Crônicas da Surdez

Meu primeiro show usando um implante coclear

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Em função da deficiência auditiva, nunca fui uma pessoa muito musical. Na minha adolescência, comprava CD’s novos toda semana e passava horas e horas ouvindo as músicas e decorando as letras; é daí que vem minha playlist cafonérrima no iPhone. Fui a São Paulo com o Luciano para o show do Caetano Veloso e Gilberto Gil. Nem consigo lembrar qual foi o último show a que fui na vida (só lembro de um da Shakira e outro da Ivete Sangalo, há décadas, abafa!) por isso fiquei mega ansiosa e curiosa pelo que aconteceria. Afinal, agora eu sou uma ‘ouvinte’ graças ao implante coclear.

Se há um ponto no qual o implante coclear ‘ainda não chegou lá‘, esse ponto é a música. Como passei por todos os graus de deficiência auditiva, sei muito bem como é ouvir perfeitamente e também como é ouvir apenas as partes da música que meus ouvidos eram capazes de captar. E como agora ouço música através de um IC, também sei que ele é diferente da audição natural nesse quesito. Não acho diferente de um modo ruim, pelo contrário, a minha experiência me faz achar que é um diferente suave; a audição natural ganha do IC pois tem o poder de captar todos os tons, nuances e pequenos ínfimos detalhes que fazem de cada música, única.

Com o IC, minha felicidade é entender as letras, coisa que os aparelhos auditivos e meus ouvidos não eram capazes de me proporcionar. Mas, infelizmente, na parte instrumental o IC deixa a desejar. É engraçado porque muitas músicas que eu ouvia antes de me operar hoje soam diferentes para mim: tenho o que sempre quis (entendimento das letras) mas não tenho exatamente o que tinha antes (uma clara, limpa e gostosa percepção instrumental). Há algum tempo atrás assisti um vídeo de um pesquisador americano falando exatamente sobre isso: o IC dá ao usuário tudo o que ele precisa, mas ainda precisa dar a beleza da música e de suas nuances. Chegaremos lá em algum tempo, tenho certeza disso.

Voltando ao show, cheguei otimista demais, achando que seria uma experiência inesquecível, que eu finalmente teria prazer numa apresentação musical por entender as letras e curtir as músicas. Nosso lugar não era o ideal, bem no meio, de frente para o palco, mas num andar superior (dá pra ver pela altura em que tirei a foto do post). Mas decidimos ficar perto dos nossos amigos e trocamos de lugar com duas pessoas que estavam no camarote deles. Só que aí, a coisa complicou pro meu lado: agora estávamos no canto direito, colados na parede. Ou seja, meu lado ‘ouvinte’ estava coladinho na parede e o lado surdo é que estava recebendo a informação sonora, rsrsrsrs.

O resultado foi catastrófico: devo ter entendido umas dez palavras enquanto ainda estava me esforçando e prestando atenção. Como a música chegava péssima e disforme até mim, não demorou muito para que eu desistisse do show e me isolasse da turma. Passei o tempo todo mexendo no celular e querendo me teletransportar para outro lugar. Fiquei desconfortável e deslocada, dois sentimentos que há quase dois anos eu não vivenciava em função da surdez. Dias depois conversei com minha fono Márcia Cavadas e ela me perguntou se eu conhecia as letras das músicas, disse que não e ela respondeu que então era assim mesmo até para os ouvintes que não conheciam.

Fiquei pensando que, enquanto deficientes auditivos, nós nos acostumamos a alguns sentimentos chatos, como o de não conseguir, não fazer parte. E quando fazemos um implante coclear e passamos a conseguir fazer coisas que antes não conseguíamos e passamos a nos sentir parte das interações sociais, um momento como esse do show é como um soco na cara. Saí de lá cabisbaixa. Acontece. Mas que dói, dói. Só vou a um show de novo se conseguir ingresso para ficar de frente para o palco e exatamente no meio da platéia… 🙂

Me contem as experiências de vocês em shows após o IC?

22 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Boa noite, Paula!!

    Eu tenho 30 anos e uso aparelho desde os 14 e adoro… SHOW DE ROCK!! Paulera mesmo, desde AC/DC, passando por Metallica e relaxando com Aerosmith. Sempre vou em shows, mas hoje evito ir a shows em estádios já que danado do som “foge” e confesso que me sinto frustrados. Em caso de shows como o Citibank Hall em São Paulo, eu já fico muito mais satisfeito porque o som sai correndo, pula, bate na parede e eventualmente chega até onde você está!! Eu adoro música e amo ir a shows e mesmo não ouvindo tudo 100%, ainda há toda a energia da expectativa da banda entrar, a animação do público, a hora que as luzes se apagam, os fogos, as super produções. Acho que mesmo não sendo top na parte de ouvir a música, se você considerar a experiência de uma maneira global, não há do que se arrepender nos casos em que você realmente gosta da banda e esteve disposto a investir o seu tempo e dinheiro para vê-los ao vivo!! Nada é mais legal do que ver sua banda favorita tocar…

  • Eu não sou implantada, uso AASI, e, no quesito música, eu sempre digo: o meu forte não é ouvir. Justamente, porque não entendo letras de músicas, isso me deixa profundamente triste, mas como você disse nos adaptamos e nos acostumamos de não fazer parte. E além disso, tenho também um outro transtorno que é o de não saber dançar, sempre culpei a minha deficiência auditiva por não saber, ninguém nunca me disse que tem relação, mas sempre imagino que seja porque não consigo, por mais que eu admire a dança e queira muito, eu não sei, sou a popular perna de pau, nunca arrisco nenhum passinho com medo de pagar mico. Eu uso atualmente, o modelo intracanal e estou aguardando um modelo retroauricular, imagino eu que seria melhor para ouvir as letras de música, mas pelo que li, não será como imagino. Gostei do post, sinto profundamente pelo que passou, pois sei exatamente o que sentiu, porque não seria diferente para mim a reação e o descontentamento. E vamos continuando na luta!!! Beijos do coração.

  • Também não sou implantada, só uso AASI,mas desde que uso ele, fui a 4 show’s, três do Luan Santana e 1 da Dulce María, os quais eu sou profundamente apaixonada. Nos shos do Luan, eu consegui aproveitar bem, curti muito, e eu estava na pista vip. No show da Dulce, mesmo estando na Área Vip para deficientes, ficou um pouco difícil, porque tinha músicas dela que eu não sabia cantar e o AASI não me permite identificar a letra das músicas, pra piorar, ela canta espanhol e eu só sei portunhol, eu fiquei um pouco deslocada em algumas musicas, mas o show foi incrível. O último show que fui, foi do Henrique e Juliano e, fiquei bastante deslocada, justamente pelo fato da letra das músicas e só consegui cantar duas músicas o show todo, mas o show tava bom, porque eu estava com amigos numa cidade incrível que eu amo e além disso, estava dançando bastante com a minha prima, já que pelo menos eu conseguia ouvir a parte instrumental. O Único show que já fui de arquibancada foi o show da xuxa rsrs, eu fiquei bolada pq queria ir de pista, só que esse show foi três anos antes de eu começar a usar o AASI.

  • Bem, não sou implantada, só “aparelhada”, mas já fui em 3 shows no Morumbi, em SP. Todas as vezes, fiquei na arquibancada. E não aproveitei. Mas depois, conversando com minha mãe (ouvinte), ela disse que para ela também estava difícil. A questão é que eles colocam a música num volume tão alto que ela fica totalmente distorcida, e aí fica difícil para qualquer um acompanhar.

  • Paula , adorei o post , as vezes sinto-me assim ! Antes de ter o ic , ouvia com as proteses , e já desde os meus 6/7 anos vou aos concertos, porque naquela altura tinha quedas de amores por uma banda que existia na altura , e mais tarde deixei de assitir porque a banda já nao existia ( porque é que as bandas separam-se depois de alguns anos juntos ? unf ) e só voltei a ir com 14 anos ,e nesta altura ainda tinha as próteses auditivas e uns 6 meses antes do concerto , treinava a musica horas e horas, até que no dia do concerto , reconhecia a letra pela a batida da musica e quando fiz o ic , nao fui aos concertos por ter medo de falhar e de nao ouvir porque quando estás lá ,és quase “obrigada ” a cantar com o público ( porque é q pedem isto ? ) e por causa disto não assisti e só voltei a ir aos concertos este ano com uma banda e outro a solo , e digo-te que nunca tinha ouvido tao bem o concerto , graças aos treinos sonoros em casa ,e fiquei emocionada por poder ouvir ! Mas dou-te um conselho : treine durante 6 meses antes do concerto , e vais ver que vai resultar

    Beijinhos e bons treinos sonoros :*

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