Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Novidades em surdez unilateral: legislação e tecnologias

Você provavelmente já conheceu alguém com surdez que não procura tratamento, não é? Se pessoas com perda auditiva nos dois ouvidos às vezes já demoram a buscar ajuda, imagine quando é um ouvido só: muitos postergam o uso de próteses auditivas, ou nem as procuram, porque acham que com o outro ouvido bom está tudo perfeito! Outras nem mesmo sabem que existem várias opções para esse tipo de surdez em um lado só, que chamamos de surdez unilateral

Surdez unilateral

As perdas auditivas são únicas, como impressões digitais, e mesmo que na audiometria o resultado seja semelhante entre duas pessoas, cada uma tem sua história, que pode ser de surdez adquirida, súbita ou aos poucos, ou desde que nasceu…E nem todos compreendem os sons de forma igual, para alguns, é fácil entender sem leitura labial, para outros, não.

Dentro dessa enorme diversidade, está também quem possui surdez unilateral, que pode ser desde uma leve diminuição da audição, até a surdez profunda em um ouvido só. Alguns relatam enormes dificuldades com ela, outros, não veem impacto nenhum em suas vidas.

Meu médico disse que esse meu ouvido ‘morreu’ e não tem mais o que fazer

Essa frase infelizmente é comum, mas você sabia que nem todo médico otorrinolaringologista é especialista em surdez? Alguns podem se especializar em cirurgias do nariz, por exemplo, e nem saber o que é um implante coclear. É comum pacientes relatando que seus médicos disseram não ter nenhuma alternativa de tratamento ou próteses auditivas, o que nem sempre é verdade!

Por isso, se for o seu caso, você precisa procurar um profissional que seja especializado em surdez e implantes auditivos o quanto antes! As chances de um diagnóstico e tratamento corretos são bem mais altas com alguém que entende do assunto. 

O que pode causar essa perda auditiva? 

As causas de surdez unilateral podem ser diversas, desde um trauma (pancada/acidente), síndromes, origem congênita ou desconhecida mesmo.

É comum que os pacientes e médicos tenham desejo em pesquisar a causa da perda auditiva, pois às vezes pode influenciar na definição do tratamento, mas não fique patinando sem sair do lugar: procure o quanto antes testar as alternativas para ouvir melhor, e tudo bem se não descobrir o motivo da perda auditiva, a maioria das pessoas nunca descobre. Pense bem se vale a pena investir em exames caros apenas pela possibilidade de descobrir a causa, visto que nem sempre isso altera em nada o tratamento. 

Você pode também ajudar a diagnosticar possíveis casos em crianças, seja em sua família ou escola. Segure o telefone na orelha da criança para que ela fale com os avós, por exemplo, ou faça brincadeiras como “telefone-sem-fio”, para cochichar ao ouvido, e vá trocando os lados para testar se a criança está ouvindo bem nos dois. O diagnóstico precoce faz uma enorme diferença, pois quanto mais tempo sem estímulos auditivos, mais difícil é a adaptação com próteses depois. 

Quais são as dificuldades?

A mais comum na surdez unilateral é não conseguir identificar de onde vêm os sons, afinal, esse é um trabalho que nosso cérebro faz comparando os estímulos sonoros dos dois ouvidos. E essa dificuldade pode atrapalhar quando alguém chama seu nome, quando você está em uma reunião do trabalho, quando o carro está com algum barulho estranho e até em uma simples partida de vôlei. Além disso, para conversar, é importante que a outra pessoa fique e fale no lado do “ouvido bom”, pois se ficar no outro, é capaz de ser ignorado sem querer! 

Outra tarefa citada como difícil pelos nossos participantes do nosso grupo do Facebook, é falar ao telefone, pois não tendo como trocar de orelha para descansar a outra, um lado só fica sobrecarregado, sempre atendendo a tudo o que o outro não escuta! Imaginem uma ligação que dura 2 horas, a orelha deve até ficar quente, não é?! E se um ouvinte, que divide as ligações entre os dois ouvidos, já pode ter perda auditiva por muito ruído do telefone, imaginem para quem atende todas sempre no mesmo: tem que tomar cuidado para não perder mais ainda a audição que ainda tem! 

E como estamos falando de surdez, não podemos esquecer o companheiro quase inseparável dela: o zumbido! Quem tem perda auditiva unilateral também sofre deste mal, e assim como com os surdos bilaterais, a adaptação com aparelhos auditivos também não é fácil. A dificuldade com os aparelhos se dá, além de outros fatores, por ter uma audição natural para comparação, assim, entre uma audição artificial com as próteses auditivas, e a audição do ouvido bom, o cérebro pode ser meio teimoso para aceitar! Mas nada que o tempo + paciência + treinamento auditivo não ajudem!

A surdez unilateral requer um exercício de empatia de quem possui surdez bilateral, e pensando em uma minúscula experiência de imersão, fiz o teste de um dia sem ouvir de um lado. Claro que um dia não se compara a uma vida inteira ou alguns anos, mas em poucas horas já foi possível tirar algumas lições.

Fui trabalhar ouvindo somente em um lado, com meu ouvido “preferido”. Como perdi minha audição durante a adolescência, nos dois ouvidos, estou acostumada com próteses auditivas bilaterais. Em poucas horas me vi falando muito mais “Hãã?” do que o costume, além de me perder na localização dos sons. O mundo parecia inclinado, como um barco que está pesado demais de um lado, no caso, do lado sem ouvir.

 

E o que temos de mais atual em soluções?

Aparelhos auditivos:

A tecnologia mais clássica é o aparelho auditivo (conhecido como AASI), afinal, surdez unilateral não significa só surdez profunda, estamos falando de vários graus, inclusive aqueles que têm melhor retorno com o uso de aparelhos. E a tecnologia está avançando em ritmo até difícil de acompanhar, em que a qualidade do som está cada vez mais próxima de uma audição natural, em alguns casos até melhor, por ter supressão de ruídos e proteção contra barulhos muito altos!

Se você testou aparelhos auditivos há 10 anos e não se adaptou, essa desculpa não vale mais para hoje, é como falar que não usa celulares porque em 2009 não gostou do modelo que experimentou! 

Aparelhos auditivos do tipo CROS (Contralateral Routing of the Signal – Envio contralateral do sinal):

Além dos aparelhos auditivos comuns, existem os especiais para surdez unilateral, você sabia?! No ouvido surdo, se não há bons resultados com aparelhos convencionais, e nem indicação para implantes, é usado o sistema CROS: ele não emite nenhum som, apenas envia um sinal por comunicação sem fio, para o outro ouvido, onde a pessoa usa um aparelho auditivo para ouvir estes sons que perderia, pois estão acontecendo no lado em que não escuta. Se o seu melhor ouvido também tem algum grau de perda auditiva, além de receber os sons do ouvido totalmente surdo, ainda pode se beneficiar do aparelho auditivo para ouvir melhor, e então chamamos de sistema Bi-CROS. 

Prótese Auditiva Ancorada no Osso (PAAO):

Esse é um dispositivo muito usado em pessoas que possuem a cóclea funcionando normalmente mas com algum impedimento no caminho que o som faz para chegar até ela (surdez condutiva), como por exemplo, o canal auditivo fechado. Hoje já são conhecidas as vantagens do uso desse tipo de implante em surdez unilateral também, em que o som captado pelo componente externo, no lado do ouvido surdo, é encaminhado para o ouvido bom por meio das vibrações. 

Como funciona: um pequeno pino é implantado no osso próximo ao ouvido surdo, na área do couro cabeludo, e nele você pode encaixar e retirar essa prótese auditiva. Ao captar os sons do ambiente, o aparelho vibra, e as vibrações vão até a cóclea para que a pessoa escute.

No caso de surdez unilateral neurossensorial, será o outro ouvido, que escuta, que capta essas vibrações para ouvir. É uma cirurgia geralmente rápida, pequena e com anestesia local, e o melhor, é possível fazer um teste sem cirurgia ao encostar a prótese no osso! Existem 3 dispositivos deste tipo no mercado até o momento, que são: o Ponto, da marca Oticon, o BAHA, da Cochlear e o ADHear da MED-EL. Para cada marca, existem as variações entre seus modelos, para atender cada tipo de perda auditiva. Conheça aqui dois personagens da série #SurdosQueOuvem que usam essa tecnologia. 

Implante Coclear (IC):

O implante coclear está ganhando espaço na surdez unilateral, pois até há poucos anos era recomendado somente para surdez bilateral severa ou profunda, mas hoje pode ser uma opção para quem tem surdez do tipo unilateral neurossensorial. Embora no início, o som do implante em comparação com o ouvido bom possa parecer artificial, nosso cérebro aprende a ouvir, e temos exemplos de pessoas que estão satisfeitas com o implante coclear e a audição que ele proporciona. Para saber se é candidato, você precisa consultar com um otorrinolaringologista que faça este tipo de procedimento e realizar os exames necessários. 

Legislação: unilateral é surdo por lei?

 

A legislação brasileira, em novembro de 2019, ainda não contempla pessoas com surdez unilateral no rol de pessoas com deficiência, apenas bilaterais com média acima de 41 decibéis. Claro que isto não significa que não é necessário tratamento, afinal, por exemplo: 3 graus de miopia não configuram deficiência visual mas é imprescindível utilizar óculos, certo? Mesma coisa para a surdez. Não é necessário ser deficiência por lei para se buscar qualidade de vida, seja com tecnologias movidas a pilhas ou cirurgias. 

Há um projeto de lei em tramitação para a inclusão de unilaterais no mesmo grupo de pessoas com deficiência auditiva, que são os bilaterais acima de 41 dBs, entretanto, são diversas etapas até que se possa ter uma decisão em vigor. Cuidado com as notícias de que foi aprovada a lei para unilaterais, até o momento são aprovações de etapas somente, não em caráter final.

Em alguns casos, quem recorre na justiça para concorrer às vagas reservadas em concursos, consegue ser enquadrado como pessoa com deficiência, mas é um longo caminho, e ainda assim você permanece em cima do muro: a decisão judicial vale somente para aquela vaga, assim, nenhum outro direito da pessoa com deficiência é alcançado, seja aposentadoria especial, gratuidade em ônibus ou outras vagas em outros concursos. 

 

A dificuldade e complexidade do assunto está no fato de que o conceito de  deficiência significa algo que impacta a vida do indivíduo, que obstrui sua participação plena e social em igualdade com os demais. Porém, entre os surdos unilaterais temos aquelas pessoas que realmente possuem essas barreiras, mas por outro lado temos pessoas que relatam não sentir absolutamente nenhuma dificuldade de ouvir, e conseguem ver televisão e filmes sem legendas, ouvir rádio, conversar, falar ao telefone, tudo isso sem aparelhos auditivos, e não sentem necessidade de acessibilidade nenhuma.

Para refletir: Como fazer para incluir na lei somente quem enfrenta barreiras, como ser justo? Seria justo incluir quem não sente dificuldade alguma? Uma pessoa com um ouvido normal e o outro com surdez moderada estaria no mesmo grupo que quem não ouve nada nos dois ouvidos, é uma concorrência justa? Esse é o “x” da questão… Houve discussão semelhante quando incluíram as pessoas cegas em um olho só, na mesma categoria dos cegos dos dois olhos. 

Enfrentando a surdez unilateral

Lembre-se de que as pessoas ouvintes, ou seja, que possuem audição normal, elas também têm dificuldades de  ouvir em ambientes barulhentos, como restaurantes e festas, portanto, não se cobre perfeição pois ela não existe! A surdez unilateral pode sim impactar muito sua vida, mas seja grato por ter um outro ouvido ainda bom, pois com certeza ele te ajuda em tantas situações que você nem imagina. 

E se você conhece uma pessoa que tenha surdez unilateral e não procura tratamento, converse, apresente o Crônicas da Surdez e a série #SurdosQueOuvem para ela, às vezes um ganho enorme de qualidade de vida, que a pessoa nem imagina, está a apenas um aparelho ou implante auditivo de distância!

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Muito esclarecedor o texto! Tenho surdez unilateral grau severo, a 20 anos, e sempre trabalhei com esse problema sem ‘ligar’ que fosse realmente afetado. Embora minhas funções não exigiam uma audição normal (ambiente muito ruidoso). Claro que sempre senti as coisas que mencionou. Mas a gente pensa que existe situações ainda piores e acabamos por nos conformar (e ajustar). Cheguei aqui, porque soube do projeto de lei. Então, comecei a pesquisar pra saber se teria uma nova classificação ao me candidatar para uma vaga de emprego. É um tema complicado. Sei que para algumas funções não estaria qualificado para competir com alguém com audição normal ou inferior, ao mesmo tempo que ‘sim’ para outras. Como você bem perguntou: “…como ser justo?” Realmente é “Para refletir”. Acho que deveria ter ‘graus’ de deficiência. Até nos jogos paraolímpicos existem essas diferenças, para que todos competem em igualdade na sua deficiência. Estranho, mas enquanto não se decide o que vai ser, me sinto como não sendo nem uma coisa, nem outra.

  • Ola, sou unilateral, e alguns aposba perda retirei um colesteatoma e junto os órgãos auditivos, neste caso, caberia um implatante coclear ou aparalho, eu lembro que na época o medico me falou que um implante não seria bom, pos seria como eu tivesse dois ouvidos direitos, e por isso deixei pra la, mas enfim, o fato de não ter os órgãos seria possivel algum desses tratamentos?!!

  • Se equivoca quanto ao projeto de lei nacional, foi alterado para constar que Unilateral só se for Total.
    Você poderia ajudar esse projeto andar, já são 5 anos de espera. É muito preconceito contra os unilaterais.

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