Como é ouvir com IMPLANTE COCLEAR?
Se você recebeu a indicação de um implante coclear, eu sei exatamente o que está passando pela sua cabeça agora. Antes de mergulharmos nesse mar de bipes e apitos, eu tenho um convite: se você não quer atravessar essa jornada sozinho e quer conversar com quem já passou pela cirurgia, com usuários veteranos e com mães e pais de crianças implantadas, venha para o Clube dos Surdos Que Ouvem. Lá, a gente fala a real, sem romantismo e sem tabus sobre como é viver com um ou dois implantes cocleares e experimentar o mundo através da audição biônica. PS: pessoalmente, eu amo!
- Por Paula Pfeifer
- Surda que ouve com implante coclear desde 2013, criadora do Clube dos Surdos Que Ouvem e autora de 5 livros sobre surdez, aparelho auditivo, zumbido no ouvido e implante coclear
Como é ouvir com IMPLANTE COCLEAR: O medo do som metalizado ou robótico
Uma das perguntas que mais recebo de quem está no “armário da surdez” ou prestes a fazer a cirurgia de implante coclear é: “Paula, eu vou ouvir as pessoas com voz de robô? Como é o som do implante coclear pra você?”.
A resposta curta e grossa é: no começo, é um pouco estranho. Mas você pode ficar sossegado, porque o cérebro humano é uma super máquina e se adapta a tudo.
A ciência por trás do implante coclear (IC) é fascinante, mas ela não é mágica. Diferente do aparelho auditivo convencional, que amplifica o som que chega ao seu ouvido, o IC pula a parte danificada da sua cóclea e estimula diretamente o nervo auditivo com sinais elétricos que chegam ao cérebro em tempo real. Imagine que seu cérebro passou anos (ou décadas) em um deserto sonoro. De repente, você instala uma rede elétrica de alta performance. O estranhamento inicial é inevitável.
Por que o som parece eletrônico na ativação do implante coclear?
Na ativação — aquele momento que a internet adora transformar em vídeo de choro e emoção — a realidade costuma ser bem menos cinematográfica. Para alguns, o som parece um rádio fora do ar, ou, como muitos descrevem, a voz do Pato Donald.
Isso acontece porque o seu cérebro ainda não sabe o que fazer com aqueles novos estímulos elétricos. Ele está tentando traduzir “eletricidade” em “significado”. No início, tudo soa metálico porque a resolução do som eletrônico é diferente da audição biológica. Mas aqui entra a palavra-chave da sua nova vida: Neuroplasticidade. Já disse antes e repito: o cérebro humano é mágico e muito poderoso.
A jornada da reabilitação: Transformando ruído em voz
O implante coclear é 50% cirurgia e tecnologia, e 50% “trabalho de formiguinha” na reabilitação fonoaudiológica. Se você acha que vai sair da sala de cirurgia ouvindo os passarinhos cantarem em Dolby Digital, você vai se frustrar. Ter expectativas realistas e baixas e entender o funcionamento do processo (o funcionamento do seu cérebro, meu amigo!) é fundamental.
A boa notícia? O cérebro humano é uma máquina de adaptação incrível. Com o tempo e o treinamento auditivo correto:
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A voz metalizada ganha corpo e se torna a “voz da pessoa”
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Os bipes se transformam em sons ambientais reconhecíveis (o barulho da chave, a água da chuva, o piscar do alerta do carro).
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A música deixa de ser um barulho confuso e volta a ter melodia
A diferença entre ouvir e compreender o que ouviu
Muitos pacientes ficam angustiados porque, nas primeiras semanas, eles ouvem que alguém está falando, mas não entendem o que está sendo dito. É como se você estivesse ouvindo um idioma estrangeiro que você conhece apenas o ritmo, mas não o vocabulário.
A dor da expectativa frustrada é real. Por isso, no Clube dos Surdos Que Ouvem, a gente sempre bate na tecla: não se compare com o vídeo do YouTube do tio do amigo do vizinho. Compare o seu “eu” de hoje com o seu “eu” de ontem. Cada fonema novo que você identifica é uma vitória gigantesca contra o silêncio.
Mitos que precisamos enterrar sobre o implante coclear
No Brasil, ainda existe muita desinformação sobre o IC. Tem gente que acha que o implante vai “explodir a cabeça” ou que você nunca mais vai poder entrar na piscina. Vamos alinhar os fatos:
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“Vou virar um ciborgue visível”: Sim, o processador externo existe. Mas hoje temos aparelhos cada vez menores e mais leves. E quer saber? Vergonha é não ouvir. Vergonha é se isolar do mundo por medo de um pedaço de tecnologia atrás da orelha.
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“O IC destrói o que me resta de audição”: Em muitos casos, a cirurgia pode, sim, comprometer a audição residual profunda que você ainda tem. Mas a pergunta que você deve se fazer é: essa audição residual te serve para alguma coisa hoje? Em 99% dos casos, de olhos fechados, a sua audição residual só te ajuda a ouvir barulhos altíssimos e mais nada. Ou seja, zero utilidade na vida real, e por isso a cirurgia de implante coclear foi indicada no seu caso.
O impacto emocional do implante coclear
A surdez profunda em adultos oralizados cria uma espécie de isolamento sensorial que eu chamo de redoma de vidro. Você vê o mundo se movendo, as pessoas rindo, a vida acontecendo, mas você está do lado de fora e não participa ativamente, só observa. E é muito chato ser coadjuvante da própria vida.
Quando você começa a ouvir com o implante — mesmo que no início seja esse som esquisito de robô — essa redoma começa a trincar. A maior dor de quem não ouve não é perder o barulho do trânsito, é perder o “eu te amo” dito baixinho, é não conseguir participar da mesa do jantar, é o cansaço mental exaustivo de tentar fazer leitura labial o dia inteiro.
O som do IC pode ser diferente do som biológico, mas ele é o som da conexão. E a conexão humana não tem preço.
O papel da família na jornada do IC
Se você é pai ou mãe de uma criança que vai implantar, o medo é multiplicado por mil. Eu sei. Você se pergunta se seu filho vai sofrer bullying, se ele vai falar bem, se ele vai ter uma vida normal, se vai se desenvolver como uma criança sem perda auditiva.
A resposta é: sim, ele pode ter tudo isso. Crianças implantadas cedo e bem estimuladas costumam ter uma adaptação muito mais rápida que nós, adultos. Para elas, o som do implante não é “de robô”, é simplesmente o som do mundo. Elas não têm a memória auditiva para comparar, então o cérebro delas se molda à tecnologia de forma muito natural.
O segredo aqui é a constância. O implante não é um acessório de usar de vez em quando. É parte do corpo. É o que permite que seu filho desenvolva linguagem e autonomia. PS: venha para o nosso grupo de apoio de mães e pais de bebÊs e crianças surdas no WhatsApp, no Clube dos Surdos Que Ouvem.
O “Cansaço do Ouvinte” no início do IC
Não se sinta culpado se, nos primeiros meses, você quiser tirar o aparelho e ficar no silêncio por uma hora. Ouvir com eletricidade exige um esforço cognitivo imenso no começo. Seu cérebro está trabalhando em dobro.
Com o tempo, esse processo se torna automático. O que hoje é esforço, amanhã será naturalidade. Mas, para chegar lá, você precisa passar pelo “vale do som esquisito”. Não desista no primeiro mês. O mapa da mina é a paciência e a fonoaudiologia especializada em reabilitação auditiva.
O som da liberdade é tecnológico
O implante coclear não devolve a audição que você perdeu; ele te dá uma nova forma de ouvir que restaura artificialmente o sentido da audição. Pode não ser idêntico ao que você lembra da infância, mas é o que vai te permitir voltar ao mercado de trabalho, ir ao cinema, conversar com seus filhos e parar de fingir que entendeu o que os outros disseram.
Se você está com medo do som de robô, lembre-se: é isso que vai te tirar da solidão, do isolamento e da insegurança do silêncio. E você não precisa fazer essa travessia no escuro, definitivamente. Mais de um milhão de pessoas no mundo inteiro ouvem com seus implantes cocleares, e esse número só cresce.
Se você quer dicas práticas sobre marcas, modelos, como lidar com o pós-operatório ou apenas precisa desabafar com quem entende a sua dor sem julgamentos, o seu lugar é com a gente. No Clube dos Surdos Que Ouvem, somos milhares de usuários de tecnologia auditiva que escolheram ouvir.
Vamos conversar sobre o seu futuro bionico? Esperamos por você.
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