Crônicas da Surdez Viajante Biônica

Viajente Biônica: primeira vez na Alemanha

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Eis que chegou o dia de viajar pro exterior pela primeira vez depois do implante coclear. Quando comparo a pessoa que entrou no avião dessa vez com a que entrou num avião para Lisboa em 2012 (última vez que fui pro exterior antes do IC, e o ano de 2013 foi todo em função dele) penso: UAU. Antes, em qualquer vôo, eu tirava meus aparelhos auditivos assim que me acomodava no assento – não queria ouvir turbinas amplificadas e de mais a mais não entenderia nada do que dissessem pelos alto falantes. Agora quero ouvir o vôo inteiro, quero tentar entender qualquer besteira que o piloto ou os comissários disserem, posso conversar com a minha companhia sem ficar vesga de tanta leitura labial.

Falando em piloto, o vôo era Rio-Madrid. Gostaria de tirar o chapéu publicamente para todos aqueles que têm deficiência auditiva e falam espanhol porque, PQP, eu não entendi uma palavra do que aquele homem disse nas 10 horas voando. Fazer leitura labial em espanhol é relativamente fácil, mas esse povo fala muuuuuito rápido. Não sei como conseguem articular tantas palavras tão rapidamente, eu ficava de queixo caído observando as bocas das comissárias. As gravações da companhia aérea em inglês até consegui entender numa boa, mas as chamadinhas do piloto, zulivre….

Dizem que alegria de pobre dura pouco, mas posso atestar que alegria de surdo dura menos ainda. Assim que me acomodei fui checar as opções de entretenimento e lembrei que meu cabo de áudio estava na bolsa. Tcharaaam, quando a comissária surge com os fones de ouvido, vi que o do Luciano tinha três encaixes e pensei ‘ferrou’. Decidi fazer o teste com meu cabo e não é que o bicho funcionou? Juro que quando ouvi som e me senti ‘normal’ com aquele fiozinho no pescoço fiz uma cara igual à daquele bebê do vídeo famoso de ativação de IC que, quando ouve pela primeira vez, abre um sorrisão e larga a chupeta.

Sempre senti um recalque master por não poder usar fones de ouvido e por ter que assistir aos filmes sem áudio nos vôos. Fiquei saltitando na cadeira até perceber que TODOS os filmes disponíveis tinham áudio em espanhol e não tinham legenda nenhuma. O único que tinha legendas me deu um nó na cuca: áudio em francês e legendas em espanhol. Meu cérebro está programado para ficar cuidando as bocas das criaturas, então cuidar daqueles biquinhos franceses e decodificar tudo com legendinhas de espanhol foi sacanagem. Tentei, mas me cansou.

Fizemos escala de 6 horas em Madrid antes de pegar o próximo avião para Munique. No Aeroporto de Barajas avisei que tinha implante antes de passar pelo detector de metais e pela primeira vez me pediram a minha carteira de identificação. Mas não pensem que pediram a do IC, só pediram para disfarçar que não sabiam de que diabos de implante eu estava falando. Lembro da mulher perguntando se eu tinha uma carteira que comprovasse ‘isso’. Acho que o mocinho que me ouviu dizer o mesmo no micro aeroporto de Santa Maria fez uma cara menos ‘ponto de interrogação style‘ do que a do pessoal de Madrid.

Chegando na Alemanha, uma constatação interessante: nas ruas, se você observar bem, vai encontrar muiiiita gente usando aparelho auditivo. Não vi nenhum implante coclear, e olha que estava toda decidida a dar um cutucão na pessoa se visse pra puxar papo. Fico bem louca checando as orelhas do povo pra ver se encontro IC’s e AASI’s.

Essa foi também a primeira viagem ao exterior em que não precisei ser o ‘cérebro’ da operação. Geralmente sou eu que organizo tudo, cuido de tudo, me comunico, decido a programação, blablabla. Dessa vez relaxei completamente e aproveitei os comandos do Lu. Até que percebi o quanto isso era confortável: qualquer coisa que quisesse pedir ou falar olhava pra ele com cara de cão sem dono e dizia ‘faz pra mim?‘. Abusada, a moça. Só fui me dar por conta do quanto relaxei com isso quando chegamos em Lindau e ele me pediu para ir comprar bebida sozinhas numa cafeteria à noite. Fui meio receosa mas deu tudo certo, fiz a compra e ainda bati papo com o garçom. Voltei pro quarto me sentindo vencedora do Nobel da Paz. 🙂

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Em Munique eu e minha sogra pegamos uma condução inusitada para fazer um city tour. Na verdade, queríamos apenas uma carona em grande estilo até uma cervejaria, mas tínhamos tempo livre e o motorista nos convenceu a fazer o passeio. Foi cômico, porque ele pedalava alucinado e queria conversar com a gente em inglês – o detalhe era que ele falava olhando para a frente enquanto dirigia, ou seja, podia ter dado tudo errado. Mas nos comunicamos com ele super numa boa, embora tivéssemos que pedir pra repetir mil frases. Quase no fim do passeio nós duas começamos a conversar em português uma com a outra meio apavoradas que íamos chegar atrasadas no almoço e nem nos passou pela cabeça que o cara fosse poliglota. Nisso, o alemão vira pra trás e diz com um semblante de McGyver: ‘NO TE PREOCUPES‘. Nós rachamos de tanto rir!!

É monstruosamente diferente ir pro exterior se sentindo seguro. Viajar sem apreensão, podendo falar no telefone, me comunicar em outra língua, atender o telefone do quarto, ouvir baterem na porta foi uma experiência única. Passei a vida tento mil cuidados nesse sentido na hora de planejar uma viagem e agora eles não são mais necessários. Isso foi TÃO libertador. E ouvir as cidades é prazeroso de um jeito que nem sei explicar. O som dos passarinhos é outro, o som do burburinho nas ruas é outro, todos os sons são novos e encantadores e eu acabo me sentindo como um bebê recém nascido. O mundo é todo novo pra mim, aos 32 anos.

No vôo de volta, resolvi assistir um filme com aúdio em inglês e sem legendas. Experiência nova, nunca tinha feito isso antes. Dependendo do ator ou da atriz eu conseguia ouvir e entender no ato, e assim dava pra rir nas cenas engraçadas, por exemplo. Mas em boa parte foi ‘embananatório’, pois não entendia e aí perdia o fio da meada. Mas se existe uma lição que aprendi com décadas de surdez foi a tentar, tentar, tentar. Vai que dá, como dizem. Pode ser que um dia eu assista e entenda um filme inteirinho em inglês sem legendas.

Nunca vou esquecer dessa viagem, especialmente por causa de um pedido de casamentosem som! Na hora do nervoso e da ansiedade a gente faz cada uma, mas são delas que lembramos depois.

Na volta, sentei no terraço do apartamento do Rio de Janeiro, conectei meu cabo de áudio e fiquei 1 hora falando no celular com minha mãe. No fim da conversa, disse a ela: “Mãe, tem noção de que há um ano atrás nós duas jamais ousamos imaginar que um dia falaríamos ao telefone desse jeito?“. Passei tantos anos sentindo vontade de poder pegar um telefone e matar a saudade de quem eu amava ouvindo a voz e nunca pude. Agora, posso. Minha gratidão por essa reviravolta completa que minha vida deu desde o ano passado só cresce a cada dia. Hoje entendo como um tom de voz alterado magoa, como berros irritam, como uma voz carinhosa conforta, como a voz de quem amamos a 2.000km de distância nos faz sentir perto e como as frases mais inesquecíveis que nos dizem nessa vida sequer precisam de som.

A sensação de preenchimento da alma que o som me dá é algo que eu gostaria que todos vocês um dia possam experimentar – e tenho certeza que aqueles que já experimentam entendem minhas epifanias e deslumbres.

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Um beijo enorme em cada um de vocês e obrigada por acompanharem minhas peripécias,

71 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

14 Comentários

  • Olá Paula, parabéns pelo passeio, aproveita bastante.
    Fui naquele lugar que me indicaste por email para procurar por aparelhos auditivos e fiquei bastante animada com o que vi, porém algo me deixou desconfiada. Até então o tipo de aparelho indicado para mim era um de 6 canais, só que ao fazer a consulta no lugar que você mencionou a fono me indicou um de 16 canais, ou seja, mais que o dobro.
    Estou super empolgada pelo aparelho por causas das N vantagens, mas não sei se posso confiar na fono, o de 16 canais é absurdamente mais caro, o dobro de valor de um de 6.
    E agora o que eu faço?
    Como eu faço para descobrir com precisão e confiança quantos canais eu necessito num aparelho? Pois vou fazer uma dívida enorme com o banco para poder comprá-los.
    Não sei se a fono quer me vender o mais caro para poder lucrar ou ela ta certa..Que agonia!
    Grande abraço! Adoro seu blog!

    • Pede para fazer um teste com os dois. Os com mais canais tem mais recursos, som melhor e são mais sofisticados também.
      Boa dica é ires numa fono que não vende aparelhos, fazer uma audiometria e pedir uma opinião.
      Beijo

  • Paula que máximo esse post, vc contando das coisas que está descobrindo… Ouvir é tão natural pra mim que depois de ler seu post fiquei pensando que tenho algo precioso e nem me
    dou conta, bom ler histórias como a sua pra dar um pouco mais de valor… E fiquei super feliz por vc tbem com o pedido de casamento, te acompanho no Sweetest, sou a fã número 1 do Pequenos Escritos…nunca tinha visto fotos suas com algum namorado e aí de repente vc apareceu feliz, meio que me deu esperança sabe? De encontrar alguém legal tbém, as vezes desanimo demais com essa coisa de amor, aparece cada coisa que só por Deus rs enfim é isso…. Beijão e Felicidades!!!!

  • Parabéns por tudo Paula!!! Sempre me emociono quando leio seus textos, especialmente porque sinto igualmente todas essas novas redescobertas, acho que devo escrever um livro chamado minha primeira vez… porque parece que em tudo que faço pós IC está sendo minha primeira vez. Gostaria de enfatizar o que falaste sobre o desconhecimento de pessoas em relação ao IC. É incrível como as pessoas não conhecem, aqui em Caxias do Sul fico admirada quando vou a um médico e digo que fiz IC e ainda preciso explicar o que é e como funciona. Eu explicando isso para um médico…e não são um, mas vários. Fico pasma.
    Abraços

  • Parabéns por tudo, Paula!! A vida dá voltas mesmo e, com certeza tu merece toda alegria do mundo!
    Só fiquei curiosa com esse pedido de casamento!!!

    bjs

  • Também amei o seu texto! Virei fan de carteirinha e o facebook tem me ajudado a manter-me atualizada dos seus posts! Pedido de casamento? Uau! Que coisa maravilhosa! Parabéns!

    Além de ver diariamente pessoas com IC aqui (vejo muitas crianças, pois acredito que meu olhar é sempre desviado para elas), hoje me lembrei de você, porque estou lendo um livro muito interessante que se chama Far from the tree. Acho que já existe em português para vender. O autor fala de diversidade, de como as pessoas lidam com um filho que tem algum problema físico ou até psicológico. Passei por um capítulo hoje em que ele fala sobre os surdos que nao querem fazer o implante, que preferem ser surdos, porque sempre foram assim e isso faz parte da identidade deles. As análises do autor sao bem interessantes. Acho que vale a pena ler.

    Beijos

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