Crônicas da Surdez Histórias dos Leitores Implante Coclear

A história da Katia: surdez por medicamento ototóxico

Ninguém sabia, mas um dia meu corpo começou a morrer. Deixei de ser aquela criança alegre e brincalhona e me tornei uma adolescente cansada. Cansada e pálida.

A pequena caminhada que fazia de casa à escola já me esgotava. Em casa era só dormir e assistir TV. Preocupada, minha mãe me levou ao consultório médico. Ele analisou os exames e disse que eu estava com anemia profunda onde a principal causa era: “querer chamar atenção”. Apesar de muito cansada, lembrei de ficar muito “P da vida” com isso. Fiz o tratamento sem sucesso.

Meu cansaço aumentou e foi ficando mais evidente com a falta de apetite. Minha avó me encaminhou ao Hospital das Clínicas, onde foi constatado: Leucemia Mielóide Aguda, uma das leucemias mais agressivas conhecidas na época. Foi aterrorizante para todos!

Não havia ninguém na família, escola, amigos que tinha câncer; muito menos em uma menina que havia recém completado 14 anos. Imagine como foi assustador receber um diagnóstico de câncer há mais de 30 anos atrás?!

Foi doloroso, em todos os sentidos.

Durante o período de internação, que durou por volta de 12 meses, tive uma grave infecção por fungos no pulmão esquerdo. Um dos poucos antibióticos que poderiam ser usados para tratar era conhecidamente ototóxico, mas devido à gravidade da situação, era a única alternativa.

Após o tratamento, tive dores de cabeça fortíssimas e horríveis, e fui encaminhada a fazer todo tipo de avaliação médica da cabeça possível. Nunca encontraram nada.

Lembro de ser encaminhada ao otorrino. O médico informou à minha mãe que eu havia perdido a audição e completou com a seguinte frase: “Vão-se os anéis, mas ficam-se os dedos”. Desculpem-me o desabafo: “Mais um profissional imbecil!

Naquela época, para mim não havia perda auditiva nenhuma. Eu só vim a perceber a perda depois ao voltar para a escola. Do mesmo jeito que meu corpo um dia resolveu morrer, um dia meu corpo resolveu viver. Então, contra todos os relatórios médicos, eu comecei a melhorar. PS: Não houve nenhum remédio mágico, e se houve alguma reza milagrosa, ela chegou a Deus por TODAS as religiões das pessoas que doaram sangue e que conversaram com Deus por mim.

Bem, na escola é aquilo que todo mundo sabe. A sala inteira chamava meu nome até eu me tocar que era minha vez na chamada. Uma vez peguei o relógio do meu irmão emprestado e fui toda lindona. O maledeto começou a tocar e eu nem tchum, né? A professora brava perguntou: “Quem é que está fazendo gracinha na sala de aula?” e todos olharam para minha cara. Gente! Todo meu sangue subiu pro meu rosto. E para desligar aquele troço?!

Quando eu assumi a surdez, prestei um concurso público como deficiente auditiva. O que teve de gente me criticando insinuando que eu estava “mentindo”. Como isso dói!

Grupo Crônicas da Surdez + Surdos Que Ouvem

Tentei usar aparelhos auditivos duas vezes. Primeiro: Sim, morria de vergonha e vivia trancada no armário da surdez. Segundo: os modelos analógicos não se adaptavam bem à minha deficiência. Terceiro: eu não conhecia o grupo Crônicas da Surdez + Surdos Que Ouvem.

Vocês podem pensar que é clichê afirmar isso, mas aprender sobre a surdez faz TODA a diferença. Existem pilhas, zumbidos, plasticidade do cérebro, mais pilhas, olivas (abertas ou fechadas), aparelhos (digital ou analógico), acabaram as pilhas, conexão bluetooth, implante coclear, AASI, BAHA, desumidificador, coceira, tem que comprar pilhas, fugir da chuva, cera, BARULHOSSSSSS.

Ser surdo é f…. Ser surdo com AASI/implante é f… ao quadrado. Faz um mês que estou com os “bichinhos no ouvido”. Estou engatinhando ainda. Toda essa caminhada foi muito difícil. O preconceito e as dificuldades são enfrentados o tempo todo, em todos os lugares, mas a jornada da vida é encantadora e poder compartilhar isso com vocês é MUITO gratificante.

Sobre mim: sou formada em Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas pela USP. Fiz mestrado em Biotecnologia pela UMC, e passei em concursos públicos e também trabalhei em empresas privadas. Atualmente, cuido de duas velhinhas muito amadas: minha mãe e minha avó.

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Gostaria de saber se os AP. auditivos tem tempo de vida útil programado. Por serem muito caros é importante saber.
    Obrigada

  • Tive perda da audicao por medicamentos, antibiótico
    Um lado quase tudo o outro 35 % estou inclinado testes com aparelhos, mas apresentá muito ecos e escuto outro barrulhos q não preciso com muita intensidade e o q preciso não, e os aparelhos sao de nivel intermediários de boas marcas
    Acho muito estranho esse som de eletrônicos na cabeça
    Que será ecomo resolver

  • Perdi minha audição devido uma pneumonia aos 10 dias de idade. A única solução na época era o uso de antibiótico .STREPTOMICINA que me deixou com perda auditiva neurosensorial bilateral profunda…

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