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O contraste entre a última experiência que tive num hospital e a que estou tendo agora é gritante. A última vez foi quando me operei, e a lembrança que tenho é apenas dos objetos e das sensações que vivi, pois não ouvia absolutamente nada. A sensação que mais me recordo é a de medo, já que não fazia idéia do que acontecia e do que as pessoas estavam falando ao meu redor.

Odiava com todas as forças ser sempre a última a saber do que quer que fosse. Nenhuma informação chegava até mim de modo espontâneo, alguém precisava trazê-la senão eu nem ficaria sabendo. Lembro de passar uma tarde inteira pensando que eu mais parecia uma planta. Estava ali só de corpo presente, pois a cabeça ficava em outra dimensão tentando  buscar sentido e distração num mundo sem som. Não sinto a mínima saudade disso depois que tive a chance de conhecer o outro lado.

Dessa vez, me vi numa situação muito pior. Mas eu ouvia, então pude estar no comando de tudo o que aconteceu. Entrei na ambulância que levou minha mãe para o hospital e mesmo com aquele barulho ensurdecedor da sirene conseguia ouvi-la chamando meu nome lá atrás. Ao entrar na emergência, soube de tudo o que estava acontecendo sem precisar cutucar ninguém e perguntar. Quando ela deu entrada na UTI, lá fui eu para uma longa entrevista com a enfermeira-chefe sem titubear e sem pronunciar um “Hãn?” sequer.

No outro dia, passei mais de três horas pendurada no telefone resolvendo mil burocracias. Quando pude fazer a primeira visita, conheci o som dos monitores da UTI: um pi, pi, pi, pi de enlouquecer qualquer um. Falei com os médicos, plantonistas, amigos que foram visitar. Vivi e venho vivendo (ela continua internada) essa experiência tenebrosa através desse presente que é o implante coclear. Ouvindo, participando, interagindo, entendendo tudo o que acontece, sem precisar pedir ajuda a ninguém.

Se eu ainda não ouvisse, tudo seria diferente. Primeiro, eu não entenderia nada do que a minha mãe fala, pois a fala dela está arrastada e não articula os lábios como antes. Segundo, não sei como obteria as informações já que os médicos só usam telefone para falar – SMS e Whatsapp nem pensar. Terceiro, não sei como teria resolvido tanta burocracia se não falasse no telefone. Depois de viver isso percebi de uma vez por todas que as pessoas não têm paciência alguma e nem estão interessadas em facilitar a sua vida caso você seja diferente.

Até agora, em 1 ano e 7 meses de implantada, foi a primeira situação apavorante que vivi ouvindo. Agora caiu a ficha da dimensão da autonomia e da independência que o implante coclear me devolveu. Me senti segura, capaz, apta a resolver qualquer coisa. Me senti uma adulta e relembrei do quanto me sentia uma criança até os meus 31 anos. Em termos de segurança, pensem comigo: pude ouvir minha mãe pedindo socorro, ligar para o SAMU, ir junto na ambulância, resolver tudo no hospital. Não gosto nem de pensar de como isso tudo teria se sucedido se eu não ouvisse.

O título do post diz ‘Os sons de um hospital’. Eles ficaram gravados na minha memória para sempre. Os pi, pi, pi dos monitores. Os sussurros dos enfermeiros. A chamada para as visitas dentro da UTI. O entra-e-sai de gente pelas catracas. O som da respiração mecânica dos pacientes entubados. O som das macas saindo com cadáveres de dentro da UTI. O som da voz da minha mãe.

Sempre senti muita certeza da minha decisão pelo IC mas, após essa experiência, tive também a certeza de que ele me devolveu TUDO. Antes, quando falava isso, achava que poderia ofender alguém ou soar prepotente. Mas essa é a verdade.

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Lêda Soares
    21/06/2015 at 3:04 pm

    Sinto muito por tudo o que está vivendo, descobri que tinha otosclerose no final de 2013, e nesse mesmo tempo a minha mãe começou a reclamar da sua saúde, início de 2014 minha mãe foi internada, foram dias de muito sofrimento, dias de angústias, hospital, médicos e mais médicos… E a pior coisa foi ouvir o diagnóstico dela… Perdi minha mãe em setembro de 2014, sei exatamente o que você está passando, sei a angústia que está em seu coração, não é fácil, mas você tem que tirar forças de onde puder, pois, ela precisa de você. Espero que fique tudo bem com sua mãe e que ela volte logo pra casa. Fiquem com Deus!

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  • Viviane
    21/06/2015 at 12:23 am

    Paula, boa noite.
    Desejo melhoras a sua mãe. Que Deus lhes dê muita força e coragem para continuarem enfrentando os obstáculos da vida…

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  • Karen
    18/06/2015 at 1:40 pm

    Pois é, é disto que eu percebo que quando os deficientes auditivos se tornam independentes quando possuem o domínio da língua portuguesa, além de possuir recursos como IC ou aparelho auditivo, ambos auxiliam e muito na audição e comunicação! Viva a liberdade e a independência!!!
    Os médicos adoram essas pessoas com deficiência auditiva pela determinação, coragem de enfrentar adversidades e perseveração em aprender língua portuguesa. O meu me adorava e “idolatrava” quando morei em SP.
    Respeito a decisão de deficientes auditivos em usar apenas libras, mesmo com a lei que exige que em espaços públicos e privados tenham pelo menos um intérprete de libras (se é que eu entendi…), tal recurso é escasso na maioria desses lugares. O que torna mais angustiante e conflitante para essas pessoas pois não sabem como resolver questões, tanto as básicas como as complexas, de burocracia. Existem soluções para essas tarefas, porém há “perigos” quando se trata em fornecer informações pessoais como RG, CPF, Nº de conta entre outras coisas, pois estamos em um mundo repleto de indivíduos indesejáveis que se aproveitam de tais situações em que o deficiente auditivo depende de alguém para ajudar, salvo de pessoa de extrema confiança.
    A lei de ação e reação é para todos, pois Deus não está nos corações da população que vive nesse planeta terra. A justiça de Deus prevalece à lei dos homens.
    Parabéns pelo depoimento mostrando a importância de ser independente e ter o domínio da língua portuguesa nessa situação bem como pode acontecer em diversas áreas como: ligar para emergências, resolver burocracias de qualquer coisa (banco, velório, etc…).
    Isso significa ACREDITAR nas suas capacidades, habilidades e competências!!!!
    Somos ilimitados em talentos inimagináveis!!!
    Deus abençoe a todos e beijos!

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  • Márcia Câmara
    18/06/2015 at 11:35 am

    Paula,
    Meu nome é Márcia e, só conheci seu blog há uma semana.
    Meu desejo é que sua mãe melhore rápido, e que você possa curtir ouvir a voz dela por um bom tempo!
    Estou amando receber informações de pessoas que são como eu.
    Sou surda profunda bilateral, minha surdez é progressiva. No momento estou realizando os exames para um Implante Coclear.
    Saiba que você tem sido um canal para me ajudar em minhas decisões!

    Melhoras pra sua mãe e um beijo para você!
    Márcia

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  • Bárbara Vieira
    17/06/2015 at 11:38 am

    Paula,
    Sou mãe do Miguel que é (uni)implantado, acompanho seu blog e um pouco da sua vida pelo Facebook. Estou torcendo pela recuperação da sua mãe. É uma pena que vocês estejam vivendo uma internação. Espero que ela saia bem dessa.
    Cada post seu ou da Lak que mostra a felicidade que sentem ao ouvir e poder resolver tudo na vida me deixa mais certa de que foi a decisão ideal para a vida do Miguel.
    Parabéns pela coragem e muito sucesso, que você possa cada vez mais ouvir os sons dos pássaros e menos os pi pi pis de hospital
    Beijos

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