Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Surdez e vulnerabilidade

Nós tentamos controlar o tempo todo o modo como somos vistos pelos outros e o que os outros pensam sobre nós. A vulnerabilidade é muito poderosa porque nos liberta disso, e nos permite viver mais em paz com a surdez. As pessoas podem ser hostis, os ambientes que frequentamos podem ser dificílimos acusticamente falando, nossa família pode nos impor uma série de desafios desagradáveis, os amigos podem ser zero compreensivos e nossos cônjuges, idem. Para quem tem deficiência auditiva, em geral as possibilidades acima acontecem todas (ou muitas) ao mesmo tempo, infelizmente. C’est la vie

Caminhos da vulnerabilidade

A nossa vulnerabilidade nos leva a dois caminhos.

Primeiro, ela nos assusta e nos faz sentir como se precisássemos viver retraídos, escondidos e causando o menor desconforto possível aos outros e a nós mesmos – foi assim que me senti durante muitos anos, até chutar o pau da barraca da surdez e me revelar para o mundo ao começar esse site, em 2010. A pegadinha aqui é que nada acontece dentro da zona de conforto, não importa se você ouve ou não ouve.

Segundo, ela pode nos deixar tão fortes que queremos rasgar essa ‘pele’ que nos separa de quem de fato somos ou queremos ser. O que separa você da pessoa que você quer ser? Assumir a sua história e viver em paz com ela.

Durante incontáveis anos, fui vítima das circunstâncias e de mim mesma. Qualquer comentário ruim me abatia, qualquer risadinha estragava meu dia, qualquer “não ouviu?” acabava comigo. Minha escolha era sempre ser vencida pela vulnerabilidade, ao invés de ser fortificada por ela. Me expor? Nem pensar. Tremia só de imaginar essa possibilidade.

Quando finalmente me expus, tudo parou de doer. A palavra surda perdeu todo o poder e o peso que tinha. Os olhares e opiniões alheias passaram a ter valor zero. Saí de trás da minha vulnerabilidade e passei a andar de mãos dadas com ela, e foi aí que a chave virou e toda minha experiência com a surdez foi ressignificada.

Nós queremos validação. Queremos que nos enxerguem além da deficiência. É por isso que insisto tanto para que as pessoas com deficiência auditiva, dentro do que for possível na sua realidade, abdiquem do papel de vítima e, antes de qualquer tipo de reclamação e de colocar as coisas ruins da vida na conta da surdez, se olhem no espelho e perguntem: “Estou fazendo o melhor que posso? Estou me esforçando até o meu limite e além dele?

Por que digo isso?

Porque durante muitos anos eu não me esforcei para nada relacionado à minha surdez. Não movi uma palha para me adaptar aos aparelhos auditivos, não tentei falar abertamente sobre o assunto, escondi isso de todos, odiei aqueles que me chamaram de surda mesmo que por brincadeira, e por aí vai…

Os outros nos enxergam além da nossa deficiência quando nós nos enxergamos – e agimos! – além da nossa deficiência. Esse é o segredo, e quanto antes você entendê-lo, melhor.

Me choco quando relembro da importância que eu dava para a deficiência auditiva antes. Ela era a culpada de todas as minhas desgraças, de todos os meus sonhos não realizados, de todos os amigos não feitos, de todos os namoros não iniciados, de todos os meus recalques e problemas. Queria tanto ter tido alguém que me desse um “se situa” bem forte nessa época, mas a vida acabou se encarregando disso.

Os anos passam e tudo continua igual…

Há quase dez anos recebo uma tonelada de mensagens por mês com o mesmo conteúdo: “não consigo me adaptar aos aparelhos auditivos, eles são horríveis!“. Minha resposta SEMPRE tem a ver com um questionamento para entender até onde a pessoa realmente se esforçou para isso.

Invariavelmente, a resposta me mostra todas as vezes as mesmas opções: a pessoa está em negação, tem vergonha da surdez, tem vergonha de usar aparelho, não contou para ninguém sobre isso, acha que dá pra disfarçar o indisfarçável, não se aceita, etc etc… Ninguém se adapta àquilo que não tenta se adaptar – e olha que o ser humano possui uma capacidade linda de se adaptar a tudo. Quanto mais tempo você jogar contra você mesmo, mais difícil será.

Exemplo bobo mas muito conveniente: não se esforçar para se adaptar aos aparelhos auditivos (que sabemos que requer tempo, paciência, uso e treinamento) e reclamar disso é o mesmo que se matricular na academia para perder 20kg, ir duas vezes por mês, continuar comendo mal e reclamar que não emagrece…

Vamos ousar mudar?

Que tal sair de trás da sua vulnerabilidade e abraçá-la, andar de mãos dadas com ela e ainda usá-la a seu favor? Parece loucura mas juro que não é: isso mudou completamente a minha vida. É um risco que vale a pena correr. Abraçar a vulnerabilidade é decidir ter uma vida mais leve, é provar o gostinho da coragem e se encantar por ele. Você consegue!!!

Deixe os outros te verem, deixe a vergonha de lado, deixe o stress ir embora, deixe para trás todo o poder e toda a dimensão que você dá para a surdez na sua vida. Experimente mudar de lado, mudar o foco, se permitir ser quem é e não sentir constrangimento algum por isso. Abraçar a vulnerabilidade, definitivamente, é o caminho! 😉

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Amei, todos santo dia sempre tento ser forte… mas quando essa “vulnerabilidade” chega, tudo me derruba e caio chorando! Ainda bem que tenho uma força que eu mesma desconheço me faz seguir em frente e dizer a mim mesma que consigo! todos conseguem sim! Vamos mostrar que nós somos muito mais do que a deficiência auditiva!

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