Meu nome é Eduardo Soares Guimaraens, sou jornalista e tenho 63 anos e desde do dia 7 de novembro de 2018 sou surdo diagnosticado. Na verdade, não sei quando comecei a perder a audição. Anos, meses? Não tenho certeza, o que vejo são retalhos de memórias da adolescência, como o diagnóstico de TDA no início da adolescência, quando tive aulas de reforço em algumas matérias da escola e terapia.
Também lembro de ter feito há uns 15 anos atrás uma audiometria na DERDIC, que acusou perda leve em ambos os ouvidos, mas sem qualquer indicação para aparelhos auditivos. O que sei é que, em meados do ano passado, comecei a ter a sensação de estar com abafadores nos ouvidos; nesta época os sons já não pareciam ser límpidos, eles eram baços e difusos. Me perdia nas conversas, não escutava a campainha do apartamento ou o interfone e via televisão com o volume bem acima do tolerável. Isso veio acompanhado de ansiedade, mau humor e crises de uma tristeza profunda. Não sabia porque isso acontecia.
Em setembro do ano passado, resolvi consultar uma otorrinolaringologista em função de um desvio no septo nasal que ela achou que não era problema. Mas resolveu que eu precisava de audiometria e me encaminhou para a fonoaudióloga da clínica para exames.
No dia 7 de novembro, com os exames na mão fiz a consulta de retorno e saí de lá com um diagnóstico de deficiência auditiva sensorioneural bilateral moderada (CID 90.5) e com indicação para AASIs, que mais tarde vim saber que se tratavam de Aparelhos de Amplificação Sonora Individuais, ou seja, aquilo que antigamente chamavam de aparelhos para surdez. Minha primeira reação foi de choque.
Não ouvia o que pensava, para mim tinha a audição normal para a minha idade e receber a notícia que tinha perdido a audição definitivamente não é das melhores. E outro fato que me assustou era a história dos aparelhos auditivos nos dois ouvidos. Em primeiro lugar acreditava que eram só para pessoas que tinham perda severa ou profunda e em segundo lugar por acreditar que teria que usar aparelhos imensos e cor de pele atrás das orelhas.
Para obter os AASIs, a otorrino sugeriu que levasse o diagnóstico e a audiometria para um posto de saúde para obter os aparelhos pelo SUS. Como sabia que a burocracia e o tempo de espera seriam grandes para obter e que havia pessoas mais necessitadas do que eu, resolvi procurar uma empresa para comprar os aparelhos. Como minha falecida sogra era surda, fui na empresa que vendeu e fazia a manutenção dos aparelhos dela. E após testar alguns aparelhos seguindo as recomendações do GRUPO SURDOS QUE OUVEM onde tinha recém sido aceito, me decidi pela primeira marca que tinha testado.
Uma explosão sonora
Ainda na loja, ao colocar meus novos “ouvidos” para teste, comecei a perceber o quanto tinha perdido da minha audição. Além das vozes do pessoal da loja ficarem mais claras, ouvi o ar condicionado central funcionando, o som de uma resma de folhas de papel sendo manipulada e colocadas na impressora.
Minha cabeça foi inundada por sons que eu não ouvia mais ou que me pareciam baços, sem brilho. Esperando o elevador, tomei o primeiro susto, o ruído que me pareceu um estrondo era uma porta daquelas com mola sendo aberta. Já na rua, sons diversos das rodas dos carros, buzinas e o vozerio das pessoas. Comecei a curtir os sons ao meu redor. Tinha pensado a princípio de voltar de táxi para casa, mas o que sentia era tão bom que decidi ir de ônibus e curtir cada momento da minha epifania.
Resumo da ópera, testei durante a semana, usando mais ou menos umas 15 horas por dia, apesar de recomendações de algumas pessoas no Grupo Crônicas da Surdez no Facebook de usar eles gradativamente. No início de dezembro, comecei usar em definitivo. Minha adaptação a eles foi fácil já que não tive problemas com problemas decorrentes de uma má configuração dos AASIs. Os sons que a princípio eram metálicos e robóticos de início passaram a soar mais naturais com a adaptação do meu cérebro aos sons recebidos pelos aparelhos.
Me tornei surdo e dependo dos meus aparelhos para conviver com outras pessoas e ter uma vida plena. Essa nova vida não me trouxe nenhum momento de luto, trouxe sim a oportunidade de compartilhar minha experiência com outras pessoas que passaram ou passam pela mesma situação que eu. Hoje eu consigo ouvir sons que não ouvia há muito. Os pássaros cantando na vizinhança, o barulho da água correndo, a chuva batendo na janela e os sinos de vento voltaram a fazer parte da minha vida. Hoje eu presto mais a atenção nos sons que estão ao meu redor e quero não perder esse dom.
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