Deficiência Auditiva Fonoaudiologia Post de colaborador convidado

Tipos de deficiência auditiva

Post escrito pela fonoaudióloga Aline Albuquerque Morais a convite do Crônicas da Surdez

A classificação das perdas auditivas é realizada de acordo com diferentes dados encontrados nos exames audiológicos. Para saber o tipo de perda auditiva, leva-se em consideração a parte do sistema auditivo que está comprometida. Para entender melhor isso, precisamos conhecer (ou relembrar) rapidamente as estruturas que formam o sistema auditivo e como ele funciona:

Estruturas

O sistema auditivo é dividido em sistema auditivo periférico e central. O sistema auditivo periférico é formado por 3 partes – orelha externa, orelha média e orelha interna, como ilustrado na figura a seguir:

Funcionamento

  • Orelha Externa: Capta e transmite o som para orelha média
  • Orelha Média: transmite e amplia o som para orelha interna
  • Orelha Interna: transforma o som em impulso elétrico e o transmite através do nervo auditivo (coclear) para o sistema nervoso auditivo central (onde o som será interpretado).

Assim, considerando a localização do “problema” temos os seguintes tipos de perda auditiva:

  • Condutiva: ocorre quando há comprometimento da passagem no som pela orelha externa e/ou média, mas a orelha interna está normal.
  • Neurossensorial: ocorre quando o “problema” acomete a orelha interna (cóclea) e o nervo
  • Mista: ocorre quando há uma “mistura” (sim, por isso é mista! Oh!) da perda auditiva condutiva com a neurossensorial.

No audiograma constatamos o tipo da perda comparando a via área com a via óssea, sem longas explicações, basicamente se a via área está alterada (rebaixada) e a via óssea está normal, a perda auditiva é condutiva (figura 2). Se há alteração na via área e na via óssea e elas estão se sobrepondo, ou há pouca diferença entre elas, a perda auditiva é neurossensorial (figura 3) e, se há alteração na via aérea e na via óssea e há uma diferença entre elas (não se sobrepõe), a perda auditiva é mista.

Figura 2 – Exemplo de perda auditiva condutiva. Fonte: arquivo pessoal

Figura 3 – Exemplo de perda auditiva neurossensorial. Fonte: arquivo pessoal

Figura 4 – Exemplo de perda auditiva mista. Fonte: arquivo pessoal

Como eu também trabalho com processamento auditivo e prevenção de perdas auditivas induzidas por sons de forte intensidade, não posso deixar de comentar que existe uma condição chamada Hidden Hearing Loss- HHL, algo como “perda auditiva escondida”, que afeta a compreensão de fala no ruído em pessoas submetidas à exposição constante à sons de forte intensidade.

Essa “perda de audição” não se manifesta no audiograma, os seja os limiares auditivos podem estar normais, mas a pessoa apresenta queixas bem semelhantes às de pessoas com perda de audição. Isso acontece pois a lesão causada pelo sons de forte intensidade podem afetar primeiro o nervo auditivo e/ou a comunicação do nervo com células ciliadas da cóclea, dessa forma, o audiograma se mantém normal, já que as células responsáveis pela identificação dos “apitos” estão íntegras, porém a transmissão do som para o nervo está comprometida, dificultando a compreensão de fala, principalmente em ambientes com ruídos de fundo.

A HHL está também associada à problemas como zumbido e hiperacusia.  O diagnóstico da HHL vem sendo aprimorado nos últimos anos, contanto com exame mais sensíveis à transmissão sináptica entre as células ciliadas do ouvido interno e o nervo auditivo e a própria eficiência da condução do sinal acústico pelo nervo.

Pronto, agora sabemos quais são e como são definidos os tipos de perda de audição. Agora, vamos descobrir como é definido o grau da perda auditiva.

Existem diferentes classificações quanto a grau da perda de audição, propostas por diferentes autores. Vou utilizar hoje como referência a classificação da Organização Mundial da Saúde de 2014, adotada pelo SUS e pela maioria dos serviços no Brasil.

Segunda a referência da OMS, para classificar o grau da perda auditiva, deve-se considerar a média das frequências de 500Hz, 1000Hz, 2000Hz e 4000Hz da via área, conforme a tabela abaixo:


Quadro 1  – Classificação do grau das perdas auditivas. Fonte: Conselho Federal de Fonoaudiologia

Quadro 2 – Classificação quanto à configuração da perda auditiva. Fonte:  Conselho Federal de Fonoaudiologia.

No exemplo a seguir na orelha direita temos uma perda auditiva neurossensorial de grau moderado com configuração descendente e na orelha esquerda uma perda auditiva mista de grau severo com configuração horizontal (ou plana)

Figura 5 – Exemplo de configuração audiométrica descendente (orelha direita) configuração audiométrica horizontal (orelha esquerda). Fonte: arquivo pessoal

Ainda, quando classificamos uma perda de audição também podemos considerar a lateralidade. Acho que é a parte mais fácil de entender:

  • Bilateral: significa que ambas as orelhas apresentam perda auditiva.
  • Unilateral: significa que apenas uma das orelhas apresenta perda auditiva.

Por fim, alguns profissionais ainda gostam de relatar no laudo se a perda auditiva é simétrica ou assimétrica, comparando uma orelha com outra:

  • Simétrica: quando a orelha direita e a esquerda possuem o mesmo grau e/ou a mesma configuração audiométrica. Exemplo da figura 3.
  • Assimétrica: quando a orelha direita e a esquerda NÃO possuem o mesmo grau e/ou configuração audiométrica diferente(s). Exemplo da figura 5.

Identificar o tipo, grau e configuração da perda de audição, é fundamental para que o médico otorrinolaringologista possa fazer o diagnóstico da causa da perda auditiva e assim possa determinar a melhor conduta e tratamento. Por exemplo, muitas perdas auditivas condutivas são reversíveis com tratamento medicamentoso e/ou cirurgias.

Por isso, é muito importante que a audiometria seja realizada por um profissional experiente e que sejam realizados todos os exames necessários para um diagnóstico preciso, como a logoaudiometria (ou audiometria vocal), a imitanciometria (ou timpanometria, impedanciometria), entre outros.

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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