Crônicas da Surdez Destaques

Desafios auditivos no trabalho, parte I

Entrei para a equipe de Comunicação de uma grande multinacional. É a minha primeira vez na iniciativa privada – para quem não sabe, durante treze anos fui funcionária pública na Receita do Rio Grande do Sul. Aceitei o desafio pois vários motivos, sendo que um deles foi o fato de achar que havia chegado a hora de me desafiar mais em termos profissionais. Dito e feito! Como dizem por aí, cuidado com o que você deseja…  🙂

O primeiro desafio foi logo no primeiro dia, quando precisei atender um telefonema na minha mesa. Barulheira de pessoas falando ao fundo, volume baixo. Resultado: pedi ajuda para a minha chefe, que prontamente atendeu o telefonema para mim. O telefone não tem entrada para cabo de áudio e nem bluetooth, ou seja, o único jeito de atender é o bom e velho colocar na orelha. Acionei a equipe de RH para explicar o caso e pedir que providenciassem um telefone com entrada para cabo de áudio – eles já estão em busca. Aliás, se alguém tiver alguma dica de marca e modelo, por favor, avise.

O segundo desafio foi recorrente em vários dias: reuniões nas quais a pessoa-chave está presente no viva voz do celular. Confesso que fiquei com a espinha gelada em alguns momentos. O interessante foi descobrir que meu cérebro funciona um pouco diferente do que o das outras pessoas. Eu escuto e entendo o que foi dito, mas preciso de uns segundos para processar a informação. Já os ouvintes parecem escutar e processar ao mesmo tempo, sem delay nenhum.

O terceiro desafio foram as reuniões. Embora hoje eu consiga escutar e entender sem esforço, meu cérebro segue com um delay quando são várias pessoas falando sem parar ao mesmo tempo. Presto atenção em alguém, quando começo a processar a informação conseguida, ploft, já tem um terceiro falando e quando vejo parece que voltei à estaca zero. Não é fácil. Acho que só o tempo vai me ajudar nessa questão.

O quarto desafio é o barulho de fundo de um local de trabalho. Telefones tocando o tempo todo, pessoas chamando outras – no meu andar são umas quatro Paulas, então quando alguém grita ‘Paula’ acho que é comigo e levo um susto – , conversas paralelas, risadas. Meu cérebro até hoje não se acostumou com barulho, quanto mais silencioso um ambiente, mais zen fica a minha cabeça. Mas acredito que seja assim para qualquer ser humano. O que constatei é que minha tolerância ao ruído, mesmo após quase três anos como ouvinte-biônica, segue baixa.

O quinto desafio tem a ver com logística. Inventei de mexer no mapa do segundo implante dias antes de começar no novo emprego e, para meu azar, ele começou a consumir pilhas LOUCAMENTE. Sem falar que, um dia antes de começar, uma das minhas baterias recarregáveis grande simplesmente quebrou – a parte de metal descolou da parte de plástico. Nervosa com o fato de não ter certeza da duração das baterias recarregáveis dos meus implantes, voltei a usar apenas pilhas comuns. Administrar isso não é fácil, já que cada lado tem um consumo diferente. Enchi a bolsa de cartelas de pilhas e comecei a fazer uma planilha da duração das mesmas em cada lado, mas quem disse que lembro de preencher a planilha? Resultado, coloquei lembretes no computador e no celular para que, a cada lugar que eu vá, leve junto uma cartela de pilhas por segurança. Chega a ser engraçado. Nas reuniões, levo notebook, celular e pilha, sempre.

O sexto desafio tem a ver com a curiosidade das pessoas a respeito da minha audição biônica. Até agora, todo mundo achou legal. Mas já percebi que o pessoal não faz muita idéia das minhas dificuldades. A capacidade auditiva que os IC’s me dão faz com que eu pareça ‘normal’ demais, mas sigo surda profunda, com as dores e delícias dessa condição.

O sétimo desafio são as diferentes línguas e pronúncias. A empresa na qual estou tem origem francesa, então muitos diretores são franceses. Alguns colegas são italianos, espanhóis, etc. Eu escrevo e leio em inglês perfeitamente mas, por ter ficado 30 anos perdendo audição, não tenho certeza sobre a pronúncia correta de muitas palavras e nem consigo raciocinar e ir falando em inglês com a mesma rapidez mental e verbal dos ouvintes. Ando com um caderninho comigo o tempo inteiro, e toda vez que alguém pronuncia algo que eu desconhecia a pronúncia correta, anoto correndo e fico tentando gravar na cabeça a nova informação. Adorei o fato de que minha chefe, quando nos chama para reuniões que possuem materiais em inglês, faz questão de ler tudo em voz alta. Isso me ajuda demais a gravar mais informações novas de pronúncia. Cérebro de 35 anos (e que teve 30 anos de surdez pra completar) não grava com a facilidade e a rapidez de um cérebro jovem e ouvinte. Treino, tempo e paciência, só isso poderá me salvar. Esse é um desafio e tanto! Baixei um app bem bacana que você digita a palavra ou frase e ouve como é a pronúncia correta da mesma em inglês americano ou em inglês britânico. Maior achado! Vou ter que baixar uns audiolivros também para poder treinar mais o ouvido para a pronúncia correta em inglês.

O oitavo desafio é a vontade de desligar oc IC’s, em alguns momentos, para trabalhar com mais concentração. Muitas pessoas já me disseram ‘ah, mas como eu queria ter um botão OFF‘. Só que soa tremendamente desrespeitoso, no local de trabalho, ficar ‘desligada’.

O nono desafio é o traquejo social. A empresa é gigante, eu sou novata, preciso conhecer as pessoas, fazer contatos, fazer amigos. Vou ter que lutar muito contra o meu comportamento-padrão (cuja origem são meus 30 anos de surdez) de entrar no modo ‘autista’ quando estou rodeada por outras pessoas e não preciso prestar atenção nelas. Até mesmo em família sou assim, acaba sendo mais forte que eu. Mas passei a me policiar para melhorar nesse aspecto.

O décimo desafio são as reuniões em outra língua. Fui a uma por enquanto. Chegando lá, era uma mesa em formato de U para 15 pessoas. Sentei numa ponta e fiquei rezando para entender tudo o que era dito. A reunião inteira foi em inglês, imaginem o meu estado de nervos. Se já sofri para captar as reuniões com 5 pessoas falando rápido em português, imaginem o que não passei com 15 pessoas falando rápido em inglês, sendo que onde sentei não consegui enxergar os lábios de todos, apenas de alguns. Fui apresentada como nova integrante da equipe e, naquele momento, tremi de medo que fossem me perguntar algo e que eu não ouvisse direito a pergunta. Fiquei com os olhos bem abertos e os implantes em estado total de alerta, graças a Deus entendi bastante coisa. Mas confesso que quando terminou, só consegui pensar: “Sobrevivi!”.

Essa primeira semana me fez pensar muito numa frase recorrente que eu costumava dizer à minha mãe: “Cansei de montanhas, quero meu coqueiro na beira da praia!”. A cada dia que passa fica mais claro pra mim que, nessa encarnação, minha missão é enfrentar um desafio atrás do outro, no modo nonstop, até o meu último suspiro. Os últimos três anos têm sido assim de uma maneira intensa e avassaladora, e agora vejo que comecei a me acostumar com isso, que antes me desgradava tanto. Não tenho opção. 🙂

Vou seguir dividindo com vocês meus desafios nessa nova fase que, espero, será de muito aprendizado e muitas sensações gostosas de “eu posso, eu consigo!“. Tem sido eletrizante estar num emprego que sempre desejei, me aventurando na iniciativa privada e, ao mesmo tempo, precisar conviver com tantos desafios auditivos que são estressantes e um pouco assustadores. Agradeço enormemente àqueles que se dispuserem a dividir suas experiências nos comentários. Qualquer dica será de muita valia para mim!

88 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

9 Comentários

  • Paula você me decifrou e, com certeza, outras pessoas. Desejo toda sorte , luz é prosperidade nessa nova etapa.
    Continue assim observando as suas capacidades e lá na frente verás o que venceu!
    Grande beijo e obrigada por compartilhar essa sua nova etapa.

  • Adorei o post, Paula!
    Me identifiquei muito nesse post com meus AASIs, passo por cada uma na faculdade e fazer uma segunda graduação depois dos 30 realmente exige um pouco mais da gente. Novas amizades, novos desafios. E quando querem estudar em grupo, putz…aí que eu fico louca, porque todo mundo quer explicar ao mesmo tempo.
    Muita sorte nessa nova etapa! Sempre torcendo por você!
    Bjooos!

  • Oi Paula !
    Muito interessante essa postagem pois passo pelos mesmos problemas.
    Porém, em situações diferentes.

    Sou surdo oralizado, e uso a prótese auditiva desde os 8 anos de idade (atualmente com 36 anos).

    Estou passando por uma fase complicada agora pois recentemente troquei o aparelho analógico por um digital. Estou notando uma diferença muito grande em tudo e a adaptação está sendo difícil mesmo.
    Chega a ser estranho, há uma modernização dos aparelhos que muda tudo de uma hora pra outra? Deveria ser pra melhor né?

    Sucesso !

    • Oi, Rogério. Tudo bem?
      Estou passando pelo mesmo problema.
      Comprei um aparelho mais moderno há dois meses e está sendo bem difícil a adaptação. Boa sorte nesse novo processo.

      Vamos trocar experiências, acho válido!

  • Paula….te desejo muuuuuiita sorte!!!!!!!!
    Muiiiito sucesso!!!!!!!! Qdo a gente faz o que ama as dificuldades, mesmo grandes,há uma gana maior em vencê-las..E pra quem já venceu tanto…vc vai tirar de letra…com certeza. Conta mais de seu novo emprego pra gente!!!!
    E….fiquei curiosa com esse app….qual é?
    abs

  • Paula, o trabalho é constante. Eu tive um ganho auditivo melhor com o N6 (pulei do Freedom para o N6), a comunicação melhorou bastante, mas frequentemente ocorre de ter de explicar que não estou ouvindo tão bem assim. Participo de videoconferências mensais com várias pessoas. Quando a transmissão e imagem estão ok, entendo praticamente 80% as sofro do mesmo delay que vc. SOfro disso em reunioes pessoais também. E nunca sei o momento correto de me pronunciar, pois enquanto estou processando a informação e desenvolvi ideia para apresentar (e olha que meu raciocínio é rápido…), já passaram para o item seguinte e a oportunidade se perdeu. Ainda bem que existe o email para troca de ideias pós reuniões. Conto ainda com uma boa equipe que me auxilia quando preciso. Meu telefone também não tem cabo de audio, queria que tivesse, ajudaria muito! Minha estagiária ajuda muito no item telefone quando não consigo entender. Enfim, a gente vai superando as dificuldades uma a uma. Com simpatia e charme sempre… e disfarçando o nervosismo!!! hehe… boa sorte!!! sucesso!!!

  • Oi Paula,

    o que eu fiz na empresa em que trabalho foi bem simples: abri o jogo mesmo.

    Montei uma pequena apresentação explicando o que é deficiência auditiva (tipos, graus etc), como funciona o AASI (o que ele amplifica e como é o som – por exemplo vozes “brigando” com o ar condicionado) e, principalmente, dicas de comunicação, como não falar de costas, não tampar o rosto, não apagar todas as luzes quando for projetar algo, enfim.

    O pessoal recebeu super bem, até porque para eles é tudo novo, e eles desconheciam mesmo como lidar comigo rs.

  • Paula! Tenho surdez profunda em um ouvido (onde farei o IC), e surdez severa em outro (onde uso AASI). Tenho 9 de experiência na iniciativa privada. Foram anos no mercado financeiro e atualmente em uma multinacional onde escuto várias línguas. Me identifico muito com tudo o que você pontuou acima. E com base na minha experiência e olhando para os meus primeiros meses de mercado após passar por aqueles anseios e preocupações iniciais, chega uma hora que você acaba simplesmente acaba pegando vícios e manias pra driblar todas as suas dificuldades e acaba se virando sozinha mesmo. As vezes tenho que pedir um help ou outro em uma call…. mas a cada desafio que você supera no trabalho você se sente mais firme,forte e capaz pra ir adiante.
    Muito sucesso na nova etapa!

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