinha um ‘canal’ que iria abrir quando eu crescesse – e, com a ‘abertura‘ dele, viria a audição perfeita. Bom, a gente tem a opção de aceitar o que nos dizem ou de buscar uma segunda opinião – coisa que só fui fazer quando tinha 17 anos, no segundo ano do ensino médio.
“Deficiência auditiva neurossensorial bilateral de caráter moderadamente severo e progressivo.” Após o diagnóstico, em 1997, a sensação que tive foi de que passava um filme com todos os momentos em que a surdez era nítida na minha cabeça. Tão nítida que não foi percebida. Nunca vou me esquecer desse dia. Na porta do elevador, em frente ao consultório, ainda em estado de choque, olhei para minha mãe e disse “nunca mais toque nesse assunto”. A capacidade de negação do ser humano é fantástica. Finalmente alguém explicou com todas as letras qual era o meu problema, e não aceitei. Surda?? Imagina, impossível.
Muitas coisas começaram a fazer sentido. Por que sempre dei um jeito de sentar nas classes encostadas à parede? Bem óbvio: só assim poderia ter uma visão panorâmica da sala de aula e VER quando alguém me chamasse. Porque ouvir, que era bom, nada. Por que obrigava as pessoas a falarem de frente para mim? Mais óbvio ainda: eu já era mestre em leitura labial sem saber.
Ao mesmo tempo em que pretendia esquecer o assunto e seguir vivendo, fiquei curiosa a respeito de como seria ouvir. Ainda ouvia muita coisa, mas a deficiência auditiva já me prejudicava em vários níveis. Principalmente no convívio social – eu estava ficando cada vez mais introspectiva. Foi então que a saga dos aparelhos auditivos teve início na minha vida. Saga porque minhas primeiras experiências foram péssimas. Mas isso é assunto para futuros posts.
Enfim, aqui no Crônicas da Surdez vou dividir com vocês minhas experiências e minha história de vida. Quando descobri minha deficiência, não tinha com quem conversar, bem como nenhum amigo surdo e nem conhecia ninguém com o mesmo problema. Fui fazendo minhas descobertas sozinha, mas tenho certeza absoluta que meu aprendizado todo teria sido muito mais fácil se existisse alguém, na época, com quem pudesse falar sobre minhas angústias. E minha intenção, com este blog, é ser essa pessoa! Posso garantir que tenho muitas histórias engraçadas – e outras tantas tristes e complicadas – para contar.
Entrem em contato comigo e coloquem aqueles que vocês acham que vão gostar desse blog em contato também. Tem muita gente por aí, de todas as faixas etárias, sofrendo com a surdez e precisando de ajuda. Vamos desmitificar a surdez, de uma vez por todas! Conto com vocês!
PS: ficarei felicíssima com os comments, e já aviso que vale tudo: idéias, perguntas, sugestões e tudo o mais! Se você também possui algum grau de deficiência auditiva e conhece alguém que tenha, entre em contato comigo e sugira o Crônicas! Vamos interagir!
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