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Surdez: a assassina silenciosa dos relacionamentos

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A surdez é uma assassina silenciosa dos nossos relacionamentos. Tudo começa quando a nossa teimosia em admitir que não estamos ouvindo bem e a relutância em procurar um otorrino especializado em perda auditiva. Nessa brincadeira, longos anos vão passando sem que a pessoa que tem algum grau de surdez faça alguma coisa a respeito disso. A solução parece ser aumentar o volume da TV ao máximo (até que os vizinhos apareçam para reclamar), dizer que as pessoas próximas falam para dentro, não são pacientes, e uma série de outras coisas que conhecemos bem. O resultado disso é que os relacionamentos com amigos e familiares vão se desgastando e, em alguns casos, até mesmo chegam ao fim.

Digo e repito: a sua surdez é sua responsabilidade. Você pode ter a atitude infantil que quiser durante o tempo que quiser, mas arque com as consequências. Helen Keller, pensadora americana que era cega e surda, disse uma vez que “a cegueira nos afasta das coisas mas a surdez nos afasta das pessoas“. E é isso mesmo que acontece na vida real.

Depois do diagnóstico de surdez, você precisa fazer algo a respeito disso, porque é muito desgastante e cansativo para as pessoas próximas conviver com alguém que não faz nada a respeito do problema que tem. Na maioria dos casos, a surdez tem solução: o uso de aparelhos auditivos. “Ah, mas não tenho dinheiro para comprar!“. O SUS fornece aparellhos auditivos grátis. “Ah, mas demora até receber“. Assuma o seu papel de adulto e fiscalize o andamento do seu processo de perto, após 6 meses, faça denúncia na ouvidoria do Ministério da Saúde. “Ah, mas eu não adaptei ao uso dos aparelhos auditivos“. Faça um favor a si mesmo: pare agora com as desculpas esfarrapadas. Você é adulto, aja como tal. Imagine se toda pessoa que precisa de óculos se recusasse a usá-los por teimosia ou preguiça e passasse o dia inteiro te pedindo para ler as coisas que ela não consegue. Ah, pois é!

Deixa eu te dar uma dica importante. Aquela conversa de “quem me ama tem que me aceitar como eu sou” vale só em dois casos: pessoas muito egoístas e infantis ou então nos casos de problemas realmente sem solução. A maioria absoluta dos casos de perda auditiva, hoje, são passíveis de tratamento e de reabilitação. Portanto, não pense que é justo sujeitar as pessoas aos seus caprichos apenas porque você não quer se dar ao esforço de fazer alguma coisa para ouvir melhor. Já deu para notar que a nossa vibe aqui não tem NADA a ver com passar a mão na cabeça de ninguém, né?

O Curso A Surdez e os Relacionamentos Amorosos pode te ajudar na construção e na reconstrução dos seus relacionamentos. Tornar-se membro do Clube dos Surdos Que Ouvem, idem, porque você terá acesso a milhares de posts e conversas entre pessoas com todos os graus de surdez de todos os cantos do Brasil. Somos uma grande família e temos um propósito em comum: ajudar-nos mutuamente para o sucesso da nossa reabilitação auditiva.

 

clube dos surdos que ouvem

Há ,5 bilhão de pessoas com algum grau de surdez no mundo, segundo a OMS. Reproduzo abaixo um post muito bem escrito, e a tradução livre é minha. Espero que ele lhe ajude a refletir ainda mais e, depois, tomar as rédeas e assumir a sua responsabilidade perante a sua surdez.

Fonte: Huffington Post (tradução minha)

Meu marido, falecido recentemente, usava aparelho auditivo em ambos os ouvidos. Falo sério quando digo que eles salvaram o nosso casamento. E, para ser honesta, como ele perdeu os aparelhos na casa de repouso na qual passou suas últimas semanas, nem tenho certeza de que ele me ouviu quando eu disse que o amava pela última vez.

A perda auditiva é um grande problema. E o fato de que a população está envelhecendo e o número de pessoas convivendo com a deficiência auditiva crescerá consideravelmente significa que isso se tornará um problema ainda maior, de acordo com um estudo publicado este semana pelo JAMA Otolaryngology-Head & Neck Surgery.

Quase 25% das pessoas com idades entre 65 e 74 anos e 50% das pessoas acima de 75 anos possui perda auditiva incapacitante, de acordo com o the National Institute on Deafness and Other Communication Disorders.

Deixe-me mostrar como é ser casado com alguém que não consegue escutar:

As conversas, como vocês sabem, gradualmente se tornam impossíveis. A comunicação é reduzida a uma série de substantivos gritados. Os restaurantes não serão escolhidos com base na qualidade da comida, mas na acústica. Ir a festas se torna muito menos divertido por causa do nível de ruído do ambiente; você eventualmente irá em outro carro para que a pessoa com deficiência auditiva volte para casa mais cedo. O volume da TV se tornará um ponto de discórdia, bem como a distração causada pelas legendas.

Na verdade, muitas coisas viram briga. Quando as pessoas não conseguem ouvir bem, frequentemente elas interrompem quem está falando. Elas não entendem algumas palavras e entram na conversa de modo inapropriado. E a negação da perda auditiva é uma coisa muito real!Você está sussurrando“, meu marido sempre dizia com olhar de frustração, desviando da sua incapacidade de ouvir.

“A perda auditiva é um grave problema de saúde pública”

Dito por Adele M. Goman, autora de um estudo da Johns Hopkins University.

O estudo mostrou que o número de adultos nos Estados Unidos que têm mais de 20 anos e possuem perda auditiva vai crescer gradualmente e chegar ao número de 44 milhões de americanos em 2020 (15% dos adultos dos EUA) e 74 milhões em 2060 (23% da população).

O maior crescimento se derá entre jovens adultos, segundo a autora contou ao HuffPost. Segundo ela, são urgentes as estratégias de prevenção. Melhor preservar nossa audição do que precisar lidar com a perda auditiva.

A perda auditiva tem várias causas – incluindo o envelhecimento. A degeneração das células ciliadas acontece com o tempo. Até mesmo medicações, como o antibiótico gentamicina e outras drogas, podem danificar o ouvido interno. Doenças que vêm com febre alta, como a meningite, podem danificar a cóclea.

De acordo com uma pesquisa da HearingDirect.com , a deficiência auditiva pode levar a crises no casamento e até ao divórcio. O site entrevistou cerca de 1.000 pessoas a partir de 40 anos cuja perda auditiva piorou e descobriu que 33% dessas pessoas disse ter tido discussões com o cônjuge em função da surdez. Dando um passo adiante, o site também observou, em estudo ainda não publicado, que a taxa de divórcio entre casais com um parceiro sofrendo com a deficiência auditiva moderada era semelhante à taxa atual de divórcio da população. Mas os casamentos em que um parceiro teve deficiência auditiva severa terminaram em divórcio em 4x a taxa normal de divórcio da população. Não científico, com certeza, mas vai ao encontro do que estou contando sobre minha própria experiência.

Ainda lembro da sensação que tive quando a surdez do meu marido chegou ao ponto em que eu não conseguia aguentar mais. Nós estávamos de férias em Kauai e ansiosos para ir a um restautante novo muito bem recomendado. O lugar era tão popular que esperamos 1 hora pela mesa, mesmo tendo reserva. Assim que sentamos, o problema ficou aparente. O novo restaurante tinha design minimalista: nada nas paredes absorvia os sons de um restaurante barulhento. Entre o bater dos pratos, a música ambiente e as conversas amplificadas das pessoas que gritavam para se fazerem ouvidas, era puro caos para pessoas como o meu marido, com deficiência auditiva. A cara dele disse tudo. Deixamos o local sem sequer fazer o pedido, ambos nos sentindo vazios.

Eu disse a ele naquele noite que não conseguia continuar vivendo assim. He passou a usar aparelhos auditivos assim que voltamos para casa- e sua melhora foi surpreendente.

Mas há algo que ainda precisa mudar: a Medicare (plano de saúde americano) deveria cobrir audiometrias e aparelhos auditivos para aqueles que precisam, o que atualmente não acontece, tirando raras exceções.

A realidade é que nossa crescente lngevidade é muito legal, mas nós ainda precisamos ouvir! E, para muitos de nós, isso não será possível.

 

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About Author

Paula Pfeifer é uma surda que ouve com dois implantes cocleares. Ela é autora dos livros Crônicas da Surdez, Novas Crônicas da Surdez e Saia do Armário da Surdez e lidera a maior comunidade digital do Brasil de pessoas com perda auditiva que são usuárias de próteses auditivas.

6 Comments

  • […] surdez acaba por afetar todos os relacionamentos da nossa vida, e por experiência própria – e também após quase dez anos escrevendo este […]

    Reply
  • Andrea
    17/04/2017 at 12:48 pm

    Desculpem-me, mas meus amigos e principalmente meus familiares, marido e filhos ficaram muito felizes quando descobrimos que minha surdez tinha “auxílio” – AASI. Se você está incomodando alguém, então você está com as pessoas erradas.
    Uso meus AASI sempre e ainda assim sofria um pouco com os ruídos, mas encontrei no Facebook do Crônicas da Surdez, a Drª Luciana que atende em Sorocaba. Eu e meu esposo não tivemos dúvida e marquei uma consulta com a mesma. Ela resolveu o problemas do ruído em meus AASI e hoje vivo muito bem, graças a Deus. Minha melhora foi significativa e prazerosa.
    Não atrapalhamos os outros, não pensem assim. Somos como qualquer outra obra de Deus (ou em que se acredite), e somos amados. Talvez não por todos, mas sempre tem alguém que nos leva no coração, como todos os relacionamentos.
    Só para finalizar, rompi o tendão do meu ombro em dezembro. Dei muito mais trabalho com um tendão rompido do que sem minha audição “normal”.
    Precisamos nos amar, para que possamos amar os outros e eles a nós.
    “A vida é um eco. Se você não está gostando do que está recebendo, observe o que está emitindo” (Provérbio Indiano).
    Obrigada Paula. Graças ao seu Blog e seu Face, descobri várias dicas importantes que me ajudam sempre!

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  • Henri
    22/03/2017 at 11:41 pm

    Na verdade esse artigo parece propaganda de fabricante de aparelho auditivo. O ruído sempre vai nos atrapalhar por causa do fenômeno do recrutamento, ou seja, nossa faixa dinâmica é bem menor que a de alguém que escuta normalmente, então o ruído nos atrapalha mais, mas é só não ficar num restaurante muito ruidoso, não temos outra alternativa.
    Aliás, com aparelho auditivo esse problema não é resolvido, apenas atenuado um pouco já que o ruído atrapalha também quem usa aparelho.

    Reply
  • renata
    22/03/2017 at 12:55 pm

    Eu concordo com a Valeria. Realmente acontecem alguns ruídos de comunicação. Mas não sabia que era tanto.

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  • Valéria Costa
    21/03/2017 at 8:12 pm

    Eu como deficiente que sou,fico muito triste de saber que atrapalhamos tanto assim avida das pessoas que ouvem bem!Não tinha pensado e olhado desse lado até então.

    Reply
    • Glauber
      16/07/2017 at 10:01 pm

      Mas como assim Valeria? Li a historia, o que realmente atrapalhou a mulher? A surdez do marido?
      mas não entendi uma coisa, no final depois que ele resolveu colocar aparelho melhorou as coisas, então o que estava atrapalhando se ele não usava aparelho e nem ouvia? Num lugar barulhento ele podia ler os labios, sendo que ela é esposa dele, eles deviam ter amor e consideração um pelo outro, essa historia está um pouco confusa, mas concordo que ser surdo não é facil, e quanto a sua declaração de que atrapalhamos a vida das pessoas, acho que isso vai depender muito de nós mesmos, o que podemos fazer sem a ajuda das pessoas, e o que não podemos fazer e precisamos de ajuda, todos precisam de ajuda sem exceção, então não fique triste, o Senhor Deus Eterno Criador sempre nos prepara alguem que nos ajuda a caminhar, Ele é fiel.

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