Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva Deficiência Auditiva

A historia da Katharina: saindo do armário da surdez

‘Querida Paula,

É a primeira vez que mostro ao “mundo digital” a minha deficiência auditiva, quem sabe assim posso aprender finalmente a aceitar e parar de viver nas sombras dos meus cabelos! 

Meu nome é Katharina, tenho 22 anos e sou estudante de Publicidade e Propaganda na Unisinos, Rio Grande do Sul. Sou deficiente auditiva desde que nasci. Por ser uma surdez moderada, só descobrimos quando eu estava na pré-escola – eu não respondia aos chamados da minha professora e dos meus coleguinhas. Desde então, uso aparelhos auditivos nos dois ouvidos e já estou no meu segundo aparelho.

Admito que muitas vezes tenho vergonha de comentar sobre a minha deficiência. Sendo que muitos colegas e amigos nem desconfiam. “O que é isso saindo do teu ouvido?”, perguntou um colega nesses dias apontando para o meu ouvido, “É um aparelho auditivo, não consigo escutar direito”, respondi desviando de qualquer outra pergunta e de outros olhares que acompanhavam o rápido diálogo, “Se eu não tivesse visto, nunca saberia”, disse ele fitando, ainda, meu ouvido.

Mesmo utilizando o aparelho, meu cérebro não identifica e se concentra em um determinado som ou uma determinada voz, como as pessoas que não possuem  deficiência auditiva fazem. Então, por esse motivo, não adianta dizer “Vai usar os aparelhos que tu fica normal como nós”. Normal. Eu possuo sonhos, desejos, medos e anseios como todos os outros “normais” que vagam por estas ruas. Eu sou tão normal quanto qualquer um. Não estou dizendo que o meu aparelho não me ajuda. Ele ajuda. E muito! Ele só (ainda) não consegue trabalhar junto com o meu cérebro.

Minha maior batalha diária é aceitar a deficiência. Durante toda a minha infância e minha adolescência, conheci só uma pessoa que também portava a mesma deficiência que a minha: um querido vizinho que, carinhosamente, chamo de meu “avô emprestado”. Quando ele se mudou, eu ainda era pequena, tinha uns 10 anos de idade. Naquele momento, era só eu. Vejo o quanto isso impactou hoje na minha vida. Me sentia sozinha num mundo que não conseguia ouvir. Não tinha ninguém perto que sabia como eu me sentia. Nesse tempo eu aprendi a usar o aparelho e não a aceitar a usar o aparelho, usava por obrigação. Muitas vezes ainda uso por obrigação e não por aceitar que preciso deles. 

Outra batalha diária é com os impacientes, sejam eles conhecidos, desconhecidos, amigos, colegas, familiares. Aqueles que não sabem diferenciar entre gritar e falar mais alto, te constrangendo na frente de amigos e colegas. Ou aqueles que falam contigo de costas ou com a mão na frente da boca. Ou aqueles que dizem “esquece” depois de repetir duas vezes. Os ouvintes não têm ideia do quanto isso dói e do quanto isso desmotiva a pessoa a aceitar a sua deficiência. Muitas vezes eu corri para casa e desabei no choro por causa dessa simples palavra. Desmotiva. Dói. Não é em vão que há aquele ditado onde diz que “palavras machucam mais que atos”. E tudo isso acaba gerando raiva de si mesmo, gerando raiva da própria deficiência.

Meu maior medo? Perder a audição. Deixar de ouvir a voz dos meus pais e das pessoas que eu amo. Deixar de ouvir as músicas da minha banda predileta, o Coldplay. Deixar de ouvir as ondas do mar quebrando na areia da praia e dos pássaros numa manhã de verão. Deixar de ouvir o som da chuva quando eu vou dormir. Deixar de ouvir a música clássica nas manhãs de domingo enquanto meu pai prepara o café da manhã. Deixar de ouvir diferentes línguas. Deixar de ouvir os meus risos prediletos. Deixar de ouvir quando bate o vento nas árvores. Inúmeras vezes já chorei e me desesperei com essa ideia. Inúmeras vezes tentei ouvir o máximo de sons que podia, com medo de um futuro tão incerto.

Não vale dizer “sei o que você passa” se você nunca passou por aquilo. É a mesma coisa quando me perguntam se eu sinto falta de ouvir um tal som que não identifico. Como eu vou sentir falta de uma coisa que nunca conheci? Que nunca tive? O que eu peço não é pena, o que eu peço (e quase suplico) é paciência e respeito comigo e com todos os outros que possuem qualquer tipo de deficiência. Quem sabe dessa maneira, com estes pequenos gestos, façamos grandes mudanças? Seja na vida de uma pessoa com ou sem deficiência ou no mundo? É preciso praticar a paciência, o respeito e o amor ao próximo. É gratuito e recíproco.

Obrigada pela atenção e por todo o carinho! Tu não tens ideia de como tu foi e és essencial para essa minha batalha diária de aceitar a minha deficiência, devo muito a ti!

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