Crônicas da Surdez Eventos e Palestras

Crônicas da Surdez no Facebook: como foi a ida à Califórnia

De volta à vida real, escrevo esse post com o notebook nas coxas em frente ao berço enquanto o bebê decidiu dar um descanso que deve durar uns quinze minutos, rsrsrs! Vocês leram o post que contou que o Crônicas da Surdez foi selecionado para ser uma das 5 comunidades que receberão um fundo de até 1 milhão de dólares do Facebook, certo?

Bem, imaginem como está a minha cabeça. A sensação que tenho é a de que estou vivendo dentro de um liquidificador desde que recebi a notícia. O mais engraçado é que criei a comunidade no FB justamente porque não dava mais conta de responder a quantidade de mensagens que recebia com perguntas/pedidos – e, desde que soube da novidade e o resto do mundo também, isso precisa ser multiplicado por dez.

Já fica aqui o meu mais sincero pedido de desculpas a todos para os quais estou devendo um email/mensagem/WhatsApp. Sou uma só e a vida real engole a gente de um jeito que vocês sabem bem…

Mas vamos lá! 🙂

A chegada

Cheguei no aeroporto de San Francisco após um vôo de 5 horas de NY e havia um motorista me esperando, com plaquinha na mão e tudo (fiquei me sentindo a Xuxa, rsrsrs). Fui para o hotel, e de lá chamei um Uber para ir até o Google. Assim que entrei no carro, me deparei com um vovô muito fofo e super conversador, que não parava de falar.

Quando ele me perguntou o que eu estava fazendo na Califórnia e contei, aí sim que ele não parou mais. Comentei como continuava sendo emocionante para mim conversar com um motorista estando sentada no banco de trás de carro, já que passei a vida inteira sem ser capaz de fazer isso. E em inglês então… Mesmo 5 anos após o primeiro IC, sigo dando suspiros profundos em várias situações. Essa foi uma delas! Muitas coisas que hoje consigo fazer seguem parecendo surreais para mim. Emoção e gratidão definem. 🙂

Google

Assim que cheguei na Califórnia, fui direto para o Google, a convite do Itamar, que é engenheiro da empresa. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com um telefone TDD por lá, no tour de acessibilidade, como se aquilo fosse acessibilidade para qualquer surdo em pleno 2018. A vontade era de sentar e chorar – e era o segundo TDD do dia, pois o primeiro estava no meu quarto de hotel, decorando a mesinha de cabeceira, rsrsrs!

Minha anfitriã foi a engenheira Olga, e conversei MUITO com ela sobre o poder que eles têm de mudar toda uma cultura anti-acessibilidade. Sim, porque quem atinge milhões/bilhões de pessoas todos os dias tem esse poder, basta querer. Na minha ingenuidade, imaginei que as gigantes de tecnologia soubessem mais sobre surdez do que a cartilha básica – e errada – de que ela é obrigatoriamente sinônimo de língua de sinais.

A notícia boa é que o Google acaba de lançar uma ferramenta sensacional de acessibilidade, chamada Google Slides, por enquanto apenas em inglês, mas em breve em várias línguas. Leia mais sobre isso aqui. Basicamente ela transcreve o que um palestrante diz para texto, em tempo real, com uma qualidade que beira a perfeição – pude conferir a eficácia no Brasil, numa visita ao Google de Belo Horizonte.

Facebook

Segunda parada foi o Facebook, no famoso endereço Hacker Drive n.1! Lá, pude rever meus amigos queridos Noah, Adhunika, Christian e Latasha e conhecer os outros 100 participantes do programa – em especial a turma de brasileiros!

Tivemos um jantar de boas vindas, algumas horas de interação intensa e conhecemos a agenda dos próximos dias. Aí, todo mundo foi para o hotel descansar um pouco.

 

Na ida a NY com o time do Facebook eu já tinha ficado nervosa por conta dos desafios auditivos, afinal, passava o dia com pelo menos 5 pessoas de 5 nacionalidades diferentes falando em inglês. Na Califórnia o desafio aumentou, já que agora seriam 105 pessoas de 46 países, rsrsrs! #socorro

Mas querem saber? Quem tem tecnologia pra ouvir – e boca – vai mesmo a Roma (ops, Menlo Park). Num local cheio de estrangeiros a verdade é que todos estão na mesma situação: meio surdos! Não é só você que escuta algo e não entende ou fica com vergonha de falar errado, todos sentem isso!

Muitas pessoas vieram conversar comigo para contar que algum amigo ou alguém da família tinha surdez – inclusive funcionários do Facebook. Quando isso acontece sempre fico pensando como é que pode que a gente tenha a sensação recorrente de que é o único surdo da face da Terra. Teve quem viesse me dizer que era surdo unilateral, quem viesse me dizer que o filho era implantado, que tinha quatro tios-avós surdos, que o marido ouvia mal…

 

 

A maioria das pessoas não sabe nada sobre surdez

Essa foi outra constatação nessa viagem. O cidadão comum que não tem contato com pessoas que não ouvem ou ouvem mal nunca parou para pensar no assunto surdez. Teve um dia, durante um treinamento com todas as pessoas do time, em que me levantei, pedi o microfone e falei: “Por favor, pensem em mim quando estiverem criando conteúdo em vídeo e sempre legendem os seus vídeos!“.

Aí, o pessoal começou a dizer que era muito difícil, levava muito tempo, que bastava ativar as legendas automáticas do YouTube, etc. Concordo! Aliás, é por isso que faço tão pouco conteúdo em vídeo. Ainda falta MESMO uma ferramenta que facilite a vida de quem quer e precisa ser acessível. Adoro fazer Stories no Instagram, por exemplo, mas faço pouco porque confesso que me sinto mal de criar conteúdo sem legendas – já me indicaram um app para isso, mas desisti porque para um stories de 15 segundos  são pelo menos 10 minutos editando.

Não sei se já comentei aqui, mas num evento do Facebook em São Paulo cometi uma das maiores gafes da minha vida. Justo eu, que me acho super militante pela causa deficiência, percebi da pior maneira que não entendo nada sobre deficiência visual. Estava conversando com um deficiente visual e não percebi o fato, e o puxei e dei dois beijinhos – na hora percebi que ele ficou super desconfortável e foi aí que entendi o motivo. Pedi milhões de desculpas, e tive uma grande epifania: a gente realmente não manja nada sobre uma deficiência até passar a conviver com ela. Seja na nossa própria pele ou na pele de alguém do nosso convívio. A partir desse dia, parei de achar que todas as pessoas deveriam ser informadas sobre deficiência auditiva, porque isso é irreal.

Adaptações

A verdade verdadeira é que pessoas com deficiência estão sempre fazendo das tripas coração para se adaptarem a pessoas, locais e situações. Quando eu e os outros residentes fomos chamados para gravar um vídeo, parei, pensei e percebi que naquele momento eu não queria me adaptar. Por isso, disse que me sentiria mais confortável falado em português. Pedido feito, pedido atendido.

 

 

Acessibilidade

A moça da foto abaixo se chama Norma e foi a minha captioner durante as sessões nesses dias. Nós ficamos um tempão conversando sobre o quanto é difícil pra nós – que estamos envolvidas até o pescoço com a questão da deficiência auditiva – entender porque os ouvintes não dão a mínima para as legendas!

Pensei que as legendas seriam reproduzidas num telão, como sempre acontece em eventos americanos, mas eles optaram por tablets legendados. Não seria a minha primeira opção pois acabo olhando pro tablet e não para a pessoa que fala, mas era o que havia disponível.

Houve um momento muito engraçado, em que a Norma precisava ir ao banheiro e me mandou um recado pelas legendas do tablet: “Paula, desculpe, preciso fazer xixi!”. Fiquei rindo sozinha depois de ler.

Graças a Deus que pedi legendas, porque assim não perdi uma única palavra do que foi dito. Tudo o que foi dito por quem usava o microfone virou legenda, e me ajudou muito. Em vários momentos eu estava cansada ou sentada longe do palco e não conseguia mais fazer esforço para ouvir-processar-entender.

E várias pessoas vieram curiosas perguntando o que era aquilo e ficaram maravilhadas. Tanto que o pessoal disse para todos que, se alguém mais quisesse, haviam outros tablets com legendas disponíveis. 🙂

 

 

O Brasil bem representado

São 9 brasileiros no total representando muito bem o nosso país. O Crônicas da Surdez como Residente e 8 Fellows: Camila (Politiquê), Mariana (Mommys), Emmeline (StartUp Weekend), Deborah (Força Meninas), Gabriel (Associação do Câncer de boca e garganta), Priscilia (Mulheres que decidem), Louise (Politize) e Ana Laura (Maternativa).

 

A turma de tradutores

Alguns brasileiros solicitaram tradutores de inglês-português. Em três momentos me senti meio insegura e pedi que um deles fosse comigo. Da primeira vez, foi na gravação do vídeo. Mas aí percebi que não tinha necessidade – eu consigo escutar e entender tudo o que me dizem em inglês falando frente a frente num ambiente calmo. Acabou que quem precisou dos serviços foi a equipe, já que decidi falar em português para me expressar de um jeito mais rico e mais longo (em inglês acabo encurtando demais o que quero dizer e resumindo demais e depois fico arrependida).

A segunda vez foi quando me levaram junto com mais dois fellows da America Latina para um hotel no qual estavam todos os engenheiros responsáveis pela ferramenta Grupos do Facebook. Chegando lá, cada um de nós tinha que se apresentar a eles (acredito que era um grupo de 30 engenheiros dos mais variados países). Quando chegou minha vez de falar, eu pedi que o tradutor falasse por mim mas, já na primeira frase, pedi que parasse e segui eu mesma falando em inglês.

Essa experiência me fez um bem danado, especialmente no final quando os engenheiros começaram a me fazer mil perguntas e respondi a cada uma delas. Percebi que preciso ter mais autoconfiança em momentos de tensão e realmente relaxar, afinal, num ambiente como aquele, tirando os americanos, todo mundo pena, tem sotaque, não entende 100% e não fala perfeitamente cada palavra. Acho que surdo tem um pouco de mania de perfeição depois que volta a ouvir, e eu definitivamente quero me livrar disso. E daí se pronunciar alguma coisa errada? Só fui aprender inglês aos 15 anos, quando já tinha surdez severa! Me dou um desconto, respiro e mando bala.

A última vez foi quando me chamaram para uma reunião com os 5 residentes mais algumas pessoas do time do Facebook. Tínhamos pouco tempo e, como sei que eles falam muito e falam rápido, achei mais sensato levar o tradutor junto caso deixasse algo passar. Mas, mais uma vez, não precisei acioná-lo. Quase no fim da reunião, a Deepti me olha e diz: “Estou falando rápido demais? Você está conseguindo acompanhar?“. Respondi: “SIM VOCÊ ESTÁ FALANDO RÁPIDO DEMAIS, estou conseguindo acompanhar mas pelo amor de deus fale mais devagar!“. Todos caíram na risada e ela começou a falar mais pausadamente.

 

 

O último dia

Antes de voltar para casa, tivemos a chance de ouvir a Sheryl Sandberg, que é a poderosa COO do Facebook. Ela fala muito bem sobre a questão da liderança feminina e é autora do livro “Faça Acontecer”. Impossível ouvi-la e não se sentir inspirado a levantar do sofá e mover montanhas para mudar o mundo.

No último dia conversei rapidamente com um engenheiro com surdez profunda chamado Alex, e também participei de uma dinâmica de grupo desafiadora: precisei imaginar como seria estar lá de novo, daqui um ano, no final do programa. O que eu teria conseguido conquistar? Teria sido capaz de melhorar a vida dos membros da minha comunidade?

 

 

Últimas constatações

Ser uma surda que ouve é maravilhoso e um presente dos céus – e da tecnologia. Entretanto, em inúmeros momentos, isso passa a impressão errada para as pessoas que acabam de me conhecer. Fica parecendo que sou capaz de ouvir e compreender absolutamente tudo, em todas as situações – coisa que nem mesmo os ouvintes conseguem. Mas não é assim que funciona. Embora os implantes cocleares tenham me devolvido a autonomia total em inúmeras situações, em muitas outras sigo com as dificuldades de qualquer deficiente auditivo.

Nessas situações sociais do Facebook, com tantas pessoas, sotaques e bocas diferente, todos falando ao mesmo tempo, não foi fácil. Chegava esgotada ao final de cada dia e devo MUITO à acessibilidade fornecida pelas legendas, que me salvaram nas ocasiões em que estava em um ambiente enorme, com acústica difícil.

Voltei para casa com a certeza de que ainda temos um longo e árduo caminho pela frente no que diz respeito a desmitificar a surdez e o uso de tecnologias para voltar a ouvir. E com uma convicção: temos que lutar com unhas e dentes por acessibilidade. Enquanto o mundo seguir acreditando que a acessibilidade que todo e qualquer surdo precisa é língua de sinais, não podemos parar. A diversidade na surdez existe e precisa ser divulgada e respeitada. Enquanto eu viver, não vou parar de correr atrás disso.

32 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Parabéns querida, amei a forma como você descreveu sua viagem e nós do grupo viajamos junto kkk, cada dia estava acompanhando tudo o que você postava no grupo. como são esses tablet legendados que vc falou? Queria solicitar aqui na Universidade que trabalho, pois seguidamente tem palestras e perco muita informação por conta do meu aparelho auditivo ser jurássico kkk. Tenho a opção de pedir tradutora de libras, mas ainda estou aprendendo, aí não consigo acompanhar nem com o aparelho e nem com a libras. Você acha que vai demorar para ter esse google slides em português? já estou ansiosa… beijos Paula querida, um dia quero te conhecer pessoalmente!

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