Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Mentiras sobre surdos e surdez

Você com certeza acredita em pelo menos três mentiras clássicas sobre surdos e surdez e nem sabe! Duvida? A diferença desperta a curiosidade, que é normal no universo de quem tem uma deficiência. Mas a desinformação, seja por vergonha de perguntar ou preguiça de pesquisar, propaga mentiras que tomam proporções gigantescas e vão se enraizando.

Essas mentiras, algumas até podem ser erros bobinhos, algumas são cômicas, mas o preocupante é que tem aquelas que são erros grotescos, e que podem mudar completamente pra pior a vida de alguém. Vamos desmascarar esses mitos?

“Surdo é só quem não escuta nada” – Mentira! 

Essa é uma das mais acreditadas, mas facilmente desmentida. Basta ver o que é classificado como deficiência auditiva perante a lei: há milhares de pessoas com surdez moderada ou severa que são surdas legalmente, e esses graus de surdez ainda permitem ouvir alguns sons. Ou seja, não são só aquelas pessoas com surdez profunda que são surdas. 

E para aqueles que pensam que quem é surdo não tem capacidade de ouvir nada, basta assistir aos episódios do documentário #SurdosQueOuvem, e também conhecer em nosso grupo no Facebook diversas pessoas que mesmo com surdez profunda hoje até falam ao telefone e assistem vídeos sem legendas, com implantes cocleares ou aparelhos auditivos. Surdos podem ouvir sim, com tecnologia, assim como deficientes físicos podem andar com próteses. 

“Surdos são só os que falam Libras, o restante é deficiente auditivo” – Mentira!

Essa já estamos até cansados de desmentir, é um pensamento antigo de que é possível dividir quem tem deficiência auditiva em só dois grupos. Mas já explicamos aqui no Crônicas da Surdez que não há oficialmente diferença entre surdos e deficientes auditivos, as pessoas podem utilizar o termo com o qual se sentem mais confortáveis. Não faz sentido algum ter medo ou não gostar de uma palavra que apenas reflete a realidade. 

“Surdo não é deficiente!”  – Mentira!

A ausência ou diminuição da audição é uma deficiência auditiva, pois há algum dano/condição que impede o funcionamento normal do sistema auditivo da pessoa. Pessoas surdas são pessoas com deficiência, afinal, se não fossem, por que estariam incluídas em políticas de acessibilidade, nas leis e nos direitos das pessoas com deficiência?

Na hora da meia entrada em eventos, gratuidade no ônibus, aposentadoria especial e acessibilidade em cinemas e faculdades, os laudos médicos atestando a deficiência auditiva aparecem, não é? Não há nada de errado com o termo deficiente auditivo, pois isso não quer dizer que a pessoa é incapaz ou incompetente, apenas que possui limitação na audição, simples assim. Aceitação é a chave. 

“Surdos não podem dirigir” – Mentira!

Claro que podem! Para carteiras A e B, não há restrição quanto à surdez. É possível (e bem mais seguro!) indicar na CNH a deficiência auditiva, para caso se envolva em alguma situação de trânsito em que necessite provar que não ouviu.

Para carteiras especiais como C, D e E, é necessário que com próteses auditivas se alcance o limiar de 40 decibéis e seja aprovado no teste de reconhecimento de fala, e portanto, é obrigatório o uso das próteses enquanto dirige. Estas orientações são da resolução 425 do CONATRAN (Conselho Nacional de Trânsito). 

“Surdos são aposentados (por invalidez)” – Mentira!

Se a pessoa surda já trabalhou o que precisava trabalhar, tem idade e contribuições suficientes, ela poderá se aposentar como qualquer outra. Mas aposentar como invalidez pelo INSS, e não precisar trabalhar nunca, por causa da surdez? Não. 

O que existe é uma redução de 2 anos na contribuição, que se chama aposentadoria especial, para pessoas com deficiência classificada como grau leve pelo INSS (não confunda grau leve do INSS com o grau da perda auditiva. A deficiência auditiva, mesmo que profunda, normalmente é considerada ‘deficiência grau leve’ em aposentadoria). 

Para os regimes previdenciários diferenciados, como servidores públicos e militares, as regras são diferentes, e nestes casos, pode existir a invalidez por surdez, dependendo da função (por exemplo, um militar que perde a audição e é reformado). No mais, estamos todos na luta, trabalhando! 

 

“Surdos só estudam em escola especial” – Nem sempre!

Meia-mentira, pois a maioria estuda em escolas regulares, embora exista a possibilidade de estudar em escola especial. Quem não fala Libras, e usa aparelhos auditivos, implantes, ou faz leitura labial mesmo sem ouvir, pode estudar normalmente em escola regular – até por ser mais fácil de encontrar uma perto de casa. Já para os surdos sinalizados, existe a opção de solicitar intérprete em uma escola comum, ou procurar uma escola bilíngue (português/Libras). Ou seja, não é regra que todo surdo estude em escola especial. 

A inclusão pode acontecer dentro de uma escola especial, onde todos possuem deficiências, ou na escola regular, em que o aluno terá mais experiências de socialização com todos os tipos de pessoas, uma pequena amostra de como é o nosso mundo, muito diverso.

“A surdez é só falta de lavar o ouvido” – Mentira!

Além de cômica é perigosa. Embora o acúmulo de cera até possa diminuir a capacidade auditiva, não é lavando em casa que se resolve! Confie somente em um otorrinolaringologista para retirar o excesso de cera. E essa é uma crendice perigosa pois pode influenciar alguém a tentar tirar a cera sozinho e se machucar, perfurar o tímpano, além de não procurar reabilitação auditiva adequada. 

“Se já nasceu surdo, não adianta aparelhos ou implantes, só falar Libras” – Mentira! 

Imagine quantos pais já devem ter ouvido essa, e em épocas de difícil acesso à informação, acreditaram! É inimaginável o estrago que a desinformação pode causar. Quando a criança nasce surda, tem as opções de ser oralizada (falar), usar aparelhos auditivos, fazer implante coclear ou prótese ancorada no osso, aprender Libras, ou mais de uma opção dessas juntas! Mas não é obrigatório aprender nenhuma língua de sinais, assim como uma pessoa cega não é obrigada a saber Braille, ela pode utilizar a tecnologia que lê em voz alta as telas de celulares, cores e dinheiro, e tudo mais que a evolução está nos oferecendo de acessibilidade. 

A surdez pré-lingual, que é como chamamos a surdez antes de aprender a falar, não torna impossível o desenvolvimento da fala, da alfabetização e da capacidade de ouvir por próteses. Isso dependerá do quanto antes a família busca reabilitação auditiva e luta unida para alcançar os objetivos. 

Não é errado ensinar língua de sinais para a criança surda, mas se essa for a única forma de comunicação, a família deve estar ciente de que a pessoa se tornará mais dependente e com muito mais barreiras comunicacionais na vida, para cursar uma faculdade, fazer amigos, trabalhar, fazer vídeo conferências, assistir uma palestra, viajar sozinha: nada disso é impossível, mas é muito, muuuito mais difícil se souber somente uma língua de sinais! 

“É só tomar/colocar um remediozinho para voltar a ouvir” – Mentira, fuja!

Muito cuidado, de receitinhas caseiras e automedicação o mundo está cheio. Na surdez do tipo neurossensorial, as células ciliadas da cóclea estão danificadas, e estas células não se regeneram sozinhas, ou seja, não há remédio no mundo que faça alguém com surdez neurossensorial ouvir mais. 

Para surdez condutiva, que é causada por dano no ouvido médio, podendo ser no tímpano ou ossículos do ouvido, dependendo do caso há cirurgias para correção, e somente um otorrinolaringologista especializado para poder avaliar. Em alguns casos muito específicos, de surdez súbita (de repente) em que se procura atendimento rapidamente, pode ser que sejam receitados remédios para tentar reverter a doença/síndrome que está causando a surdez, mas que jamais devem ser tomados sem prescrição médica. 

“Mas se está com aparelhos auditivos então ouve normalmente” – Falso! 

A deficiência auditiva não é tão simples de corrigir quanto colocar um óculos. Mesmo com próteses auditivas, sejam aparelhos ou implantes, a maioria ainda precisa sim de legendas, leitura labial e outros recursos de acessibilidade. Quem dera fosse tão fácil, só ligar os aparelhos auditivos e sair entendendo tudo! Ouvintes, pratiquem a empatia, afinal, nós, surdos que ouvem com a tecnologia, temos uma audição artificial e os resultados variam muito de pessoa para pessoa. 

É nosso trabalho semear a informação correta, afinal, se não nós, quem faria em nosso lugar? A internet permite a disseminação de informações de forma frenética, sejam elas falsas ou verdadeiras, portanto, que tenhamos responsabilidade de usar este poder para o bem, levando informação de qualidade a quem precisa. Afinal, uma dica e explicação simples sobre aparelhos auditivos ou implantes cocleares para uma família pode salvar uma criança de uma vida inteira no silêncio!

E você, quais mentiras sobre surdos já viu por aí?

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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