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Histórias dos Leitores

Uma surda que ouve na linha de frente do combate ao coronavírus

Quando vi a foto da surda que ouve Vanessa Terra tomando a vacina do Coronavírus no nosso Grupo no Facebook, imediatamente pedi que nos enviasse um relato sobre como é ser uma #SQO na linha de frente do combate à pandemia. 🙂
“Me chamo Vanessa Terra, tenho 31 anos, sou biomédica e tenho surdez bilateral profunda. Sou usuária de aparelhos auditivos, uma surda que ouve. Há 6 anos venho enfrentando o processo de readaptação auditiva e – por que não dizer? – de reinvenção pessoal.
Já estamos há 10 meses em uma pandemia que além de tudo, trouxe com ela as máscaras e, como o mundo não é adaptado para nós PCDs, posso dizer que estou há 10 meses fazendo um esforço absurdo para exercer a comunicação de modo a compreender o que as pessoas estão dizendo. Sem a leitura labial, que é um importante recurso pra nós, a interação se tornou mais um desafio.

E como fica isso na vida profissional?

A primeira pergunta que me fiz foi: “Como vou trabalhar?”
De um modo geral, meu trabalho se divide em dois momentos. O primeiro, realizo nas primeiras horas da manhã onde tenho contato com os pacientes ambulatoriais e requer interação com as pessoas.
Me virei. Coloquei avisos no espaço onde fico dizendo: “ATENÇÃO, DEFICIENTE AUDITIVO. FALAR SOMENTE O NECESSÁRIO” e um cartão enorme do DETRAN (constando uma foto e aviso de pessoa com deficiência) pendurado em uma das paredes. Mesmo assim, as pessoas não leem. De 5 em 5 minutos eu precisava repetir “desculpe, sou surda e não consigo te entender”. Isso torna as minhas primeiras horas da manhã bastante exaustivas.
No segundo momento do meu dia, lido com diversas amostras de pacientes ambulatoriais e internados. Mesmo não lidando diretamente com pacientes, temos que atender médicos, enfermeiros, técnicos…
Como estamos falando de um hospital e a área da saúde não permite erros, não tive como não ter medo. Fui tomada por ansiedades e receios de perder qualquer informação, realizar um procedimento incorretamente ou simplesmente não conseguir contribuir com a equipe em alguma hora H. Comecei a pensar em todos os problemas que poderiam ser causados por falha de comunicação, admito que achei que não fosse conseguir encarar essa dupla batalha.
A esperança me foi dada no dia em que uma das equipes das quais faço parte fez uma surpresa. Estavam todos com máscara com visor! Parece pouco, mas foi um dos momentos mais marcantes dessa pandemia.
Vi que consegui tocar as pessoas e elas puderam perceber a falta de acessibilidade que nós enfrentamos. Foi um alívio! Eu pude me comunicar com eles sem que eles ficassem expostos!
A luta continuou sempre com o apoio de todos os membros das equipes, mas ainda haviam situações em que eles não podiam retirar a paramentação, ou não era possível usar a máscara com visor. E foi aí que passei a entender uma palavra ou outra, e, quando vi, já estava conseguindo entender as frases inteiras mesmo sem a leitura labial.

A vacina

No dia 20/01/2021 tomei a primeira dose da vacina. Isso se traduziu em mais uma injeção de ânimo! Passou um filme pela cabeça! No meio de todo caos eu consegui me superar pessoalmente e profissionalmente. Aquele medo que antes sentia não sei se voltará em outra época, mas a certeza que eu tenho é que não deixarei que ele me paralise.
Enfrentei muitas coisas e provei para mim mesma que a minha limitação sensorial não me limita!
Tenho orgulho de ser uma surda que ouve e pertencer à linha de frente!”
Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 comentário

  • Elisia
    02/02/2021 at 12:47 am

    Minha nossa!!! chorei com todo esse desafio. eu sou bancária e a exaustão veio de perto, mas estou em home office, muito angustiada, querendo voltar a atuar, mas com muito receio do cansaço e da falta de acessibilidade, não terei que lidar com uma equipe, mas um publico intenso e com conversação constante. Não terei como pedir mascaras com visor. Muito bom saber que conseguiu lidar com tudo isso. Eu não vejo a hora de tudo isso passar.

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