Há diferentes tipos e graus de surdez, mas nem todo tipo e grau de surdez é considerado como DEFICIÊNCIA AUDITIVA pela lei brasileira.
Em 2024, a surdez unilateral TOTAL (equivalente à surdez profunda) é considerada deficiência auditiva pela lei brasileira. Outros graus de surdez unilateral (leve, moderado, severo) não são considerados como deficiência auditiva aos olhos da lei.
A classificação das perdas auditivas é realizada de acordo com diferentes dados encontrados nos exames audiológicos. Para descobrir o tipo de perda auditiva e entender se ele é considerado DEFICIÊNCIA AUDITIVA aos olhos da lei, leva-se em consideração a parte do sistema auditivo que está comprometida. Assim, precisamos conhecer (ou relembrar) rapidamente as estruturas que formam o sistema auditivo e como ele funciona:
Estruturas da audição
O sistema auditivo é dividido em sistema auditivo periférico e central.
Por sua vez, esse sistema periférico é formado por 3 partes – orelha externa, orelha média e orelha interna, como ilustrado na figura a seguir:
Como é o Funcionamento da audição?
- A Orelha Externa capta e transmite o som para a orelha média.
- Por sua vez, a Orelha Média transmite e amplia o som para a orelha interna.
- Por fim, a Orelha Interna transforma o som em impulso elétrico e o transmite através do nervo auditivo (coclear) para o sistema nervoso auditivo central (onde o som será interpretado).
Desse modo, considerando a localização do “problema” temos os seguintes tipos de perda auditiva:
- Condutiva: ocorre quando há comprometimento da passagem no som pela orelha externa e/ou média, mas a orelha interna está normal.
- Surdez Neurossensorial: ocorre quando o “problema” acomete a orelha interna (cóclea) e o nervo.
- Mista: ocorre quando há uma “mistura” (sim, por isso é mista!) da perda auditiva condutiva com a neurossensorial.
No audiograma constatamos o tipo da perda comparando a via área com a via óssea. Sem entrar em longas explicações, basicamente, se a via área está alterada (rebaixada) e a via óssea está normal, então a perda auditiva é condutiva (figura 2).
Quando há alteração na via área e na via óssea e elas estão se sobrepondo, ou há pouca diferença entre elas, a perda auditiva é neurossensorial (figura 3). Porém, se há alteração na via aérea e na via óssea e há uma diferença entre elas (não se sobrepõe), a perda auditiva é mista.
Figura 3 – Exemplo de perda auditiva neurossensorial. Fonte: arquivo pessoal
Figura 4 – Exemplo de perda auditiva mista. Fonte: arquivo pessoal
Perda auditiva escondida
Como eu também trabalho com processamento auditivo e prevenção de perdas auditivas induzidas por sons de forte intensidade, não posso deixar de comentar que existe uma condição chamada Hidden Hearing Loss – HHL, algo como “perda auditiva escondida”, que afeta a compreensão de fala no ruído em pessoas submetidas à exposição constante à sons de forte intensidade.
Essa “perda de audição” não aparece no audiograma.
Ou seja, os limiares auditivos podem estar normais, mas a pessoa apresenta queixas bem semelhantes às de pessoas com perda de audição. Isso acontece porque a lesão causada pelo sons de forte intensidade pode afetar primeiro o nervo auditivo e/ou a comunicação do nervo com células ciliadas da cóclea.
Dessa forma, o audiograma se mantém normal, já que as células responsáveis pela identificação dos “apitos” estão íntegras. Contudo a transmissão do som para o nervo está comprometida, dificultando a compreensão de fala, principalmente em ambientes com ruídos de fundo.
A HHL está também associada à problemas como zumbido e hiperacusia. Mas é preciso dizer que o diagnóstico da HHL vem sendo aprimorado nos últimos anos, e já conta com exames mais sensíveis à transmissão sináptica entre as células ciliadas do ouvido interno e o nervo auditivo, e também à própria eficiência da condução do sinal acústico pelo nervo.
Graus de perda auditiva (graus de surdez)
Pronto, agora sabemos quais são e como são definidos os tipos de perda de audição. Vamos entender agora como é definido o grau da perda auditiva.
Existem diferentes classificações quanto a grau da perda de audição, propostas por diferentes autores.
Vou utilizar hoje como referência a classificação da Organização Mundial da Saúde de 2014, adotada pelo SUS e pela maioria dos serviços no Brasil.
Segundo a referência da OMS, para classificar o grau da perda auditiva, deve-se considerar a média das frequências de 500Hz, 1000Hz, 2000Hz e 4000Hz da via área, conforme a tabela abaixo:
Quadro 1 – Classificação do grau das perdas auditivas. Fonte: Conselho Federal de Fonoaudiologia
Quadro 2 – Classificação quanto à configuração da perda auditiva. Fonte: Conselho Federal de Fonoaudiologia.
No exemplo a seguir, na orelha direita temos uma perda auditiva neurossensorial de grau moderado com configuração descendente e na orelha esquerda uma perda auditiva mista de grau severo com configuração horizontal (ou plana)
Ainda, quando classificamos uma perda de audição também podemos considerar a lateralidade.
Essa deve ser a parte mais fácil de entender:
- Bilateral: significa que ambas as orelhas apresentam perda auditiva.
- Unilateral: significa que apenas uma das orelhas apresenta perda auditiva.
Por fim, alguns profissionais ainda gostam de relatar no laudo se a perda auditiva é simétrica ou assimétrica, comparando uma orelha com outra:
- Simétrica: quando a orelha direita e a esquerda possuem o mesmo grau e/ou a mesma configuração audiométrica. Exemplo da figura 3.
- Assimétrica: quando a orelha direita e a esquerda NÃO possuem o mesmo grau e/ou configuração audiométrica diferente(s). Exemplo da figura 5.
A importância da audiometria
Identificar o tipo, grau e configuração da perda de audição, é fundamental para que o médico otorrinolaringologista possa fazer o diagnóstico da causa da perda auditiva e assim possa determinar a melhor conduta e tratamento.
Por exemplo, muitas perdas auditivas condutivas são reversíveis com tratamento medicamentoso e/ou cirurgias.
Por isso, é muito importante que a audiometria seja realizada por um profissional experiente e que sejam realizados todos os exames necessários para um diagnóstico preciso, como a logoaudiometria (ou audiometria vocal), a imitanciometria (ou timpanometria, impedanciometria), entre outros.
A fonoaudióloga Aline Albuquerque Morais escreveu o texto abaixo, a respeito dos tipos de deficiência auditiva, a convite do Crônicas da Surdez.
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