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Crônicas da Surdez

Secretária biônica: uma surda que ouve no atendimento ao público

secretária surda

Passei longos anos com surdez severa e profunda atendendo ao público. Eu odiava ser a secretária surda que penava para entender uma frase! Chegava em casa todos os dias com os olhos e a cabeça doendo de tanta leitura labial.

O dia mais feliz da minha vida, nos meus tempos de funcionária pública, foi quando uma chefe acatou meu pedido para sair do atendimento ao público e ir para outro setor…

Clínica Sonora, Rio de Janeiro

Há algumas semanas atrás, a Raquel, secretária da Sonora, entrou em férias de urgência – alguma legislação da pandemia que eu não domino.

Luciano me olha, muda o tom de voz, faz um semblante sedutor, me oferece um chocolate todo amoroso e diz: “Amor, preciso de ajuda!“.

Se você for novo por aqui, talvez não saiba que sou casada com um otorrinolaringologista especializado em surdez, Dr. Luciano Moreira.

Quem resiste? Eu não, e fui enfrentar um desafio e tanto. Virei secretária por uma semana em tempos de máscaras, painéis de isolamento de acrílico grosso que abafam ainda mais as vozes e olhos cansados de tanto prestar atenção a tudo e a todos.

Desafios auditivos

A verdade é que eu A-DO-RO um desafio.

Na época do programa do Facebook eu me sentia dentro de um videogame tentando passar de fase e mudar de nível. O começo foi de arrepiar os cabelos: ir para NY sozinha com um bando de desconhecidos de várias partes do mundo. Me hospedei num hotel hype que mais parecia uma caverna de tão escuro – em alguns dias juro que quase saí para comprar uma lanterna para ver se dava uma iluminada.

Imagine a cena: muito, mas muito ruído de fundo de alguma musiquinha bate estaca. Uma indiana, um africano, um francês e uma americana falando com sotaques inenarráveis, todos ao mesmo tempo. Em inglês. E é claro que eles esqueceram 100x por dia que eu era surda e que aqueles ouvidos biônicos não haviam sido tocados pela Nossa Senhora Desatadora dos Lábios.

Em vários momentos eu senti vontade de me enfiar num canto e chorar, de raiva ou cansaço. A sensação de esgotamento físico e mental naqueles dias era muito intensa, porque foi a primeira vez na vida pós-IC (e pré também) que fiz uma imersão em outra língua.

O bom é que as pessoas não têm piedade e aí você tem que se virar mesmo.

Nesse processo, a gente descobre que consegue ir muito além do que imagina. Eu pensava que ficaria apagadinha num canto, sem graça pelo meu inglês falado ainda fraco. Ou que teria que pedir ajuda o tempo todo para eles. No fim das contas descobri que tinha cojones suficientes para subir num palco e ser entrevistada ao vivo em inglês, o que até hoje me arrepia a espinha de nervoso.

O coqueiro na beira da praia

Meu sonho de consumo pré-IC era o coqueiro na beira da praia. Acho que ganhei o coqueiro, sim, afinal, posso ouvir e entender quase tudo em situações amigáveis e nem tão amigáveis assim.

Só que despencam cocos lá de cima direto na minha cabeça todos os dias. É um desafio atrás do outro, sem cessar. Mesmo para quem curte o videogame da vida, às vezes dá até vontade de passar a serra elétrica no coqueiro. Sério.

Sobrevivi ao primeiro dia na Sonora como secretária com mil e uma utilidades! Cheguei a atender dois telefones ao mesmo tempo enquanto a campainha tocava e duas pessoas conversavam na sala de espera.

Conversei numa ligação telefônica com outra surda implantada que é paciente da clínica e nós duas demos risada disso: duas surdas profundas batendo papo no telefone sem leitura labial – nem Nostradamus previu essa.

Conheci o filho de um grande artista brasileiro, e quase caí para trás quando ele me disse que era meu fã e já tinha lido meus livros. Quando vi, estava conversando com uma moça que me acompanha desde 2010, antes do Crônicas da Surdez existir, e não precisei pedir para ela repetir nadinha!

O que mais me tocou foi atender pacientes surdos. Eu falava alguma coisa e a pessoa me dizia: “De máscara não entendo nada, sou surda!“. E eu respondia: “Nem eu! Também sou surda!“. Ninguém espera encontrar uma secretária surda num consultório, não é mesmo? Nem mesmo num consultório que é focado em pacientes com deficiência auditiva.

Gostei de quebrar o padrão, de me desafiar e de voltar a um passado não tão longíquo no qual eu jamais poderia fazer nem um décimo do que fui capaz de fazer nessas semanas trabalhando na Sonora.

Até 2013, era impossível atender o telefone. Em 2021, atendi dois telefones ao mesmo tempo. Até 2013, era impossível entender qualquer coisa sem leitura labial. Em 2021, entendi muita coisa mesmo com bocas tapadas por máscaras e divisórias de acrílico.

Se eu não tivesse dado uma chance à medicina e à tecnologia e feito um implante coclear, jamais teria chegado até aqui.

O primeiro dia como secretária biônica

Fui para a Sonora meio apavorada, só pensando nas máscaras, no telefone, nos áudios de WhatsApp. Cheguei e deixei fluir.

E deu tudo certo, senti uma confiança poderosa em mim mesma como há tempos não sentia. Minha fono, Márcia Cavadas, após presenciar várias cenas inusitadas de uma surda que ouve secretária nas trincheiras da pandemia, me olhou sorrindo e disse:

Você tem alguma noção da dimensão das coisas que consegue fazer?

Sorri de volta. Quando ela saiu de perto, derramei uma lágrima daquelas que caem escondidas. Sim, eu tenho noção. Aqui dentro mora a menininha assustada, a mulher biônica, a She-Ra e o Rambo. Quando preciso, todos eles dão as mãos e se ajudam a me ajudar. Talvez por isso eu dê conta dos desafios que aparecem pelo caminho.

Agora vou nessa porque preciso correr pra casa, são 19:09 e Lucas me espera ansioso para contar que hoje fez o seu primeiro cocô na privadinha. E antes que perguntem: sim, infelizmente eu recebi vídeo disso. E sim, o vídeo tinha som.

*Crônica originalmente enviada aos Apoiadores Power do nosso Crowdfunding de apoio ao Crônicas da Surdez. Clique aqui e apoie o meu trabalho para que milhares de pessoas tenham acesso a conteúdo gratuito de qualidade sobre surdez.

About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

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