Cheguei em Nova Iorque dia 9 de julho, minha segunda vez na Big Apple. Na primeira, alugamos um apartamento pelo AirBnb, mas dessa fomos para o hotel Dumont, da rede Affinia, na rua 34. Ao chegar, me deparei com a plaquinha da foto abaixo no saguão: “Temos à disposição detectores de fumaça para pessoas com deficiência visual ou auditiva“. É lógico que fiquei morrendo de curiosidade e pedimos que levassem para o nosso quarto, já que eu era surda. Quando o Luciano perguntou para a funcionária do que se tratava, ela ficou toda sem jeito porque não sabia, perguntou para outra, que também não sabia muito do assunto. E eu já fui ficando com aquela cara de ‘ihhhh, acessibilidade só pra constar mesmo‘…
Chegando no quarto, outro aviso, que achei muito legal: “Temos earplugs para um perfeito silêncio“. NY é uma cidade extremamente barulhenta, fato. Quem usa IC ou AASI pode simplesmente desligá-los, mas e quem não usa? Também merece sossego, não? Os hotéis brasileiros poderiam começar a copiar essa iniciativa.
Tempinho depois, um funcionário do hotel bate na porta e nos entrega…um telefone TDD! Não sabia se eu ria ou chorava ou, melhor, se jogava pela janela aquela monstruosidade inútil. Eu e o Luciano nos olhamos e rimos, mas meu semblante era uma mistura de raiva com decepção. Meia hora depois, o funcionário voltou cheio de parafenálias. E elas eram bem legais! Ele trouxe um amplificador de linha telefônica, instalou na porta do quarto um aparelho que me avisava com um vibrador que alguém estava tocando na porta, instalou alarme de incêndio com aviso luminoso, relógio despertador vibratório…
A primeira vez que bateram na porta e o vibrador me avisou, quase enfartei de susto! Foi hilário! Essa experiência me fez pensar que o que cada hotel precisa é ter pelo menos um kit desses (sem telefone TDD, pelamordedeeelllss) à disposição dos hóspedes e, além disso, um atendimento via chat 24hs, para os casos em que o hóspede que não escuta queira pedir serviço de quarto ou tenha alguma solicitação. Pra mim, não tem mistério. O grande mistério, ao meu ver, é o que faz com que os hotéis brasileiros finjam que as pessoas que não ouvem ou ouvem mal não existem, ou não viajam, ou não se hospedam em hotéis. Dia desses perguntei a um gerente de hotel recém-inaugurado no Rio se o hotel era acessível a surdos, e a resposta foi: “Olha, nós temos rampas!” Tô até agora me perguntando como uma rampa seria acessível para mim, mas, deixa pra lá.
Sobre os itens disponíveis, considero primordiais o aviso de incêndio luminoso, o despertador vibratório e o sensor de que estão batendo na porta. Nenhum usuário de IC ou AASI fica o tempo todo com eles – nós dormimos e tomamos banho, e às vezes estamos cansados e queremos simplesmente ficar sem.
Quanto a nós, temos obrigação moral de exigir acessibilidade. Quem não exige não pode reclamar da falta dela! Não me conformo com essa mentalidade brasileira de achar um absurdo que algum local não tenha rampa de acesso (pior, como se rampa resolvesse TODOS os problemas das pessoas que usam cadeira de rodas, mas isso é assunto para uma tese de doutorado) e de achar que as outras deficiências que se virem ou não venham encher o saco com ‘exigências’. No hotel no qual estou hospedada enquanto escrevo esse post, numa cidadezinha da Califórnia, não sei se há o kit-acessibilidade para surdos (vou perguntar no checkout), mas em compensação, na piscina e na jacuzzi lá fora eles possuem um elevador incrível para que os cadeirantes possam entrar e se divertir.
Acessibilidade é simples. É sinônimo de humanidade. E um dia você também pode precisar dela! 🙂
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