Crônicas da Surdez Implante Coclear

Epifanias do implante coclear

rio

 

Ontem me peguei sentada à noitinha na praia de Copacabana pensando na vida. E ouvindo. Ouvindo tudo. Ouvindo muito. Helicóptero, mar, onda quebrando, criança berrando, gente conversando, pessoal jogando bola, vento. Tão bom. Me senti feliz. E grata, acima de tudo.

Quando você passa muitos anos sendo privada gradativamente de ouvir o mundo, as pessoas e a vida, ganhar essa capacidade de volta é espetacular e assustador. Espetacular por começar a ter outra percepção de cada mísero momento e som do seu dia-a-dia. Por sentir uma gratidão que você jamais imaginou que existisse – às vezes sinto como se uma parte de mim estivesse morta e tivesse me sido concedida a graça de ressuscitar essa parte. Pela capacidade de focar no momento presente e tentar viver cada dia com mais coragem. Pelo entendimento de que cada um de nós faz o melhor jogo com as cartas que tem e que nunca se deve julgar as escolhas e sentimentos alheios. E espetacular principalmente por me redescobrir como ser humano e entrar em contato comigo mesma de um jeito inexplicável. Assustador? Ah, sim, eu disse isso. Me assusta a beleza de cada som do mundo. Me assusta o fato de que a grande maioria dos ouvintes não percebe nem capta essa beleza. Enfim, OUVIR de novo é uma facada no coração e um cafuné na alma. Nunca fui TÃO feliz.

Uma amiga fono uma vez me disse que eu teria a sensação de que minha vida recém estaria começando depois do IC. É exatamente assim que me sinto. Quero viver tudo o que me privei nessa vida por medo ou receio. Quero descobrir como é ser essa Paula que ouve. Essa Paula que se sente completa e segura. Que passou a gostar de conversar e adora descobrir as vozes das pessoas novas. Que agora pode falar olhando nos olhos e não mais nos lábios. Que ouve a própria respiração. Que agora consegue gostar de lugares escuros e barulhentos. Que ouve um australiano falando inglês e entende fácil, mas ainda sente vergonha de sair tagarelando em outras línguas. Que bom que só deixo de me sentir essa nova Paula na hora de dormir, ao tirar o IC – mas não importa porque estou dormindo, e nos meus sonhos eu ouço o tempo todo.

71 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Eu fiz o IC em agosto de 2018 e ate agora , maio de 2019, nao ouço bem,ou melhor nao entendo bem,segundo meu fono ouvir é uma coisa, entender é outra.
    O processador pega muito bem todos os sons, mais atrapalham o principal, a voz das pessoas.
    Estou desesperado com isso. Quando leio as Cronicas, nao observo isto descrito, so maravilhas.
    Se alguem puder, por favor me ajudem, pelo amor de Deus.
    Antecipadamente agradeço muitíssimo.
    Jose Carlos Veloso.

  • Sou mãe de um moreno de olhos verdes e sorriso estampado, o Jordi. Cada vez que ligo a máquina, vou ansiosa pro meu e-mail só pra ter notícias sua. O seu sucesso é alimento pra minha esperança, sonho com o dia do amadurecimento do meu filho adolescente. É, já deu pra perceber que com 18 anos o garotinho não quer nada com nada. Por enquanto ainda faço tudo por ele, mas já estou conscientizando-o sobre a independência da vida. Procuro tudo sobre surdez, li o seu livro e outros, faço Pedagogia, comecei Pós-graduação em LIBRAS só para descobrir os caminhos rumo as conquistas pra ele, é que por aqui não tem oportunidades de desenvolvimento, pra não ser ingrata, tem o mínimo de praxe, aí ele pouco se interessa. Bjs e Deus te ampare.
    Gostaria que ele te conhecesse mas IC, nem é pra tocar no assunto. Com pouca experiência ele se faz feliz no mundo do silencio. Obrigada querida, um dia ele vai enxergar os caminhos que você tem feito para ajudá-los, e a mim você fez com que entendesse o mundo dele, você tem o poder de transformar o conhecimento, agregar sabedoria, paciência e consequentemente mais amor para nós ouvintes que ficamos do lado de fora deste mundo silencioso.
    No futuro ele irá entender e vai percorrer os caminhos que embora sejam os mais difíceis, mas é no topo que vemos além do horizonte.

  • Conseguiu traduzir em palavras o que penso.
    Nao tenho IC, mas é o que sinto toda vez que coloco meus aparelhos e penso no presente e no futuro.
    Lindo final sobre os sonhos.

  • Minha mãe tem 77 anos e perdeu totalmente a audição quando tinha 45 anos. Ela há alguns anos foi ao médico e disseram que o caso dela seria esse transplante, na época ainda estavam no começo aqui no Brasil. Qual foi o médico que fez esse transplante? Deve ser muito maravilhoso voltar a escutar. Uma operação dessa é muito cara?

    Obrigada,

    Márcia

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