Tenho TANTA coisa para contar que nem sei por onde começar, mas vamos lá. Ano passado fui chamada para falar em dois eventos do Facebook Brasil – o Summit de Acessibilidade e o Facebook Experiences. Foi super bacana, e no primeiro eles disponibilizaram legendas em tempo real e foi um espetáculo de acessibilidade.
Tempos depois, a Sheryl Sandberg compartilhou um link na timeline dela chamando para inscrições no Facebook Community Leadership Program. Achei muito interessante e decidi inscrever o Crônicas da Surdez. Como dizem lá na minha terra, não tá morto quem peleia.
Para minha surpresa e felicidade, fui passando em todas as etapas. O processo era confidencial, portanto, eu não podia comentar nada com vocês sobre o que estava acontecendo à medida em que avançava mais e mais. Lembro do meu nervoso no dia da entrevista por vídeo com um executivo do Facebook que estava na Califórnia. Até pedi um intérprete de português mas, no fim, não precisei. Terminei aquela entrevista me sentindo Leonardo di Caprio na icônica cena do Titanic: “I am the king of the world!“. 🙂
Lá no fundo, eu tinha certeza que uma das 100 vagas de Fellowship era minha. Jamais me passou pela cabeça que poderia conseguir uma vaga de Resident, que eram apenas 5. O tempo foi passando e a resposta não chegava. Até que, numa segunda-feira de agosto, chega um email de “Congratulations”. Nossa, eu tremia enquanto lia. Nem lembro de ter sentido um nervoso igual antes. Li tão rápido que nem prestei atenção aos detalhes e liguei pro Luciano aos berros: “Consegui uma das 100 vagas!!”. E ficamos conversando sobre quem seriam os outros brasileiros selecionados e comemorando.
Eis que uns três dias depois, recebo um whatsapp do meu mentor no programa dizendo: “Estamos muito felizes de ter você como a Residente da América Latina!“. Fiquei tipo “oi, como assim?“. Minha ficha demorou um tempão pra cair!
O que isso significa?
Significa que ao longo de um ano vou trabalhar desenvolvendo junto com os experts do Facebook um projeto para a comunidade do Crônicas da Surdez, que será financiado por eles em até um milhão de dólares. Se você levou um susto ao ler essa cifra, imagine eu! É muita responsabilidade, mas também uma felicidade enorme poder fazer isso. A vitória é nossa! Quem está no nosso grupo sabe que pareço uma mala repetitiva falando: NÓS SOMOS UMA GRANDE FAMÍLIA. E é isso mesmo!
Nos ajudamos de maneiras maravilhosas. Seja oferecendo um ombro amigo, seja nos conhecendo nos Conexões Sonoras pelo Brasil (até em Lisboa já fizemos!), seja compartilhando informação importante, seja mostrando a luz no fim do túnel para quem acaba de receber seu diagnóstico de surdez, seja dividindo nossas experiências como usuários de aparelho auditivo e implante coclear com aqueles que vão começar a passar por isso, seja fazendo doações de aparelhos auditivos (até implante coclear novinho já foi doado lá no grupo!).
Costumo dizer sobre boas ações: “Deus tá vendo!“. E acho que ele viu o quanto a gente se dedica nessa rede linda de ajuda, de compartilhamento e de empoderamento, e nos mandou essa chance única de fazer ainda mais e melhor.
Além do Crônicas, outras comunidades brasileiras venceram nas vagas de Fellowship: Politiquê, Mommys,Startup Weekend, Associação do Câncer de Garganta e Pescoço, Mulheres Que Decidem, Maternativa, Força Meninas e Politize! Cada uma delas receberá até 50 mil dólares para desenvolver um projeto para sua comunidade. Para ler mais sobre o Facebook Community Leadership Program, clique aqui.
Nova Iorque
Como se a notícia incrível não bastasse, me chamaram para ir às pressas a Nova Iorque participar do lançamento do programa no Social Good Summit, da Mashable e Nações Unidas. E foi lá que conheci os outros 4 residentes: Adhunika (Índia), Christian (França), Noah (Quênia) e Latasha (Estados Unidos). Pensem numa turma incrível que faz a diferença na vida das suas comunidades ao redor do mundo: são eles!!!
O momento em que pus a hashtag #surdosqueouvem e #cronicasdasurdez na parede do Facebook foi histórico para mim. Chorei! Aliás, me lavei chorando na noite anterior, deitada na cama do hotel, pensando no início disso tudo. Senti uma saudade tão grande da minha mãe que fui procurar mensagens antigas dela no meu email, e encontrei uma que dizia: “Minha filha, essa é a sua missão!“. Ela deixou no primeiro post do Crônicas. Não preciso nem dizer que desidratei chorando depois que li. Sou muito obcecada por sinais, e na manhã seguinte desci ao lobby do hotel e encontrei um livro, que abri numa página aleatória. Li, e era sobre como as mães morrem mas continuam conosco, embora às vezes a gente não perceba a sua presença. Ali, senti como se ela estivesse segurando a minha mão. Faz muita falta na minha vida porque era quem mais vibrava com qualquer mísera conquista minha, e é muito triste não ter ela aqui para dividir essa tão importante. Pronto, já chorei mais e mais.
O time do Facebook que nos recebeu em NY (Brianna, Anna, Amira, Deepti e Rebecca) foi muito hospitaleiro e divertido! Na foto acima, estávamos passeando de riquixá no Central Park.
Passamos dois dias em reuniões nos escritórios do Facebook e do Instagram em NY – no meu Instagram @paulapfeiferm tem toda a aventura nos destaques, confere lá.
Social Good Summit

No dia “D”, que nervooooosooooo!!! Tudo rolou ao vivo no palco, e eu estava em pânico, porque a sensação era de que meu cérebro ia fritar. Ouvir, entender, raciocinar e ainda falar em outra língua 24hs por dia por vários dias me fez conhecer um esforço auditivo que eu ainda não havia enfrentado. Foi um mega treinamento auditivo, é claro, mas meu estômago coitado pagou a conta de tanta adrenalina.
No fim tudo deu certo. Eu disse aos meus colegas que olho para cada um deles e penso nas seguintes frases, que eles disseram em algum momento dos nossos dias juntos:
- Adhunika: “Qual é a sua desculpa para não fazer nada?”
- Noah: “Acredite em você mesmo!”
- Christian: “Sempre solidário, nunca solitário!”
- Latasha: “Um lugar seguro, um espaço de cura!”
Que inspiração! Quantas lições de vida tive durante esses dias. Pensei tanto, me emocionei tanto, revi toda a minha – e a nossa – trajetória para chegar até aqui. Não foram poucos os dias em que pensei em desistir, afinal, o Crônicas da Surdez consome a mair parte do meu tempo, e em muitos meses/anos não consegui/consigo viver exclusivamente dele. Em 2016, entrei para a iniciativa privada por causa disso, mas quando percebi que não conseguia mais tempo para criar conteúdo e administrar nossa comunidade como ela merecia, pedi demissão. Aí vem uma maré alta de trabalho, depois maré baixa. Não é fácil administrar os altos e baixos, longe disso…
O que o Facebook quer é ajudar pessoas comuns que fazem coisas extraordinárias (e na maioria das vezes nem percebem e nem consideram o que fazem extraordinário) a construírem projetos sustentáveis a longo prazo para as suas comunidades. Desse modo, essas pessoas (eu incluída) poderão transformar seu trabalho comunitário num trabalho de verdade e terão a chance de se dedicar a ele 100% do tempo, por muitos anos. É ou não é um sonho?
Quem encontrei por lá…
O surdo americano famosão, o Nyle DiMarco. Ele é tão, mas tão bonito, que todo mundo fica de queixo caído ao olhar para ele.
Viajante Biônica next stop: Menlo Park
Ainda tenho muitas novidades para compartilhar aqui, pois ficarei nos Estados Unidos até o dia 13 de outubro. Daqui alguns dias embarco para Atlanta, para o Congresso da Academia Americana de Otorrino junto com o Luciano. Depois, vou para o Vale do Silício, mais precisamente para Menlo Park, onde fica o quartel-general do Facebook. Lá, os 105 participantes receberão o primeiro treinamento e conhecerão mais detalhes sobre o programa. Fico na torcida para que tenha a chance de conhecer ao vivo a Sheryl Sandberg e o Mark Zuckerberg, claro!
Por último, quero fazer um agradecimento à Cochlear Brasil, que me emprestou um Nucleus 7 para essa longa viagem. Ele está facilitando demais a minha vida!!! Em breve vou reunir todas as impressões a respeito da minha experiência de uso sobre ele num post aqui no Crônicas da Surdez. Já adianto que não precisar de nenhum acessório para ouvir música, me sair melhor em ambientes de ruído ou falar no telefone elevou minha experiência como usuária a outro patamar – eu quase não ouvia música antes, por exemplo, porque minha paciência para carregar/lembrar de pôr na bolsa/conectar acessórios é praticamente nula!
Acompanhe a viagem no Instagram: @paulapfeiferm
Entre para o Grupo Crônicas da Surdez no Facebook
Continue lendo nesta categoria
Crônicas da Surdez
- É verdade que o IMPLANTE COCLEAR É PERIGOSO?
- O ZUMBIDO no ouvido melhora após IMPLANTE COCLEAR?
- O que os SURDOS querem que você saiba
- Como é NAMORAR uma pessoa com DEFICIÊNCIA AUDITIVA
- Como escolher um OTORRINO ESPECIALISTA EM SURDEZ em 2026
- Guia da DEFICIÊNCIA AUDITIVA: CID, direitos e injustiças em 2026
- Como vencer a VERGONHA da DEFICIÊNCIA AUDITIVA
- Como lidar com o aspecto emocional da DEFICIÊNCIA AUDITIVA
- Surdez na Velhice: A audição é FUNDAMENTAL em qualquer idade
- Benefícios do INSS para Deficiência Auditiva em 2026
- As PIORES MENTIRAS sobre surdos, LIBRAS e acessibilidade
- MEU FILHO TEM DEFICIÊNCIA AUDITIVA as lições que aprendi com ele
- ALUNOS COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA: dica para professores
- SURDO ou DEFICIENTE AUDITIVO: qual é o “certo” e por que?
- 5 conselhos para MÃE de um FILHO SURDO
- A Surdez na Velhice: ouvir é preciso em todas as fases da vida
- SURDEZ a deficiência invisível sob a ótica de uma surda que ouve
- Como é Viajar de aparelhos auditivos
- Surdez Dá Direito à Aposentadoria Especial em 2026?
- Carta para a Paula de 1 aninho: Crônicas da Surdez







